quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Ano Novo, Vida Nova

Ano novo, vida nova! Ou pelo menos é assim que muitas cabeças por esse mundo fora vão pensando, sempre em busca de melhorar algo aqui ou acolá, de forma a tornar as suas próprias existências mais satisfatórias. Pessoalmente, assim farei. Vou procurar corrigir alguns aspectos menos bons que 2010 me relevou, sob a perspectiva permanente de crescer positivamente, em harmonia comigo e com os que me rodeiam, tendo presente que ninguém é perfeito mas sempre lutando por mais e melhor, num processo de auto-construção contínuo e ininterrupto, que se estenderá muito para lá de 2011 mas que terá em cada um dos 365 dias uma prova decisiva. Sim, porque ninguém muda de hábitos de um dia para o outro, pelo que importa que cada um de nós defina objectivos reais e possíveis de realizar, para que posteriormente possa agir em consonância com a sua ambição, dando pequenos passos no sentido desejado. Pequenos, mas seguros e determinados. Assim deveremos reger as nossas vidas, exactamente como quem de direito deverá reger a nossa comunidade, o Estado, esse “conjunto das instituições que controlam e administram uma nação”. Precisamos urgentemente de melhorar todos, pessoas e instituições, pelo que se torna determinante arregaçar as mangas e sobretudo agir, trabalhar. Optimismo precisa-se!

Um ano passa num “instante”, como bem sabemos, mas também não é menos verdade que num ano se “passa” muita coisa. Infelizmente, e fazendo uma retrospectiva dos principais acontecimentos ocorridos, constato que dificilmente se pode fazer um balanço positivo, tanto no plano nacional como no plano internacional. Começo pelas desgraças, difíceis de abordar mas impossíveis de ignorar, ainda para mais tendo o findo ano sido dramaticamente fértil nesta área. Logo a abrir Janeiro, a 12, como esquecer a tragédia do Haiti que ceifou a vida a 230 mil homens, mulheres e crianças? Os vídeos e as fotografias difundidas pela comunicação social mostraram ao mundo um cenário caótico e desesperante que a todos chocou, um já de si paupérrimo país que acabou por ficar praticamente arrasado, sequioso do apoio total da comunidade internacional que surgiu, mas a conta-gotas. Quase um ano após o terrível terramoto constata-se que chegou ao país menos de metade da ajuda prometida, sendo que muitos haitianos continuam a viver em tendas e em condições higiénico-sanitárias indignas, como aliás também é reveladora a epidemia de cólera que entretanto alastrou e desde Outubro já causou mais de duas mil mortes.

O deficiente funcionamento da plataforma de apoio criada para atenuar os danos causados no país do centro americano não foi todavia regra geral. No caso da maior tragédia da história do arquipélago da Madeira, a 20 de Fevereiro, a ajuda apareceu a horas e o possível foi feito dentro do previsto, tendo os mecanismos solidários sido devidamente accionados, num esforço conjunto que acabou elogiado por todas as partes. Reergueram-se habitações, reconstruíram-se vias e retomou-se progressivamente o normal quotidiano, mas nada mais se pôde fazer do que lamentar a quase meia centena de falecidos pela acção da força das violentas águas, as enxurradas assassinas que tudo levaram. Os fenómenos naturais continuam a castigar-nos cada vez mais, mas curiosamente também continuamos a tratar cada vez pior da nossa própria “casa”, o mundo em que vivemos. O pior desastre ecológico da história dos EUA foi um bom exemplo. Uma explosão que originou um derrame de crude sem precedentes, ainda para mais com origem aparente numa acção supostamente negligente da empresa BP, o que é de lamentar ainda mais. Por outro lado, continua a ignorar-se o Protocolo de Quioto um pouco por todo o mundo, sendo que as emissões de gases continuam com valores muito acima do que deveria e poderia ser a nossa realidade actual. Nesse sentido importa efectivamente agir, deixar de lado os interesses económicos que acabam sempre por se sobrepor a todos os outros, e apontar a uma limpeza progressiva do planeta, que precisa mais do que nunca de grandes líderes no comando do seu destino. A Conferência de Copenhaga sobre as alterações climáticas mais não foi do que um mediático embuste, o que como é óbvio se lamenta profundamente.

Seria impossível abordar tudo o que de importante aconteceu este ano, o que poderia inclusivamente tornar-se num exercício penoso. No entanto, poderia reflectir sobre as cinzas do vulcão islandês de nome impronunciável que tanto prejuízo causou por essa Europa fora; sobre o milagre de sobrevivência dos mineiros chilenos, que emocionou o mundo inteiro pela perseverança e força de viver; sobre a emergência do fenómeno facebook que continua a surpreender tudo e todos pelas múltiplas possibilidades de uma rede social à escala global, com mais de 500 milhões de utilizadores; sobre a sempre presente crise económica mundial, nascida no “subprime” americano e cujos efeitos rapidamente atingiram a União Europeia, deixando em pouco tempo os países mais frágeis na bancarrota, como os casos islandês, grego e irlandês; sobre o embate desta mesma crise no nosso país, e na infindável novela de austeridade e decisões difíceis adoptadas em PEC´s, OE, e demais pacotes de medidas dolorosas que lá no fundo, no fundo, acabam sempre por doer mais a uns que a outros; sobre a pertinente e bem-vinda visita do Papa em Maio, num momento sensível para a Igreja, ou sobre a sentença do mega-processo da Casa Pia em Setembro, que no fundo pouco ou nada sentenciou (ambos os eventos tiveram sempre presente o abominável tema da pedofilia); sobre a primeira oficialização de uma união gay em solo nacional, “apadrinhada” indirectamente pelo senhor Cavaco Silva, na qualidade de Presidente da República promulgador da lei do casamento homossexual; sobre a autêntica “bomba” de revelação e transparência da diplomacia praticada ao mais alto nível, fazendo do Wikileaks e de Julian Assange os mais admirados combatentes da censura para os liberais acérrimos, muito embora permaneçam insurrectos e um alvo cada vez mais mediático a abater pelos interesses instalados, num jogo de poder pouco prudente que aconselha tratamento de “pinças”, com o objectivo de evitar ao máximo danos colaterais indesejados.

Muito fica ainda por referir, naturalmente. A morte do Nobel Saramago, por exemplo, despertou-me para o estudo aprofundado de uma figura que, estou certo disso, me permitirá ainda “crescer” muito mais, porque é com os melhores e maiores que mais e melhor aprendemos. Por outro lado completamente distinto, a libertação da carismática líder San Suu Kyi, Nobel da Paz em 1991, entretanto detida pela ditadura militar birmanesa, fez a todos acreditar num futuro mais risonho no que toca à efectiva liberdade de expressão. Uma acção que iludiu o mundo nesse sentido quase tanto como a China o desiludiu em relação a Liu Xiaobo, preso político galardoado com o mesmo prémio da edição do presente ano, que nem o pôde receber fisicamente por permanecer encarcerado a mando de Pequim, pela sua dissidência ao regime violador de direitos humanos. Simbólico, sintomático e profundamente revoltante, como também o são por exemplo as execuções iranianas por apedrejamento, que fazem corar de inveja um mundo que ainda no início de um novo século se pretendia mais civilizado, igualitário e acima de tudo digno. Um sonho apenas.

Balanços de fim de ano à parte, falemos de harmonia, que é tão importante, e de certa forma tem escasseado ultimamente. É Natal como todos sabemos, por isso importa sorrir e fazer os outros felizes, porque só assim o seremos também verdadeiramente.

Aproveito para desejar boas festas a todos os leitores do FRONTAL, e um próximo ano 2011 melhor do que foi 2010, em tudo. Optimismo precisa-se!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Uma Homenagem ao Desassossegado

Fez 75 anos no passado dia 30 de Novembro desde o desaparecimento de um enorme e incontornável vulto da literatura portuguesa e universal, Fernando Pessoa. Apesar da curta duração da sua vida, foi tradutor e correspondente comercial, empresário, editor, crítico literário, activista político, jornalista, inventor e publicitário, ao mesmo tempo que produzia a sua obra literária. Uma pouco regrada vida de abusos conduziu-o à morte em 1935, após ser internado com uma cirrose hepática, quando grande parte da sua obra se encontrava ainda por editar. Por considerar que a importante data passou mais do que deveria ao lado da opinião pública e dos holofotes da comunicação social, apresto-me neste artigo a homenagear aquele que, como a muitos e muitos outros, me desassossegou e continua a desassossegar.

Há pessoas boas e pessoas más, temos as mais simples e as menos superficiais, umas mais frias do que outras que se revelam mais calorosas, e temos também aqueles que “perdem” tempo a pensar nas coisas, tal como os que acham que “pensar” é tempo perdido. Apesar de tudo, todos são pessoas. Parece-me é que, no entanto, há gente que acaba por ser mais do que uma pessoa. Fernando António Nogueira era mais do que isso. A aparente infinita sensibilidade que parecia caracterizá-lo transportou-o para outros patamares que ultrapassam a mera existência e vivência terrena, tamanha era a sua questionação e entendimento da vida, e das suas agruras. O seu tumultuoso percurso é chorado na primeira pessoa pelo poeta, que explorou como ninguém os domínios da dor, da desilusão, da precariedade, da limitação, da tristeza e do tédio, sob múltiplos prismas. Um pequeno e pouco saudável homem com uma alma do tamanho não de um mundo apenas, mas de vários, todos diferentes e diferentemente fascinantes, mas que compõem um universo uno, o inigualável universo pessoano.

O desdobramento de personalidade do escritor é talvez o seu traço mais vincadamente distintivo, e a prova primeira da sua imensidão intelectual. A tentativa de olhar o mundo de uma forma múltipla levou-o a conceber alter-egos que nele tiveram a sua própria existência com efeito, não apenas na sua obra mas também na sua vida, sempre com uma forte componente filosófica racionalista, apesar das diferentes vertentes de análise e da contradição, que é presença constante na sua escrita. Imerso nas recorrentes “viagens” de um quotidiano delirante, cujo desconcerto demasiadamente lúcido e pouco sóbrio o revelava de uma forma que poucos ou nenhuns se conseguiram revelar, Pessoa fragmentava-se por necessidade, por no fundo lhe ser impossível encontrar a sua própria identidade. Era por vezes o simples e anti-metafísico naturalista Alberto Caeiro que se lhe aparecia, em outras o indiferente e ataráxico mas perturbado existencialista Ricardo Reis, ou ainda Álvaro de Campos, esse entediado, decadente e ansioso sensacionista, de avidez ruidosa. Além dos três heterónimos por ele criados, temos também um semi, Bernardo Soares, caracterizado pelo escritor como sendo “…eu, menos o raciocínio e afectividade”. Este foi o autor do “Livro do Desassossego”, um marco na ficção literária portuguesa que percorre desencantadamente caminhos vários que vão do pragmatismo perante a condição humana até ao absurdo da própria literatura. Segundo o escritor, trata-se de uma “autobiografia sem factos”, um perturbado relato que deveria ser prescrito a todos aqueles que sofrem e desesperam, pois uma angústia maior do que aquela que é retratada torna-se quase impossível de sequer imaginar, o que acaba por ter um surpreendentemente positivo efeito terapêutico. Ainda hoje subsiste a incerteza e a dúvida interpretativa que divide os críticos pessoanos a respeito desta obra, o que atesta de sobremaneira a complexidade e envergadura intelectual e filosófica que a caracteriza.

As palavras escritas por Pessoa atingem uma dimensão difícil de quantificar, pela capacidade única de “mexer” com quem o lê. Ainda hoje recordo a paixão com que me foi transmitido o gosto pelo saber da sua literatura por parte da minha professora da altura, no ensino secundário, que não disfarçava nem conseguia disfarçar o (des)encanto que a percorria no momento de (re)ler e (re)interpretar os textos por ela seleccionados. Por mais que se leiam excertos, pensamentos, frases ou poemas do escritor, parece que somos sempre invadidos por novas sensações, que se tornam únicas dentro de nós, apesar de surgirem enquanto analisamos o sentir descrito por outro alguém. Muitos ignorarão por princípio e opção o seu conteúdo e a sua forma, provavelmente por não se identificarem ou apenas até por nem sequer o intentarem, mas quem verdadeiramente o sente nunca poderia ficar indiferente, tamanhos que são o significado e o significante da sua mensagem. Transportamos muitas vezes as reflexões, os estados de espírito e as sucessivas divagações para as nossas próprias vidas, e acabamos por dar connosco a sentir e a pensar a nossa identificação com o autor dos escritos que com efeito nos “abanam”.

Pessoa era obcecado pela análise, inquietado pelo enigma indecifrável que lhe parecia o seu mundo e que lhe tornava a vida num doloroso e permanente conflito de existência. Sofrido como muitos, retratava a dor como poucos, sempre dando conta de como e quanto o pensamento lhe tolhia o sentimento positivo, embargando-o numa celebração negativa do mundo e da vida, sempre nostálgico, sempre céptico, nunca satisfeito. A monstruosa solidão que o habitava acentuou ainda mais o tédio e a desilusão nele presentes, levando-o a um cúmulo de assumir a total ausência de impulsos afectivos, como que já não esperando nada da vida, afundado no mais repleto dos vazios. Pessoa despersonalizava-se, porque a fingir tentava contornar a sinceridade que tanto o perturbava. Pessoa deambulava entre estados conscientes, inconscientes e semi-conscientes porque só assim conseguia procurar respostas para a inquietude e o negrume que lhes assolavam o simples estar. Apesar da dor provocada, Pessoa pensava mais do que queria sentir, porque sabia como ninguém o que era e o que hoje ainda é sentir, daí também a intemporalidade da sua escrita.

Todos nos sentimos mais frágeis e sensíveis em determinados momentos da vida, fruto das ocorrências inesperadas em que a mesma é fértil, e que nos levam a um processo de amadurecimento por vezes forçado e pouco agradável, mas necessário. Nada nos faz crescer tanto como a dor, que em boa verdade nos vai fazendo mais fortes, apesar do “lugar-comum” da afirmação. O idealismo ilusório pouco sustentado no realismo da sua vida caracterizava Pessoa, que se refugiava no sonho e no sono para se insensibilizar do mal, da tormenta. Atrai-me particularmente e de uma forma difícil de explicar a filosofia epicurista que se encontra implícita em alguma da sua literatura, onde procura centrar o bem nos valores e nos prazeres intelectuais, os mais puros e duradouros, como forma de atingir um estado de total ataraxia, esse precioso mas utópico e inatingível estado de completa ausência de perturbação, de profunda tranquilidade de espírito. Quem tudo questiona, tende a ser e a estar menos satisfeito. É pena que assim seja, mas é inevitável negá-lo, pois assim é. Resta procurar fazer a melhor gestão emocional possível para continuar activo na incessante luta pela felicidade, relativizando memórias que se tornaram absolutas, diluindo sentimentos que na sua essência são indeléveis. Só assim o sorriso do dia-a-dia se torna genuinamente autêntico.

“Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” - FP