quarta-feira, 28 de setembro de 2011

“Back To School”

100 dias após a tomada de posse do último Governo, os balanços efectuados são claramente distintos à Esquerda e à Direita. PSD e CDS congratulam-se pelo trabalho até aqui desenvolvido, salientando o facto de estarem a cumprir exemplarmente os compromissos assinados com a Troika, enquanto os restantes partidos políticos vão permanecendo atentos ao rumo traçado pela coligação governativa, criticando os sacrifícios pedidos que vão “além” do que ficou estipulado no famoso memorando de entendimento e ainda denunciando o aumento das desigualdades sociais decorrentes das opções entretanto tomadas. Segundo dados adiantados pela imprensa, parece que o único orçamento contemplado para 2012 que não sofrerá cortes será o da Administração Interna, o que poderá ser interpretado como um sinal de que Pedro Passos Coelho estará realmente inquietado quanto à possibilidade do país ser palco de “tumultos” originados por convulsões sociais, sendo que o melhor remédio será sempre prevenir, como prova a aposta no reforço das forças de segurança, não vá o diabo tecê-las. Justiça, Saúde e Educação continuam preocupantemente a ser alvos de cortes e mais cortes, e apesar de ser conhecida a necessidade de abatermos uns quilos das “gorduras” do nosso Estado, estou em crer que em alguns dos sectores mais importantes estas começam a ser confundidas com o “músculo”, ou mesmo até com o “osso”.

Tendo em mente o recente arranque do novo ano lectivo, centrarei a minha atenção na pasta assumida por Nuno Crato, sendo que me parece que os cortes efectuados e os entretanto previstos são demasiados para uma área tão determinante para o futuro do país, e que nunca poderá ser alvo de um tratamento cego e indiscriminado que possa ter inclusivamente como consequência a ruptura do funcionamento de algumas escolas, como alguns já temem. Apesar da doutrina filosófica adoptada do “fazer mais com menos”, há de facto limites que não deverão ser ultrapassados, pelo que analisando os problemas e as carências de muitos dos estabelecimentos de ensino do país neste regresso às aulas, é com justificado receio que se antecipam cenários muito maus caso os novos cortes previstos para os próximos dois anos sejam integralmente aplicados. A rever.

Colocando por agora um pouco de parte as legítimas preocupações que o actual panorama político nacional inspira em qualquer um de nós, gostaria de me reportar à entrada em funcionamento do novo Centro Educativo e Creche de Mortágua. Trata-se de uma infraestrutura de grandes dimensões que junta no mesmo espaço os níveis de ensino do Pré-Escolar e do Primeiro Ciclo, para além do serviço da Creche, sendo um edifício dotado de todos os recursos indispensáveis e devidamente apetrechado com os mais modernos equipamentos, dos quais se destaca a título de exemplo a existência de um quadro interactivo por sala de aula. Longe irão estar os tempos do giz e da ardósia, que um dia farão parte do imaginário nostálgico dos mais velhos, sendo que, como tudo na vida, o inevitável devir trouxe uma realidade absolutamente nova a toda a Comunidade Educativa do Concelho. O maior investimento de sempre do Município resultou num espaço físico facilitador a um aumento da qualidade do ensino que é ministrado, e do qual todos beneficiarão. Com preocupações e prioridades estabelecidas que foram muito mais além das habituais recomendações do Ministério da Educação para edifícios deste género, a Câmara Municipal de Mortágua prova de facto que dá primazia a este importantíssimo sector, ciente de que este será determinante para um melhor futuro das suas crianças de hoje, os adultos de amanhã.

Este regresso à escola foi para todos especial, numa transição para todos completamente diferente, dos professores aos alunos, dos pais aos auxiliares. Duas semanas de actividade volvidas, o balanço é claramente positivo, apesar de contratempos pontuais e imprevistos que vão sendo gradualmente corrigidos à medida que são aferidos, como aliás é perfeitamente natural. Colocar em pleno funcionamento uma infraestrutura desta envergadura foi com certeza um desafio, e tratando-se de uma complicadíssima operação logística é de justiça saudar o enorme esforço nesse sentido de todos os intervenientes no processo.

Realmente gratificante foi mesmo poder constatar a alegria transbordante das crianças nos primeiros contactos com a sua nova escola, que compõe um espaço inovador que vê francamente melhoradas as condições de ensino e aprendizagem anteriormente verificadas nos antigos equipamentos, a aliar a uma inequívoca maior igualdade de acesso e de oportunidades de que todos os alunos sem excepção agora usufruem.

Por estes, e na qualidade de professor de Inglês de grande parte deles, dedico-lhes com boa disposição o título deste artigo.

“Back to School”

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O Medo

Apenas 102 minutos passaram desde o embate do primeiro avião comercial desviado por terroristas da Al-Qaeda até à queda da segunda torre do World Trade Center, um dos maiores símbolos do orgulho americano. No dia 11 de Setembro de 2001 esse mesmo orgulho ficou ferido de morte para todo o sempre, após um terrível atentado acompanhado em directo por um Mundo perplexo pelo realismo “snuff” das imagens, num mórbido espectáculo mediático sem precedentes. Um verdadeiro acto de guerra impiedoso, que culminou no desaparecimento de 2996 homens, mulheres e crianças, sendo este o “número” que fica tragicamente para a História. A dor do povo americano é de respeito intocável, mas é importante salientar que se trata de uma dor igual à de qualquer povo que sofra um ataque semelhante na brutalidade e no total desrespeito pela vida humana, mesmo que este seja menos visível aos olhos de todos. Devemos ter presente que lamentavelmente há mortes das quais se fala e outras tais que nem por isso, e isto parece-me fundamental não esquecer nunca, quando reflectimos sobre tensões e conflitos mundiais, pois independentemente de factores de ordem política, económica, social e cultural, as pessoas são e serão sempre pessoas, nasçam onde nascerem.

A heterogeneidade de convicções de ordem religiosa, xenofóbica e não só, divide-nos cada vez mais, acentuando o grau de violência entre diferentes Estados e comunidades, cujas específicas sensibilidades nunca deverão ser ignorada ou sequer subestimadas, um erro que tem sido recorrente e reincidentemente repetido. A crescente islamofobia que se espalhou um pouco por todo lado no pós 11/9 não veio fazer mais do que avolumar o ódio sectário que ilustra a relação entre as diferentes posições, daí ser prioritário reflectir sobre as causas de toda a espécie de extremismo, e não apenas daquele que surge como forma de discriminação religiosa. Orgulho, dor, desespero e sacrifício são conceitos que muito facilmente redundam na expressão fanática e intolerante. Seja em que parte do mundo for, se um homem com fome deverá sempre ser temido, mais ainda deveremos temer um homem cujos filhos tenham fome; por outro lado, mas mantendo a lógica de pensamento, o que dizer da angústia daqueles que perdem parte ou mesmo a sua família inteira?! A dor do luto de pais, filhos, maridos, mulheres, irmãos e irmãs cujas vidas são para sempre abaladas pelo nojo produzem uma agonia existencial de tal ordem que pode perfeitamente levar à represália, como forma de vingança. O lado negro da natureza humana é complexo, e pode e deve ser temido pelo grau de perversidade que pode atingir. O leitor já pensou na razão da obstinação de um qualquer suicida?!

Não pretendo de forma alguma relativizar aquela fatídica manhã, até porque todos e quaisquer crimes contra a humanidade deverão sempre ser relevados e objectos de reflexão e discussão conjunta, visando um crescente dirimir destes mesmos actos que atentam contra o orgulho de qualquer cidadão global. Pretendo apenas sublinhar que a vida de um americano vale tanto como a de um iraquiano, de um português, de um etíope ou de um indiano. O mediatismo louco e absolutamente parcial a que presentemente estamos vetados é que desvirtua e distorce essa mesma realidade. O “terror” provocado pelas bombas americanas também é “terror”, e bem real! Nós é que não sentimos o “medo” daí decorrente. Invertendo os actores desta dicotomia terrorismo vs medo, podemos lembrar-nos de que o número de vítimas das guerras no Afeganistão e no Iraque, ainda longe de estarem cessadas, já somam muitas mais do que as do 11/9. E insisto em repetir, uma vida vale precisamente o mesmo em qualquer parte do planeta.

Além da crescente fracturação socioeconómica e todas as consequências que daí advêm, dez anos depois da tragédia o Mundo mostra-nos que como está oferece tudo menos garantias de que alguma lição tenha sido entretanto aprendida, bastando para isso ter presente o histórico de “acções militares” e “actos terroristas” (qual a diferença, mesmo?!) que se têm verificado em zonas de conflito ou sensíveis do ponto de vista estratégico. Por estes dias, precisamente na véspera das cerimónias que assinalaram a tragédia americana, um suicida conduziu um camião carregado de explosivos contra uma base da NATO no Afeganistão. Entre as vítimas, um menino de 8 anos… À data que escrevo, 13 de Setembro, um ataque talibã no Paquistão contra um autocarro escolar (!) provocou a morte do motorista e de pelo menos cinco crianças. Enfim…

Estou em crer que o autoritarismo político intransigente que tem vindo a ser perpetrado e que culmina invariavelmente em fortes repressões bélicas, está longe de ser a solução, pelo contrário. Tal constitui-se como um elemento gerador e agudizador da tal correlação entre “terror” e “medo”, que resulta sempre no mesmo: mais guerra, mais mortes. Enquanto o Mundo e os seus grandes líderes não se mentalizarem de que não devemos combater fogo com ainda mais fogo, mas sim promover gradual e globalmente valores universais de paz, amor, dignidade, liberdade, tolerância e acima de tudo o mais elementar respeito pela vida humana, não creio que haja optimismo algum que possa trazer Esperança ao futuro da Humanidade.

Não é nem nunca será com mais “terror” que se combate eficazmente o “medo” que vai proliferando de um lado e do outro.