segunda-feira, 28 de junho de 2010

Ensaio Sobre a Desconsideração

Na passada sexta-feira, 18 de Junho, a longa e riquíssima narrativa de vida do grande José Saramago conheceu o seu derradeiro epílogo, após muitas e valiosas linhas que sempre foram pautadas pela mais rígida das integridades e coerências, princípios-base dos quais o escritor nunca abdicou, permanentemente ciente e consciente dos seus direitos fundamentais de liberdade de expressão e liberdade religiosa. Por ser alguém que nunca se furtou a dizer o que lhe ia na alma, doesse a quem doesse, tornou-se natural a ideia de que gerou inúmeros anticorpos em muitas pessoas e grupos, por tudo o que a sua existência e posicionamento representaram, sempre firmes e imutáveis ideologicamente, e que acabaram por provocar animosidade em variadas frentes, principalmente religiosas e conservadoras, que sempre o consideraram um herege, um potencial perigo dado o espectro de influência que criou, chegando a muitos mesmo, graças à grandiosidade e reconhecimento da sua obra. Uma coisa é certa e ninguém o poderá acusar do contrário, nunca se inibiu de transparecer as suas convicções pessoais, por vezes fortes e contundentes, pois era um homem verdadeiro e verdadeiramente lúcido, virtudes que vão rareando cada vez mais no tecido humano que compõe a sociedade contemporânea.

Sinto-me identificado com muitos dos valores defendidos por Saramago, embora tenha também algumas divergências de pontos de vista relativamente a algumas situações e respectivas análises efectuadas pelo escritor, mas a imensidão e profundidade da sua consciência e do seu carácter enquanto indivíduo há muito que me cativou e fez render por completo, tal como a naturalidade e pragmatismo existencialista com que encarava a vida e a sua inevitável transitoriedade. Até nisso era genuinamente tremendo e distinto dos demais. Um monumento vivo que, mesmo falecendo e desaparecendo fisicamente, se tornou imortal e assim perdurará no tempo, enorme que é a sua influência e inspiração junto de milhões de pessoas. Isto porque Saramago não era somente um notável cidadão português, era um cidadão do mundo, talvez demasiado grandioso para este nosso pequeno pedaço de terra à beira-mar plantado, mas que no mais intenso e verdadeiro dos momentos não renegou e insistiu para que fosse a sua última morada. É triste constatá-lo, mas por vezes parece que não merecemos ter gente deste calibre entre os nossos, dada a pouca atenção e relevo que a sua morte mereceu ao maior dos representantes da nação, o Presidente da República, ausente do funeral do escritor, incapaz de adiar a promessa à sua família “de lhes mostrar a beleza da região” dos Açores, parafraseando o próprio. Perdeu-se um autêntico e genuíno símbolo da identidade nacional e porta-estandarte da Língua Portuguesa, mas Cavaco justificou e minimizou a sua ausência das cerimónias fúnebres com a redacção (sentida?) de uma nota oficial prestando homenagem à obra e ao contributo para a projecção da cultura portuguesa no mundo, referindo ainda que era apenas essa a sua “obrigação” enquanto chefe de Estado. Pior ainda e verdadeiramente ridículo foi ter também afirmado que o que deve fazer nessa qualidade é “diferente daquilo que deve ser feito pelos amigos”. O que Cavaco Silva mostrou claramente foi não ter a capacidade de dissociar o cidadão que é da instituição que representa como figura suprema de uma nação. Mais do que faltar ao respeito a Saramago, à sua família, à sua memória e à grandiosidade da sua obra, o presidente faltou ainda ao respeito a todos os portugueses enquanto povo que chora a perda de um dos filhos mais ilustres que viu nascer ao longo dos mais de 800 anos de toda a sua História, um dos maiores vultos de sempre da arte e cultura nacionais, e distinguidíssima bandeira da literatura mundial, como a sua consagração Nobel facilmente atesta. Era sabido que ambas as personalidades alimentavam um conflito pessoal e ideológico, já desde o tempo em que Cavaco, na qualidade de primeiro-ministro, recusou que “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” pudesse concorrer ao prestigiado Prémio Literário Europeu, sob o pretexto que esta obra não representava o “seu” Portugal predominantemente católico, o que naturalmente causou a maior das tristezas e indignações no autor da mesma. O erro maior foi ter permitido que esta autêntica “birrinha” pessoal se sobrepusesse às competências que o seu cargo consagra, juntando-se conservadoramente à sua tão adorada Igreja, do lado daqueles que nutrem um especial ódio de estimação pelo grande escritor. Todas as homenagens e honras de Estado seriam merecidas, porque Saramago era todo ele meritório de toda essa mesma consideração. Manuel Alegre sabiamente analisou a polémica que a obra do seu colega escritor gerou, quando afirmou que "… ao Saramago não se perdoa ser um português que se atreveu a ganhar o Prémio Nobel da Literatura e que diz que não acredita em Deus”. Também me parece que ainda assim seja para muitos.

O recentemente desaparecido escritor podia aparentar ser duro de roer e imperturbavelmente indiferente a certas realidades, mas era um homem de uma sensibilidade extrema e inabalável. Recordo um pequeno vídeo que me tocou profundamente, em que chora de forma verdadeiramente emocionada quando o realizador Fernando Meirelles lhe apresenta em primeira mão o seu filme inspirado na obra “Ensaio Sobre a Cegueira”, dizendo Saramago nesse instante que ficou tão feliz como no momento em que terminou de escrever o livro. Verdadeiro, como sempre foi, e consciente como poucos, até em relação à aproximação da sua morte, e da naturalidade e inevitabilidade da mesma, como parte incontornável da condição humana.

“Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais.” - JS

sexta-feira, 11 de junho de 2010

"A Vida Está Para Ti"

Ainda há bem pouco tempo S. Pedro nos fustigava com repetitivos dias curtos e cinzentos, pautados por céus repletos de nuvens carregadas com esse bem precioso que é a água, capaz de gerar ódios nas pessoas quando insistentemente se precipita sobre as nossas cabeças, mas também capaz de gerar em nós um justificado contentamento, quando após dias e semanas de prolongada seca surge como que um verdadeiro oásis, para rejúbilo de todos nós que conscientemente temos noção do seu imenso e imprescindível valor. Entretanto, as nuvens dissiparam-se e deram-nos algumas tréguas, abrindo caminho ao tão adorado Sol e aos seus resplandecentes raios, que nos aquecem, iluminam e tornam os dias maiores e mais bem-dispostos, neste tão aguardado momento do ano em que nem a Natureza se furta a acompanhar-nos nesta alegre e verdejante transição sazonal: está a chegar o Verão!

Acaba uma fase para dar lugar a outra, e é inevitável que assim seja sempre, porque tudo na vida tem o seu tempo. Crianças, adolescentes e jovens adultos passam também por estas alturas por momentos de grandes transformações e redefinições nos seus percursos, com o encerramento do ano lectivo e, em muitos casos, de um inteiro ciclo de aprendizagens e convivências que agora termina. Lembro-me por exemplo do momento da conclusão do 12º ano, e tão marcante que este se revela na continuação da construção da personalidade do indivíduo, pela grande decisão que tomará e que se estenderá por toda a sua existência no plano profissional, mas também pelo culminar de um trajecto tão especial, onde se desenvolveram muitos relacionamentos, sentimentos e experiências, onde se cultivaram amizades, intimidades e companheirismos para a vida toda. Se muitos se candidatam ao ensino superior para poderem alcançar uma maior qualificação que lhes permita um futuro melhor, também não é menos verdade que muitos passam de imediato para o mundo do trabalho, uns por opção e outros por impossibilidade ou infeliz necessidade. Mais tarde ou mais cedo, é certo que todos acabam por encerrar esse tão importante capítulo de estudante, para muitos das melhores fases da vida, sendo que também este ciclo terá forçosamente que ter um fim, porque tudo na vida tem o seu tempo.

Há relativamente pouco tempo alguém me disse “a vida está para ti”, e se no momento devo ter esboçado uma qualquer reacção superficial e pouco reflectida do género “está, está..”, como que refutando o meu interlocutor com um sorriso meio embaraçado, a verdade é que a frase mexeu comigo e me deixou a pensar numa série de diferentes vivências, transições e realidades. Cada vez mais me convenço que devemos aproveitar ao máximo o agora, que em breve não volta, só deixa a saudade. Além disso, também considero que nunca devemos esquecer daquilo que é realmente importante. Viver. Alimentar as nossas paixões e o que nos dá prazer. A vida não é só coisas boas e episódios bons, pelo que nos resta valorizar e usufruir de todos aqueles momentos especiais que um dia recordaremos com agradável lembrança. Tal como em relação a pessoas que nos marcaram profundamente e em relação às quais nos teremos inevitavelmente que separar um dia, por uma razão ou outra, pois tudo é cíclico. Tudo é cíclico, por mais complicado que por vezes possa ser, e julgo que o devemos encarar com toda a naturalidade possível, restando-nos sempre olhar em frente e de cabeça erguida, até ao fim. Independentemente de tudo de bom ou de mau que possa acontecer, a nossa “casca” vai sempre enrijecendo, e em boa verdade ficamos todos os dias mais fortes do que nos anteriores. Daí a importância do controlo emocional, no sentido de permanecermos positivamente fiéis ao imediato, confiantes, sem grandes projecções de longo prazo que possam redundar em fracasso, por esta ou aquela razão. Uma forma simples de combatermos eventuais pessimismos de um ponto de vista optimista. Um passo de cada vez, vivendo um dia após o outro, o que não significa que não se estabeleçam metas e objectivos. Para quê sofrer por antecipação? Nos tempos complicados que correm não é fácil anteverem-se cenários cor-de-rosa, pelo que nos resta trabalhar sempre, fazer pela vida, pela nossa e pela dos que nos rodeiam. Imperativo torna-se ainda nunca descurar a fruição do instante, sem reservas preconceituosas ou de natureza hesitante, dado que a vida é efémera, e muitos são os exemplos daqueles que pura e simplesmente a deixam passar.

A sequência criança/adolescente/adulto/idoso é fugaz, a memória é que faz o indivíduo. O que pareceu ontem já foi há imensos anos atrás, o relógio não pára. Nunca. Daí a necessidade de darmos sentido às coisas e às pessoas, por isso os “nossos” se tornam tão importantes. “A vida está para ti”. Será? Recorrentemente me lembro de um filme em que o professor de um colégio interno se dirige aos alunos e apela-lhes gloriosamente numa lógica de Carpe Diem: “Aproveitem o dia rapazes, tornem as vossas vidas extraordinárias”. Fantástica filosofia, que procuro recordar sempre que me sinto a entorpecer, ou quando me pareço apenas mais um. Temos tempo para experimentar tudo, também para sabermos o que queremos ser, e ter. Devemos no entanto ter noção dos perigos que eventualmente poderemos correr, sem nunca nos entregarmos de corpo e alma a algo que saibamos de antemão que poderá causar-nos sérios transtornos, a nós ou aos “nossos”. Da melhor maneira possível, vivendo tudo o que pudermos, mas com conta, peso e medida. Já dizia um artista, “nunca vamos sobreviver se não formos um pouco loucos”. Será talvez a mais complexa de todas as ciências: saber viver. Sentimentos comuns a todos, mas únicos dentro de cada um de nós.

O momento é este, a vida está para nós todos. Tudo tem o seu tempo, e o nosso é agora.