Recentemente aproveitei uma boa oportunidade que surgiu e tive a possibilidade de visitar pela primeira vez o continente africano, mais precisamente a cidade de Marraquexe, no sudoeste de Marrocos. Da viagem propriamente dita, apesar de curta, tenho a retirar a novidade que foi para mim estar embrenhado numa cultura completamente diferente da nossa, a muçulmana. Poderia aproveitar o espaço e a ocasião para retratar romanticamente a experiência, dissertando sobre as pessoas, o comércio, a religião, a gastronomia ou mesmo até sobre o impressionante e peculiar trânsito frenético das ruas da metrópole, mas infelizmente não será o caso, pois debruçar-me-ei sobre um assunto muitíssimo mais importante do ponto de vista humano, e que adiante explicitarei. Recordo um momento particular da estadia, em que conversava tranquilamente com um dos amigos que me acompanharam acerca da visível miséria que por ali grassa, e que em reflexão conjunta analisámos. Os tempos que os portugueses vivem são de facto conturbados, marcados por uma crise que torna crescente a privação material e que em muitos casos ascende já ao básico, aumentando o número de afectados pela pobreza extrema e pela fome, mas nada comparado com a realidade que ali pudemos observar, e que confesso que me deixou algo perturbado. Estar perante gente que faz de cada dia que passa uma luta intensa pela sobrevivência e pela procura do mínimo de dignidade para a qualidade da sua vida toca até o mais insensível dos indivíduos. Se a este propósito o cenário de alguns grupos sociais portugueses é de facto incomparável com o cenário marroquino que presenciei “in loco”, que dizer do que se passa neste preciso momento no chamado “Corno de África”, e que já é por muitos considerado como a maior tragédia do mundo?
A maior seca dos últimos 60 anos, aliada ao aumento do preço dos cereais e às guerras que teimam em não mais cessar na região, está a pôr em sério risco de fome extrema 10 a 12 milhões de pessoas, o que se constitui como uma verdadeira catástrofe humanitária. O horror da imagem da criança africana em absoluto estado de desnutrição, caracterizada pela barriga inchada, os globos oculares a sair das pálpebras e um crânio desproporcionalmente grande em relação a um corpo profundamente esquálido, volta agora a ser alvo de enorme preocupação de activistas e membros de ONG’s de todo o mundo, determinados em combater este “espectáculo insuportável para qualquer consciência humana”, nas palavras de Josette Sheran, a responsável pelo Programa Alimentar Mundial. Os números são, de facto, “espectaculares”, dado que as vítimas mortais diárias ascendem a 2500. Mais tragicamente ainda se constata que todos os dias morrem cerca de 100 crianças na região, devido à falta de alimentos e de assistência. Para ajudar a ilustrar a penosa ironia que reflecte o mundo de profundas diferenças em que vivemos, um estudo recente da ONU afirma que um terço de toda a comida produzida para consumo humano vai para o lixo, todos os anos. Cerca de mil milhões de toneladas de desperdício, na sua maioria frutas e vegetais. Incrível. Teme-se uma repetição da grande fome de 1984, na Etiópia, onde pode evitavelmente ter morrido cerca de um milhão de pessoas. Na altura, Bob Geldof surgiu como um dos grandes activistas da ajuda ao desenvolvimento em África, com a criação do “Live Aid”, despertando dessa forma o Ocidente para o flagelo, embora fosse já demasiado tarde. Os testemunhos de terror que vão dando conta do que se passa nos enormíssimos e mais do que sobrelotados campos de refugiados, bem como no trajecto destes até ali chegar (os que conseguem, claro…), são demasiado chocantes para ignorar, o que de certa forma é o que muitos fazem para evitar o pequeno sofrimento que a constatação dessa realidade lhes provoca. “Prefiro nem olhar…” Afinal, será que a humanidade na sua massa ainda é humana?
A ajuda internacional existe, como é do conhecimento geral, mas em quantidade insuficiente, e assente numa plataforma logística desorganizada e pouco articulada, que a torna próxima do ineficiente e ineficaz. Muitas vezes até por falta de vontade política, a ajuda continua a chegar demasiado tarde a quem dela mais precisa. Que sentido poderá fazer a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, quando afirma que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”?! O mundo evolui da forma mais sarcástica e hipócrita que se possa imaginar, e assim sendo como poderemos contornar visões cataclísmicas do nosso Futuro? O capitalismo voraz persiste sólido e permanece impune, mesmo sendo o maior assassino dos dias que correm. A especulação sobre as matérias-primas alimentares caracteriza tristemente um mercado global desregulado e que se revela um autêntico criminoso, frio e sem face. Milhares de pessoas morrem enquanto grupos financeiros restritos e cada vez mais pequenos se banqueteiam… mas o que é isto?!
Se o sistema faz com que as fronteiras nacionais e políticas tenham cada vez menos sentido, do ponto de vista de soberania e dependência, parece-me que só uma mudança radicalíssima de perspectiva e de actuação perante as crescentes e insustentáveis assimetrias poderá trazer um pouco de justiça e equidade a este mundo. Ignoro a feição utópica do meu presente manifesto tanto quanto desejaria uma espécie de regresso ao humanismo, um pouco à imagem do movimento intelectual europeu associado à cultura do Renascimento, mas desta vez que esse impulso fosse global, do ponto de vista ideológico, político e obviamente que também económico. Numa escala de importância, as pessoas têm obrigatoriamente que ser colocadas no topo dos topos, nunca o capital!
Se a evolução do mundo acarreta um evidente processo de globalização que se vai reflectindo a tantos níveis, porque não conseguir acreditar que este possa ser mais justo, e homogéneo no seu desenvolvimento? Por falta de vontade, sensibilidade e espírito humano de quem tem o dinheiro?
Sejamos dignos!
A maior seca dos últimos 60 anos, aliada ao aumento do preço dos cereais e às guerras que teimam em não mais cessar na região, está a pôr em sério risco de fome extrema 10 a 12 milhões de pessoas, o que se constitui como uma verdadeira catástrofe humanitária. O horror da imagem da criança africana em absoluto estado de desnutrição, caracterizada pela barriga inchada, os globos oculares a sair das pálpebras e um crânio desproporcionalmente grande em relação a um corpo profundamente esquálido, volta agora a ser alvo de enorme preocupação de activistas e membros de ONG’s de todo o mundo, determinados em combater este “espectáculo insuportável para qualquer consciência humana”, nas palavras de Josette Sheran, a responsável pelo Programa Alimentar Mundial. Os números são, de facto, “espectaculares”, dado que as vítimas mortais diárias ascendem a 2500. Mais tragicamente ainda se constata que todos os dias morrem cerca de 100 crianças na região, devido à falta de alimentos e de assistência. Para ajudar a ilustrar a penosa ironia que reflecte o mundo de profundas diferenças em que vivemos, um estudo recente da ONU afirma que um terço de toda a comida produzida para consumo humano vai para o lixo, todos os anos. Cerca de mil milhões de toneladas de desperdício, na sua maioria frutas e vegetais. Incrível. Teme-se uma repetição da grande fome de 1984, na Etiópia, onde pode evitavelmente ter morrido cerca de um milhão de pessoas. Na altura, Bob Geldof surgiu como um dos grandes activistas da ajuda ao desenvolvimento em África, com a criação do “Live Aid”, despertando dessa forma o Ocidente para o flagelo, embora fosse já demasiado tarde. Os testemunhos de terror que vão dando conta do que se passa nos enormíssimos e mais do que sobrelotados campos de refugiados, bem como no trajecto destes até ali chegar (os que conseguem, claro…), são demasiado chocantes para ignorar, o que de certa forma é o que muitos fazem para evitar o pequeno sofrimento que a constatação dessa realidade lhes provoca. “Prefiro nem olhar…” Afinal, será que a humanidade na sua massa ainda é humana?
A ajuda internacional existe, como é do conhecimento geral, mas em quantidade insuficiente, e assente numa plataforma logística desorganizada e pouco articulada, que a torna próxima do ineficiente e ineficaz. Muitas vezes até por falta de vontade política, a ajuda continua a chegar demasiado tarde a quem dela mais precisa. Que sentido poderá fazer a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, quando afirma que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”?! O mundo evolui da forma mais sarcástica e hipócrita que se possa imaginar, e assim sendo como poderemos contornar visões cataclísmicas do nosso Futuro? O capitalismo voraz persiste sólido e permanece impune, mesmo sendo o maior assassino dos dias que correm. A especulação sobre as matérias-primas alimentares caracteriza tristemente um mercado global desregulado e que se revela um autêntico criminoso, frio e sem face. Milhares de pessoas morrem enquanto grupos financeiros restritos e cada vez mais pequenos se banqueteiam… mas o que é isto?!
Se o sistema faz com que as fronteiras nacionais e políticas tenham cada vez menos sentido, do ponto de vista de soberania e dependência, parece-me que só uma mudança radicalíssima de perspectiva e de actuação perante as crescentes e insustentáveis assimetrias poderá trazer um pouco de justiça e equidade a este mundo. Ignoro a feição utópica do meu presente manifesto tanto quanto desejaria uma espécie de regresso ao humanismo, um pouco à imagem do movimento intelectual europeu associado à cultura do Renascimento, mas desta vez que esse impulso fosse global, do ponto de vista ideológico, político e obviamente que também económico. Numa escala de importância, as pessoas têm obrigatoriamente que ser colocadas no topo dos topos, nunca o capital!
Se a evolução do mundo acarreta um evidente processo de globalização que se vai reflectindo a tantos níveis, porque não conseguir acreditar que este possa ser mais justo, e homogéneo no seu desenvolvimento? Por falta de vontade, sensibilidade e espírito humano de quem tem o dinheiro?
Sejamos dignos!