sexta-feira, 23 de julho de 2010

A Água

Não chove há aproximadamente um mês, e fazendo fé nas previsões meteorológicas, que têm vindo gradualmente a inverter a tendência de falharem quase sempre, estaremos pelo menos mais duas semanas sem qualquer “mm” de precipitação por km2, na nossa região. Tendo em conta que se avizinha Agosto, este período poderá ainda sofrer um aumento significativo, para deleite de muitos veraneantes preocupados sobretudo em banharem-se confortavelmente, mas também para agrura de muitos outros, talvez mais ainda, pela escassez do recurso. Com os tempos de crise aguda que correm, não serão numerosos os felizardos que se poderão dar ao luxo de passar uma semana no Algarve, ou mesmo quinze dias, já para não falar de férias no estrangeiro. A verdade é que o cinto está a apertar quase até travar a circulação sanguínea, e torna-se cada vez mais complicado pagar as contas. Os salários mantêm-se (ou já nem existem, salvo um qualquer subsídio!), e as despesas aumentam. É a prestação da casa, é o combustível do carro, é a conta do mercado, do gás, da electricidade e também da água! Cada um tem as suas obrigações, que uns cumprem com mais facilidade do que outros como é óbvio, mas privilegio no momento centrar o raciocínio no mais precioso dos líquidos que há no mundo, a água, uma fonte de preocupação que requer a atenção de todos, e que poderá com simples gestos ser mais poupada e melhor gasta, o que nem sempre acontece.

Às vezes é fácil demais ignorar a sorte que todos temos (ou quase todos…) em abrir a torneira e lavar as mãos, ou simplesmente para beber ou lavar a cara, quando tantos seres humanos existem por esse mundo fora que caminham quilómetros diariamente para poderem reunir um pouco de água para as suas necessidades mais básicas. Pode parecer difícil de acreditar, mas uma descarga de autoclismo num país desenvolvido consome um volume de água equivalente ao que é em média utilizado diariamente por uma pessoa num país em vias de desenvolvimento, para a sua higiene, para beber, para limpeza e para cozinhar. O “mundo” dos países ricos é completamente diferente do “mundo” dos países pobres, e por mais que nos procuremos mentalizar disso mesmo, seria preciso passarmos pela vivência de facto, no sentido de experienciarmos integralmente a carência e a necessidade, pois de outro modo torna-se difícil. Até podemos ser sensíveis à causa, interessados e solidários até, mas não fazemos ideia do que será. Tal como “eles”, que não farão ideia do que será viver num mundo “civilizado”, daí limitarem-se a subsistir com todas as suas carências mais básicas, provavelmente até mais felizes do que nós com todas as mordomias e comodidades, em muitos casos. São felizes pelo que têm, enquanto que nós sofremos pelo que não podemos ter. Lembro-me, a propósito, de uma situação prática, que um dia me fez pensar, num aeroporto de Londres. No meio de todo o aparato que normalmente caracteriza estes espaços, estava um bebedouro com um cartaz exibido onde facilmente se poderiam ler duas palavras de forma destacada: “Free Water”. Curioso, e provavelmente interessado na oportunidade, aproximei-me. A água que o reservatório do bebedouro continha estava escura, suja, imprópria para consumo. Por baixo das duas apelativas palavras, estava um pequeno texto que explicava a iniciativa e o objectivo, uma espécie de publicidade-choque com o intuito de alarmar a população para a falta que faz a água a tantos habitantes deste mundo, que não fazem ideia do que será ter à disposição água potável, “luxo” que poucos de nós valoriza. Enquanto muitas pessoas desfrutam soberbamente de relaxantes banhos de imersão, muitas outras morrem por não terem que beber, sabido que é que o ser humano resiste poucos dias sem hidratação, bastante menos do que sem alimento. Análise curta e fria, embora real.

A água é um bem ambiental indispensável às necessidades humanas básicas, como a saúde e a produção de alimentos, e é também indispensável ao desenvolvimento de actividades humanas, tendo assim uma influência determinante na qualidade de vida das populações e na manutenção de ecossistemas. A par da distribuição da riqueza monetária, também a discrepância na distribuição de recursos hídricos torna tão diferente o “mundo desenvolvido” do “mundo em vias” desse mesmo desenvolvimento! Mais de metade das reservas de água de todo o planeta encontram-se concentrados em apenas dez países, uma curiosidade estatística sobre esta temática que se revela bastante elucidativa. Claro que não podemos inverter toda uma realidade a nosso bel-prazer, mas estou em crer que nós, sociedade global, nos deveremos adaptar à escassez e até à perda de qualidade de água potável apostando na eficiência do consumo, optimizando a sua utilização, nem que seja das formas mais simples, e fomentando uma melhor distribuição, com o objectivo de chegar ao maior número de pessoas possível. Parece repetitivo o discurso, e até entediante para muitos, mas nunca será demais sublinhar que pequenas atitudes poderão sempre permitir um maior aproveitamento deste precioso recurso, fonte de vida.

Recentemente, a ministra do Ambiente Dulce Pássaro afirmou que o preço da água ao consumidor vai ter que subir, um aumento inevitável e necessário, alertando ainda para o facto de que, perante a lei, os municípios podem sempre estabelecer livremente a tarifa. Será justa a arbitrariedade legislada para este efeito, dados os diferentes preços praticados por esse país fora? Diferentes preços e facturação por diferentes escalões, que estou certo de que nem sempre serão estabelecidos numa óptica social, numa perspectiva de defesa dos mais necessitados.

Importa poupar o valiosíssimo recurso no plano individual, sem dúvida alguma, mas é também imprescindível que a distribuição e cobrança do mesmo sejam feitas de forma equitativa, criando um tarifário essencialmente justo.

A água é um bem essencial à vida, de primeira necessidade, e não convém que nos esqueçamos disso. Nunca.

sábado, 17 de julho de 2010

Futebolices...

Um rectângulo, uma bola e onze homens para cada lado. Para algumas pessoas não passará disto mesmo, mas a verdade é que o futebol consegue gerar um turbilhão de sentimentos como mais nenhum desporto, o verdadeiro ópio do povo, capaz de mover nações inteiras, fazendo por momentos “esquecer” crises, conflitos e dificuldades várias, juntando todos em torno de uma só paixão: a bola. Não sendo excepção da regra, resolvi debruçar-me sobre esta temática nesta edição, dado que decorre presentemente a maior das competições do desporto-rei. A maior, mas não necessariamente a melhor, uma vez que a qualidade do futebol praticado tem deixado um pouco a desejar por vezes, e não será menos pertinente lembrar a esse propósito que dificilmente se reúne tanto valor individual e colectivo num grupo de seleccionados de um país como num clube de grande prestígio e dimensão económica, apesar de algumas excepções. Num exercício de comparação com a Liga dos Campeões, a intensidade e o nível são outros, muito embora todo o jogador ambicione disputar um Mundial, sonhando com o lugar mais alto do pódio, privilégio reservado a um número muito restrito de atletas. Diferenças à parte, são os dois eventos de maior requinte futebolístico, sem dúvida alguma, mas atentemos à primeira competição que referi, e que tanta surpresa nos tem causado, a começar pela eliminação precoce da Itália e da França, habituais candidatas.

A nossa selecção, entretanto, chegou a África cheia de ambições e sonhos imensos. Uma selecção verdadeiramente candidata, diriam alguns, liderada por um Cristiano Ronaldo que de líder tem pouco, digo eu. Entrámos na competição num prestigiante terceiro lugar do ranking FIFA, mas acabámos por ser afastados por “nuestros hermanos” nos oitavos de final, sem apelo nem agravo, de forma justa, friamente analisando, pois a Espanha foi melhor. O grande problema deste resultado nem terá sido a derrota em si, mas a nossa dificuldade em digeri-la. Calaram-se as “vuvuzelas” nacionais no final desse desafio. É preciso saber perder também, não apenas ganhar, até porque não se pode sempre vencer. Uma lição aparentemente simples mas que parece não ter sido ainda interiorizada pelo nosso capitão, melhor jogador do mundo em 2008. Após promessas de “explosão” no torneio, a triste realidade é que nunca o jogador esteve lá quando a equipa precisou dele, acabando mesmo por protagonizar uma cena deplorável, e acima de tudo evitável, no final do derradeiro encontro, incapaz de controlar o seu assombroso mau perder, em imagens que correram mundo. Possesso, questionou a autoridade do seleccionador Queiroz e chegou ainda a apontá-lo directamente, quando confrontado sobre de quem seria a responsabilidade do afastamento. Enfim.. no fundo perderam todos, não apenas o treinador por ter tido pouca coragem em momentos chave, nem somente também a figura de proa da selecção, apesar do modestíssimo desempenho. Todos perderam.

No conjunto, fomos efectivamente inferiores a uma grande equipa, provavelmente a mais séria candidata a vencer o Campeonato Mundial, juntando-o ao Europeu conquistado há dois anos atrás. Uma Espanha que mais parece um verdadeiro carrossel a jogar futebol, com uma circulação de bola absolutamente fantástica, numa dinâmica táctica e técnica quase impossível de superar, dado que é tão eficaz nas transições e ocupação de espaços que torna complicadíssimo a qualquer equipa adversária impor o seu jogo. Sem pontos fracos, com um meio-campo deslumbrante e dois avançados de grande qualidade, é na minha opinião a maior candidata a alcançar o ceptro mais desejado, mas já se sabe que tudo se decide no relvado, dentro das quatro linhas, e será essa também uma das principais premissas da magia em que o futebol nos envolve: a sua imprevisibilidade, dado que tudo pode acontecer. É na realidade um fantástico e apaixonante desporto, caracterizador até da cultura de uma região, ou de um país. Como o nosso, Portugal, um país que ama realmente o futebol. Eu alinho pelo mesmo diapasão, indefectivelmente, muito embora considere aberrante o vencimento dos futebolistas, que ultrapassa mesmo o limite do razoável, e nunca é demais lembrar. Por dia, cada jogador da selecção em estágio auferia cerca de 800€, quase o dobro do salário mínimo nacional, que tantos por este país nem têm o privilégio de receber.. por mês! Já o mais bem pago jogador do mundo recebe do seu clube qualquer coisa como 27.300€ por dia, 1.137€ por hora, ou, se preferirem, 18€ por minuto. As verbas auferidas no estágio pela selecção devem ter-lhe parecido mais uma gorjeta do que outra coisa, mas vá, sempre deve ter ajudado a pagar o helicóptero em que se fez chegar junto dos colegas. Luxos de uma estrela planetária que ainda pouco ou nada conseguiu dar à nossa selecção, infelizmente. Muito embora a indústria da bola movimente verdadeiras fortunas, e os jogadores sejam os maiores protagonistas, não será ultrajante verificarmos rendimentos deste tipo num mundo de capital com tão acentuadas assimetrias económicas, onde o fosso entre os ricos e os pobres tem sido tão intensamente cavado? Acho inconcebível, mas é assim que as coisas são.

A sazonal e habitual “depressão” dos fãs da bola não vai durar muito tempo quando o Mundial acabar, uma vez que não tarda voltam os fins-de-semana desportivos, agora que estamos a entrar na fase de pré-época da nossa Liga. Benfica, Porto e Sporting são os candidatos de sempre, desta vez com a companhia de um Braga que já mais parece um “grande” também. Com os restantes rivais a reforçarem-se imenso, veremos como se porta o “meu” Benfica, espero que à altura.

Vamos trocar piadas com amigos, gritar golos marcados, lamentar os sofridos, protestar contra as decisões do juiz, enfim.. o habitual. O habitual, mas com emoção, porque o futebol é exactamente isso mesmo: paixão. Não é tudo na vida, claro, mas é uma paixão, sem dúvida, como tudo o que nos dá verdadeiro prazer.