O cenário natural é deslumbrante, um destino de férias provável para muitos habitantes do mundo que efectivamente têm possibilidades económicas para viajarem e se instalarem nos mais luxuosos resorts que guarnecem as Caraíbas, região de sumptuosas praias onde a água límpida, as areias finas e as inevitáveis palmeiras preenchem o imaginário de muitos que, como eu, um dia as sonharão visitar. Este idílico retrato paisagístico que acabo de descrever foi o palco de uma catástrofe de proporções gigantescas no passado dia 13 de Janeiro, em mais um daqueles episódios que nos fazem reflectir em torno da pequenez do ser humano perante a impetuosa fúria da Natureza. A terra tremeu justamente sob uma nação já de si debilitada e dependente, arrasando por completo edifícios e pessoas, numa tragédia humana de larga escala e de consequências ainda algo incertas, sendo certo que a irreversibilidade dos danos provocados originará sempre um antes e um depois na História do país – a República do Haiti.
Atentemos nos números, sempre reveladores da realidade, e que no caso concreto deste país são particularmente negros, sendo mesmo considerado o mais pobre de toda a América Latina. De um total de 182 países, ocupa o 149º posto no Índice de Desenvolvimento da ONU, tem uma taxa de alfabetização de apenas 62,1% e, segundo a International Transparency, é ainda um dos mais corruptos do mundo, surgindo na 177ª posição. Mais de metade dos haitianos não tem trabalho, 72,1% da população vive com menos de 2 dólares por dia. Mais ainda, 42% não tem acesso a água potável. A miséria já era evidente, mas o que agora se verifica é um verdadeiro tumulto, o caos generalizado pós-sismo. A capital do país está em ruínas, e a sua população, a que não sucumbiu no meio dos escombros, luta ferozmente pela sobrevivência. Não há água, não há alimentos. As necessidades são totais, porque não há nada. Rigorosamente nada. A maior parte das infra-estruturas estão destruídas, os feridos não têm um hospital para serem tratados, sendo muitos os que acabam por morrer por não terem assistência médica, por mais básica que seja. A devastação foi de tal forma intensa que as equipas de ajuda humanitária depararam-se com grandes obstáculos para conseguir chegar às zonas mais atingidas. Três dias depois, finalmente chegaram. Setenta e duas longas horas, é difícil de imaginar o desespero das pessoas. Como se já não bastasse o cenário apocalíptico provocado pelo abalo, rapidamente surgiu a violência. A prisão de Carrefour, construída em 1915 e com capacidade para 1200 detidos, tinha cerca de 3908 encarcerados (!) à data do sismo, sendo que grande parte deles escapou. As pilhagens e as execuções em praça pública eram a face visível da lei da selva que imperou nos dias seguintes ao colapso. De um lado criminosos armados da pior estirpe, de outro pessoas feridas, famintas e desesperadas, lutando como podiam pela sua sobrevivência. Torna-se difícil para mim conseguir imaginar o cenário das ruas, os corpos amontoados no meio do entulho, a pestilência que torna o ar irrespirável, um ambiente verdadeiramente macabro. Digno de Dante.
As organizações internacionais chegaram e foram imediatamente absorvidas pelos trabalhos que tiveram início: assistência médica, resgate de sobreviventes, segurança, distribuição de água e alimento. As necessidades são imensas e os meios são escassos. Ainda não se pensa na reconstrução, há muito para fazer entretanto. Muitos criticaram a demora da chegada da ajuda, e mesmo não estando por dentro da orgânica e da plataforma logística da intervenção facilmente nos apercebemos de descoordenações entre os vários agentes envolvidos. As ofertas e doações provenientes de todo o mundo iam chegando ao aeroporto, mas a sua distribuição era notoriamente deficiente. A segurança foi e continua a ser outra das grandes preocupações, a par das intervenções junto dos feridos, na sua maioria com membros esmagados pelo colapso dos edifícios. O resgate de sobreviventes começa a deixar de fazer sentido, dizem que sete dias é o limite para encontrar gente com vida, mas como em todas os desastres naturais, os “milagres” também acontecem. O menino de 5 anos encontrado após uma semana, que ninguém sabe justificar como conseguiu resistir, a senhora de 69 anos que comoveu uma equipa de resgate mexicana, tendo sido retirada dos escombros da igreja onde rezava aquando do terramoto a… cantar. Tocante. Dada a ruína total ou parcial da maioria dos edifícios institucionais, podemos dizer que o Estado foi fisicamente destruído. O colapso do Palácio Presidencial, símbolo do poder haitiano, simboliza-o. A inoperância governativa verificou-se nas horas a seguir à tragédia, não havia sinal dos responsáveis, que nada fizeram para prestar auxílio às vítimas, a não ser implorar por ajuda do exterior. A reconstrução da nação será lenta e, sobretudo, complicada. Não basta reerguer edifícios se não houver garantias de uma situação política minimamente estável para consolidar a recuperação, garantias essas que o povo do Haiti nunca teve ao longo da sua História. A dependência em relação ao resto do mundo é total, mas importa preservar a identidade da nação, tal como a cultura e o legado dos seus cidadãos.
Nunca será demais lembrar que ainda recentemente sentimos um tremor cujo epicentro não terá sido muito longe da costa algarvia, o mais sentido desde 1969. A memória do grande terramoto de 1755 também não foi apagada, será que estaremos preparados para enfrentar outro de dimensão e impacto semelhantes? Importa dotar a Protecção Civil de todas as ferramentas necessárias para a melhor gestão possível de uma eventual catástrofe, tal como apostar na prevenção, nomeadamente em relação à concepção construtiva dos edifícios, e inerente legislação. Lisboa é, de facto, frágil, e se ocorresse um sismo com a mesma intensidade do Haiti os estragos seriam menores, mas por certo devastadores. Torna-se fundamental que haja uma estrutura organizacional global, que possa agir de imediato se o pior acontecer, porque… pode acontecer! Após a tragédia de 13 de Janeiro, cuja dimensão ainda não é bem definida mas que aponta para mais de 200 mil desaparecidos, a Guatemala já foi sacudida por um abalo de 6.0 na escala de Richter.
A pergunta impõe-se: quem virá a seguir?