quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Um Olhar Sobre As Presidenciais

Sem surpresas, Cavaco Silva venceu as eleições presidenciais do passado domingo, que culminaram uma campanha eleitoral desinteressantíssima, com pouca substância efectivamente política e sem a promoção de discussões centradas em assuntos realmente importantes para o futuro do país. A este propósito, gostaria de tecer algumas considerações que entendo serem relevantes.

1. O povo é soberano. Apesar de tudo o que acompanhou esta eleição, de positivo e negativo, do que entretanto emergiu e do que (ainda) permanece oculto, os resultados verificados têm que ser respeitados por todos, pelo que Cavaco é o vencedor com toda a legitimidade. No entanto, há alguns aspectos que importa salientar. As sondagens que antecederam o sufrágio auguravam uma vitória estrondosa de Cavaco (mais uma vez, à semelhança das presidenciais anteriores..). A verdade é que acabou por ter um resultado eleitoral ainda inferior ao de 2001, quando perdeu com Jorge Sampaio, teve menos meio milhão de votos do que em 2006 e, para quem pelas aparências ganha sempre “confortavelmente”, importa ainda referir que é o Presidente eleito e posteriormente reeleito com menores percentagens de votação desde Abril de 74. A juntar a esta realidade, recordo que dada a elevadíssima abstenção verificada, a “maioria inequívoca” de Cavaco resume-se a cerca de um quinto da população portuguesa, tornando-o no Presidente eleito com menor número de votos de sempre; Cavaco referiu que não colocaria um único “outdoor” durante a campanha, e que, dada a crise económica, esta veria os custos francamente reduzidos. A verdade é que bateu o recorde dos recordes de gastos na mesma, somando este “troféu” ao da sua primeira magistratura, em que também foi campeão da despesa. O generoso candidato que neccessita de sustentar a “pobre” mulher que usufrui de uma pensão de “apenas” 800€, mas que se manifesta sempre preocupadíssimo com a miséria que grassa pelo país. É caso para lembrar: “Ouve o que eu digo, ...”; Cavaco sempre pediu elevação e respeito na campanha. A verdade é que, a juntar a algumas humildes e brilhantes declarações do próprio nesse período, no momento do discurso da consagração, em vez de encarnar a figura de um respeitado Chefe de Estado unificador e conciliador, à imagem do que o cargo supostamente deverá representar, foi de colérico olhar que cantou vitória sobre a “infâmia”, a “mentira” e a “calúnia”. O triunfante de inquestionável idoneidade falou ainda do prevalecimento da “transparência” e da “dignidade”. Estou certo de que os importantes desafios que o momento que o país atravessa serão férteis, e determinantes provas de aferição destes valores por si entoados; O povo queixa-se permanentemente do estado do país, da grande pobreza e miséria, e daqueles que vão “enchendo o saco” com negociatas, favorecimentos e intercedências de natureza promíscua. A verdade é que, além de se ter alheado da votação como não há memória, elegeu novamente a cabeça do “polvo”, um dos grandes responsáveis e pioneiros do novo “riquismo”, das famílias poderosas e das ligações sujas a grandes grupos económicos e financeiros, uma alta figura da oligarquia do interesse. Teremos mais 5 anos do “mesmo”.

2. Um dos aspectos de análise aparentemente consensual é a falta de alternativas válidas e suficientemente fortes no leque de candidatos que se lançou para a corrida. Manuel Alegre, o principal derrotado, poderá queixar-se apenas de si próprio e da sua inabalável teimosia, tendo cometido erros estratégicos crassos que acabaram por lhe valer um resultado muito inferior ao de 2006. Alegre e o seu cultivado ego devem agora atravessar um período de profunda reflexão. Fernando Nobre, apesar de algumas inconsistências e da falta de uma “máquina” partidária no apoio à campanha, foi um dos vencedores da noite, senão mesmo o maior, como aliás o próprio se auto-proclamou. Uma importante conquista da cidadania e do apartidarismo, com uma percentagem de 14,1% que poderá propiciar diferentes leituras e originar futuras movimentações no panorama político nacional. Francisco Lopes conseguiu o objectivo mínimo de fixar os eleitores comunistas, que por norma são fervorosos fiéis que não faltam à chamada, garantindo assim uma fatia de 7,1% que representará com alguma verossimilidade o peso desta força política no nosso país. Lopes mostrou coração, humildade e uma ligação forte com os trabalhadores. Embora com algumas limitações evidentes, provou ter o trabalho de casa bem feito, com a “cassete” ideológica do partido bem sabida, e repetida vezes sem conta nas diversas intervenções. Defensor Moura, por seu lado, pelo menos conquistou o meu respeito, apesar da paupérrima votação obtida. Mostrou preparação, capacidade, apresentou propostas, revelou um percurso político que atesta a sua criatividade e intervencionismo, mas faltou-lhe o carisma natural que um grande líder terá obrigatoriamente que possuir. Sintomático da sua inamovível coerência, característica cada vez mais rara nos políticos de hoje, foi o facto de não ter felicitado Cavaco, após todas as incidências da campanha. Já surpreendente (ou nem tanto..), foi o sensacional registo de José Manuel Coelho, o candidato anti-sistema, que obteve 4,5% do total de votos, tendo ainda conseguido a proeza de vencer em três concelhos, tantos quanto Alegre. Duas depreensões imediatas: o resultado é significativo e revelador do descontentamento do povo, nitidamente em protesto e ansioso por ter protagonistas políticos que garantam os mínimos aceitáveis de credibilidade, sendo que a expressão desta votação denuncia o grande cepticismo em relação a todos os candidatos. Por outro lado, representa um cartão alaranjado do povo madeirense ao vil Jardim e ao quase totalitário regime jardinista, que já conta com 30 primaveras. Parece que a Madeira se apresta a dizer “basta!”.

3. Uma pequena nota, negativa, em relação ao Partido Socialista nestas presidenciais, pelo planeamento, preparação e acompanhamento da campanha. Onde está a unidade socialista? O evidente divisionismo no partido que preferiu ceder às pretensões do “teimoso” Alegre, que avançaria sempre nem que fosse sozinho, é a causa primeira. Apoiou-o em vez de escolher um bom candidato (mas um bom mesmo!), que conseguisse agregar os cada vez mais fragmentados militantes e mobilizar o aparelho socialista, que coeso e uno já provou por mais de uma vez a sua força imensa, analisando resultados eleitorais de um passado não muito distante. Estará na hora da renovação?

4. Analisando os discursos de Sócrates e Cavaco, proponho-me a questionar a suposta “estabilidade política” por ambos anunciada. Teremos lugar para uma crise política ainda em 2011? Fará o Presidente uso da “bomba atómica”, como carinhosamente o próprio apelidou o poder detido de dissolução do Governo? É imprevisível, realmente imprevisível. Institucionalista de gema, Cavaco só o fará se tiver forte contexto e motivação, e condições relevantes criadas que apontem nesse sentido, sem nunca permitir que de um acto pouco reflectido possa sofrer represálias pessoais de ordem política e reputacional. Quem o não desdenharia seria Passos Coelho, ávido pela primeira cadeira do Executivo, mas ciente da realidade e pleno conhecedor do perfil de Cavaco, com quem aliás pouco partilhará, pelo que não será certamente pelo seu desejo pessoal que este último agirá nesse sentido. A “estabilidade” prometida irá acima de tudo depender da qualidade da regulação das relações Belém / São Bento, que em tempos conturbados como este se adivinham tensas e frenéticas.. um potencial “rastilho”. Será a “estabilidade” possível com um Presidente mais “actuante”, como o próprio anuncia? Se durante os últimos 5 anos Cavaco pouco terá “actuado”, analisando à lupa a sua historicidade como agente político terei forçosamente que permanecer atento e expectante em relação à sua futura “actuação”. De uma coisa poderemos todos ter a certeza, apesar da legitimidade da eleição e do crédito (mínimo) que o Presidente (me) merecerá, (apesar de tudo..), é um facto que não elegemos um “santo” ou uma “virgem imaculada” para o mais alto cargo da Nação, como muitos fizeram, fazem, e estou certo de que continuarão a fazer crer – “os amigos”.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O Melhor De Nós

Encerradas as tradicionalmente bem regadas comemorações da época natalícia e das boas vindas ao ano novo, é tempo agora de olhar para a frente. Mais do que nunca, é preciso recuperar alguma da auto-estima que se perdeu em 2010, que se revelou um ano extremamente difícil para todos, como aliás tem sido objecto de análise consensual. Apesar de ter sido com efeito um ano mais complicado para uns do que para outros, realidade decorrente de uma sociedade cada vez menos justa e igualitária, importa no momento olhar para o futuro com esperança e força para alterar o rumo dos acontecimentos, pois “chorar sobre o leite derramado” é a pior atitude que o português comum deverá ter. Temos impreterivelmente que arregaçar as mangas, e dar o melhor de nós.

Num ano em que Portugal mergulhou profundamente nos meandros da monstruosa crise económica mundial que a (quase) todos parece afectar, emergiu recente e misteriosamente uma personagem colectiva que aterroriza de sobremaneira qualquer nação menos fortalecida, os famosos “mercados”. Composta em larga medida por irresponsáveis miúdos de vinte e poucos anos de vida faustosa e cheia de vícios, lembrando uma reflexão do Nobel da Economia Paul Krugman a este propósito, a dita personagem colectiva surge-nos desprovida de base dos mínimos de bom-senso e altruísmo que qualquer cidadão individual ou grupo deverão ter, provada que está a pouca ou nenhuma consciência social e global que a sua infinitamente austera e irracional postura provoca no actual mundo de capital, arrasando economicamente quase por completo os já de si débeis países mais frágeis, em prol dos interesses de alguns círculos elitistas e do crescimento desenfreado das grandes potências.

A ganância feroz e desmedida destes “mercados” justifica em pleno os meios pelos quais atingem os desejados fins, pois que lhes importa o galopante avolumar de problemas sociais do já de si depauperado povo, e a crescente perda de autonomia económica e soberania política dos países mais enfraquecidos? Nada. As diferentes realidades governativas dos países da zona euro estão subjugadas a uma realidade económica europeia que, nos moldes em que está constituída e dado o factor moeda única, acabam apenas por fortalecer os grandes produtores como a Alemanha, cada vez mais poderosa na actual realidade financeira global, onde vai competindo com as restantes potências. E o zelo pela economia dos países mais enfraquecidos? E o zelo pela qualidade de vida dos pobres dos países mais enfraquecidos? E era 2010 o Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão Social, que se conclui hoje ter-se tratado de um autêntico fiasco. Uma coisa é certa, poucos verificarão que a actual conjuntura política, económica e financeira mundial seja justa e equilibrada, até porque em vez desta convergir para uma maior equidade geral, acaba por fomentar uma crescente disparidade. Interessa aos grandes centros de decisão elitistas e cada vez mais restritos inverter este ultrajante desenvolvimento da situação? Não me parece, até porque os sinais que vão surgindo remetem-nos exactamente no sentido oposto.

Aos “mercados” importa apostar em títulos de dívida e tudo fazer para que esses mesmos títulos não sejam pagos, porque quanto mais bancarrotas tiverem mais juros a curto prazo acabam por cobrar. No fundo, estes “mercados” ganham com a falência dos estados, acabam por manipulá-los e embrulhá-los num imbróglio estratégico-financeiro mundial legal porque não há um “governo global” que os regule devidamente e que trave a máfia escandalosa que por eles é imposta. Como disse recentemente em entrevista o brilhante sociólogo e investigador Boaventura de Sousa Santos, esta realidade actual é um efectivo “crime contra a humanidade”, uma vez que populações inteiras são lançadas para a fome e para a miséria, para que pequenos grupos de privilegiados enriqueçam de forma concomitantemente injusta e revoltante.

Bem, actualmente afigura-se bastante complicado flanquear reflexões desencantadas e pessimistas sobre praticamente tudo o que envolva as comunidades deste planeta, mas o meu objectivo no presente artigo é exactamente o contrário, pois pretendo apontar à luz. Haverá melhor forma de o fazer do que centrando-me nos melhores exemplos? Não creio que haja, pelo que recorro a José Mourinho, esse fenomenal vencedor português que, ao contrário da nação que o viu nascer há 47 anos, ganhou tudo o que havia para ganhar em 2010. Poucos exemplos de excelência e dedicação haverá por esse mundo fora que se equiparem ao percurso de Mourinho, que ainda na passada segunda-feira foi considerado pela terceira vez o melhor treinador do mundo, acrescentando reconhecimento e mais uma conquista individual ao já de si imenso e invejável palmarés. A performance do génio português numa ainda curta carreira de apenas dez anos é de tal maneira impressionante que impõe-se perguntar: qual a receita para tanto sucesso?

Devorei recentemente uma interessante reportagem sobre a mais controversa personalidade do futebol mundial na actualidade, exercício esse que apenas serviu para aumentar a enorme admiração que já nutria, constatando que é, de facto, uma pessoa “especial”. Por tudo o que diz, pela forma como o diz, pela sua maneira de estar, pela profundidade, acerto e abrangência da sua análise e posterior intervenção, por tudo! Nesse artigo encontram-se escalpelizadas algumas noções base que explicam um pouco do que é Mourinho e da forma como a sua metodologia única lhe granjeou tanto sucesso. Para ele, o mais importante será a procura de felicidade, que deveria ser hoje um aspecto fundamental na vida de todas as pessoas. A felicidade do treinador assenta em dois pilares, a família e o futebol, pelo que é por eles que se norteia, sublinhando que no segundo o que faz a diferença é a alegria, a motivação e a crença com que se trabalha. Importantes dicas surgem ainda anexas, como a importância de não fazer da vitória e da conquista uma obsessão, dado que estas terão forçosamente que surgir como consequência normal de fazer bem as coisas, pelo que todos deveremos preparar-nos o melhor possível e entregarmo-nos incondicionalmente à nossa profissão, que no fundo acaba por ser a nossa missão em sociedade. Mourinho não tem dúvida de que quando alguém faz alguma coisa, deve tentar fazê-la o melhor possível. Corroboro na íntegra a sua perspectiva, pelo que me atrevo a citá-lo a propósito de motivação e liderança, esses tão determinantes conceitos para o futuro do cidadão individual e da nação de todos nós.

“A melhor maneira de motivares os outros é fazer com que percebam a tua própria motivação. É eles perceberem que estás motivado todos os dias, que trabalhas com alegria, dedicação e que dás o máximo. É eles verem que mesmo nos momentos mais difíceis e complicados tu apresentas ainda mais vontade e confiança. É não deixares nunca que um mau resultado, um mau momento ou uma crítica intoxiquem a tua auto-estima e o prazer de fazeres o que fazes. É por isso que um líder tem de ter uma força psicológica grande, porque os que são liderados alimentam-se da motivação, dos princípios e dos valores do líder.”

Por tudo isto atrás referido, de que precisa o país? Ambição, perseverança, espírito de empreendimento, capacidade de sacrifício, confiança, competência, seriedade, coragem, sorte, inteligência e independência de carácter. Muita coisa? Não, é simples.

Portugal precisa do melhor de cada um de nós. O melhor de cada um de nós todos.