quinta-feira, 23 de junho de 2011

Fé no Futuro

Após um complicado processo de apuramento definitivo dos resultados eleitorais, o país assistiu no passado dia 21 de Junho às cerimónias de tomada de posse do XIX Governo Constitucional, a coligação PSD/CDS liderada por Pedro Passos Coelho. Invariavelmente, o momento solene consistiu nas tradicionais juras de cumprimento de tarefas designadas por parte de cada um dos membros do novo Executivo, o mais pequeno desde Abril de 74, além dos habituais discursos do todo-poderoso Presidente da República e do novo Primeiro-Ministro empossado. De uma forma geral pode concluir-se que estão em perfeita sintonia, tendo ambos proferido orações convergentes de cariz programático, destacando a urgência do momento e a imperiosa necessidade de “não falhar”. Cavaco exigiu “solidez e consistência” à coligação governativa, Passos Coelho prometeu um “pacto de confiança” e o seu empenhamento total na resolução dos delicados imbróglios com que se depara o país, contando para isso com a imprescindível colaboração da equipa que formou. A “mudança” garantida pelo vencedor das últimas legislativas começa gradualmente a ganhar forma, traduzindo no sentimento do português comum um misto de desconfiança e de fé, que o futuro rapidamente começará a melhor definir. Conseguirá o novo Governo regenerar positivamente o Estado e restaurar a confiança dos cidadãos numa Democracia cada vez mais corroída e desacreditada? Não será tarefa fácil, mas os dados estão lançados com promessas de transparência, contenção e rigor, valores que terão impreterivelmente que ser aplicados numa governação que terá que dar a entender ao país que há uma contrapartida aos sacrifícios que lhe serão exigidos. A próxima legislatura tem há muito um programa bem definido com medidas duras que terão inevitavelmente de ser impostas, um programa acordado entre a “troika” partidária nacional e a “troika” das instituições internacionais que trará com certeza delicadas implicações sociais que terão que ser atenuadas, sob o risco de gerar grandes convulsões como as que temos assistido na problemática Grécia, cujo desfecho permanece ainda imprevisível.

Passos Coelho diz que as prioridades são claras, e passam por “estabilizar as finanças, socorrer os mais necessitados e fazer crescer a economia e o emprego”. Para isso, formou uma equipa de 11 ministros com algum défice de experiência política e governativa, mas com inequívoco prestígio técnico e académico. Antes de mais, sublinhe-se o corte geracional com o passado, dada a juventude do elenco, e a presença de bastantes independentes, sendo que o PSD dispõe apenas de mais um ministro do que o CDS. São, no entanto, pessoas da confiança de Passos Coelho e com provas dadas na sociedade civil, onde se destacaram claramente nas suas áreas. As escolhas do novo Primeiro-Ministro necessitarão de tempo para colocar em prática as novas políticas, sendo que, estou em crer, todos estarão cientes da responsabilidade que este momento crucial lhes acarreta no cumprimento das suas funções. Da minha parte terão um prudente benefício de dúvida e um forte desejo de bom trabalho, um bom trabalho que se pretende direccionado para o povo e para as suas necessidades mais prementes. Haja fé no futuro!

Por outro lado, a eleição em sede parlamentar do novo Presidente da Assembleia da República assumiu contornos absolutamente deliciosos. Cabeça de lista do PSD pelo círculo eleitoral de Lisboa, o isento e absolutamente insuspeito Fernando Nobre teve dois momentos inolvidáveis da sua ainda curta carreira política, mas que consagra já apontamentos históricos. O Parlamento rejeitou pela primeira vez desde sempre o candidato a presidente proposto pelo partido maioritário, a escolha pessoal (e eleitoralista, com toda a certeza…) de Passos Coelho. Mais, rejeitou-o duas vezes. Nobre é, de facto, um predestinado, pois conseguiu em dobro aquilo que nunca ninguém tinha alcançado, o que atesta conclusivamente todo o (des)crédito que a sua figura encerra. O verdadeiro “candidato suprapartidário” às últimas presidenciais; o apoiante convicto do Bloco de Esquerda nas últimas europeias por se “identificar com as suas políticas”; o verdadeiro representante do movimento cívico com ancestrais ligações a destacados membros do Partido Socialista. Uma verdadeira “Maria-vai-com-todos”, que tanto e tão mal já verberou contra a política e os políticos portugueses, mas não se fica por aqui no seu cada vez mais promissor discurso contraditório. É mais forte que ele! Numa entrevista ao Expresso em Abril passado, sublinhou: “se, seja por que razão for, não puder ser nomeado presidente da Assembleia, renuncio imediatamente ao mandato de deputado. Não serei só um deputado”. A personagem prestigiada e de grande “coerência” provou mais uma vez que o valor das suas palavras está longe de se revelar na integridade da sua conduta, dado que será mesmo “só um deputado”. Enfim.. “noblesse oblige”! Largas serão as franjas de eleitores profundamente desiludidos com esta figura, que de forma cínica e populista um dia os conseguiu convencer. Pobre Nobre, bastou constatar a sua pequenez no momento da revelação da vontade do Parlamento: uma criatura só, atónita e decerto que profundamente embaraçada com o absurdo da sua desmesurada e surreal ambição.

No entanto, há mesmo “males que vêm por bem”, pois a segunda escolha do PSD foi objecto de grande consenso na eleição que se seguiu. Outro momento histórico, pois nunca uma mulher tinha sido eleita para um cargo político tão elevado como Assunção Esteves, cuja seriedade, competência e sentido de Estado foram profundamente reconhecidos e deferidos por todas as bancadas parlamentares. Uma vitória da paridade e uma verdadeira lufada de ar fresco na Assembleia da República, agora presidida por uma mulher a que de forma global todos enaltecem a isenção e coerência de pensamento, e que já prometeu exercer o cargo com a “natureza não partidária” que este justifica. Saúdo vivamente este “volte face”, que traz também uma nova esperança para a qualidade da nossa Democracia.

Haja fé no futuro!

terça-feira, 7 de junho de 2011

Viragem à Direita

O resultado das eleições do passado domingo é inequívoco, e fez com que Pedro Passos Coelho cumprisse finalmente o sonho antigo de Sá Carneiro, três décadas após o desaparecimento do fundador do PSD – “uma Maioria, um Governo, um Presidente”. Terminada mais uma penosa campanha eleitoral, eis que os dirigentes máximos dos partidos vencedores puderam finalmente abrir as garrafas há muito postas no fresco, numa celebração efusiva mas previsivelmente curta, dados os tempos difíceis de governação que os esperam. Sem grandes surpresas, o panorama político português assiste agora a uma absoluta viragem à Direita.

Analisado o sufrágio, de imediato se poderão inferir algumas conclusões aparentemente óbvias. Começando pela adesão do povo às urnas, a questão impõe-se: onde está o espírito cívico dos portugueses? A julgar pela elevadíssima abstenção verificada num momento particularmente crítico da realidade nacional política, social e económica, facilmente se constata que o país está de facto de costas voltadas para uma classe que continua a cair no descrédito, pois de outra forma não se compreende tão irresponsável alheamento. Segundo palavras do Presidente Cavaco, parece que teremos agora uma grossíssima fatia de 40% do eleitorado que perdeu “autoridade” e “legitimidade” para criticar o que quer que seja relativamente ao rumo das políticas que irá ser traçado pelo novo Governo. A reflectir…

Outra conclusão fácil de retirar dos resultados é o evidente chumbo do país ao movimento “anti-Troika” manifestado pelos partidos de extrema esquerda, e que visava sobretudo uma arriscada desobediência financeira por via da reestruturação da dívida, em favor de uma suposta defesa da soberania nacional, como se “isso” ainda existisse no seio da comunidade em que estamos inseridos. Um aventureirismo ao qual os portugueses disseram claramente “Não”, a julgar essencialmente pela paupérrima votação bloquista, dado que o eleitorado comunista é por natureza fiel, como mais uma vez ficou comprovado. O aparente “irrealismo” do direccionamento político destes partidos não logrou persuadir o país, de todo. Quem também não conseguiu convencer Portugal foi o grande derrotado da noite, José Sócrates. O grande desgaste público desta figura era de consensual análise, num crescente processo de antipatização que culminou num resultado eleitoral ainda pior do que era expectável, tendo como lógica e natural consequência o abandono da liderança do partido. Uma renovação que se justifica, no meu entender. O povo já estava realmente saturado, mostrando assim o “cartão vermelho” ao mais resistente e determinado líder político de que me recordo. Ninguém é insubstituível, e Sócrates foi digno no momento do abandono, proferindo um discurso onde mostrou que também sabe perder, revelando ainda um lado humano que muitos sempre pensaram inexistir. Não sou hipócrita, nunca consegui idolatrar ou sequer incondicionalmente apoiar uma liderança que tantas vezes a todos fez confundir determinação com arrogância, realidade com fantasia, honestidade com mentira. No entanto, e parecendo-me ser este um aspecto fundamental e inerente a qualquer desempenho de cargos públicos, nunca duvidei da sua boa intencionalidade, do seu amor ao país, e de ter dado o seu melhor por este. Cometeu erros como todos cometem, alguns porventura até de relevante gravidade, mas também é verdade que nunca virou a cara à luta, enfrentando com inaudita coragem um sem número de dificuldades ao longo da sua governação, que esteve muito longe de ser facilitada, como a História a seu tempo julgará. Sócrates caiu, mas muitas marcas positivas do seu legado perdurarão, apesar do crescente denegrir da sua imagem, alvo habitual de impiedosos ataques como provavelmente nunca nenhum outro governante terá sido. Pessoalmente, desejo um PS mais democrático no futuro. Um PS mais virado à Esquerda, o seu posicionamento de raiz. Um PS mais respeitador da natureza igualitária da sua matriz ideológica, que progressiva e visivelmente foi caminhando para uma espécie de elitismo obstinado e autista para com determinados valores importantes defendidos em Democracia. Faço votos para que o futuro sucessor de Sócrates renove efectivamente o partido, coordenando uma Oposição que se pretende responsável, credível e activa do ponto de vista propositivo, trabalhando na “arena parlamentar” no sentido de encontrar espaços de entendimento, gerando os consensos necessários para ajudar o país a inverter a terrível situação em que se encontra mergulhado. É fundamental por ora enterrar machados de guerra e unir todas as forças para lutar pelo futuro do país, que bem precisa desse esforço conjunto. Só pela atitude o PS poderá de novo reerguer-se e afirmar-se como o grande partido que é.

O espírito democrático e o respeito pela vontade do povo impõem uma justa congratulação ao PSD e um aprimorado sentido de cooperação com o novo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, que necessitará de uma base de apoio alargada para enfrentar os complicadíssimos desafios que se avizinham. Pessoalmente, desejo-lhe todo o sucesso, alguma prudência e também um pouco de sorte, a bem do futuro de Portugal, esperando que o anseio por “mudança” que inspirou junto de uma grande franja da população seja plena e positivamente correspondido, não obstante os “perigos” que implicam muitas medidas previstas no seu programa eleitoral, que é efectivamente de grande ruptura com o tipo de Estado que possuíamos até agora, principalmente no que toca à sua função social. Toda a cautela será ainda necessária em relação ao ambicioso plano de privatizações anunciado, que terá com certeza toda a atenção da opinião pública, na qual claramente me incluo. Com franqueza, nutro alguma simpatia pela forma do novo primeiro-ministro, figura simpática e de aparência apaziguadora, embora me reserve a uma análise substantiva mais concreta, que os próximos meses com certeza ajudarão a melhor definir. É importante não esquecer que pouco interessa ao novo Governo hostilizar o PS, como já se pôde constatar pela pertinência do “charme” de Passos Coelho, que sabe perfeitamente que para levar a cabo as desejadas alterações de natureza constitucional vai necessitar de uma maioria de dois terços dos deputados, só possível com a contribuição socialista. Veremos como será o ambiente e como se desenrolarão os acontecimentos no seio do Parlamento, pois é urgente colocar o interesse nacional acima de todos os outros. Neste aspecto estou em crer que todos estaremos de acordo.

No discurso de vitória, Passos Coelho prometeu transparência ao povo português. Saúdam-se as palavras, esperemos que não se fique por elas. Anunciou uma “vontade clara e inequívoca de mudança”, frisando que não descansará enquanto “não puser Portugal a crescer”. Sabendo-se de antemão que pretende levar ainda mais além o pacote de medidas previstas no memorando assinado com a Troika pelos três principais partidos, garantindo ainda a “defesa” da função social do Estado e prometendo uma “melhor distribuição do rendimento e da riqueza no nosso país”, resta-me mesmo desejar-lhe toda a boa ventura para que consiga levar os seus intentos avante.

Será realista a ambição demonstrada por Passos Coelho? Oxalá...