quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Ano Novo, Vida Nova

Ano novo, vida nova! Ou pelo menos é assim que muitas cabeças por esse mundo fora vão pensando, sempre em busca de melhorar algo aqui ou acolá, de forma a tornar as suas próprias existências mais satisfatórias. Pessoalmente, assim farei. Vou procurar corrigir alguns aspectos menos bons que 2010 me relevou, sob a perspectiva permanente de crescer positivamente, em harmonia comigo e com os que me rodeiam, tendo presente que ninguém é perfeito mas sempre lutando por mais e melhor, num processo de auto-construção contínuo e ininterrupto, que se estenderá muito para lá de 2011 mas que terá em cada um dos 365 dias uma prova decisiva. Sim, porque ninguém muda de hábitos de um dia para o outro, pelo que importa que cada um de nós defina objectivos reais e possíveis de realizar, para que posteriormente possa agir em consonância com a sua ambição, dando pequenos passos no sentido desejado. Pequenos, mas seguros e determinados. Assim deveremos reger as nossas vidas, exactamente como quem de direito deverá reger a nossa comunidade, o Estado, esse “conjunto das instituições que controlam e administram uma nação”. Precisamos urgentemente de melhorar todos, pessoas e instituições, pelo que se torna determinante arregaçar as mangas e sobretudo agir, trabalhar. Optimismo precisa-se!

Um ano passa num “instante”, como bem sabemos, mas também não é menos verdade que num ano se “passa” muita coisa. Infelizmente, e fazendo uma retrospectiva dos principais acontecimentos ocorridos, constato que dificilmente se pode fazer um balanço positivo, tanto no plano nacional como no plano internacional. Começo pelas desgraças, difíceis de abordar mas impossíveis de ignorar, ainda para mais tendo o findo ano sido dramaticamente fértil nesta área. Logo a abrir Janeiro, a 12, como esquecer a tragédia do Haiti que ceifou a vida a 230 mil homens, mulheres e crianças? Os vídeos e as fotografias difundidas pela comunicação social mostraram ao mundo um cenário caótico e desesperante que a todos chocou, um já de si paupérrimo país que acabou por ficar praticamente arrasado, sequioso do apoio total da comunidade internacional que surgiu, mas a conta-gotas. Quase um ano após o terrível terramoto constata-se que chegou ao país menos de metade da ajuda prometida, sendo que muitos haitianos continuam a viver em tendas e em condições higiénico-sanitárias indignas, como aliás também é reveladora a epidemia de cólera que entretanto alastrou e desde Outubro já causou mais de duas mil mortes.

O deficiente funcionamento da plataforma de apoio criada para atenuar os danos causados no país do centro americano não foi todavia regra geral. No caso da maior tragédia da história do arquipélago da Madeira, a 20 de Fevereiro, a ajuda apareceu a horas e o possível foi feito dentro do previsto, tendo os mecanismos solidários sido devidamente accionados, num esforço conjunto que acabou elogiado por todas as partes. Reergueram-se habitações, reconstruíram-se vias e retomou-se progressivamente o normal quotidiano, mas nada mais se pôde fazer do que lamentar a quase meia centena de falecidos pela acção da força das violentas águas, as enxurradas assassinas que tudo levaram. Os fenómenos naturais continuam a castigar-nos cada vez mais, mas curiosamente também continuamos a tratar cada vez pior da nossa própria “casa”, o mundo em que vivemos. O pior desastre ecológico da história dos EUA foi um bom exemplo. Uma explosão que originou um derrame de crude sem precedentes, ainda para mais com origem aparente numa acção supostamente negligente da empresa BP, o que é de lamentar ainda mais. Por outro lado, continua a ignorar-se o Protocolo de Quioto um pouco por todo o mundo, sendo que as emissões de gases continuam com valores muito acima do que deveria e poderia ser a nossa realidade actual. Nesse sentido importa efectivamente agir, deixar de lado os interesses económicos que acabam sempre por se sobrepor a todos os outros, e apontar a uma limpeza progressiva do planeta, que precisa mais do que nunca de grandes líderes no comando do seu destino. A Conferência de Copenhaga sobre as alterações climáticas mais não foi do que um mediático embuste, o que como é óbvio se lamenta profundamente.

Seria impossível abordar tudo o que de importante aconteceu este ano, o que poderia inclusivamente tornar-se num exercício penoso. No entanto, poderia reflectir sobre as cinzas do vulcão islandês de nome impronunciável que tanto prejuízo causou por essa Europa fora; sobre o milagre de sobrevivência dos mineiros chilenos, que emocionou o mundo inteiro pela perseverança e força de viver; sobre a emergência do fenómeno facebook que continua a surpreender tudo e todos pelas múltiplas possibilidades de uma rede social à escala global, com mais de 500 milhões de utilizadores; sobre a sempre presente crise económica mundial, nascida no “subprime” americano e cujos efeitos rapidamente atingiram a União Europeia, deixando em pouco tempo os países mais frágeis na bancarrota, como os casos islandês, grego e irlandês; sobre o embate desta mesma crise no nosso país, e na infindável novela de austeridade e decisões difíceis adoptadas em PEC´s, OE, e demais pacotes de medidas dolorosas que lá no fundo, no fundo, acabam sempre por doer mais a uns que a outros; sobre a pertinente e bem-vinda visita do Papa em Maio, num momento sensível para a Igreja, ou sobre a sentença do mega-processo da Casa Pia em Setembro, que no fundo pouco ou nada sentenciou (ambos os eventos tiveram sempre presente o abominável tema da pedofilia); sobre a primeira oficialização de uma união gay em solo nacional, “apadrinhada” indirectamente pelo senhor Cavaco Silva, na qualidade de Presidente da República promulgador da lei do casamento homossexual; sobre a autêntica “bomba” de revelação e transparência da diplomacia praticada ao mais alto nível, fazendo do Wikileaks e de Julian Assange os mais admirados combatentes da censura para os liberais acérrimos, muito embora permaneçam insurrectos e um alvo cada vez mais mediático a abater pelos interesses instalados, num jogo de poder pouco prudente que aconselha tratamento de “pinças”, com o objectivo de evitar ao máximo danos colaterais indesejados.

Muito fica ainda por referir, naturalmente. A morte do Nobel Saramago, por exemplo, despertou-me para o estudo aprofundado de uma figura que, estou certo disso, me permitirá ainda “crescer” muito mais, porque é com os melhores e maiores que mais e melhor aprendemos. Por outro lado completamente distinto, a libertação da carismática líder San Suu Kyi, Nobel da Paz em 1991, entretanto detida pela ditadura militar birmanesa, fez a todos acreditar num futuro mais risonho no que toca à efectiva liberdade de expressão. Uma acção que iludiu o mundo nesse sentido quase tanto como a China o desiludiu em relação a Liu Xiaobo, preso político galardoado com o mesmo prémio da edição do presente ano, que nem o pôde receber fisicamente por permanecer encarcerado a mando de Pequim, pela sua dissidência ao regime violador de direitos humanos. Simbólico, sintomático e profundamente revoltante, como também o são por exemplo as execuções iranianas por apedrejamento, que fazem corar de inveja um mundo que ainda no início de um novo século se pretendia mais civilizado, igualitário e acima de tudo digno. Um sonho apenas.

Balanços de fim de ano à parte, falemos de harmonia, que é tão importante, e de certa forma tem escasseado ultimamente. É Natal como todos sabemos, por isso importa sorrir e fazer os outros felizes, porque só assim o seremos também verdadeiramente.

Aproveito para desejar boas festas a todos os leitores do FRONTAL, e um próximo ano 2011 melhor do que foi 2010, em tudo. Optimismo precisa-se!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Uma Homenagem ao Desassossegado

Fez 75 anos no passado dia 30 de Novembro desde o desaparecimento de um enorme e incontornável vulto da literatura portuguesa e universal, Fernando Pessoa. Apesar da curta duração da sua vida, foi tradutor e correspondente comercial, empresário, editor, crítico literário, activista político, jornalista, inventor e publicitário, ao mesmo tempo que produzia a sua obra literária. Uma pouco regrada vida de abusos conduziu-o à morte em 1935, após ser internado com uma cirrose hepática, quando grande parte da sua obra se encontrava ainda por editar. Por considerar que a importante data passou mais do que deveria ao lado da opinião pública e dos holofotes da comunicação social, apresto-me neste artigo a homenagear aquele que, como a muitos e muitos outros, me desassossegou e continua a desassossegar.

Há pessoas boas e pessoas más, temos as mais simples e as menos superficiais, umas mais frias do que outras que se revelam mais calorosas, e temos também aqueles que “perdem” tempo a pensar nas coisas, tal como os que acham que “pensar” é tempo perdido. Apesar de tudo, todos são pessoas. Parece-me é que, no entanto, há gente que acaba por ser mais do que uma pessoa. Fernando António Nogueira era mais do que isso. A aparente infinita sensibilidade que parecia caracterizá-lo transportou-o para outros patamares que ultrapassam a mera existência e vivência terrena, tamanha era a sua questionação e entendimento da vida, e das suas agruras. O seu tumultuoso percurso é chorado na primeira pessoa pelo poeta, que explorou como ninguém os domínios da dor, da desilusão, da precariedade, da limitação, da tristeza e do tédio, sob múltiplos prismas. Um pequeno e pouco saudável homem com uma alma do tamanho não de um mundo apenas, mas de vários, todos diferentes e diferentemente fascinantes, mas que compõem um universo uno, o inigualável universo pessoano.

O desdobramento de personalidade do escritor é talvez o seu traço mais vincadamente distintivo, e a prova primeira da sua imensidão intelectual. A tentativa de olhar o mundo de uma forma múltipla levou-o a conceber alter-egos que nele tiveram a sua própria existência com efeito, não apenas na sua obra mas também na sua vida, sempre com uma forte componente filosófica racionalista, apesar das diferentes vertentes de análise e da contradição, que é presença constante na sua escrita. Imerso nas recorrentes “viagens” de um quotidiano delirante, cujo desconcerto demasiadamente lúcido e pouco sóbrio o revelava de uma forma que poucos ou nenhuns se conseguiram revelar, Pessoa fragmentava-se por necessidade, por no fundo lhe ser impossível encontrar a sua própria identidade. Era por vezes o simples e anti-metafísico naturalista Alberto Caeiro que se lhe aparecia, em outras o indiferente e ataráxico mas perturbado existencialista Ricardo Reis, ou ainda Álvaro de Campos, esse entediado, decadente e ansioso sensacionista, de avidez ruidosa. Além dos três heterónimos por ele criados, temos também um semi, Bernardo Soares, caracterizado pelo escritor como sendo “…eu, menos o raciocínio e afectividade”. Este foi o autor do “Livro do Desassossego”, um marco na ficção literária portuguesa que percorre desencantadamente caminhos vários que vão do pragmatismo perante a condição humana até ao absurdo da própria literatura. Segundo o escritor, trata-se de uma “autobiografia sem factos”, um perturbado relato que deveria ser prescrito a todos aqueles que sofrem e desesperam, pois uma angústia maior do que aquela que é retratada torna-se quase impossível de sequer imaginar, o que acaba por ter um surpreendentemente positivo efeito terapêutico. Ainda hoje subsiste a incerteza e a dúvida interpretativa que divide os críticos pessoanos a respeito desta obra, o que atesta de sobremaneira a complexidade e envergadura intelectual e filosófica que a caracteriza.

As palavras escritas por Pessoa atingem uma dimensão difícil de quantificar, pela capacidade única de “mexer” com quem o lê. Ainda hoje recordo a paixão com que me foi transmitido o gosto pelo saber da sua literatura por parte da minha professora da altura, no ensino secundário, que não disfarçava nem conseguia disfarçar o (des)encanto que a percorria no momento de (re)ler e (re)interpretar os textos por ela seleccionados. Por mais que se leiam excertos, pensamentos, frases ou poemas do escritor, parece que somos sempre invadidos por novas sensações, que se tornam únicas dentro de nós, apesar de surgirem enquanto analisamos o sentir descrito por outro alguém. Muitos ignorarão por princípio e opção o seu conteúdo e a sua forma, provavelmente por não se identificarem ou apenas até por nem sequer o intentarem, mas quem verdadeiramente o sente nunca poderia ficar indiferente, tamanhos que são o significado e o significante da sua mensagem. Transportamos muitas vezes as reflexões, os estados de espírito e as sucessivas divagações para as nossas próprias vidas, e acabamos por dar connosco a sentir e a pensar a nossa identificação com o autor dos escritos que com efeito nos “abanam”.

Pessoa era obcecado pela análise, inquietado pelo enigma indecifrável que lhe parecia o seu mundo e que lhe tornava a vida num doloroso e permanente conflito de existência. Sofrido como muitos, retratava a dor como poucos, sempre dando conta de como e quanto o pensamento lhe tolhia o sentimento positivo, embargando-o numa celebração negativa do mundo e da vida, sempre nostálgico, sempre céptico, nunca satisfeito. A monstruosa solidão que o habitava acentuou ainda mais o tédio e a desilusão nele presentes, levando-o a um cúmulo de assumir a total ausência de impulsos afectivos, como que já não esperando nada da vida, afundado no mais repleto dos vazios. Pessoa despersonalizava-se, porque a fingir tentava contornar a sinceridade que tanto o perturbava. Pessoa deambulava entre estados conscientes, inconscientes e semi-conscientes porque só assim conseguia procurar respostas para a inquietude e o negrume que lhes assolavam o simples estar. Apesar da dor provocada, Pessoa pensava mais do que queria sentir, porque sabia como ninguém o que era e o que hoje ainda é sentir, daí também a intemporalidade da sua escrita.

Todos nos sentimos mais frágeis e sensíveis em determinados momentos da vida, fruto das ocorrências inesperadas em que a mesma é fértil, e que nos levam a um processo de amadurecimento por vezes forçado e pouco agradável, mas necessário. Nada nos faz crescer tanto como a dor, que em boa verdade nos vai fazendo mais fortes, apesar do “lugar-comum” da afirmação. O idealismo ilusório pouco sustentado no realismo da sua vida caracterizava Pessoa, que se refugiava no sonho e no sono para se insensibilizar do mal, da tormenta. Atrai-me particularmente e de uma forma difícil de explicar a filosofia epicurista que se encontra implícita em alguma da sua literatura, onde procura centrar o bem nos valores e nos prazeres intelectuais, os mais puros e duradouros, como forma de atingir um estado de total ataraxia, esse precioso mas utópico e inatingível estado de completa ausência de perturbação, de profunda tranquilidade de espírito. Quem tudo questiona, tende a ser e a estar menos satisfeito. É pena que assim seja, mas é inevitável negá-lo, pois assim é. Resta procurar fazer a melhor gestão emocional possível para continuar activo na incessante luta pela felicidade, relativizando memórias que se tornaram absolutas, diluindo sentimentos que na sua essência são indeléveis. Só assim o sorriso do dia-a-dia se torna genuinamente autêntico.

“Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” - FP

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Um Fim de Semana Mediático

Os dias 19 e 20 do corrente mês foram de um grande frenesim pela capital Lisboa, onde mais de 50 chefes de Estado se reuniram para a Cimeira da NATO, que acabou por correr da melhor forma, para gáudio do fervoroso nacionalista. O desfile de estrelas como Merkel, Sarkozy, Cameron, Medvedev, Berlusconi, Barroso, Van Rompuy, Rasmussen, e da quase “rock star” Barack Obama, entre outros, exigiu o estabelecimento de uma mega-operação de segurança como provavelmente o nosso país nunca vira até hoje. Felizmente que tudo acabou por decorrer de forma pacífica, dentro e fora do pavilhão da FIL, tendo o referido encontro sido um verdadeiro sucesso. A plataforma operacional conjunta das polícias europeias acabou por culminar na barrada da entrada no país a cerca de 180 indivíduos, através dos controlos de fronteira terrestre. Estes, já mais do que referenciados por desacatos provocados e tumultos diversos, foram impedidos de se agregar aos restantes activistas que se manifestaram pelas ruas da capital de uma forma pouco agitada, contra o que tem sido hábito acontecer nas cimeiras da NATO, uma realidade que tirou algum peso interventivo ao activismo que, sendo pacífico, se saúda sempre; por outro lado acabou por acrescentar algum brilho à actuação do SEF e das forças policiais portuguesas como a PSP e a GNR, cronicamente necessitadas de algum polimento nas suas imagens, como é mais do que sabido, o que acaba por ser um registo positivo.

Anfitrião-mor da prestigiada reunião, Sócrates não cabia em si de contente pela forma como os acontecimentos iam decorrendo, bastava para isso apreciá-lo nas objectivas com o mais radiante dos sorrisos, tanto nos sempre obrigatórios cumprimentos de recepção aos líderes como nos discursos e declarações oficiais efectuadas no encerramento da Cimeira. O primeiro-ministro de Portugal terá até por algumas vezes estranhado como poderia estar a correr tudo tão bem, habituado que está às pedras que teimam em lhe ir entrando nos sapatos, mas como nem tudo são rosas lá teria que surgir uma situação desagradável que, não surpreendentemente, se revelou de imediato um isco para os vorazes e sanguinários apetites da Oposição, a propósito dos blindados que seriam “importantes”, mas não “determinantes” para as operações de segurança. Apesar do balanço final neste capítulo ser francamente positivo, não deixa de se sublinhar alguma desorientação do titular da pasta da Administração Interna do actual Executivo que, talvez incomodado com a pressão dos media, ávidos de esclarecimentos vários, “chutou a bola” da justificação para a PSP que, por sua vez e habilmente, a dominou de peito e devolveu ao ministro através do seu porta-voz, referindo que “o transporte e o contrato de aquisição dos blindados não é da responsabilidade da Polícia”. Uma inegável falha organizativa que no entanto terá sido das poucas, e que em abono da verdade e a posteriori acabou mesmo por não se revelar “determinante”, dado que as viaturas que chegaram dois dias após o encerramento do evento não foram imprescindíveis à boa segurança evidenciada.

Mas afinal, o que esteve de facto em cima da mesa das negociações? Foram discutidos 4 grandes temas: a aprovação de um novo conceito estratégico da Aliança Atlântica, o planeamento da transição das forças de segurança da NATO para as forças do exército afegão até 2014, a negociação do escudo anti-míssil e as relações institucionais da Aliança com a Rússia. Já se sabe que os temas discutidos nestes encontros são sempre antecedidos de preparações prévias e pré-negociações entre delegações e ministérios dos países envolvidos, sendo o momento mais virado para a formalização e respectiva oficialização dos acordos estabelecidos, mas até alguns dos principais intervenientes na cimeira se revelaram surpreendidos pelas facilidade e celeridade negociais encetadas, o que também acaba por consagrar a diplomacia internacional que actualmente se verifica. O secretário-geral da NATO, Anders Rasmussen, elogiou particularmente a conciliação estratégica entre a Organização e a Rússia, dado que foi acordada a “não imposição de ameaça mútua”, tendo sido identificado o “inimigo comum a ambos: o terrorismo, as armas de destruição maciça e a pirataria”. Terá sido porventura a melhor das novidades deste encontro, o enterro de mais alguns “fantasmas” de uma Guerra Fria que foi uma realidade num passado não muito distante. Em Lisboa, Obama referiu-se a Medvedev como “seu amigo”, sublinhando que os Estados Unidos da América encaram a Rússia como “um parceiro e não como um inimigo”. A ser verdade, e com efeito pela Paz no futuro, óptimo! O Mundo inteiro saúda a dissuasão nuclear progressiva das duas maiores potências, e uma diminuição significativa e equilibrada do potencial bélico de ambos os blocos.

O importante evento representou também uma vitória da diplomacia internacional, como já referi, sendo engraçado analisar as bem-dispostas declarações de Obama a este propósito, que revelou que a Cimeira de Lisboa não foi “tão excitante como outras, porque basicamente concordámos com tudo”. De facto, e pelos relatos chegados à Comunicação Social, à hora do jantar informal de encerramento já todas as arestas negociais estavam limadas, podendo os altos responsáveis digladiar descontraidamente vontades e estados de espírito à mesa, de consciência tranquila pelo dever cumprido, enquanto degustavam o creme de espinafres, os medalhões de vitela com queijo da serra e o pudim Abade de Priscos que compuseram a refeição, tudo devidamente acomodado com os melhores vinhos brancos e tintos da Burmester. Nem só de labor vive o Homem.

Continuando a analisar a actualidade do mundo que nos rodeia, e mudando um pouco de tema, não podia deixar de reservar uma pequena atenção para mais um rocambolesco episódio protagonizado pela Igreja, na figura do Papa Bento XVI. Noticiou-se a 20 do mês e um pouco pelos media de todo o mundo que se assistia a um verdadeiro avanço na doutrina católica, com direito a “bênçãos” de figuras diversas do movimento eclesiástico nacional e internacional; Bento XVI perdera a cabeça e admitia o uso do preservativo para reduzir os riscos de contaminação do vírus da SIDA, preparando assim “o caminho para uma sexualidade mais humana”. O iluminado delírio teve desde logo grande impacto a nível global, merecendo até rasgados elogios do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, que louvou as declarações “práticas e realistas” do santo padre, que reflectem “consciência e compreensão” por parte do Vaticano para um flagelo que ceifa anualmente milhares e milhares de vidas. Tal “revolução ideológica” rapidamente incomodou e abalou as bases ultra-conservadoras do sagrado palacete, que logo no dia a seguir (!) às abusivas e precipitadas declarações do Papa se apressou a declarar que estas não “eram nenhuma revolução”, assegurando ainda de forma categórica que a Igreja não considera o preservativo como a "solução moral" para o problema da SIDA.

A irrazoabilidade e falta de bom senso são de tal ordem que me limita a apreciação e consequente adjectivação do ocorrido, até por considerar que terei pelo menos um pouco desses valores presente junto de mim.

“Solução moral”. Enfim..

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A Rede Social

Tive recentemente a oportunidade de assistir ao filme “The Social Network”, dirigido pelo excelente realizador David Fincher, e entendi por bem redigir um pequeno ensaio a propósito do facebook, esse emergente “novo mundo” cibernético que se encontra em plena fase de consolidação na sociedade contemporânea, um pouco por toda a parte. O fenómeno é real, e global, um facto praticamente impossível de refutar quando até a hiper-conservadora rainha Isabel II surge por estes dias nas manchetes por ter também aderido à famosa rede social criada por Mark Zuckerberg, o mais jovem bilionário de sempre. É incontornável pelo menos tentar perceber do que se trata, porque apesar de ser uma plataforma que já reúne a impressionante soma de 500 milhões de utilizadores, torna-se recorrente escutar esta ou aquela voz discordante que, em muitos casos, se manifesta a propósito apenas com essa mesma intenção: discordar. Desconfiados por natureza, e desconfortáveis com a massificação entretanto alcançada, preferem claramente “negar à partida uma ciência que desconhecem”, optando por relevar todos os malefícios que dali poderão advir. Apesar de como é evidente respeitar todas as tomadas de posição em relação ao assunto, interessa-me explorar a questão, até para desmistificar algumas ideias feitas, muitas destas de conteúdo erróneo. É que lá está, como tudo na vida, temos que experimentar para conhecer.

O famoso facebook é uma ferramenta de interacção social com múltiplas possibilidades e utilizações. Quem adere começa por criar um perfil que irá conter apenas a informação que cada um desejar tornar pública; informação escrita, como dados pessoais, notas, textos, ensaios; informação audiovisual, como fotografias, vídeos, músicas ou apresentações. Tudo o que é publicado é da exclusiva responsabilidade do utilizador. Consequentemente, este cria a sua rede privada, convidando outros utilizadores para a integrarem ou aceitando pedidos de outros que intentam o mesmo fim. A visualização dos dados detalhados de cada membro é restrita aos elementos que compõem a tal rede. Assim, todos os membros que integram a rede privada são da exclusiva responsabilidade do utilizador. Tudo é 100% configurável, 100% controlado. Este aspecto é que é determinante salientar, o absoluto livre arbítrio de cada um, que desvirtua logo a tal pré-conceptualização céptica da “falta de privacidade”. No fundo, é uma “treta”, pois cada um expõe exactamente o que deseja permitir ver aos outros membros que integram a nossa rede com o nosso consentimento, logo acaba por ser uma não questão. É exactamente como na vida pessoal de cada um, onde só entregamos e “abrimos” verdadeiramente o nosso íntimo a quem queremos, e da forma que queremos, sabido que é que somos donos e senhores de nós próprios, e sabendo ainda que é a conduta de cada um perante a vida que estabelece aquilo que somos aos olhos dos que nos rodeiam. La Palice, é certo, mas convém relembrar, sempre com o objectivo de apelar à reflexão, que muitas vezes inexiste. A rede social é potencialmente “perigosa”, sem dúvida alguma, mas depende em exclusivo do tipo de utilização que lhe é empregue. Não se deve divulgar demasiada informação pessoal, mas disso tem noção qualquer indivíduo lúcido e consciente. No entanto, torna-se de natureza fundamental acompanhar crianças e adolescentes que nos são próximos, como filhos ou familiares, de forma a elucidá-los devidamente para todos os riscos que poderão correr, pois quaisquer situações de coerção, vulgo cyber-bullying, podem e devem ser evitadas pela via da prevenção. Adultos impulsivos e pouco ponderados poderão também incorrer em situações delicadas por acção própria, mas também não será exactamente assim na “vida real”? Voyeurismo, coacção, hipocrisia, intriguismo e até potenciais atitudes criminosas fazem parte da natureza humana em comunidade, característica do “animal social”, pelo que basta sermos absolutamente prudentes e responsáveis na rede.. tal como somos na vida.

Procurando dissertar sobre o fenómeno sob outro prisma, o que será que atrai tanto um facebooker? Muitas coisas mesmo, dependerá sempre do perfil de cada um, e das suas expectativas, naturalmente. Utilizado na proporção certa e com os devidos cuidados, a rede acaba por ser uma poderosa ferramenta de divulgação, nos planos pessoal e profissional. No primeiro pela interacção, pelo simples facto de aproximar as pessoas independentemente da distância a que se encontram, e eu sou a favor de tudo o que aproxime as pessoas. No segundo pelo marketing, que bem planeado e posteriormente executado acaba por trazer grande visibilidade a quem decide lançar o seu negócio ou serviço na rede. Sem margem para dúvidas. Com a incrível expansão de pessoas e empresas no facebook, as oportunidades multiplicam-se. Tendo em conta a sociedade actual de informação em que vivemos, e em comparação com o verdadeiro “autismo” em que vivia a população do século passado, em que as notícias fluíam essencialmente através de estafetas, à “velocidade da voz”, é caso para perguntar: qual o real valor desta plataforma? É imenso! Pessoas e empresas têm a possibilidade de se darem a conhecer ao mundo inteiro com pouca dificuldade, e de forma totalmente gratuita.

Até a própria classe política já percebeu que se pode chegar a muita gente com toda a rapidez e facilidade, e não menos importante em tempos de crise, de uma forma económica. A nível nacional mas também a nível local, já se percebeu que o facebook possibilita uma espécie de interacção que pode ter uma influência decisiva nas pessoas, exactamente por estar perto delas, pertíssimo. Através das posições defendidas e dos interesses e preferências manifestados, as pessoas aproximam-se ou afastam-se, tal e qual como na “vida real”. Dinamizam-se debates sobre as mais variadas temáticas. Trabalha-se a imagem, co-constrói-se uma reputação, luta-se pela popularidade. É tudo uma questão de objectivos e expectativas. E acima de tudo oportunidades. A título de exemplo, uma pessoa desempregada pode divulgar o seu currículo e obter muito mais visibilidade, multiplicando as hipóteses de eventuais ofertas que possam surgir a nível profissional. Aproveito também para lançar a sugestão às empresas locais para se lançarem na rede, porque não? Poderão assim promover os seus produtos ou eventos de forma gratuita, chegando a um grande número de pessoas. A maior parte já o faz, para quê ficar para trás? Em todos os sectores, está um “mundo” lá fora à distância de um “click”, e é lógico que quem não arrisca não poderá depois colher dividendos, a todos os níveis. Uma estratégia de marketing bem planeada e direccionada poderá revelar-se bastante profícua e dar um “empurrão” ao seu negócio, sem dúvida alguma.

Já no plano pessoal, a possibilidade de encontrar velhos amigos e colegas é enorme, o que permite reaproximações que se podem revelar verdadeiramente gratificantes, quem já o experimentou sabe do que escrevo. O contacto permanente e imediato que familiares afastados podem estabelecer também é um aspecto muito positivo, ajuda a combater o isolamento e a solidão que milhares de quilómetros de distância conferem a quem tem saudades de casa e dos seus, quem já o experimentou sabe do que escrevo.

Passada a Era Industrial, estamos agora perante a Era da Informação, e o facebook acaba por ser um pequeno “aroma” da realidade futurista que os tempos vindouros nos reservam.

“Gosto”

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A Crise e a Desigualdade

No passado dia 17 deste mês, Marcelo Rebelo de Sousa conseguiu surpreender todo o país no seu habitual comentário televisivo de domingo, anunciando no seu estilo peculiarmente directo e até divertido que o professor Aníbal Cavaco Silva iria apresentar a sua recandidatura à Presidência da República às 20 horas do dia 26 seguinte. Efectivamente confirmou-se o augúrio, para grande espanto interno dos sociais-democratas, que não disfarçaram a estranheza de ver anunciada a esperada recandidatura à revelia de Belém, aparentemente, ainda mais por uma figura proeminente do respectivo partido, que até já discordou publicamente do Presidente em mais do que uma ocasião, como por exemplo nas reacção e postura institucional demonstradas por alturas da morte do Nobel Saramago. Com legitimidade, diga-se.

Assim sendo, foi com todo o entusiasmo que me sentei confortavelmente no sofá à hora marcada para um momento que antecipava delicioso. Confesso que as minhas melhores expectativas não saíram frustradas, bem pelo contrário. Cavaco continua em grande! O início da declaração foi simplesmente arrebatador, com o professor a transmitir que “tinha o dever” de se recandidatar ao cargo, “perante as incertezas e até angústias sentidas por muitos portugueses”, dado que com a sua “experiência” e com os seus “conhecimentos” pode “ajudar o país a encontrar um rumo de futuro e vencer as dificuldades com que está confrontado”. Ouvindo estas palavras, fiquei de sobrancelha franzida. Seria um “déjá-vu”? É que muito honestamente pareceu-me a mesma figura de há cinco anos atrás, no mesmo local e no mesmo palanque, mas afinal não era uma gravação. Olhei para o canto superior esquerdo do ecrã e o “directo” dissipou-me as dúvidas, era mesmo o actual discurso de recandidatura. O meu apregoado entusiasmo caiu logo por terra, “mais do mesmo”, pensei. Não me pareceu, na altura, que tivesse sido efectivamente assim na realidade, dado que quaisquer contributos que o Presidente em exercício tenha dado a respeito de “dificuldades” terão sido, no mínimo, ocultos ou despercebidos ao grande público. Isto porque o galopante aumento do número de desempregados e o avolumar da percentagem do imenso défice refuta toda e qualquer mensagem de esperança passível de ter sido interpretada no discurso das últimas presidenciais, que por sinal até acabou por convencer claramente o eleitorado português. Entretanto, tive que esperar um pouco mais pelo absurdo, porque não há outra palavra para o qualificar. Apesar da famosíssima “cooperação estratégica” que tanta tinta fez correr, Cavaco reluziu quando quis sublinhar que não tinha qualquer responsabilidade na crise que Portugal atravessa. Pelo contrário! “Em que situação se encontraria o país sem a acção intensa e ponderada, muitas vezes discreta, que desenvolvi ao longo do meu mandato?” Brilhante. Mesmo! Oportunamente voltarei a abordar o assunto neste espaço de opinião.

À data que escrevo assiste-se a um momento de grande convulsão política, com o falhanço nas negociações PS/PSD com vista à viabilização do Orçamento de Estado para 2011. Pelos vistos “não é”, recordando o título do meu último artigo (“OE ou não é!”). Pois. Após o anúncio da falta de acordo, os mercados internacionais fizeram sentir a sua ira manifestando-se no mesmo instante, tendo os juros da dívida disparado de imediato, na maior subida diária que se registou desde o início do ano. Deverá significar uns valentes milhões de euros. É isto que revolta verdadeiramente o contribuinte, a forma disparatada como os agentes políticos “brincam” com o nosso dinheiro, e com o nosso consequente destino. Estas supostas negociações parecem-me pouco pragmáticas e excessivamente calculistas, num autêntico circo repleto de manobras de bastidores e politiquices baixas e vazias de conteúdo e intervenção, que visam mais o lançamento de bases argumentativas para a corrida às próximas legislativas do que propriamente o “superior interesse patriótico”, um préstimo de serviço ao país que lhes competia priorizar. No fundo, ambos sabem que têm que se subordinar às condições de redução de défice impostas por Bruxelas, mas logicamente que acabam por esgrimir as respectivas posições sempre com um olho no eleitorado, para ver quem acaba por ficar com o melhor sorriso na última fotografia. Um por cento do IVA para cima porque isto, reduz-se a fatia de orçamento para aquele sector por aquilo.. Enfim, o desgraçado do povo vai assistindo consternado à tal “brincadeira”, permanecendo verdadeiramente preocupado com o futuro próximo que se avizinha negro, quando até já se começa a ouvir o necrófago esvoaçar dos abutres do FMI..

Independentemente do prestígio ou da qualidade da classe política que nos governa e da que procura por todos os meios nos governar, o que de facto me alarma é o crescente e imparável aumento das desigualdades sociais, que começam a grassar uma intolerável falta de bom senso, alimentada todos os dias por novos episódios que revoltam o cidadão atento e consciente, e que infelizmente passam ao lado do cidadão distraído e ignorante, sem qualquer denotação ofensiva, registe-se. A verdade é que ainda são muitos com vidas cor-de-rosa, mas acabam por ser mesmo muitos mais os seres penados cujas vidas de privação os obrigam a procurar remediar todas as suas carências básicas da forma possível, longe com certeza da desejada pelos próprios e pela comunidade global que lhes prevê uma “condição digna”. Torna-se desconfortável para qualquer um analisar o impacto da crise na vida dos mais vulneráveis, em comparação com os grandes senhores de uma actual sociedade estratificada que tende lentamente a extinguir a chamada classe média. É uma diferença enorme que o prevalecimento de interesses do poder económico impede que seja atenuada por um poder político que se impunha mais sensato. Que fazer? Nada. Pertencemos à era do capitalismo e é à escala global que estes sistemas de mercado evoluem e se transformam, em longos períodos de tempo, pelo que nos resta (sobre)viver nele inseridos. Resta-nos combater vincada e implacavelmente a Desigualdade, e os decorrentes problemas sociais, lutando por uma Nação mais justa e equilibrada, dado que a subjugação à grande Europa é inegável e inevitável, para o bem e para o mal.

A propósito de austeridade, porque não aumentar bastante mais o corte nos rendimentos e pensões irracionais que ainda existem em plena crise? Assim, os abominavelmente ricos poderiam continuar a viver muito bem como “apenas” extraordinariamente ricos; estes, “sacrificando-se” um pouco, com certeza que viveriam também bastante bem como ”somente” muito ricos, e por aí fora.. Quem ganha 30 mil euros por mês não se governaria bem com metade, preservando ainda altíssimos padrões de qualidade de vida? Óbvio que sim, e isso poderia fazer com que quem nada tem pudesse passar a dispor de pão e leite com mais frequência; estes últimos poderiam pelo menos passar a ter uma refeição quente diária, e por aí fora..

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

OE.. ou não é!

Nos tempos difíceis que correm actualmente pelo nosso continente em matéria económica, torna-se importante alertar para as diferentes situações em que vivem os diferentes países que integram a União Europeia, como por exemplo a prosperidade em crescendo da toda-poderosa Alemanha em contraste com o recorde dos recordes de 32% de défice orçamental apresentado no momento pela Irlanda. Apesar dos recentes e gerais esforços de contenção contemplados nos já famosos pacotes de austeridade, a realidade mostra-nos que os países do sul da Europa ainda estão longe do equilíbrio, segundo dados do Eurostat, com os casos grego, português e espanhol em particular destaque pela negativa.

Reportando-me ao nosso país em concreto, tem sido notória a crescente dificultação das saúde e estabilidade financeiras dos portugueses, permanentemente sacrificados e cujos esforços empreendidos têm sido gradualmente aumentados, como atesta a exigência do recente conjunto de medidas anunciado a 29 de Setembro por um Sócrates de rosto pesado e gravoso, ladeado pelo inseparável “sósia” Silva Pereira e pelo responsável máximo pela pasta das Finanças, Teixeira dos Santos. Por sinal, tratou-se da apresentação do terceiro pacote de cortes na despesa e de crescimento da receita, medidas politicamente impopulares que ainda não é certo que sejam as últimas deste ano, fazendo fé em algumas projecções de reputados economistas que convergem na mesma conclusão: “não chega”. O impacto destas alterações na vida dos portugueses vai ser enorme, mas apesar de ser a face dos líderes máximos socialistas que se encontra em cheque, e independentemente das boas ou más opções tomadas no decorrer da presente legislatura, torna-se importante recordar que tais medidas foram impostas a Portugal por Bruxelas, verificando-se uma tendência cada vez mais evidente de uma governação europeia conjunta, da emergência de uma espécie de federalismo europeu.

Inevitáveis ou não, com naturalíssimas leituras diferentes à esquerda e à direita, importa explorar e enumerar algumas das medidas anunciadas que se adivinham tão contundentemente activas no combate ao “monstro” do défice como no avolumar de problemas sociais como o desemprego, a pobreza e a precariedade, que já atingem níveis históricos. Assim sendo, do lado da despesa o alarme soou de imediato na Função Pública, com a redução de gastos de funcionamento do Estado: redução dos salários da Administração Pública acima dos 1.500€, congelamento das promoções, progressões e novas admissões, diminuição das ajudas de custo, horas extraordinárias e acumulação de funções, entre outras de menor expressão. Ao nível das prestações sociais também se verifica um grande corte, assente na redução do abono de família e nas despesas com o Rendimento Social de Inserção, na diminuição dos encargos da ADSE e ainda no congelamento de pensões de reforma, que já não vão aumentar ligeiramente como era expectável. Os cortes não se ficam por aqui, prevendo-se também reduzir as despesas do SNS, as transferências do Estado para as autarquias e regiões autónomas e ainda, como já era de esperar, um travão a fundo no investimento público no âmbito do PIDDAC, que pelo bom senso demonstrado me apraz especificamente saudar.

Do lado do crescimento da receita, que é sempre o mais fácil de conseguir e, simultaneamente, o mais difícil de justificar, temos um aumento de 2% na taxa normal do IVA, que sobe para uns incríveis 23%, mas que garantirá por si só um acrescento de mil milhões de euros às contas do Estado, segundo estimativas. Este imposto verá ainda a sua tabelação revista através de novas regras, embora permaneça ainda alguma expectativa em relação aos bens ou serviços onde incidirão, numa decisão que caberá à Assembleia da República por proposta do Governo. Prevê-se ainda um substancial aumento da receita fiscal através da criação de um novo imposto sobre a banca, que a constar na proposta para o novo Orçamento de Estado (OE) será uma medida para louvar, dados os soberbos lucros crescentes que este sector tem registado nos últimos anos. A receita aumentará ainda pela redução da despesa fiscal, através da revisão das deduções e benefícios no IRS e no IRC.

Tudo más notícias para o cidadão comum e para a pessoa colectiva, mas determinantes para o saneamento financeiro do nosso país, que necessita de um autêntico balão de oxigénio para poder continuar a respirar. A conjuntura económica nacional é débil, mas o panorama político que se nos depara não parece muito melhor, numa perspectiva de estabilidade, sendo que a aprovação ou não do OE 2011 cuja proposta Sócrates estará por estes dias a apresentar revelar-se-á de extrema importância, havendo mesmo necessidade de a dramatizar, dada a sua excelsa relevância numa óptica de interesse patriótico. Sem orçamento, e sem as credibilidade e confiança necessárias aos olhos exteriores, surgirá inevitavelmente a decorrente ingovernabilidade do país, o que pioraria ainda mais uma situação já de si caótica, e onde naturalmente exibiríamos cada vez mais desconcerto perante os já desconfiados agentes económicos internacionais, os tais investidores que tanta importância assumem nesta específica discussão, e nas consequências decorrentes da respectiva decisão a tomar em sede de Parlamento. Por tudo isto teremos forçosamente que apelar a um entendimento e a um comportamento responsável por parte dos partidos e das principais figuras que os dirigem, que muitas vezes não priorizam o supremo interesse nacional em detrimento de estratégias políticas ocultas de feição pretensiosa, vulgo eleitoralismo.

A premente crise política poderá ser uma realidade, e os aparelhos vão-se preparando nesse sentido. As “danças em conjunto” de Passos com o Governo parecem estar perto do fim, tendo este recentemente afirmado que “se não estivéssemos brevemente em eleições presidenciais (…) pedia uma moção de censura”. Passos Coelho estará pouco interessado em convergir novamente com o PS de Sócrates, mas conseguirá convencer o universo social-democrata a acompanhá-lo, mantendo a tão desejada unidade interna que sempre foi bandeira da sua liderança? Pelo “ruído” que se tem verificado a este e a outros propósitos, não me parece. A saída da crise só se conseguirá através de um diálogo que propicie um entendimento que viabilize o próximo OE na Assembleia da República, no dia 29 do corrente mês. A classe política deverá convergir em prol do interesse do país, dado que o actual momento é delicado, e eventuais rupturas poderão ter repercussões devastadoras, levando o país a caminhar de uma péssima situação para uma ainda pior, o abismo.

É caso para dizer: OE.. ou não é!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Cultura e Culturalidade em Mortágua

É sempre pertinente e oportuno avaliar e fazer pontos de situação, sendo que chegou a hora de reflectir acerca do período estival que agora findou, não esquecendo que coincide também com o culminar de um ano lectivo, em que as famílias recuperam o sorriso das suas crianças no dia-a-dia do seu lar. Verão é sinónimo de animação, conceito que também se relaciona com cultura, e tão importante que esta se revela na formação do indivíduo, e na riqueza e qualidade de vida de uma comunidade. Apesar da minha ainda alguma juventude, tenho procurado de há uns anos a esta parte inteirar-me cada vez mais da real situação do meu concelho, das suas virtudes mas também dos seus problemas e limitações, que todos sabemos que existem como em qualquer outro local, ainda mais em tempos difíceis como este, pautados por um quadro político nacional cada vez mais instável, sem esquecer a complicada conjuntura internacional económica, social e política, que surge cada vez mais influente e determinante na definição de prioridades da orientação estratégica nacional e, subsequentemente, da orientação estratégica local.

A este propósito, parece-me importante desmistificar um conceito defendido por uma franja da população mortaguense, muitas vezes até de um ponto de vista instrumental ou pretensioso, e que me parece algo deslocado da realidade, que é o de Mortágua ser uma “pasmaceira”, uma vila onde nada se passa a nível da ocupação do tempo livre, cultural e desportivamente, evidenciando-se também alguma “letargia” da parte dos que gerem a nossa autarquia, dos “homens do leme”. Estou em crer que importa reagir perante uma análise desvirtuada e propagandista da actividade cultural mortaguense, que não será tão pobre como muitos a poderão querer pintar. O que me parece decisivo em primeira instância é que haja uma renovação de hábitos e mentalidades, se quisermos ter mais e melhor cultura no nosso concelho, porque não será sensato nem sequer aceitável julgar e responsabilizar em exclusivo a edilidade por toda e qualquer programação cultural, nas suas quantidade e qualidade. Deverá neste âmbito o papel do munícipe ser desconsiderado? Não creio, pois é co-responsável, e deverá portanto envolver-se. É necessário abandonar um pouco a “cultura do copo, do café e do cigarro”, que embora também tenha o seu valor como veículo de socialização, é vastas vezes demasiado consumidor, e adoptado como forma única de ocupar o tempo livre.. e há tantas maneiras mais enriquecedoras para o fazer!

Nunca nos devemos esquecer do valor que a cultura detém como bandeira de uma comunidade, um conceito que facilmente se relaciona com humanismo, pela agregação que permite, ou até pela simples expressão que evidencia, daí que nos compete cativar o munícipe para ela de uma forma esclarecida e assertiva. É dever da Autarquia de Mortágua não só dinamizar a sua própria actividade cultural como também promover e apoiar toda a iniciativa individual, motivando-a e valorizando-a, porque o sucesso desta colaboração e interacção é profícuo e determinante para a determinação da nossa “oferta”. Assim sendo, haja proactividade de cada um de nós nesse sentido! A chamada lei da oferta e da procura é sempre soberana, em todos os sectores, incluindo o cultural evidentemente, pelo que a agenda programada nunca poderá estar deslocada da realidade do nosso concelho. Promover a cultura sim, mas com racionalismo, adequação e sentido de oportunidade, esperando também uma resposta da parte da população, que deverá valorizar o esforço empreendido no sentido de estimular mais ainda a arte, o desporto, a animação e o lazer no nosso concelho. Se reflectirmos um bocadinho que seja em torno da actividade cultural e ocupação das crianças, jovens e adultos de Mortágua, será o nosso cartaz assim tão fraco e pouco apelativo, avaliando-o em relação com as expectativas e o fervor cultural das nossas gentes? Para fazermos mais e melhor, que será sempre o objectivo primeiro e a principal linha orientadora da actividade da Autarquia, importa exortar os munícipes para que estimulem a sua própria culturalidade, fomentando ainda a iniciativa individual em articulação com a agenda municipal, pois só assim poderemos melhorar o panorama local nesta área, com um esforço concertado e conjunto.

Muito resumidamente e com o objectivo de concretizar, poderei mencionar alguns programas municipais de Verão que se revelaram um verdadeiro sucesso, como as Férias Activas, a Universidade Júnior, o Fim de Semana Radical e os JEF - Jovens Estudantes em Férias, tanto ao nível da divulgação como da participação registada, com muitos dos inscritos a virem de um pouco de todo o país, o que prova claramente que Mortágua divulga o que organiza, como mostra a projecção que estes eventos têm vindo a adquirir de há uns tempos a esta parte. A XX Festa da Juventude e XII Feira das Associações também foi novamente um sucesso, com um balanço final francamente positivo. Quem não gosta de ir às “tasquinhas”, como carinhosamente o povo apelida a festa? A semana quente de Agosto que todos reservam para festejar em conjunto o nome de Mortágua e dos mortaguenses registou mais uma vez grande afluência, o que se saúda. Uma grande festa conjunta que apenas se torna possível pela força que o Associativismo tem no nosso concelho, o que se tem tornado por demais evidente pelas articulação e cooperação demonstradas na execução destas mesmas iniciativas.

De futuro, e entre outras, teremos no final do mês de Outubro o Fim de Semana da Lampantana, a primeira edição de um certame que se espera que venha a ter todo o sucesso e que se deseja realizar por muitos e longos anos, tendo como parceiros privilegiados os produtores locais de vinho e diversos empresários de restauração, certamente parte interessada nesta iniciativa que valoriza o roteiro gastronómico do nosso concelho. Temos também brevemente o Rally de Mortágua, prova que projecta como poucos o nome do concelho pelo país fora, assinalando-o no calendário desportivo motorizado nacional, e que também tem sido exemplo pelo rigor e competência da organização, tal como pelo bom comportamento do público, que adere sempre em grande número e de forma entusiasta. apenas se torna possível pela força que o Associativismo tem no nosso concelho, o que se tem tornado por demais evidente pelas articulação e cooperação demonstradas na execução destas mesmas iniciativas.
Partilhemos divertimentos e usufrutos mas partilhemos também iniciativas e responsabilidades, pois só com a colaboração de todos, sem excepção, poderemos continuar a lutar para fazer de Mortágua uma vila melhor, em todos os sectores.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O Novo Ano Lectivo

Arrumadas que estão as toalhas de praia e os chinelos de dedo, é hora de voltar ao trabalho nas escolas, com alunos, professores e diferentes agentes educativos a recuperarem as rotinas habituais do seu quotidiano de trabalho. Findas as férias e superadas as pequenas “depressões” sazonais e habituais deste período, eis que o ano lectivo 2010/2011 arrancou oficialmente a 13 de Setembro, desta vez com algumas novidades implementadas pela ministra Isabel Alçada, que dissecarei de seguida.

As alterações ainda foram bastantes e em diferentes áreas, mas começo pelo Estatuto do Aluno, que conheceu mudanças significativas, muitas estimuladas pelo intervencionismo político da oposição, nomeadamente em questões de disciplina e facilitismo vários, algumas com razão de ser, diga-se de justiça. Assim sendo, optou-se por recuperar algum rigor que tinha vindo a ser progressivamente suavizado, postura essa na qual me revejo, pois partilho a perspectiva da necessidade de haver um clima de exigência nos espaços escolares, conducente ao sucesso, a um melhor aproveitamento, que será o objectivo primeiro do sistema educativo – e o país precisa desse melhor aproveitamento.

Enumerando apenas algumas das medidas tomadas, começo pelo capítulo da assiduidade: acabam-se as provas de recuperação que se verificavam em caso de excesso de faltas, volta a fazer-se a distinção entre ausências justificadas e injustificadas e reduzem-se os prazos para accionar os procedimentos disciplinares em casos de incumprimento, agilizando assim o processo. Óptimo. É fundamental haver uma maior intransigência neste âmbito, que parece agora regressar, dado que num passado recente não existia, ou pelo menos não tinha tanta expressão. Por exemplo, se um aluno que faltasse sistematicamente às aulas não fosse retido, que sentido faria? Demagogias à parte, e sem querer debruçar-me especificamente sobre a sensível questão das reprovações, existem atitudes e formas de estar que terão sempre de ser salvaguardadas, sob o risco de um dia desvirtuarmos por completo a Escola, e a respectiva acção educativa. Neste sentido, aproveito também para saudar uma maior responsabilização parental que tem vindo a ser gradualmente implementada, uma das partes mais importantes na educação de um aluno, do ponto de vista global, e que me parece reforçada este ano. No 1º Ciclo o limite passa para apenas dez faltas injustificadas, sendo que nos restantes estas não poderão exceder o dobro das horas semanais por disciplina. Os pais serão sempre chamados à escola quando os seus educandos atingirem metade dos limites estabelecidos, e caso tal não seja possível cabe à escola participar a situação à Comissão de Protecção de Crianças e Jovens. É determinante que se juntem pais, professores e demais intervenientes no processo de formação dos nossos alunos, tanto do ponto de vista pedagógico como disciplinar. Graves casos de desaproveitamento ou mesmo de potencial marginalidade explicam-se muitas vezes pelo alheamento total dos primeiros responsáveis pela educação básica e acompanhamento das crianças, os seus progenitores, que tantas vezes descuram essa obrigação, entregando a responsabilidade quase em absoluto às escolas e aos professores. No capítulo disciplinar, destaque ainda para algumas medidas correctivas agora contempladas, que vão da simples advertência à determinação de tarefas de integração escolar e o condicionamento de acesso a certos espaços da escola. Caberá ao director julgar casos de reparação de eventuais danos provocados por alunos no património escolar, e a figura do professor volta a deter o poder de expulsão da sala de aula em situações que assim o justifiquem. Nada a opor, bem pelo contrário.

Outra das novidades deste ano lectivo é a reorganização da rede escolar, nomeadamente o encerramento inevitável de algumas escolas, inserido numa lógica de renovação e concentração que visa a igualdade de oportunidades, sem esquecer ainda os benefícios económicos que daí advêm. A reunião da população em grandes aglomerados é uma tendência generalizada à escala global e um fenómeno sociológico inquestionável, pelo que o grande “ruído” em torno destas novas políticas educativas relacionadas com o parque escolar têm um cariz predominantemente demagógico, salvo justificadas excepções, como é evidente. É preciso saber fazer a transição, serena e cuidadosamente, mas fará algum sentido manter escolas com 6 ou 7 alunos em serviço? Isabel Alçada admitiu recentemente a este propósito que o processo de agregação não correu bem, pelo menos da forma que desejava o Ministério, garantindo ainda que as comunidades locais vão passar a ser ouvidas em relação à tão mediatizada fusão de agrupamentos, articulação esta que me parece de natureza incontornável e que deveria ter sido prevista em todo o território, procurando compreender e dar resposta às inúmeras especificidades e problemáticas existentes em diferentes municípios, que devem sempre ser parte activa do processo decisório, uma vez que são os mais profundos conhecedores das realidades dos seus concelhos. Trata-se de um processo bastante sensível, que afecta a vida de muitas pessoas, pelo que deverá merecer toda a atenção das entidades competentes e ser tratado com as assertividade e prudência possíveis, com os interesses de todos defendidos e sem quaisquer “pressas” que perturbem o normal funcionamento das actividades, preocupação essa que a autarquia mortaguense claramente teve, apenas a título de exemplo. Outras poderiam, ou deveriam, ter seguido o exemplo.

Importa prevenir, articular e saber ser inteligente nas decisões tomadas, mas importa acima de tudo ter uma visão “avant-garde” de racionalismo administrativo rigoroso, porque só assim poderá haver uma boa gestão que lance sementes de qualidade para o futuro. E o futuro começa nas escolas..

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Crueldade Gratuita no Século XXI

Foi com grande satisfação, partilhada inclusivamente com alguns amigos de semelhante pensamento, que recebi a notícia da proibição das touradas na Catalunha. A iniciativa partiu de uma petição assinada por 180.000 pessoas, tendo sido a proposta legislativa popular aprovada no parlamento catalão com 68 votos a favor, 55 contra e nove abstenções, no passado dia 28 de Julho. O equilíbrio do resultado do sufrágio é evidente, embora nunca devamos esquecer que a Espanha será provavelmente o país com mais tradição tauromáquica, a par do México e de uns tantos outros, pelo que a aprovação da referida proposta ganha outro relevo, e torna-se até algo surpreendente. Estaremos nos tempos que correm a alimentar uma tendência de inversão de costumes? A discussão (re)acende-se no momento, e creio ser essa a necessidade premente em relação a este assunto: promover o debate.

Acaba aparentemente por ser uma questão de sensibilidade. Uns têm-na, já outros nem por isso. Temos o grupo de indivíduos que se sentem realmente indignados e revoltados com a crueldade que é exercida sobre os animais, sejam eles quais forem, como também temos o grupo de indivíduos que, à luz da “tradição” e dos “costumes”, encaram o espectáculo violento e sanguinário das arenas como uma forma de lazer, entretenimento, ou até desporto! Incluo-me claramente no primeiro, mas faço um esforço para respeitar e tentar compreender a argumentação dos defensores da tauromaquia, embora admita que se trata efectivamente de um grande esforço. Inútil até, confesso. Talvez por não ter nada a ver com essa forma de estar. Lá está, não sou assim. Gosto dos animais, da sua natureza, e tento respeitá-los, os animais e a sua natureza. Sem ofensa barata, confesso que será também por aí que me move a consideração pelos diversos agentes tauromáquicos. São animais como todos os outros, eu inclusive, e a verdade é que cada um é como é. As touradas quase que fazem lembrar outros tempos, em que se fazia um pouco ao contrário, substituindo toureiros por esfomeados leões, e touros por homens indefesos, no ancestral anfiteatro romano do Coliseu, à mercê da vontade do vil imperador Nero. Também aí as pessoas aplaudiam o sacrifício, a violência crua, a “classe” da execução. Quando será que o respeito pelos animais e pela sua dignidade serão valores mais tidos em consideração? Tenho fé que seja algures ainda por este século, embora lá no fundo tenha uma suave e desagradável convicção que tal assim não acontecerá.

As pessoas dão muito valor ao que é considerado “tradicional”, por isso é que a cultura de um povo precisa de largos anos para ir sendo substancialmente alterada na sua morfologia. Sucedem-se as manifestações de revolta contra os “anti”, multiplicam-se os insultos e a ira contra os que apregoam uma “mudança de mentalidades”. A tourada é de um sadismo absoluto, e creio que a discussão deva começar por aí: será sensata, ou racional até, a prática de espectáculos que promovam a violência no seu sentido mais básico, à luz da sociedade contemporânea, sejam elas perpetradas contra homens ou animais? Indigna-me profundamente este tipo de “tradições”, fazem-me quase lembrar as ainda actuais execuções islâmicas por apedrejamento, salvo o óbvio distanciamento, também são “tradição”. Ainda há relativamente pouco tempo fiquei completamente estupefacto com a notícia da execução de um jovem casal no norte do Afeganistão, nestes moldes, por suposto adultério. Em 2010. Com uma assistência de 150 pessoas, plateia e tudo! Sejam muçulmanos, cristãos, talibãs, ou o raio que os parta, quem lhes dá o direito de enterrar uma pessoa até à cintura e apedrejá-la até à morte? As pedras não podem ser suficientemente grandes para causar uma morte imediata, nem tão pouco suficientemente pequenas para que não causem quaisquer danos físicos. Geralmente, os homens são enterrados pela cintura, e as mulheres até ao pescoço. Louve-se alguma clemência para com o sexo feminino, com certeza que a morte será mais rápida e menos dolorosa.. mas o que é isto? O acto é de uma crueldade e barbaridade tal, que me custa imenso a aceitar que as autoridades internacionais não se imponham e intervenham, nos dias que correm. Onde está o respeito pela dignidade do ser humano, uma das prerrogativas base de organizações como a ONU, que supostamente deveriam zelar por, e agir congruente e coerentemente sobre? Parece haver uma espécie de conformismo letárgico e resignado em relação à matéria, um conformismo que me irrita. Evoluímos num sem número de aspectos como sociedade global, sem dúvida, já em outros de tão crassa elementaridade parecemos uns verdadeiros primitivos, animais desprovidos de qualquer racionalidade.

O que me move a adoptar esta postura não será o simples desprezo pela crueldade gratuita que por aí vá sendo infligida, nas mais variadas formas, nas mais diversas acepções. Importa-me agir, nem que seja unicamente na esfera da dimensão pessoal e individual, conivente com as ideias que defendi. Abordando o tema, promovo a reflexão, exorto a uma tomada de posição mais digna, mais humanista. Afinal o que vale a “tradição”? Não será apenas uma transmissão de práticas e de valores de geração em geração? Gostava que esta dita “transmissão” passasse por um rigoroso processo de harmonização e purificação, e fomento do respeito pela valorização da vida, seja ela humana ou animal. Um dia orgulhar-nos-emos de ter posto fim a práticas promotoras de crueldade gratuita, e aí sim, seremos pessoas melhores, e geraremos filhos melhores, estou certo. A Paz no mundo, por mais utópica que seja e longínqua que pareça, poderá sempre ser intentada quando assumirmos pequenos passos nesse sentido, como este, de abolição da atrocidade, da perversidade, da maldade no seu estado puro.

A Catalunha é apenas uma província espanhola, mas esta proibição abre um precedente, que precisa de ter continuidade. Haja coragem para o efeito, para melhor muda-se sempre, é uma importante forma de estar.

O respeito básico pelos animais é fértil, e bom conselheiro para o respeito básico pelo ser humano.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O Calor e a Morte

Está um calor abrasador. Suo muito enquanto escrevo, quase sem roupa mas longe de me sentir fresco, pois está realmente quente. Quem me estiver a ler deverá estar a pensar o porquê do título do artigo, e da associação dos respectivos conceitos, mas há uma razão muito simples que o fundamenta: o calor aumenta o risco de morte. Além desta verdade científica, eu próprio deambulo permanentemente entre pensamentos existencialistas diversos, e parece-me que o calor os tem estimulado, fazendo com que a vontade que tenho de escrever sobre assuntos harmoniosos e mais positivos não se sobreponha ao que escreverei, e que sinto que devo escrever. Começo pelo calor..

Os dados que circulam deixam poucas dúvidas aos cientistas, 2010 deverá bater novos recordes em relação ao degelo, e à temperatura no planeta. De acordo com as previsões de início do ano da Organização Meteorológica Mundial, a última década foi "a mais quente da História, com temperaturas superiores à média das do século XX", mas pelos vistos o pior ainda estará para vir, dado que o ano de 2010 poderá ficar na história como o mais quente de sempre, segundo dados relativos aos primeiros meses do corrente. Com o tempo quente a manter-se durante dias consecutivos, os problemas de saúde vão inevitavelmente aparecendo, especialmente em relação aos mais vulneráveis, a população idosa e as crianças, sendo que a afluência aos hospitais também tem aumentado substancialmente, uma subida sazonal e de natural explicação. A este propósito, refira-se que a Direcção-Geral de Saúde colocou sete distritos em alerta vermelho, o mais alto de três níveis, devido à persistência das temperaturas altas que continuam a afectar o país, informando que estas poderão provocar "graves problemas" para a saúde, pelo que os cuidados deverão "ser redobrados". Desde 2004 que a DGS tem vindo a apresentar anualmente um Plano de Contingência para as Ondas de Calor, que tem como objectivo geral minimizar os efeitos negativos do calor intenso na saúde das populações, através da disponibilização de toda a informação pertinente. Surgiu como uma resposta à letal vaga de calor de 2003, que se prolongou em algumas zonas do país por mais de duas semanas, tendo ficado associada a um excesso de mortalidade de 1.953 óbitos, com particular incidência em indivíduos com idades iguais ou superiores a 75 anos de idade. Os números estão aí e não deixam espaço para dúvidas, sendo por norma um excelente indicador para a aferição de determinadas realidades, pelo que resta alertar a população para tomar todas as precauções necessárias, porque o alarme associado não é hipotético ou casual, mas sim realista e factual.

Este ano, no nosso país, terá havido um excesso de 1.081 mortes por problemas associados ao calor, segundo estimativas calculadas pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. Serão estimativas apenas, que se baseiam em comparações feitas com a mortalidade ocorrida em períodos idênticos em que não houve temperaturas elevadas para a época. Entretanto, não é só por cá que o calor se sente, por toda a Europa tem havido uma vaga intensa que tem afectado a vida das populações, provocando dificuldades várias e um aumento da sinistralidade. Por tudo isto terá que haver uma atitude generalizada, à escala global, no sentido de combater a tendência, já mais do que provada pela comunidade científica. As alterações climáticas e a insustentabilidade do ambiente, causando ondas de calor cada vez mais frequentes e mais intensas, também afectam a saúde humana, e de que maneira! Agimos ou resignamo-nos?

Além do calor que me tem perturbado, também há a tragédia. Talvez decorra disso mesmo a natureza da dissertação entre estes dois conceitos que correlaciono. Além de um temor pessoal que tenho alimentado de há uns tempos a esta parte, natural e justificado, parece que o tempo quente o denota ainda mais, deixando-me envolvido em desagradáveis e resignadas sensações relacionadas com o sentido da vida, mais propriamente com o fim desta. Temos o natural e justificado, e temos também o abrupto e inexplicável, será que a nossa estrutura e construção enquanto pessoas deverá ser capaz de suportar e aceitar os tristes episódios com os quais temos forçosamente que lidar durante a vida? Há acontecimentos muito delicados, e situações muito específicas, e continua a ser bastante diferente o “sentir” do desaparecimento de alguém que nos é próximo, ou que estejamos habituados a ver, do que outro mais distante, e que acaba por se nos revelar indiferente, de certa forma. O que poderá passar na cabeça de algumas pessoas que as tornem capazes dos actos mais horrendos e impensáveis? O povo mortaguense foi abalado recentemente por mais uma tragédia, daquelas difíceis de explicar e, por conseguinte, de digerir. O brutal desaparecimento de uma senhora ilustre da terra, que já não residia por cá, fruto das vicissitudes da vida, mas que era parte do povo, pelos laços pessoais criados e pela sua longa ligação como professora, tal como pela associação a diversas iniciativas e movimentos culturais. Inexplicavelmente, porque nunca ciúmes ou esgotamentos nervosos serão explicação para um crime tão violento, pereceu o ser humano, mas a sua memória por certo que perdurará. É em situações como esta que o que faz sentido deixa de o fazer, e que a Razão de as coisas serem tal como são, como princípio ou fundamento, perde todo o seu significado, alimentando todos e quaisquer sentimentos de reacção negativa mais primários, como a revolta e a indignação pelo que se perdeu, mas que não se devia ter perdido. A vida é mesmo muito curta, e as despedidas são e serão sempre realmente dolorosas, sejam elas súbitas ou preparadas, se é que isso existe.

Terminando, cito uma mensagem deixada por outro recente desaparecido, o actor e encenador António Feio, já em consciência com a sua mórbida condição. Tão verdadeira, tão sentida, tão profunda. E que tantas vezes ignoramos.

“Se há coisa que eu costumo dizer, é: aproveitem a vida, e ajudem-se uns aos outros, apreciem cada momento, agradeçam, e não deixem nada por dizer, nada por fazer.”

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A Água

Não chove há aproximadamente um mês, e fazendo fé nas previsões meteorológicas, que têm vindo gradualmente a inverter a tendência de falharem quase sempre, estaremos pelo menos mais duas semanas sem qualquer “mm” de precipitação por km2, na nossa região. Tendo em conta que se avizinha Agosto, este período poderá ainda sofrer um aumento significativo, para deleite de muitos veraneantes preocupados sobretudo em banharem-se confortavelmente, mas também para agrura de muitos outros, talvez mais ainda, pela escassez do recurso. Com os tempos de crise aguda que correm, não serão numerosos os felizardos que se poderão dar ao luxo de passar uma semana no Algarve, ou mesmo quinze dias, já para não falar de férias no estrangeiro. A verdade é que o cinto está a apertar quase até travar a circulação sanguínea, e torna-se cada vez mais complicado pagar as contas. Os salários mantêm-se (ou já nem existem, salvo um qualquer subsídio!), e as despesas aumentam. É a prestação da casa, é o combustível do carro, é a conta do mercado, do gás, da electricidade e também da água! Cada um tem as suas obrigações, que uns cumprem com mais facilidade do que outros como é óbvio, mas privilegio no momento centrar o raciocínio no mais precioso dos líquidos que há no mundo, a água, uma fonte de preocupação que requer a atenção de todos, e que poderá com simples gestos ser mais poupada e melhor gasta, o que nem sempre acontece.

Às vezes é fácil demais ignorar a sorte que todos temos (ou quase todos…) em abrir a torneira e lavar as mãos, ou simplesmente para beber ou lavar a cara, quando tantos seres humanos existem por esse mundo fora que caminham quilómetros diariamente para poderem reunir um pouco de água para as suas necessidades mais básicas. Pode parecer difícil de acreditar, mas uma descarga de autoclismo num país desenvolvido consome um volume de água equivalente ao que é em média utilizado diariamente por uma pessoa num país em vias de desenvolvimento, para a sua higiene, para beber, para limpeza e para cozinhar. O “mundo” dos países ricos é completamente diferente do “mundo” dos países pobres, e por mais que nos procuremos mentalizar disso mesmo, seria preciso passarmos pela vivência de facto, no sentido de experienciarmos integralmente a carência e a necessidade, pois de outro modo torna-se difícil. Até podemos ser sensíveis à causa, interessados e solidários até, mas não fazemos ideia do que será. Tal como “eles”, que não farão ideia do que será viver num mundo “civilizado”, daí limitarem-se a subsistir com todas as suas carências mais básicas, provavelmente até mais felizes do que nós com todas as mordomias e comodidades, em muitos casos. São felizes pelo que têm, enquanto que nós sofremos pelo que não podemos ter. Lembro-me, a propósito, de uma situação prática, que um dia me fez pensar, num aeroporto de Londres. No meio de todo o aparato que normalmente caracteriza estes espaços, estava um bebedouro com um cartaz exibido onde facilmente se poderiam ler duas palavras de forma destacada: “Free Water”. Curioso, e provavelmente interessado na oportunidade, aproximei-me. A água que o reservatório do bebedouro continha estava escura, suja, imprópria para consumo. Por baixo das duas apelativas palavras, estava um pequeno texto que explicava a iniciativa e o objectivo, uma espécie de publicidade-choque com o intuito de alarmar a população para a falta que faz a água a tantos habitantes deste mundo, que não fazem ideia do que será ter à disposição água potável, “luxo” que poucos de nós valoriza. Enquanto muitas pessoas desfrutam soberbamente de relaxantes banhos de imersão, muitas outras morrem por não terem que beber, sabido que é que o ser humano resiste poucos dias sem hidratação, bastante menos do que sem alimento. Análise curta e fria, embora real.

A água é um bem ambiental indispensável às necessidades humanas básicas, como a saúde e a produção de alimentos, e é também indispensável ao desenvolvimento de actividades humanas, tendo assim uma influência determinante na qualidade de vida das populações e na manutenção de ecossistemas. A par da distribuição da riqueza monetária, também a discrepância na distribuição de recursos hídricos torna tão diferente o “mundo desenvolvido” do “mundo em vias” desse mesmo desenvolvimento! Mais de metade das reservas de água de todo o planeta encontram-se concentrados em apenas dez países, uma curiosidade estatística sobre esta temática que se revela bastante elucidativa. Claro que não podemos inverter toda uma realidade a nosso bel-prazer, mas estou em crer que nós, sociedade global, nos deveremos adaptar à escassez e até à perda de qualidade de água potável apostando na eficiência do consumo, optimizando a sua utilização, nem que seja das formas mais simples, e fomentando uma melhor distribuição, com o objectivo de chegar ao maior número de pessoas possível. Parece repetitivo o discurso, e até entediante para muitos, mas nunca será demais sublinhar que pequenas atitudes poderão sempre permitir um maior aproveitamento deste precioso recurso, fonte de vida.

Recentemente, a ministra do Ambiente Dulce Pássaro afirmou que o preço da água ao consumidor vai ter que subir, um aumento inevitável e necessário, alertando ainda para o facto de que, perante a lei, os municípios podem sempre estabelecer livremente a tarifa. Será justa a arbitrariedade legislada para este efeito, dados os diferentes preços praticados por esse país fora? Diferentes preços e facturação por diferentes escalões, que estou certo de que nem sempre serão estabelecidos numa óptica social, numa perspectiva de defesa dos mais necessitados.

Importa poupar o valiosíssimo recurso no plano individual, sem dúvida alguma, mas é também imprescindível que a distribuição e cobrança do mesmo sejam feitas de forma equitativa, criando um tarifário essencialmente justo.

A água é um bem essencial à vida, de primeira necessidade, e não convém que nos esqueçamos disso. Nunca.

sábado, 17 de julho de 2010

Futebolices...

Um rectângulo, uma bola e onze homens para cada lado. Para algumas pessoas não passará disto mesmo, mas a verdade é que o futebol consegue gerar um turbilhão de sentimentos como mais nenhum desporto, o verdadeiro ópio do povo, capaz de mover nações inteiras, fazendo por momentos “esquecer” crises, conflitos e dificuldades várias, juntando todos em torno de uma só paixão: a bola. Não sendo excepção da regra, resolvi debruçar-me sobre esta temática nesta edição, dado que decorre presentemente a maior das competições do desporto-rei. A maior, mas não necessariamente a melhor, uma vez que a qualidade do futebol praticado tem deixado um pouco a desejar por vezes, e não será menos pertinente lembrar a esse propósito que dificilmente se reúne tanto valor individual e colectivo num grupo de seleccionados de um país como num clube de grande prestígio e dimensão económica, apesar de algumas excepções. Num exercício de comparação com a Liga dos Campeões, a intensidade e o nível são outros, muito embora todo o jogador ambicione disputar um Mundial, sonhando com o lugar mais alto do pódio, privilégio reservado a um número muito restrito de atletas. Diferenças à parte, são os dois eventos de maior requinte futebolístico, sem dúvida alguma, mas atentemos à primeira competição que referi, e que tanta surpresa nos tem causado, a começar pela eliminação precoce da Itália e da França, habituais candidatas.

A nossa selecção, entretanto, chegou a África cheia de ambições e sonhos imensos. Uma selecção verdadeiramente candidata, diriam alguns, liderada por um Cristiano Ronaldo que de líder tem pouco, digo eu. Entrámos na competição num prestigiante terceiro lugar do ranking FIFA, mas acabámos por ser afastados por “nuestros hermanos” nos oitavos de final, sem apelo nem agravo, de forma justa, friamente analisando, pois a Espanha foi melhor. O grande problema deste resultado nem terá sido a derrota em si, mas a nossa dificuldade em digeri-la. Calaram-se as “vuvuzelas” nacionais no final desse desafio. É preciso saber perder também, não apenas ganhar, até porque não se pode sempre vencer. Uma lição aparentemente simples mas que parece não ter sido ainda interiorizada pelo nosso capitão, melhor jogador do mundo em 2008. Após promessas de “explosão” no torneio, a triste realidade é que nunca o jogador esteve lá quando a equipa precisou dele, acabando mesmo por protagonizar uma cena deplorável, e acima de tudo evitável, no final do derradeiro encontro, incapaz de controlar o seu assombroso mau perder, em imagens que correram mundo. Possesso, questionou a autoridade do seleccionador Queiroz e chegou ainda a apontá-lo directamente, quando confrontado sobre de quem seria a responsabilidade do afastamento. Enfim.. no fundo perderam todos, não apenas o treinador por ter tido pouca coragem em momentos chave, nem somente também a figura de proa da selecção, apesar do modestíssimo desempenho. Todos perderam.

No conjunto, fomos efectivamente inferiores a uma grande equipa, provavelmente a mais séria candidata a vencer o Campeonato Mundial, juntando-o ao Europeu conquistado há dois anos atrás. Uma Espanha que mais parece um verdadeiro carrossel a jogar futebol, com uma circulação de bola absolutamente fantástica, numa dinâmica táctica e técnica quase impossível de superar, dado que é tão eficaz nas transições e ocupação de espaços que torna complicadíssimo a qualquer equipa adversária impor o seu jogo. Sem pontos fracos, com um meio-campo deslumbrante e dois avançados de grande qualidade, é na minha opinião a maior candidata a alcançar o ceptro mais desejado, mas já se sabe que tudo se decide no relvado, dentro das quatro linhas, e será essa também uma das principais premissas da magia em que o futebol nos envolve: a sua imprevisibilidade, dado que tudo pode acontecer. É na realidade um fantástico e apaixonante desporto, caracterizador até da cultura de uma região, ou de um país. Como o nosso, Portugal, um país que ama realmente o futebol. Eu alinho pelo mesmo diapasão, indefectivelmente, muito embora considere aberrante o vencimento dos futebolistas, que ultrapassa mesmo o limite do razoável, e nunca é demais lembrar. Por dia, cada jogador da selecção em estágio auferia cerca de 800€, quase o dobro do salário mínimo nacional, que tantos por este país nem têm o privilégio de receber.. por mês! Já o mais bem pago jogador do mundo recebe do seu clube qualquer coisa como 27.300€ por dia, 1.137€ por hora, ou, se preferirem, 18€ por minuto. As verbas auferidas no estágio pela selecção devem ter-lhe parecido mais uma gorjeta do que outra coisa, mas vá, sempre deve ter ajudado a pagar o helicóptero em que se fez chegar junto dos colegas. Luxos de uma estrela planetária que ainda pouco ou nada conseguiu dar à nossa selecção, infelizmente. Muito embora a indústria da bola movimente verdadeiras fortunas, e os jogadores sejam os maiores protagonistas, não será ultrajante verificarmos rendimentos deste tipo num mundo de capital com tão acentuadas assimetrias económicas, onde o fosso entre os ricos e os pobres tem sido tão intensamente cavado? Acho inconcebível, mas é assim que as coisas são.

A sazonal e habitual “depressão” dos fãs da bola não vai durar muito tempo quando o Mundial acabar, uma vez que não tarda voltam os fins-de-semana desportivos, agora que estamos a entrar na fase de pré-época da nossa Liga. Benfica, Porto e Sporting são os candidatos de sempre, desta vez com a companhia de um Braga que já mais parece um “grande” também. Com os restantes rivais a reforçarem-se imenso, veremos como se porta o “meu” Benfica, espero que à altura.

Vamos trocar piadas com amigos, gritar golos marcados, lamentar os sofridos, protestar contra as decisões do juiz, enfim.. o habitual. O habitual, mas com emoção, porque o futebol é exactamente isso mesmo: paixão. Não é tudo na vida, claro, mas é uma paixão, sem dúvida, como tudo o que nos dá verdadeiro prazer.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Ensaio Sobre a Desconsideração

Na passada sexta-feira, 18 de Junho, a longa e riquíssima narrativa de vida do grande José Saramago conheceu o seu derradeiro epílogo, após muitas e valiosas linhas que sempre foram pautadas pela mais rígida das integridades e coerências, princípios-base dos quais o escritor nunca abdicou, permanentemente ciente e consciente dos seus direitos fundamentais de liberdade de expressão e liberdade religiosa. Por ser alguém que nunca se furtou a dizer o que lhe ia na alma, doesse a quem doesse, tornou-se natural a ideia de que gerou inúmeros anticorpos em muitas pessoas e grupos, por tudo o que a sua existência e posicionamento representaram, sempre firmes e imutáveis ideologicamente, e que acabaram por provocar animosidade em variadas frentes, principalmente religiosas e conservadoras, que sempre o consideraram um herege, um potencial perigo dado o espectro de influência que criou, chegando a muitos mesmo, graças à grandiosidade e reconhecimento da sua obra. Uma coisa é certa e ninguém o poderá acusar do contrário, nunca se inibiu de transparecer as suas convicções pessoais, por vezes fortes e contundentes, pois era um homem verdadeiro e verdadeiramente lúcido, virtudes que vão rareando cada vez mais no tecido humano que compõe a sociedade contemporânea.

Sinto-me identificado com muitos dos valores defendidos por Saramago, embora tenha também algumas divergências de pontos de vista relativamente a algumas situações e respectivas análises efectuadas pelo escritor, mas a imensidão e profundidade da sua consciência e do seu carácter enquanto indivíduo há muito que me cativou e fez render por completo, tal como a naturalidade e pragmatismo existencialista com que encarava a vida e a sua inevitável transitoriedade. Até nisso era genuinamente tremendo e distinto dos demais. Um monumento vivo que, mesmo falecendo e desaparecendo fisicamente, se tornou imortal e assim perdurará no tempo, enorme que é a sua influência e inspiração junto de milhões de pessoas. Isto porque Saramago não era somente um notável cidadão português, era um cidadão do mundo, talvez demasiado grandioso para este nosso pequeno pedaço de terra à beira-mar plantado, mas que no mais intenso e verdadeiro dos momentos não renegou e insistiu para que fosse a sua última morada. É triste constatá-lo, mas por vezes parece que não merecemos ter gente deste calibre entre os nossos, dada a pouca atenção e relevo que a sua morte mereceu ao maior dos representantes da nação, o Presidente da República, ausente do funeral do escritor, incapaz de adiar a promessa à sua família “de lhes mostrar a beleza da região” dos Açores, parafraseando o próprio. Perdeu-se um autêntico e genuíno símbolo da identidade nacional e porta-estandarte da Língua Portuguesa, mas Cavaco justificou e minimizou a sua ausência das cerimónias fúnebres com a redacção (sentida?) de uma nota oficial prestando homenagem à obra e ao contributo para a projecção da cultura portuguesa no mundo, referindo ainda que era apenas essa a sua “obrigação” enquanto chefe de Estado. Pior ainda e verdadeiramente ridículo foi ter também afirmado que o que deve fazer nessa qualidade é “diferente daquilo que deve ser feito pelos amigos”. O que Cavaco Silva mostrou claramente foi não ter a capacidade de dissociar o cidadão que é da instituição que representa como figura suprema de uma nação. Mais do que faltar ao respeito a Saramago, à sua família, à sua memória e à grandiosidade da sua obra, o presidente faltou ainda ao respeito a todos os portugueses enquanto povo que chora a perda de um dos filhos mais ilustres que viu nascer ao longo dos mais de 800 anos de toda a sua História, um dos maiores vultos de sempre da arte e cultura nacionais, e distinguidíssima bandeira da literatura mundial, como a sua consagração Nobel facilmente atesta. Era sabido que ambas as personalidades alimentavam um conflito pessoal e ideológico, já desde o tempo em que Cavaco, na qualidade de primeiro-ministro, recusou que “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” pudesse concorrer ao prestigiado Prémio Literário Europeu, sob o pretexto que esta obra não representava o “seu” Portugal predominantemente católico, o que naturalmente causou a maior das tristezas e indignações no autor da mesma. O erro maior foi ter permitido que esta autêntica “birrinha” pessoal se sobrepusesse às competências que o seu cargo consagra, juntando-se conservadoramente à sua tão adorada Igreja, do lado daqueles que nutrem um especial ódio de estimação pelo grande escritor. Todas as homenagens e honras de Estado seriam merecidas, porque Saramago era todo ele meritório de toda essa mesma consideração. Manuel Alegre sabiamente analisou a polémica que a obra do seu colega escritor gerou, quando afirmou que "… ao Saramago não se perdoa ser um português que se atreveu a ganhar o Prémio Nobel da Literatura e que diz que não acredita em Deus”. Também me parece que ainda assim seja para muitos.

O recentemente desaparecido escritor podia aparentar ser duro de roer e imperturbavelmente indiferente a certas realidades, mas era um homem de uma sensibilidade extrema e inabalável. Recordo um pequeno vídeo que me tocou profundamente, em que chora de forma verdadeiramente emocionada quando o realizador Fernando Meirelles lhe apresenta em primeira mão o seu filme inspirado na obra “Ensaio Sobre a Cegueira”, dizendo Saramago nesse instante que ficou tão feliz como no momento em que terminou de escrever o livro. Verdadeiro, como sempre foi, e consciente como poucos, até em relação à aproximação da sua morte, e da naturalidade e inevitabilidade da mesma, como parte incontornável da condição humana.

“Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais.” - JS

sexta-feira, 11 de junho de 2010

"A Vida Está Para Ti"

Ainda há bem pouco tempo S. Pedro nos fustigava com repetitivos dias curtos e cinzentos, pautados por céus repletos de nuvens carregadas com esse bem precioso que é a água, capaz de gerar ódios nas pessoas quando insistentemente se precipita sobre as nossas cabeças, mas também capaz de gerar em nós um justificado contentamento, quando após dias e semanas de prolongada seca surge como que um verdadeiro oásis, para rejúbilo de todos nós que conscientemente temos noção do seu imenso e imprescindível valor. Entretanto, as nuvens dissiparam-se e deram-nos algumas tréguas, abrindo caminho ao tão adorado Sol e aos seus resplandecentes raios, que nos aquecem, iluminam e tornam os dias maiores e mais bem-dispostos, neste tão aguardado momento do ano em que nem a Natureza se furta a acompanhar-nos nesta alegre e verdejante transição sazonal: está a chegar o Verão!

Acaba uma fase para dar lugar a outra, e é inevitável que assim seja sempre, porque tudo na vida tem o seu tempo. Crianças, adolescentes e jovens adultos passam também por estas alturas por momentos de grandes transformações e redefinições nos seus percursos, com o encerramento do ano lectivo e, em muitos casos, de um inteiro ciclo de aprendizagens e convivências que agora termina. Lembro-me por exemplo do momento da conclusão do 12º ano, e tão marcante que este se revela na continuação da construção da personalidade do indivíduo, pela grande decisão que tomará e que se estenderá por toda a sua existência no plano profissional, mas também pelo culminar de um trajecto tão especial, onde se desenvolveram muitos relacionamentos, sentimentos e experiências, onde se cultivaram amizades, intimidades e companheirismos para a vida toda. Se muitos se candidatam ao ensino superior para poderem alcançar uma maior qualificação que lhes permita um futuro melhor, também não é menos verdade que muitos passam de imediato para o mundo do trabalho, uns por opção e outros por impossibilidade ou infeliz necessidade. Mais tarde ou mais cedo, é certo que todos acabam por encerrar esse tão importante capítulo de estudante, para muitos das melhores fases da vida, sendo que também este ciclo terá forçosamente que ter um fim, porque tudo na vida tem o seu tempo.

Há relativamente pouco tempo alguém me disse “a vida está para ti”, e se no momento devo ter esboçado uma qualquer reacção superficial e pouco reflectida do género “está, está..”, como que refutando o meu interlocutor com um sorriso meio embaraçado, a verdade é que a frase mexeu comigo e me deixou a pensar numa série de diferentes vivências, transições e realidades. Cada vez mais me convenço que devemos aproveitar ao máximo o agora, que em breve não volta, só deixa a saudade. Além disso, também considero que nunca devemos esquecer daquilo que é realmente importante. Viver. Alimentar as nossas paixões e o que nos dá prazer. A vida não é só coisas boas e episódios bons, pelo que nos resta valorizar e usufruir de todos aqueles momentos especiais que um dia recordaremos com agradável lembrança. Tal como em relação a pessoas que nos marcaram profundamente e em relação às quais nos teremos inevitavelmente que separar um dia, por uma razão ou outra, pois tudo é cíclico. Tudo é cíclico, por mais complicado que por vezes possa ser, e julgo que o devemos encarar com toda a naturalidade possível, restando-nos sempre olhar em frente e de cabeça erguida, até ao fim. Independentemente de tudo de bom ou de mau que possa acontecer, a nossa “casca” vai sempre enrijecendo, e em boa verdade ficamos todos os dias mais fortes do que nos anteriores. Daí a importância do controlo emocional, no sentido de permanecermos positivamente fiéis ao imediato, confiantes, sem grandes projecções de longo prazo que possam redundar em fracasso, por esta ou aquela razão. Uma forma simples de combatermos eventuais pessimismos de um ponto de vista optimista. Um passo de cada vez, vivendo um dia após o outro, o que não significa que não se estabeleçam metas e objectivos. Para quê sofrer por antecipação? Nos tempos complicados que correm não é fácil anteverem-se cenários cor-de-rosa, pelo que nos resta trabalhar sempre, fazer pela vida, pela nossa e pela dos que nos rodeiam. Imperativo torna-se ainda nunca descurar a fruição do instante, sem reservas preconceituosas ou de natureza hesitante, dado que a vida é efémera, e muitos são os exemplos daqueles que pura e simplesmente a deixam passar.

A sequência criança/adolescente/adulto/idoso é fugaz, a memória é que faz o indivíduo. O que pareceu ontem já foi há imensos anos atrás, o relógio não pára. Nunca. Daí a necessidade de darmos sentido às coisas e às pessoas, por isso os “nossos” se tornam tão importantes. “A vida está para ti”. Será? Recorrentemente me lembro de um filme em que o professor de um colégio interno se dirige aos alunos e apela-lhes gloriosamente numa lógica de Carpe Diem: “Aproveitem o dia rapazes, tornem as vossas vidas extraordinárias”. Fantástica filosofia, que procuro recordar sempre que me sinto a entorpecer, ou quando me pareço apenas mais um. Temos tempo para experimentar tudo, também para sabermos o que queremos ser, e ter. Devemos no entanto ter noção dos perigos que eventualmente poderemos correr, sem nunca nos entregarmos de corpo e alma a algo que saibamos de antemão que poderá causar-nos sérios transtornos, a nós ou aos “nossos”. Da melhor maneira possível, vivendo tudo o que pudermos, mas com conta, peso e medida. Já dizia um artista, “nunca vamos sobreviver se não formos um pouco loucos”. Será talvez a mais complexa de todas as ciências: saber viver. Sentimentos comuns a todos, mas únicos dentro de cada um de nós.

O momento é este, a vida está para nós todos. Tudo tem o seu tempo, e o nosso é agora.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Realismo e Bom Senso

No passado dia 17 de Maio o nosso estimado Presidente da República Cavaco Silva entendeu por bem convocar a comunicação social para uma conferência a realizar-se no Palácio de Belém, com o objectivo de se dirigir ao país e revelar a sua decisão pessoal em torno da lei do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Surpreendentemente ou não, Cavaco acabou por se decidir pela promulgação da referida lei, quando muitos esperavam que a vetasse, eu incluído. Afinal de contas, teria sido coerente consigo próprio, pública que é a sua posição discordante em relação ao assunto, o que bem ilustra a acentuada feição conservadora que a sua personalidade encerra, pouco coadunável com o desejado espírito de abertura que deverá caracterizar a mais alta figura do Estado, em consciência com a emergência de outros valores na sociedade contemporânea, diferentes dos verificados há 30, 40 anos atrás. A visão dogmática cavaquista relativamente à oficialização da união homossexual não o demoveu de aprovar a referida lei, para “não arrastar inutilmente o debate”, dado que face à grave crise que o país atravessa importa “promover a união dos portugueses e não dividi-los”. Fala o presidente em “postura de união e não de ruptura”, a mim parece-me mais eleitoralismo claro e posicionamento hipócrita. Não me revejo num presidente que opta por não ser verdadeiro consigo próprio, independentemente do pragmatismo operacional da sua decisão, dado que tudo indica que o diploma seria aprovado de qualquer forma pelo Parlamento, mesmo que Cavaco Silva o vetasse. Acredito nas pessoas de fortes convicções e que as levam em todas as circunstâncias avante sem nunca hesitar, com a maior das determinações, talvez seja por isso que não me reveja na respectiva tomada de posição. O presidente atacou ainda duramente a classe política em geral, por não ter conseguido reunir consenso de modo a alcançar o acordo, dado que não terá “feito um esforço sério nesse sentido”, como que se afastasse por instantes da famosa “cooperação estratégica” que sempre pautou o seu mandato até agora, anunciado em primeira mão pelo próprio, será que esta entretanto fracassou? A denominação sempre me deu a ideia da partilha da governação, quando o desejável seria uma cooperação institucional, articulada mas independente. Estaria o presidente demasiado ocupado com o acompanhamento a “full time” da visita do Papa para não ter “cooperado estrategicamente” na resolução da questão? No decorrer da campanha presidencial de 2006, vastas vezes me lembro de ouvir que era fundamental termos um presidente entendido em matérias económicas, no sentido de combater as dificuldades que se verificavam na altura e que entretanto se avolumaram de uma forma substancial. Torna-se pertinente perguntar: será que valeu a pena? Terá sido a “cooperação estratégica” um fracasso ou será Cavaco Silva alheio ao rumo que a nossa governação tem seguido? Será a crise económica portuguesa da exclusiva responsabilidade de Sócrates e do governo socialista, ou será que a conjuntura internacional a que Portugal está organicamente ligado como membro da União Europeia teve influência determinante na evolução negativa do défice e no aumento galopante do desemprego? Perguntas engraçadas, que terão com certeza respostas distintas à esquerda e à direita. Parece-me evidente no entanto que se em 2006 o povo português elegeu convictamente Cavaco Silva como solução para a crise económica, estará agora com certeza frustrado com os resultados obtidos, quatro anos depois. Apesar de não ter nele votado, eu estou.

Não pretendo fazer um exercício de análise ao desempenho do nosso presidente e às eleições presidenciais, debruçar-me-ei sobre o assunto num futuro próximo. Parece-me que ainda muita água irá passar por baixo da ponte, como se costuma dizer. No entanto, e sendo certo que teremos novamente eleições dentro de pouco tempo, penso que será fundamental que todos os agentes políticos sejam absolutamente transparentes e verdadeiros de uma forma coerente, pelo que apelo ao realismo. Não suporto constatar que o povo anda a ser enganado. Face à crise instaurada, de dimensões efectivamente preocupantes, reveste-se de particular urgência adoptar discursos e posturas francas e realistas, desde as instituições governamentais até ao singular “Zé Povinho”, pelo que apelo ao bom senso. É fundamental perceber que não se pode gastar mais do que se deve, ou melhor, do que se pode. Exactamente da mesma forma como cada um gere a sua própria habitação e respectivos encargos, quem ganha 100 não pode gastar 120! A actualidade e os dados que vão circulando dizem-nos o contrário, no entanto. Mesmo com os spreads nos bancos ao rubro, o recurso ao crédito à habitação tem registado um aumento preocupante. Tendo em conta que o crédito malparado não pára de crescer também, com os portugueses a não conseguirem cumprir com as suas obrigações, torna-se difícil efectuar uma leitura das estatísticas sem um pouco de ironia à mistura. Crise? Qual crise? Por outro lado, o Estado pede-nos grandes sacrifícios, no sentido de serem adoptadas medidas austeras de combate ao défice, no fundo para amortizarmos a dívida pública, pagarmos o que devemos. Isto ao mesmo tempo que adjudica grandes obras de custos avultadíssimos, no seu entender essenciais para a criação de emprego e revitalização económica. Concordo em absoluto com esta sobeja necessidade, mas creio que deverá ser realista e executada em conformidade com as nossas possibilidades, que no momento são escassas, o que deveria levar a uma reflexão profunda por parte dos agentes decisores, permitindo assim um mais sensato apurar de prioridades. Neste âmbito, parece-me determinante colocar as pessoas no centro dessa ponderação, as mesmas que são permanentemente sujeitas a pedidos de contenção e sacrifícios, e que muitas vezes não são particularmente privilegiadas pelas opções que vão sendo tomadas. Refiro-me, por exemplo, à reavaliação da Auto-Estradas do Centro, um investimento tão determinante e necessário para o desenvolvimento regional local, mas que o Executivo parece não colocar no primeiro plano de prioridades.

É de lamentar, pelo que apelo ao realismo e ao bom senso.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A Nossa (In)Justiça

É sabido que os problemas conjunturais que o país atravessa são mais que muitos, sendo necessário procurar soluções para combater as inúmeras fragilidades e inoperâncias que temos revelado possuir. Este processo deverá ser contínuo e ininterrupto, um aperfeiçoamento permanente cuja responsabilidade caberá sempre em primeira instância ao Governo vigente, mas que deverá sempre ser alvo de uma discussão na praça pública que se deseja pertinente e oportuna, onde partidos de oposição e a sociedade civil em geral deverão participar de forma construtiva, o que infelizmente nem sempre acontece.

Um dos sectores que me prendeu recentemente particular atenção foi o da Justiça, para muitos um dos mais débeis no nosso país. Não esqueçamos que os tribunais são um dos órgãos de soberania definidos na nossa Constituição, configurando-se como determinantes no funcionamento da comunidade, pelo que será sempre de grande importância discutir as suas falhas e ineficiências, e imensas que elas são, senão vejamos: não há celeridade alguma, dado que os processos se arrastam indefinidamente por serem em elevado número e por haver falta de recursos humanos e infra-estruturais; outro factor que também contribuirá para a morosidade da resolução de alguns processos é a possibilidade de surgirem recursos e mais recursos, dando azo a “manobras” que muitas vezes resultam na impunidade de eventuais culpados; a Justiça acaba também por ser desigual, uma vez que o estatuto social e consequente condição financeira do indivíduo se revelam fundamentais na obtenção de bons advogados, que lhe permitam fazer valer os seus direitos na plenitude; é esta mesma indisponibilidade financeira que não permite que muitos indivíduos iniciem acções judiciais, dado não poderem sustentá-las, o que faz com que a Justiça não seja, efectivamente, para todos. Existe lamentavelmente essa mentalidade, “…valerá a pena?”

Continuando a analisar o estado da nossa Justiça, houve uma entrevista que li há uns tempos e me deixou alarmado, retirando daí o tema para o qual me procuro debruçar no presente artigo: a nova lei de execução de penas. O entrevistado era Medina Carreira, antigo ministro das Finanças de Mário Soares, um profeta da desgraça para uns, uma voz lúcida para outros. Trata-se de alguém que continua a agitar o país com os diagnósticos que vai fazendo, por norma com um tom duro, bastante objectivo e frontal, que talvez por ser na maior parte das vezes profundamente incisivo e politicamente incorrecto até já tenha ganho fama de “louco”. Enfim.. Considerações à parte, a verdade é que o fiscalista tem o condão de saber colocar o dedo na ferida, o que, convenhamos, se reveste por vastas vezes de grande utilidade. Dizia Carreira na referida entrevista que “… a nova lei de execução de penas, que permite a um indivíduo sair da prisão ao fim de seis anos, depois de ter sido condenado a 25, é uma vergonha!”

Não consigo estar mais de acordo. Basta pensar na gravidade de alguns crimes que por aí se vão cometendo para verificar que o aligeirar de algumas penas será absolutamente surreal. Não há bom comportamento ou atenuante algum que permita reduzir de forma tão expressiva uma pena máxima que, a meu ver, já por si se revela bastante branda em determinadas situações. Poderei transparecer algum conservadorismo, mas há limites para tudo, e não me parece minimamente lógico e viável reinserir na sociedade criminosos da pior estirpe, ao fim de poucos anos. A moldura penal máxima no nosso país, de 25 anos, é também muito suave dada a gravidade de alguns crimes. Recordo o caso do “serial killer” de Santa Comba Dão, que em 2007 foi condenado à pena maior pelo assassinato de três raparigas de idades compreendidas entre os 16 e os 18 anos. Raptou, violou, matou, esquartejou e por fim ainda ocultou os cadáveres. Mas há mais, durante a investigação e condenação nunca exteriorizou quaisquer sentimentos de culpa. Haverá alguém que não considere os 25 anos de condenação completamente desajustados com a natureza do crime?

Já a famosa Leonor Cipriano foi condenada no também famoso caso Joana, sua filha. Juntamente com o tio da menina assassinou-a friamente, após esta os ter apanhado em flagrante no consumar de um acto sexual. A brutalidade do crime tem contornos semelhantes ao exemplo que referi anteriormente, e resultou numa pena de apenas 16 anos de prisão, como é possível? Condenada em 2004, já cumpriu assim um quarto do mandado, requisito que lhe permite solicitar a alteração do regime de pena, podendo assim ser libertada sem vigilância por períodos de sete dias, a cada quatro meses. O advogado de Leonor já deu início ao processo, à luz da nova lei. Se tudo correr dentro da normalidade, poderá depois solicitar regime aberto no exterior, cujo princípio fundamental é que o condenado pode, se não oferecer perigosidade (!), cumprir a pena trabalhando no exterior durante o dia e regressando à sua cela para passar a noite.

Será no mínimo uma discussão muito sensível do ponto de vista ético, mas parece-me completamente irracional haver lugar para situações deste tipo na justiça portuguesa, ou na de qualquer outro país. Preocupa-me de sobremaneira que o cidadão comum possa interagir a qualquer instante com um qualquer psicopata “regenerado” por esse país fora. Torna-se legítimo para todos os pais e mães viverem sobressaltados com esta realidade, pelo que considero de grande importância a revisão de medidas que favoreçam situações injustas e potencialmente perigosas. Um clima de facilitismo e condescendência não será o mais adequado a um sistema judicial que se pretende exemplarmente correctivo e regulador, e que deveria dissuadir veementemente todo e qualquer comportamento criminoso grave de indivíduos cuja potencial reincidência possa provocar um justo receio de alarme social. Como se já não bastassem todos os outros “alarmes” que vão soando na Economia, nas Finanças, na Educação, na Saúde..

A verdade é que a nossa Justiça é esta!

Não pode ser.