segunda-feira, 28 de novembro de 2011

"É a Vida!"

Não conheço nenhuma expressão mais terrível do que esta. “É a vida!” é o que se diz a alguém plenamente desconfortado, em relação a um acontecimento ou circunstância duríssima, e com certezas de inevitabilidade. É exactamente o que dizemos de uma forma natural e espontânea quando não temos, de facto, nada mais para dizer. Partilha-se o olhar sofrido, acarinha-se o rosto de quem convalesce e atenua-se um pouco a preenchedora angústia com um abraço forte, sentido. Muitas vezes, é tudo o que podemos fazer, estar. Nesses momentos de grande dificuldade, importa sobretudo sentir o conforto possível de obter daqueles que genuinamente connosco partilham não só as alegrias mas também as tristezas, o conforto daqueles que caminham a nosso lado.


Penso no caso do filho do futebolista Carlos Martins e não deixo de ficar sensível ao seu sofrimento, nem deixo de respeitar imenso a exposição pública que decorreu desta triste realidade que agora é a sua. O filho de Martins, Gustavo, sofre de aplasia medular - uma doença rara que resulta de uma disfunção da medula óssea - e necessita urgentemente de um transplante. O jogador expõe-se como mais uma forma desesperada de procurar a salvação do seu querido, pelo qual com certeza daria a própria vida, mas também consciente e em solidariedade com todos os que passam de forma anónima pelo mesmo. Após o mediático apelo, só em Lisboa a recolha de sangue subiu de 5 dadores/dia para 500, segundo Abílio Antunes, o presidente da ONG Médicos do Mundo. Verdadeiramente notável. Um prometedor aumento de esperança para esta e muitas outras crianças.


Se já imaginamos como pavorosa sequer a ideia de passar por uma situação do género, então a morte de um ente querido será a que provoca a pior de todas as convalescenças, sobretudo quando surge inesperadamente, ou de uma forma não natural. São situações absolutamente irreversíveis que causam um impacto brutal “nos que cá ficam”, moldando-lhes as personalidades e mudando-lhes as suas vidas para sempre. Mais longe ou mais perto de nós, acontece a toda a hora e a praticamente toda a gente, mais tarde ou mais cedo, pois muito poucos serão os que vivem descansados sem “fantasmas”, sem feridas profundas ou com estas já perpetuamente cicatrizadas.


Dizia Machado de Assis que “suporta-se com muita paciência a dor no fígado alheio”, ou como descomprometidamente diz o povo, “com o mal dos outros posso eu bem!”, mas será que é bem assim? Dependerá sobretudo do grau de humanismo e da riqueza da dimensão moral de cada um, mas nem o mais frio dos indivíduos se abstrai por completo do imenso sofrimento de alguém que lhe é, de alguma forma, próximo. Todo aquele que já sofreu verdadeiramente por uma tragédia daquelas que “abanam” acaba por sentir-se também um pouco na pele do outro que agora a sente, quem partilhou dor sabe perfeitamente que assim é. É nesses precisos momentos que as pessoas mais se aproximam, e mais sentem o “calor” que lhes é dirigido, um “calor” que está longe de curar todos os males, mas que lá no fundo ajuda a suportá-los, e muito!


Apesar de pouco podermos fazer perante algumas obstáculos que a vida nos vai apresentando, é precisamente nessas alturas que se reveste de especial importância dar e partilhar. Muito mais do que o objecto, importa dar e partilhar afecto. Estar com o outro, mostrar que realmente nos importamos, que fazemos parte.


Em vésperas de um Natal que será com certeza dificílimo para muitos, fica a sugestão: ofereça cartões alusivos à época, pegue numa esferográfica e abra o seu coração. Além da poupança material, nunca como hoje foi tão importante transmitir aos seus o que realmente sente por eles.

Sim, hoje, porque nunca iremos saber se haverá um amanhã, ou como ele será. Por isso, nunca deixe nada por dizer.


Dar é tão bom ou ainda melhor do que receber.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Tortura Não É Cultura!

No passado dia 6 do corrente mês houve uma pequena manifestação em Lisboa que surgiu com objectivos de protesto contra os chamados “touros de fogo”. Se o leitor, como eu, for um pouco mais leigo nestas matérias, fique desde já informado que se trata de uma recente e inovadora variante na actividade tauromáquica, numa versão digamos que… pirotécnica. Para gáudio da fanática falange de entusiastas, o animal é solto na arena com material inflamável preso aos cornos, quem sabe se para “incendiar” um pouco mais a ira da multidão que assiste com delícia à mestria sanguinária do “artista”, que para muitos não será mais do que um desprezável carrasco. Salvaguardadas as distâncias, e invertendo o papel dos “actores” de um teatro que me deixa algumas dúvidas sobre quem será o verdadeiro animal, parece-me que quaisquer semelhanças com o brutalíssimo espectáculo promovido antigamente em Roma pelo insano Imperador Nero não serão uma mera “coincidência”. A leitura da notícia da referida “manif” despertou-me a atenção e motivou-me para abordar o tema de uma perturbadora realidade que (ainda) caracteriza alguma da sociedade contemporânea. Como em todas as discussões que envolvam diferentes pontos de vista, importa analisar alguns da argumentação “pró”, a que procura justificar por todos os meios uma prática no meu entender profundamente injustificável.

“As touradas são uma tradição antiga e por isso devem ser respeitadas, defendidas e perpetuadas.” Posso aceitar que sejam encaradas como uma “tradição”, com origem em tempos antigos, em que as mentalidades e os modos de vida eram significativamente diferentes dos actuais, sendo que por norma com o tempo o Homem tem a tendência de aperfeiçoar-se e de desenvolver a sua forma de estar e de pensar… não será isso evoluir? Se não fosse assim ainda hoje a Escravatura não teria sido abolida, por exemplo, mas tal aconteceu porque, de facto… evoluímos. Espero sinceramente que um dia a tourada seja estudada da mesma forma na escola, sem saudade.

“O touro não sofre com o que lhe é feito na arena.” Como?! Ninguém poderá afirmar categoricamente que o animal “não sofre”, dado que se trata de um mamífero que, como todos os outros, é dotado de um sistema nervoso central que lhe permite a capacidade para sentir dor, ansiedade, medo e sofrimento. Se atentarmos aos sinais exteriores revelados na arena, rapidamente concluídos que o touro não considerará, com toda a certeza, o espectáculo “agradável”, ou sequer que seja “indiferente” a ele. São inúmeros os hediondos vídeos que existem para o sustentar, películas de autêntico terror que revelam uma agonia que é, de facto, brutal. A palavra é mesmo essa.

“A arte de tourear é tão bela que seria uma pena perdê-la”. A “arte” em questão pode de facto ser considerada bonita, de mérito técnico e artístico, mas perde desde logo toda a sua legitimidade por implicar directamente o sofrimento físico e psicológico de um animal. Enfrentar touros numa arena é um acto de grande coragem para muitos, mas para aqueles que sentem o mínimo respeito e lástima por animais é um acto da mais desonrosa covardia.

Dificilmente se muda a opinião de um fervoroso adepto tauromáquico, pois esta surge adquirida por via da educação, e a razão acaba por pouco ou nada influenciar. Dizia Schopenhauer que “a compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de carácter, e pode ser seguramente afirmado que quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem.” Talvez seja isso mesmo que falte aos indefectíveis de tão horroroso espectáculo… coração.

“Arte”? “Cultura”? A crueldade não é arte… e a tortura não é cultura!