quarta-feira, 17 de março de 2010

Bullying: Ainda há Muito Para Fazer

O caso de Leandro Pires, um menino de 12 anos apenas, lançou recentemente no nosso país a discussão em torno da violência nas escolas. A ocorrência continua por resolver e tem versões múltiplas que carecem de confirmação, mas o verdadeiro drama que os seus contornos reais indiciam arrepiou-me, como terá arrepiado qualquer indivíduo que tenha o mínimo de sensibilidade. A criança vivia na aldeia de Cedaínhos, com meia centena de habitantes, numa zona rural da periferia do concelho de Mirandela, e frequentava a Escola Básica 2,3 Luciano Cordeiro, onde aparentemente a agressão e a ridicularização fazem parte do quotidiano. Ferido no orgulho, o menino saiu a correr pelos portões da escola após mais uma zaragata, em desespero, dizendo para quem queria ouvir que se ia atirar ao rio, o que acabou por concretizar, num acto tresloucado que apenas poderá derivar da mais profunda das angústias.

Mais do que apurar responsabilidades, o que terá inevitavelmente que acontecer, importa sobretudo retirar ensinamentos e rever atitudes, no sentido de combater o fenómeno e prevenir situações futuras. Alguns testemunhos referem que Leandro era uma criança rebelde, que por vezes era indelicado para alguns professores, e que se envolvia com frequência em discussões. Já havia um precedente de violência, há dois anos atrás esteve internado num hospital após ser brutalmente agredido por colegas mais velhos com pontapés na cabeça. Irreverente ou não, a verdade é que o triste destino deste menino teve as águas rápidas do rio Tua como derradeiro capítulo de uma curta vida, engrossadas pelas chuvas intensas do Inverno, onde desapareceu para sempre. Com raízes humildes, e vivendo numa região desertificada, a personalidade do menino foi progressivamente lapidada num meio complicado, tendo ainda como cenário uma escola e um recreio onde aparentemente reinam as leis da selva e do mais forte, circunstâncias que foram moldando o Leandro, que de uma forma natural tentava safar-se como podia.

A necessidade de afirmação leva a criança ou o adolescente a procurar dominar, e essa será a principal base do Bullying. Ser popular e sentir-se poderoso através do recurso à troça e à ameaça, física e psicológica. Os rapazes por norma recorrem à agressão directa, roubando e atacando com empurrões, murros e pontapés, sendo que as raparigas agem de uma forma mais indirecta, humilhando verbalmente ou criando boatos, por exemplo, numa derivação ainda mais recente do fenómeno, o Cyberbullying, que está presente sobretudo nas actuais redes sociais como o “hi5” e o “facebook”, ou ainda nos telemóveis. As estatísticas revelam que em Portugal uma em cada quatro crianças está envolvida directamente no fenómeno, na qualidade de vítima ou agressor. Os alvos mais fáceis são os mais apetecíveis, por serem mais vulneráveis e submissos, num jogo de poder fortemente influenciado por factores externos como problemas familiares, falta de dinheiro, drogas e álcool, e que ocorre sobretudo por factores de exclusão como o racismo, a obesidade, o uso de óculos ou quaisquer outras características particulares que de alguma maneira originem esses sentimentos de repulsa. Penso que as escolas e os seus recreios têm impreterivelmente que ser objecto de reflexão, como espaços determinantes que são para a formação dos adultos de amanhã, e que a meu ver têm vindo a deteriorar-se. Sempre houve crueldade nos espaços escolares, eu próprio me recordo de inúmeras situações na minha meninice, mas casos como o do Leandro devem provocar uma reavaliação de posturas e procedimentos. O que fazer?

Na minha opinião deveria reforçar-se o número de auxiliares da acção educativa e de psicólogos. Propunha a criação de uma (ou mais) figura que zelasse pelos alunos no recreio, um vigilante que assegure alguma tranquilidade, que monitorize a interacção dos jovens, identificando dessa forma eventuais situações de risco. Em conjunto com a equipa de psicólogos, a direcção da escola, as associações de pais e os conselhos pedagógicos, todos terão que se responsabilizar pelo acompanhamento destas situações e agir, não alhear-se. Temos até bons exemplos em algumas escolas, de projectos estabelecidos em que alunos finalistas, os mais velhos, têm uma função integradora e protectora relativamente aos recém-chegados, promovendo junto destes uma melhor adaptação a uma nova realidade. Porque não generalizar? Havendo uma estrutura própria com todos estes intervenientes, seria possível actuar nestas situações específicas com a certeza que seriam colhidos frutos, pela acção preventiva e dissuasora. É um facto que a fatia dos recursos financeiros destinados à Educação não permite grandes extravagâncias, como é sabido, mas tenho a certeza que uma escola bem organizada e munida da equipa de profissionais que referi seria melhor, mais harmoniosa e eficiente – um espaço onde se promova uma convivência saudável.

É importante retirar ilações deste sucedido lamentável que vitimou o menino. Impõe-se um olhar mais atento às crianças e aos jovens, não apenas no recreio mas em todos os espaços onde estas interajam e, principalmente, no local mais fundamental da formação da personalidade do indivíduo, o lar. Sem esquecer os principais responsáveis por essa mesma formação, os progenitores. Precisamos de uma escola mais proactiva, sem dúvidas, mas precisamos também de pais mais comprometidos.

O caso concreto que analiso ainda carece de definição concreta, independentemente da inegável responsabilidade da escola, desprovida no momento de um simples porteiro que cumprisse a ordem da mãe, que assinou uma declaração para impedir a saída do aluno. Também já correu alguma tinta no sentido de ter sido um terrível acidente, dado que o menino tirou a roupa antes de se atirar, um indício de que poderia não intencionar o suicídio, mas apenas atrair atenções. No fundo, não interessa. Para a família, a dura realidade é só uma, o menino já não está no meio de nós.

Para a comunidade, fica o alerta. A situação deverá configurar-se como um “case study”, que sirva de exemplo. Ainda há muito para fazer.

terça-feira, 2 de março de 2010

As mulheres e a Mulher

É já no próximo dia 8 de Março que se celebra internacionalmente a existência de um ser fantástico – a mulher. Recordando um pouco da história da data, muitos poderão ignorar que a sua celebração advém de um acontecimento trágico, que relatarei de seguida. Corria o ano de 1857 na cidade de Nova Iorque, quando um grupo de operárias de uma fábrica de produção têxtil entendeu por bem manifestar-se, motivadas por uma revolta geral. Para esse efeito, ocuparam as instalações da respectiva fábrica, na esperança de verem a sua carga horária reduzir de 16 para 10 horas diárias, sendo ainda importante referir que eram remuneradas em menos de um terço do salário dos homens, no desempenho da mesma função. Tragicamente, estas mulheres foram enclausuradas no local, onde entretanto deflagrou um incêndio, tendo 130 delas perecido. As causas do “acidente” nunca foram apuradas, mas este episódio foi suficiente para motivar e despoletar a criação do Dia Internacional da Mulher, oficializado numa conferência realizada na Dinamarca, em 1910.

A referida data perfaz o seu primeiro centenário no corrente ano, e faço votos sinceros para que permaneça um marco na memória da população do planeta durante muitos mais. O movimento global pela emancipação da mulher tem sido uma realidade desde então, mas é conveniente sublinhar que se tem tratado de um processo lento e, de certa forma, localizado, não tendo por isso efeitos práticos em muitos locais, dadas as situações tão evidentes que ainda hoje surgem diariamente nos media. Na próxima segunda-feira pretende-se mais uma vez chamar a atenção para o papel e a dignidade da mulher e, de algum modo, exortar a uma tomada de consciência do valor da pessoa, compreendendo o seu posicionamento na sociedade e contestando veementemente preconceitos, limitações e todas as formas de condicionamento indevido que vêm sendo impostos à mulher. Nos últimos anos temos assistido a um fenómeno no nosso país que de certa forma revela uma tendência emergente que se saúda, um despertar de consciências materializado na chamada lei da paridade, que obriga à ocupação pelas mulheres de cargos políticos de relevo, realidade que se vai estendendo às empresas públicas e que apoio de forma incondicional, embora tenha algumas reservas quanto à sua imediata aplicação efectiva.

Todavia, a dura verdade é que nascer mulher ainda é um drama em muitos países do mundo. A igualdade de direitos, na sua plena acepção, continua a ser uma utopia. Em muitas sociedades contemporâneas, as mulheres continuam discriminadas e desprovidas da mais elementar dignidade, sendo permanentemente condicionadas, por este ou aquele factor, de poderem ter um processo de maturação livre de privações ignóbeis de justificação cultural, as quais na maioria dos casos não se estendem ao outro sexo – o masculino. Os exemplos são inúmeros, como a aberrante mas tradicional mutilação genital feminina, prática muito frequente em alguns países de África, cuja motivação para a circuncisão é tão só a negação do prazer sexual às mulheres, uma fonte de prazer natural demasiado luxuosa para lhes ser permitida, um privilégio somente reservado aos homens. A mulher continua a ser subjugada em todas as regiões sob diversas formas, não apenas no continente africano. Além do evidente domínio dos homens perante as mulheres, tendência que se vai levemente esvanecendo nas sociedades ocidentais, temos ainda problemas sociais de dimensão preocupante, como a prostituição e a violência doméstica, flagelos que ainda são uma realidade um pouco por todo o globo, e até mesmo à porta de nossa casa.

Organizações como a CARE, cuja demanda entendo que deva sempre ser recordada e relevada, denunciam situações, apresentam números e procuram mover consciências, de forma solidária, despretensiosa e ainda, sublinhe-se, voluntária. Um activismo direccionado que merece sempre ser divulgado oportunamente, não apenas quando se celebram datas como esta a que me reporto neste artigo. O profundo altruísmo que movimenta todos estes agentes que dão vida, de forma organizada, à missão de ajudar e dar voz aos que menos a têm é de enobrecer grandemente, uma manifestação de bondade interior da mais inocente genuinidade. Segundo a tal organização, e novamente apenas a título de exemplo, por sinal mais uma vez cru, meio milhão de mulheres morre todos os anos por complicações em grande parte evitáveis, relacionadas com a gravidez e o parto. Parece incrível, mas a reveladora estatística traduz-se pela morte de uma mulher a cada minuto, todos os dias, uma desproporcionalidade real que atinge sobretudo as mulheres mais vulneráveis, algumas ainda meras crianças, principalmente nos países menos desenvolvidos de África, da Ásia e da América Latina. A este propósito, o que me levou a expor esta realidade foi a leitura das frias mas alertantes palavras da Dr.ª Helen Gayle, presidente da CARE: “Temos que deixar de ser educados (…) a hemorragia pós parto é uma forma suave de dizer que deixamos as mulheres sangrar até à morte”. Trata-se apenas de mais um dos imensos “danos colaterais” deste mundo de fossos e desigualdades. Sintomático.

Deixemo-nos agora de dissecar tristes retratos reais que fazem, fizeram e para sempre farão parte da nossa vida e dos que nos rodeiam. O que nos pode e deve mover é a busca incessante pelo esbater destas diferenças, promovendo harmoniosamente a Igualdade. A capacidade da mulher está provadíssima nos mais diversos sectores e vertentes, pelo que não vejo porque não refrescar mentalidades e adoptar políticas que naveguem no sentido da equidade de direitos, assente num princípio de mérito, de competência e de reconhecimento. Será com certeza um passo firme para que um dia possamos viver num mundo onde todas as mulheres poderão ter a dignidade que merecem e que a sua existência naturalmente lhes consagra.

Pegando nas minhas próprias palavras, a mulher é efectivamente um ser fantástico. A figura da mãe, da irmã, da filha, da sobrinha, da prima.. da companheira, da amante, da confidente, da amiga.. todos temos as “mulheres da nossa vida”, que tanto e de forma tão positiva preenchem a nossa existência, umas de uma maneira e outras de outra, mas neste exercício escrito e centrado na celebração da figura feminina, ocorre-me sobretudo destacar um(a) exemplar muito especial. Personifica a imensa expressão do Amor, como laço afectivo intemporal, e é caso único com esse significado. Sentimento que todo aquele que se digne nutre por quem o gerou.

Esse exemplar é a minha mãe, e ela é verdadeiramente fantástica!