quinta-feira, 28 de julho de 2011

A Maior Tragédia Do Mundo

Recentemente aproveitei uma boa oportunidade que surgiu e tive a possibilidade de visitar pela primeira vez o continente africano, mais precisamente a cidade de Marraquexe, no sudoeste de Marrocos. Da viagem propriamente dita, apesar de curta, tenho a retirar a novidade que foi para mim estar embrenhado numa cultura completamente diferente da nossa, a muçulmana. Poderia aproveitar o espaço e a ocasião para retratar romanticamente a experiência, dissertando sobre as pessoas, o comércio, a religião, a gastronomia ou mesmo até sobre o impressionante e peculiar trânsito frenético das ruas da metrópole, mas infelizmente não será o caso, pois debruçar-me-ei sobre um assunto muitíssimo mais importante do ponto de vista humano, e que adiante explicitarei. Recordo um momento particular da estadia, em que conversava tranquilamente com um dos amigos que me acompanharam acerca da visível miséria que por ali grassa, e que em reflexão conjunta analisámos. Os tempos que os portugueses vivem são de facto conturbados, marcados por uma crise que torna crescente a privação material e que em muitos casos ascende já ao básico, aumentando o número de afectados pela pobreza extrema e pela fome, mas nada comparado com a realidade que ali pudemos observar, e que confesso que me deixou algo perturbado. Estar perante gente que faz de cada dia que passa uma luta intensa pela sobrevivência e pela procura do mínimo de dignidade para a qualidade da sua vida toca até o mais insensível dos indivíduos. Se a este propósito o cenário de alguns grupos sociais portugueses é de facto incomparável com o cenário marroquino que presenciei “in loco”, que dizer do que se passa neste preciso momento no chamado “Corno de África”, e que já é por muitos considerado como a maior tragédia do mundo?

A maior seca dos últimos 60 anos, aliada ao aumento do preço dos cereais e às guerras que teimam em não mais cessar na região, está a pôr em sério risco de fome extrema 10 a 12 milhões de pessoas, o que se constitui como uma verdadeira catástrofe humanitária. O horror da imagem da criança africana em absoluto estado de desnutrição, caracterizada pela barriga inchada, os globos oculares a sair das pálpebras e um crânio desproporcionalmente grande em relação a um corpo profundamente esquálido, volta agora a ser alvo de enorme preocupação de activistas e membros de ONG’s de todo o mundo, determinados em combater este “espectáculo insuportável para qualquer consciência humana”, nas palavras de Josette Sheran, a responsável pelo Programa Alimentar Mundial. Os números são, de facto, “espectaculares”, dado que as vítimas mortais diárias ascendem a 2500. Mais tragicamente ainda se constata que todos os dias morrem cerca de 100 crianças na região, devido à falta de alimentos e de assistência. Para ajudar a ilustrar a penosa ironia que reflecte o mundo de profundas diferenças em que vivemos, um estudo recente da ONU afirma que um terço de toda a comida produzida para consumo humano vai para o lixo, todos os anos. Cerca de mil milhões de toneladas de desperdício, na sua maioria frutas e vegetais. Incrível. Teme-se uma repetição da grande fome de 1984, na Etiópia, onde pode evitavelmente ter morrido cerca de um milhão de pessoas. Na altura, Bob Geldof surgiu como um dos grandes activistas da ajuda ao desenvolvimento em África, com a criação do “Live Aid”, despertando dessa forma o Ocidente para o flagelo, embora fosse já demasiado tarde. Os testemunhos de terror que vão dando conta do que se passa nos enormíssimos e mais do que sobrelotados campos de refugiados, bem como no trajecto destes até ali chegar (os que conseguem, claro…), são demasiado chocantes para ignorar, o que de certa forma é o que muitos fazem para evitar o pequeno sofrimento que a constatação dessa realidade lhes provoca. “Prefiro nem olhar…” Afinal, será que a humanidade na sua massa ainda é humana?

A ajuda internacional existe, como é do conhecimento geral, mas em quantidade insuficiente, e assente numa plataforma logística desorganizada e pouco articulada, que a torna próxima do ineficiente e ineficaz. Muitas vezes até por falta de vontade política, a ajuda continua a chegar demasiado tarde a quem dela mais precisa. Que sentido poderá fazer a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, quando afirma que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”?! O mundo evolui da forma mais sarcástica e hipócrita que se possa imaginar, e assim sendo como poderemos contornar visões cataclísmicas do nosso Futuro? O capitalismo voraz persiste sólido e permanece impune, mesmo sendo o maior assassino dos dias que correm. A especulação sobre as matérias-primas alimentares caracteriza tristemente um mercado global desregulado e que se revela um autêntico criminoso, frio e sem face. Milhares de pessoas morrem enquanto grupos financeiros restritos e cada vez mais pequenos se banqueteiam… mas o que é isto?!

Se o sistema faz com que as fronteiras nacionais e políticas tenham cada vez menos sentido, do ponto de vista de soberania e dependência, parece-me que só uma mudança radicalíssima de perspectiva e de actuação perante as crescentes e insustentáveis assimetrias poderá trazer um pouco de justiça e equidade a este mundo. Ignoro a feição utópica do meu presente manifesto tanto quanto desejaria uma espécie de regresso ao humanismo, um pouco à imagem do movimento intelectual europeu associado à cultura do Renascimento, mas desta vez que esse impulso fosse global, do ponto de vista ideológico, político e obviamente que também económico. Numa escala de importância, as pessoas têm obrigatoriamente que ser colocadas no topo dos topos, nunca o capital!

Se a evolução do mundo acarreta um evidente processo de globalização que se vai reflectindo a tantos níveis, porque não conseguir acreditar que este possa ser mais justo, e homogéneo no seu desenvolvimento? Por falta de vontade, sensibilidade e espírito humano de quem tem o dinheiro?

Sejamos dignos!

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Desconcerto

É uma da tarde e estou sentado à frente da minha secretária, aparentemente tranquilo. Apesar da desarrumação do costume, comum a tanto escritório de tanta gente por esse mundo fora, concentro-me apenas no rectângulo branco de papel que os meus olhos vislumbram, bem como na esferográfica vermelha que escreve a preto, da qual me sirvo no momento para redigir este texto. Confesso-lhe o seguinte caro leitor: não tenho assunto. Melhor, até tenho, dado que o que não falta são acontecimentos e temas para tratar, mas muito honestamente não desejo especificamente por algum optar, não pretendo ser convencional. Porque hei-de o ser sempre se cá no fundo não sinto de todo que o seja em absoluto nem tão pouco que o deva ser? Nesta “coisa” de elaborar exercícios escritos que os outros acabam por ler cai-se muito facilmente na tentação de parecermos bem, de produzirmos como seres de feição idealista ou moralista; de querermos convencer quem nos lê relativamente a algo, quando se calhar o que procuramos principalmente é convencer-nos a nós próprios em relação a essa mesma questão que é tratada. Nada disso me interessa neste momento, quero ser e parecer tudo menos o habitual. Nenhum parágrafo, frase ou simples palavra são pré-fabricados, pelo que opto por deixar o texto “correr” com a maior das naturalidades. Até onde? Não interessa.

Se quem não me conhece julgará pela escrita que sou um sujeito algo excêntrico e eventualmente pouco reservado, aqueles que comigo lidam com maior ou menor frequência e intimidade julgarão que me “passei” de vez. Calma aí malta conhecida, estou bastante sereno até, apesar de alguma dose de desassossego crónico que me parece ter vindo a atenuar-se com o crescendo da idade. Pelo menos assim o considero, daí o “parece”. Quem gosta de escrever tem que se assumir como tal e traduzir o que sente da forma menos filtrada possível, com clarividente transparência. Só assim poderá ser genuíno. Exponho-me muito? Talvez.. e depois?! Assusta-me muito mais o isolamento da reclusão do que a partilha da exposição. Por outro lado, sinto-me revigorado, inspira-me, dá-me vida! Se uma grande parte de mim alinha pelo convencionalismo do “devoir être”, seguindo o estreito caminho que “deverá” ser seguido, se calhar a parte mais reveladora da minha natural essência vai pelo desvio, por um desvio controlado, mas que não deixa de o ser, um desvio. Bom ou mau, de fácil ou difícil digestão, talvez seja mesmo um “artista”, ou pelo menos uma espécie de. Não que o revele com pretensão ou qualquer tipo de “inchaço”, simplesmente dou asas à livre expressão sem grandes preocupações de qualquer ordem, e com o menor dos constrangimentos.. porquê? Apetece-me. A norma futiliza-nos, e de existências banais está infelizmente o mundo cheio.

Uma das hipóteses temáticas que tinha mentalmente conjecturado era a da morte do cantor Angélico, que tinha precisamente a minha idade. Não por me encontrar assolado por um qualquer tipo de ímpeto sensacionalista que eventualmente pretendesse explorar de forma barata, como tantos fizeram e fazem, mas tão simplesmente porque o abrupto fim da vida de alguém, de uma pessoa qualquer como eu, permite sempre reflexões várias e de naturezas distintas. Lamentavelmente, estes dias têm sido férteis em desaparecimentos de pessoas com alguma proximidade à minha pessoa, e apesar de resignadamente consciente de que a toda a hora e em todo o lugar acabam pessoas de toda a espécie, de todas as idades e de ambos os géneros, não consigo deixar de me enredar em pensamentos esquisitos. Esquisitos por serem estranhos. Estranhos porque se calhar ainda me vou habituando a eles, e será apenas com o tempo e a experiência de passar por situações diferentes que o meu conformismo relativamente a esses pensamentos emergirá.

“Isto” às vezes é uma merda caro leitor, escrevo-o como se lho estivesse a dizer na cara, sem pudor algum pelo palavrão. Tudo é nada, e nada é tudo. Vivemos muitas vezes sem problemas de maior e tantas são as situações e os momentos em que nos sentimos profundamente desgostosos com a nossa condição, que se torna penoso e quase irónico pensar no modo e na qualidade com que empregamos o nosso tempo. Sim, porque o relógio não pára. O que não daríamos por ver durante meros instantes caso fôssemos cegos, ou por caminhar uma curta distância se a dureza da nossa realidade fosse uma cadeira de rodas.. Filosofias cada um tem a sua, porque se “de santo e de louco todos temos um pouco”, para uns “a vida mais doce é não pensar em nada”, como para outros “a vida é demasiado importante para ser levada a sério”. Pessoalmente, tanto sinto um bocadinho de tudo o que atrás referi como não sinto coisa alguma. “Isto” acaba num instante.. e passa tão depressa! Vou alternando entre algum saudosismo quando por exemplo vejo os meus alunos no recreio a brincar, como descubro por vezes em mim uma avidez imensa e quase incontrolável de viver e sentir tudo aquilo que ainda está por vir, da forma mais instantânea, como se ignorasse ou quisesse ignorar tudo aquilo que já passou. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez.. respire fundo! Se desconcertado poderei parecer, desconcertá-lo a si é o meu objectivo principal caro leitor. Se o texto que está a ler lhe permitir ponderar um pouco que seja a sua existência, a forma como lida com ela e gere a sua duração, dou-me por bastante satisfeito. Nem que considere um desperdício de tempo o bocado que reservou para digerir o que lhe escrevo, porque a considerá-lo é porque nele reflectiu.

Não procuro a sua simpatia, muito menos qualquer tipo de aceitação. Simplesmente transpareço o que estou a sentir, e que consigo pretendo partilhar. É tão importante demonstrarmos o que nos preenche, revelarmos os nossos afectos e dar conta aos outros das nossas preocupações que perturba-me de sobremaneira que por um ou outro motivo não fosse capaz de o fazer. Para quê viver numa redoma, porque viver só para nós? Solte-se leitor… se não está contente com a sua presente situação é simples: mude! Mas mude mesmo, porque “isto” realmente passa depressa... muito depressa! Seja bonzinho, cultive o seu karma... tenha gosto próprio, renove-se! Não se deixe irritar muitas vezes, evite quezílias… alegre-se! Diga sempre às pessoas que gosta delas quando é o caso, nunca se sabe se terá outra oportunidade... não perca tempo meu caro, é porventura o mais precioso de todos os bens.

Por isso.. cante, festeje, grite, beba, coma, corra, beije, dance, salte, fale, abrace, sorria, chore, recorde, conheça, observe, sinta, cheire, toque, ouça, aqueça, conquiste, apaixone-se.. viva!

“You only live once”