sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Estado de Sítio

O cenário natural é deslumbrante, um destino de férias provável para muitos habitantes do mundo que efectivamente têm possibilidades económicas para viajarem e se instalarem nos mais luxuosos resorts que guarnecem as Caraíbas, região de sumptuosas praias onde a água límpida, as areias finas e as inevitáveis palmeiras preenchem o imaginário de muitos que, como eu, um dia as sonharão visitar. Este idílico retrato paisagístico que acabo de descrever foi o palco de uma catástrofe de proporções gigantescas no passado dia 13 de Janeiro, em mais um daqueles episódios que nos fazem reflectir em torno da pequenez do ser humano perante a impetuosa fúria da Natureza. A terra tremeu justamente sob uma nação já de si debilitada e dependente, arrasando por completo edifícios e pessoas, numa tragédia humana de larga escala e de consequências ainda algo incertas, sendo certo que a irreversibilidade dos danos provocados originará sempre um antes e um depois na História do país – a República do Haiti.

Atentemos nos números, sempre reveladores da realidade, e que no caso concreto deste país são particularmente negros, sendo mesmo considerado o mais pobre de toda a América Latina. De um total de 182 países, ocupa o 149º posto no Índice de Desenvolvimento da ONU, tem uma taxa de alfabetização de apenas 62,1% e, segundo a International Transparency, é ainda um dos mais corruptos do mundo, surgindo na 177ª posição. Mais de metade dos haitianos não tem trabalho, 72,1% da população vive com menos de 2 dólares por dia. Mais ainda, 42% não tem acesso a água potável. A miséria já era evidente, mas o que agora se verifica é um verdadeiro tumulto, o caos generalizado pós-sismo. A capital do país está em ruínas, e a sua população, a que não sucumbiu no meio dos escombros, luta ferozmente pela sobrevivência. Não há água, não há alimentos. As necessidades são totais, porque não há nada. Rigorosamente nada. A maior parte das infra-estruturas estão destruídas, os feridos não têm um hospital para serem tratados, sendo muitos os que acabam por morrer por não terem assistência médica, por mais básica que seja. A devastação foi de tal forma intensa que as equipas de ajuda humanitária depararam-se com grandes obstáculos para conseguir chegar às zonas mais atingidas. Três dias depois, finalmente chegaram. Setenta e duas longas horas, é difícil de imaginar o desespero das pessoas. Como se já não bastasse o cenário apocalíptico provocado pelo abalo, rapidamente surgiu a violência. A prisão de Carrefour, construída em 1915 e com capacidade para 1200 detidos, tinha cerca de 3908 encarcerados (!) à data do sismo, sendo que grande parte deles escapou. As pilhagens e as execuções em praça pública eram a face visível da lei da selva que imperou nos dias seguintes ao colapso. De um lado criminosos armados da pior estirpe, de outro pessoas feridas, famintas e desesperadas, lutando como podiam pela sua sobrevivência. Torna-se difícil para mim conseguir imaginar o cenário das ruas, os corpos amontoados no meio do entulho, a pestilência que torna o ar irrespirável, um ambiente verdadeiramente macabro. Digno de Dante.

As organizações internacionais chegaram e foram imediatamente absorvidas pelos trabalhos que tiveram início: assistência médica, resgate de sobreviventes, segurança, distribuição de água e alimento. As necessidades são imensas e os meios são escassos. Ainda não se pensa na reconstrução, há muito para fazer entretanto. Muitos criticaram a demora da chegada da ajuda, e mesmo não estando por dentro da orgânica e da plataforma logística da intervenção facilmente nos apercebemos de descoordenações entre os vários agentes envolvidos. As ofertas e doações provenientes de todo o mundo iam chegando ao aeroporto, mas a sua distribuição era notoriamente deficiente. A segurança foi e continua a ser outra das grandes preocupações, a par das intervenções junto dos feridos, na sua maioria com membros esmagados pelo colapso dos edifícios. O resgate de sobreviventes começa a deixar de fazer sentido, dizem que sete dias é o limite para encontrar gente com vida, mas como em todas os desastres naturais, os “milagres” também acontecem. O menino de 5 anos encontrado após uma semana, que ninguém sabe justificar como conseguiu resistir, a senhora de 69 anos que comoveu uma equipa de resgate mexicana, tendo sido retirada dos escombros da igreja onde rezava aquando do terramoto a… cantar. Tocante. Dada a ruína total ou parcial da maioria dos edifícios institucionais, podemos dizer que o Estado foi fisicamente destruído. O colapso do Palácio Presidencial, símbolo do poder haitiano, simboliza-o. A inoperância governativa verificou-se nas horas a seguir à tragédia, não havia sinal dos responsáveis, que nada fizeram para prestar auxílio às vítimas, a não ser implorar por ajuda do exterior. A reconstrução da nação será lenta e, sobretudo, complicada. Não basta reerguer edifícios se não houver garantias de uma situação política minimamente estável para consolidar a recuperação, garantias essas que o povo do Haiti nunca teve ao longo da sua História. A dependência em relação ao resto do mundo é total, mas importa preservar a identidade da nação, tal como a cultura e o legado dos seus cidadãos.

Nunca será demais lembrar que ainda recentemente sentimos um tremor cujo epicentro não terá sido muito longe da costa algarvia, o mais sentido desde 1969. A memória do grande terramoto de 1755 também não foi apagada, será que estaremos preparados para enfrentar outro de dimensão e impacto semelhantes? Importa dotar a Protecção Civil de todas as ferramentas necessárias para a melhor gestão possível de uma eventual catástrofe, tal como apostar na prevenção, nomeadamente em relação à concepção construtiva dos edifícios, e inerente legislação. Lisboa é, de facto, frágil, e se ocorresse um sismo com a mesma intensidade do Haiti os estragos seriam menores, mas por certo devastadores. Torna-se fundamental que haja uma estrutura organizacional global, que possa agir de imediato se o pior acontecer, porque… pode acontecer! Após a tragédia de 13 de Janeiro, cuja dimensão ainda não é bem definida mas que aponta para mais de 200 mil desaparecidos, a Guatemala já foi sacudida por um abalo de 6.0 na escala de Richter.
A pergunta impõe-se: quem virá a seguir?

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O Medo da Desgraça é Pior do que a Desgraça

Não creio que exista “opinionista” algum no mundo que resista à tentação, por estas alturas, de fazer um balanço do ano findo e, de certa forma, projectar alguns cenários possíveis para o ano vindouro. Eu, pretendendo distanciar-me de alguma maneira de quaisquer estereótipos textuais ou formatos pré-concebidos, acabei por dar comigo a reflectir em torno da mesma temática, até porque considero que tal exercício será, sobretudo, saudável e revigorante. É sempre positivo procurarmos sair da nossa esfera pessoal, como que nos suspendêssemos por instantes por cima das nossas cabeças, e efectuarmos uma espécie de reflexão avaliativa da nossa existência, obviamente com o intuito de melhorar, seja em que aspecto for. Parece-me bastante enriquecedor que se investigue os erros cometidos no passado, procurando atingir clarificações válidas no que toca a relações causa/efeito/consequência, no sentido de adoptar posturas para o futuro que, de certa forma, evitem que o indivíduo caia nos mesmos erros, que tropece nos mesmos obstáculos. Isto chama-se desenvolvimento positivo, aplicável não só no plano pessoal, como também no plano político e social, isto é, todos podemos, e devemos, melhorar com o decorrer do tempo, pois é fundamental que todos tenhamos permanentemente uma atitude auto-correctiva, pessoas e grupos.

Após o Natal, e aproximando-se o final do ano, é natural que no fundo todos estejamos um pouco mais sensíveis para determinadas áreas das nossas vidas, procurando mudar este ou aquele hábito, dissuadir este ou aquele vício que, lá mesmo no fundo, consideramos nefasto para as nossas vidas. Não sendo uma tarefa fácil, é certo que uns são melhores do que outros no desempenho desta função. Importa estabelecer objectivos, mas é ainda mais importante ter sempre presente o realismo no momento da definição destes. Grandes listas preenchidas com grandes objectivos redundam, na maioria dos casos, num fracasso total. Valorizo a ambição, considero-a construtiva e enobrecedora, mas penso que esta deverá ser realista, pois devemos dar passos pequenos e seguros, e acima de tudo de forma gradual, ou seja, um de cada vez.
2009 foi um ano muito complicado no entender de muitas pessoas, frutuoso no entender de outras, sendo que vários aspectos poderão ser destacados, positivos e negativos, embora no momento me procure centrar apenas em algumas questões que considero pertinentes, sem grandes pretensões de fazer um balanço exaustivo e rigoroso acerca do que realmente experienciámos no ano transacto. Sim, ano transacto, é verdade que já estamos em 2010, e se olharmos à nossa volta talvez as coisas não estejam assim tão diferentes, por vezes a forma como encaramos o mundo e nós próprios é que torna as coisas diferentes, temos sempre a capacidade de escurecer ou clarear tudo o que seja cenário, retrato, perspectiva. E isto, parecendo redutor, parece-me determinante. A perspectiva. A tendência da nossa perspectiva. O positivismo ou negativismo que reveste o nosso olhar, o nosso interior, a nossa sensibilidade para abordarmos determinadas questões. Mas adiante..

O ano começou com uma “new hope” localizada algures pela América, que entretanto adquiriu contornos universais. Barack Obama tomou posse em Janeiro, trazendo sobretudo um discurso claro e positivo, que trouxe verdadeiramente esperança às pessoas. Óptimo! Perdurável ou não, e neste caso específico parece-me que os dias já foram menos negros do que agora, é sempre bom haver esperança. Como em tudo na vida, e temos o exemplo dos antigos impérios, há sempre altos e baixos, vamos ver como as coisas se vão desenvolvendo. No calor do momento, às vezes promete-se aquilo que, quer queiramos ou não, poderá não ser realizável. Um pouco mais a Sul, para os lados do México, se não me engano lá para o mês de Maio, surgiu uma nova variante da gripe suína, o H1N1, variante esta já transmissível aos humanos. O fenómeno rapidamente adquiriu proporções gigantescas e incontroláveis, e o mundo teve realmente medo da epidemia, entretanto elevada a pandemia, universalizada por absoluto. Morreram muitas pessoas, mas descobriram-se vacinas (?), e entretanto foi-se controlando a acção da patologia, sendo que hoje podemos dizer que o pico infeccioso já estará, à partida, ultrapassado. Recordando tragédias, lembro-me também das 228 pessoas desaparecidas no Atlântico no voo da AirFrance, anónimas ao grande público, mas pessoas como nós. Mediaticamente, nada comparável, por exemplo, ao volume desproporcionado que a morte inesperada do astro Michael Jackson gerou, um fenómeno global que na altura me deixou a pensar em muitas coisas. Por vezes sentimos os famosos como se fossem da família. A verdade é que são mesmo muitos os que vão partindo desta vida no maior dos anonimatos. Sentimos especialmente os que nos rodeiam, e nos momentos mais difíceis e desesperados penso que importa procurar a Razão, o sentido cíclico da vida. Naturalmente, uns morrem e outros nascem, e é assim que as coisas são e serão sempre. Doa o que doer. Hoje tu, amanhã eu, ninguém que respire é imune. Enfim..

Em Junho, o Cristiano Ronaldo foi para o Real Madrid por 96M€, recorde dos recordes, que sucesso tão colossal e universal! Afinal não somos assim tão pequenos.. temos uma estrela à escala planetária, afinal somos os maiores! Dou o exemplo do futebol e do CR9, porque a sua conduta de vida, perseverança e força de vontade são realmente impressionantes. Eu quero algo, sonho um dia em, e vou fazer tudo o que está ao meu alcance para. Admirável.

Além do futebol, precisamos de um CR (ou mais se possível!) na Ciência, nas Artes, nas Letras, no Empresariado, na Técnica, na Informática, em todas as áreas. Desejo para 2010 muita energia positiva para todas as pessoas, pois para alcançar o sucesso é essencial, em primeiro, que se acredite nele. Há que esperar o melhor, mas também há que estar preparado para o pior, procurando aceitar a realidade que nos envolve e vai envolvendo, mas nada nos impede de alimentar o Sonho. Há inúmeros exemplos por esse mundo fora que provam que tudo é possível, basta procurar objectivos e lutar por eles, com tudo o que temos. O temor é inimigo da esperança e da realização, no plano pessoal mas também em relação às diversas comunidades, como em relação ao estado do nosso país, por exemplo. O título deste artigo é uma citação directa de Leib Lazarov, que me inspirou para esta dissertação de ano novo, e não resisto ainda a culminá-lo com outra, através de um inspirador, esperançoso e sapiente provérbio chinês.

“Das mais escuras nuvens cai água clara e fertilizante”