Resiliência é a capacidade do indivíduo para lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de conjunturas adversas, sem entrar em surto psicológico. Em situações particularmente difíceis de crise, seja de que tipo for, torna-se necessário aprender a estimular a nossa capacidade de dar a volta às circunstâncias desfavoráveis que nos desequilibram e criam uma espécie de ansiedade que, quando levada ao extremo, pode tornar-se incontrolável e mesmo incapacitante. O risco do colapso é inerente à natureza do ser, mas é sempre possível a tudo reagir através da atitude que se adopta perante a realidade que nos habita. Os tempos difíceis que caracterizam o presente do nosso país poderão propiciar os mais diversos problemas ao cidadão comum, a começar pela privação material. O desencanto latente com que muitos encaram as suas próprias vidas, de uma forma geral, levou-me a investigar as áreas da depressão e do pessimismo, que por variadas razões sempre me despoletaram algum interesse. Muitos poderão ignorá-lo, mas segundo o último Eurobarómetro sobre Saúde Mental, realizado e com resultados divulgados pela Comissão Europeia no último trimestre de 2010, Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população, e consumo de anti-depressivos. O que fazer para superar os dias sombrios?
Momentos menos bons todos temos, mas será que os outros terão inevitavelmente que suportar o nosso mau estar, ou simplesmente até o nosso tradicional mau feitio? Seria óptimo se assim não fosse, mas esse não seria com certeza o mundo em que vivemos, o dos seres humanos imperfeitos. No entanto, se pensássemos um bocadinho que fosse no quanto podemos poupar das nossas agruras aqueles que nos são e estão próximos, não tenho dúvidas que muitos de nós viveriam um pouco mais felizes, tanto em casa como no trabalho. A questão pode, todavia, atingir contornos mais graves. O simples “rezingão”, a que tudo insatisfaz e irrita, também acaba por ter os seus momentos de descontracção, em que aqui e ali lá vai esboçando uns sorrisos que atestam que de facto nem só de contrariedade e infortúnio se caracteriza a sua alma. O grande problema é quando a angústia e o completo desespero se apoderam por inteiro do indivíduo, minando-lhe a sua natural alegria. Na sua forma mais extremada, este deixa inclusivamente de ter dias bons, perde o prazer em tudo o que fazia e deixa de dominar o transtorno que o preenche, entrando “em depressão”. Os obstáculos fazem parte da vida, mas nem todos os conseguem enfrentar da mesma forma, sendo que uns conseguem ter o poder de relativizar com alguma facilidade situações adversas várias, que para outros acabam por se revelar autênticas montanhas inultrapassáveis. A realidade custa tanto a encarar que o desalento apodera-se do indivíduo, anestesiando-o. Há alturas em que temos obrigatoriamente que “arregaçar as mangas” e agir, mantendo a cabeça fria o suficiente para evitar o desmoronar da nossa estrutura psicológica, que tanto pode ser feita do material mais resistente como do mais vulnerável.
Filosofias de vida, cada um tem a sua, mas há sempre determinadas premissas que nos podem ajudar a manter a cabeça fria e a ter uma atitude mais positiva perante a própria existência e a dos que nos rodeiam. A capacidade de resistir é passível de ser aprendida, a resiliência do indivíduo reside na sua atitude. Desenvolver uma postura optimista previne eventuais perturbações de carácter, por isso o melhor é mesmo seguir o caminho do brio pessoal, cultivando corpo e mente. A consciência de cada um é a melhor monitorização que pode haver sobre o que temos de bom, e de mau. Logo, importa valorizar os pontos fortes que possuímos, relativizando os mais fracos e lutando inclusivamente para aligeirar ou mesmo evitar por completo hábitos nocivos que façam parte do nosso dia-a-dia. Apesar de ter o seu lado enriquecedor, a solidão muitas vezes não é boa conselheira, por isso nada como fortalecer os laços que existem com os familiares e os amigos mais próximos, pois o bom convívio é sempre restaurador. A prática de exercício físico é determinante, dado que além de extremamente saudável acaba por produzir a libertação de químicos cerebrais que actuam directamente no humor e na robustez psicológica, além de ter um papel decisivo no combate ao stress. Quando tudo à nossa volta parece estar virado do avesso, nada como pegar num livro de qualidade e ler algumas passagens, cultivando a própria espiritualidade e definindo assim de forma mais arguta a nossa própria filosofia, o que fazemos neste mundo. Há autores que são excelentes companheiros, nos momentos mais difíceis..
É importante estar activo e interventivo, manter a cabeça ocupada e saber ter a frieza necessária para não ceder ao desencanto, à mágoa e à raiva que situações diversas poderão potenciar. Por outro lado, a procura da boa disposição é meio caminho andado para o bem estar, mantendo o coração a uma temperatura que permita acolher todas as boas sensações exteriores, sendo que para isso por vezes basta um simples sorriso. Ter um bom “karma” ajuda e muito a estarmos bem connosco e com os que nos rodeiam. Apesar de haver diferentes “sortes” no decorrer do percurso de cada um, o “savoir être” quando levamos um valente “abanão” nas nossas vidas varia de pessoa para pessoa, daí parecer-me extraordinária, e mesmo brilhante, a boa capacidade de relativização do indivíduo. Não temos uma só vida? Passa tudo tão depressa, o que é mesmo o Tempo? O caminho do martírio é um verdadeiro desperdício de vitalidade, daí a importância da atitude. Uma forma de estar positiva e confiante é conducente à Luz, o oposto leva-nos inevitavelmente ao adensar do negrume. Que caminho seguir? O óbvio! Há que viver com o que se tem, não com o que se teve e entretanto perdeu, mas sim com o que ainda se pode ganhar. O ser humano tem uma capacidade fantástica para se adaptar às condições mais desfavoráveis, mais extremas, basta procurá-la e explorá-la ao máximo, de cabeça erguida.
Por variadíssimas razões e exemplos que me rodeiam, parece-me postiço o positivismo temporário que o consumo de anti-depressivos provoca, uma espécie de cuidado paliativo que apenas adia o inevitável, piorando progressivamente até o real, que é o que de facto dói. Recorrer à fé e à religião é o rumo por muitos seguido, a salvação de muitas almas atormentadas, um poiso onde encontram a sua paz interior e o equilíbrio para seguirem em harmonia com as suas vidas. Materialista como me considero, abnego por completo outro caminho que não o da tal relativização, que terá todavia que assentar sempre numa base estrutural sólida para resultar, a força psicológica. Está tudo na cabeça de cada um.
Winston Churchill, um histórico resistente da adversidade e também fiel adepto de poesia, metaforizava a “nuvem negra” do desalento que volta e meia o perseguia como um “black dog”. Para ele, a depressão não passava de um cão que pode “morder” de vez em quando, mas que lá no fundo é sempre “domesticável”.