segunda-feira, 28 de novembro de 2011

"É a Vida!"

Não conheço nenhuma expressão mais terrível do que esta. “É a vida!” é o que se diz a alguém plenamente desconfortado, em relação a um acontecimento ou circunstância duríssima, e com certezas de inevitabilidade. É exactamente o que dizemos de uma forma natural e espontânea quando não temos, de facto, nada mais para dizer. Partilha-se o olhar sofrido, acarinha-se o rosto de quem convalesce e atenua-se um pouco a preenchedora angústia com um abraço forte, sentido. Muitas vezes, é tudo o que podemos fazer, estar. Nesses momentos de grande dificuldade, importa sobretudo sentir o conforto possível de obter daqueles que genuinamente connosco partilham não só as alegrias mas também as tristezas, o conforto daqueles que caminham a nosso lado.


Penso no caso do filho do futebolista Carlos Martins e não deixo de ficar sensível ao seu sofrimento, nem deixo de respeitar imenso a exposição pública que decorreu desta triste realidade que agora é a sua. O filho de Martins, Gustavo, sofre de aplasia medular - uma doença rara que resulta de uma disfunção da medula óssea - e necessita urgentemente de um transplante. O jogador expõe-se como mais uma forma desesperada de procurar a salvação do seu querido, pelo qual com certeza daria a própria vida, mas também consciente e em solidariedade com todos os que passam de forma anónima pelo mesmo. Após o mediático apelo, só em Lisboa a recolha de sangue subiu de 5 dadores/dia para 500, segundo Abílio Antunes, o presidente da ONG Médicos do Mundo. Verdadeiramente notável. Um prometedor aumento de esperança para esta e muitas outras crianças.


Se já imaginamos como pavorosa sequer a ideia de passar por uma situação do género, então a morte de um ente querido será a que provoca a pior de todas as convalescenças, sobretudo quando surge inesperadamente, ou de uma forma não natural. São situações absolutamente irreversíveis que causam um impacto brutal “nos que cá ficam”, moldando-lhes as personalidades e mudando-lhes as suas vidas para sempre. Mais longe ou mais perto de nós, acontece a toda a hora e a praticamente toda a gente, mais tarde ou mais cedo, pois muito poucos serão os que vivem descansados sem “fantasmas”, sem feridas profundas ou com estas já perpetuamente cicatrizadas.


Dizia Machado de Assis que “suporta-se com muita paciência a dor no fígado alheio”, ou como descomprometidamente diz o povo, “com o mal dos outros posso eu bem!”, mas será que é bem assim? Dependerá sobretudo do grau de humanismo e da riqueza da dimensão moral de cada um, mas nem o mais frio dos indivíduos se abstrai por completo do imenso sofrimento de alguém que lhe é, de alguma forma, próximo. Todo aquele que já sofreu verdadeiramente por uma tragédia daquelas que “abanam” acaba por sentir-se também um pouco na pele do outro que agora a sente, quem partilhou dor sabe perfeitamente que assim é. É nesses precisos momentos que as pessoas mais se aproximam, e mais sentem o “calor” que lhes é dirigido, um “calor” que está longe de curar todos os males, mas que lá no fundo ajuda a suportá-los, e muito!


Apesar de pouco podermos fazer perante algumas obstáculos que a vida nos vai apresentando, é precisamente nessas alturas que se reveste de especial importância dar e partilhar. Muito mais do que o objecto, importa dar e partilhar afecto. Estar com o outro, mostrar que realmente nos importamos, que fazemos parte.


Em vésperas de um Natal que será com certeza dificílimo para muitos, fica a sugestão: ofereça cartões alusivos à época, pegue numa esferográfica e abra o seu coração. Além da poupança material, nunca como hoje foi tão importante transmitir aos seus o que realmente sente por eles.

Sim, hoje, porque nunca iremos saber se haverá um amanhã, ou como ele será. Por isso, nunca deixe nada por dizer.


Dar é tão bom ou ainda melhor do que receber.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Tortura Não É Cultura!

No passado dia 6 do corrente mês houve uma pequena manifestação em Lisboa que surgiu com objectivos de protesto contra os chamados “touros de fogo”. Se o leitor, como eu, for um pouco mais leigo nestas matérias, fique desde já informado que se trata de uma recente e inovadora variante na actividade tauromáquica, numa versão digamos que… pirotécnica. Para gáudio da fanática falange de entusiastas, o animal é solto na arena com material inflamável preso aos cornos, quem sabe se para “incendiar” um pouco mais a ira da multidão que assiste com delícia à mestria sanguinária do “artista”, que para muitos não será mais do que um desprezável carrasco. Salvaguardadas as distâncias, e invertendo o papel dos “actores” de um teatro que me deixa algumas dúvidas sobre quem será o verdadeiro animal, parece-me que quaisquer semelhanças com o brutalíssimo espectáculo promovido antigamente em Roma pelo insano Imperador Nero não serão uma mera “coincidência”. A leitura da notícia da referida “manif” despertou-me a atenção e motivou-me para abordar o tema de uma perturbadora realidade que (ainda) caracteriza alguma da sociedade contemporânea. Como em todas as discussões que envolvam diferentes pontos de vista, importa analisar alguns da argumentação “pró”, a que procura justificar por todos os meios uma prática no meu entender profundamente injustificável.

“As touradas são uma tradição antiga e por isso devem ser respeitadas, defendidas e perpetuadas.” Posso aceitar que sejam encaradas como uma “tradição”, com origem em tempos antigos, em que as mentalidades e os modos de vida eram significativamente diferentes dos actuais, sendo que por norma com o tempo o Homem tem a tendência de aperfeiçoar-se e de desenvolver a sua forma de estar e de pensar… não será isso evoluir? Se não fosse assim ainda hoje a Escravatura não teria sido abolida, por exemplo, mas tal aconteceu porque, de facto… evoluímos. Espero sinceramente que um dia a tourada seja estudada da mesma forma na escola, sem saudade.

“O touro não sofre com o que lhe é feito na arena.” Como?! Ninguém poderá afirmar categoricamente que o animal “não sofre”, dado que se trata de um mamífero que, como todos os outros, é dotado de um sistema nervoso central que lhe permite a capacidade para sentir dor, ansiedade, medo e sofrimento. Se atentarmos aos sinais exteriores revelados na arena, rapidamente concluídos que o touro não considerará, com toda a certeza, o espectáculo “agradável”, ou sequer que seja “indiferente” a ele. São inúmeros os hediondos vídeos que existem para o sustentar, películas de autêntico terror que revelam uma agonia que é, de facto, brutal. A palavra é mesmo essa.

“A arte de tourear é tão bela que seria uma pena perdê-la”. A “arte” em questão pode de facto ser considerada bonita, de mérito técnico e artístico, mas perde desde logo toda a sua legitimidade por implicar directamente o sofrimento físico e psicológico de um animal. Enfrentar touros numa arena é um acto de grande coragem para muitos, mas para aqueles que sentem o mínimo respeito e lástima por animais é um acto da mais desonrosa covardia.

Dificilmente se muda a opinião de um fervoroso adepto tauromáquico, pois esta surge adquirida por via da educação, e a razão acaba por pouco ou nada influenciar. Dizia Schopenhauer que “a compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de carácter, e pode ser seguramente afirmado que quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem.” Talvez seja isso mesmo que falte aos indefectíveis de tão horroroso espectáculo… coração.

“Arte”? “Cultura”? A crueldade não é arte… e a tortura não é cultura!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O Pinóquio

A 13 de Outubro, e no seguimento do Conselho de Ministros com vista à definição das linhas gerais do Orçamento de Estado (OE) para o próximo ano, Pedro Passos Coelho fez uma declaração ao país, de conteúdo absolutamente bombástico. Funcionários públicos e pensionistas que aufiram mensalmente mil euros ou mais vêem cortados ambos os subsídios de Natal e de férias, enquanto que o mesmo tipo de trabalhador que tenha um rendimento até esse montante perde um desses mesmos subsídios. O novo pacote de medidas anunciadas prevê ainda, entre outras, aumentos da taxa intermédia do IVA bastante generalizados e com poucas excepções, incidindo em sectores importantíssimos como a restauração, por exemplo, e ainda o fim de deduções de saúde e educação para os escalões superiores do IRS. O primeiro-ministro assume em exclusivo a responsabilidade do impacto da política que anunciou, “garantindo” que esta valerá para o ano todo, sem haver lugar para eventuais rectificações. Vítor Gaspar, um ministro das Finanças tecnicamente aclamadíssimo por todos de forma ultra-consensual, confirmou-as em pleno na apresentação formal da proposta para o próximo OE, no seu habitual tom educadamente polido, sereno e assertivo, embora desconcertantemente frio, incisivo e alheado dos danos colaterais que a aplicação destas medidas com certeza reflectirá.

Está em curso um processo de subdesenvolvimento do país, que se encontra já num estado de desenfreado empobrecimento, sem grandes perspectivas de recuperação. Será responsavelmente legítimo enveredar por um caminho que vai muito mais além do que ficou estabelecido no memorando da troika, acima de tudo tendo em conta que a elevadíssima carga fiscal a que os portugueses estão submetidos não é acompanhada por uma estratégia de relançamento económico minimamente sólida? As medidas anunciadas pelo Governo são drásticas e violentíssimas, estando sobretudo direccionadas para a satisfação das “sanguessugas” dos mercados financeiros, esse reduzido grupo de indivíduos que regulam a seu bel-prazer e em benefício próprio o destravado sistema capitalista que caracteriza a sociedade dos dias de hoje. Vítor Gaspar, um “homem dos números” que é mais próximo do que se julga dos grandes senhores do dinheiro, sabe perfeitamente que assim é.

Passos Coelho ataca sem dó nem piedade a classe média, esmagando-a com opções políticas que agravarão substancialmente a situação da pobreza em Portugal, aumentando severamente casos de privação já de si dramáticos. O bolso dos pobres está praticamente vazio, mas continua a ser o alvo preferido para a espoliação; aos ricos tiram apenas umas migalhas aos seus robustos vencimentos e pensões, nada que belisque os seus vastos patrimónios, nada que lhes afecte minimamente as suas vidas. Só podemos falar com justiça e verdade de uma repartição de sacrifícios universal e equitativa se de facto todos forem obrigados a alterar o seu estilo de vida, e isto não acontece. Não acontece de todo.

As gravosas consequências que estas medidas acarretarão suscitam ao cidadão português legítimas dúvidas. Valerá a pena aguentar? Dará resultado tanto sacrifício? No seguimento desta linha de raciocínio, arrisco eu perguntar: irá Passos Coelho manter a inteira responsabilização assumida caso as opções políticas por si adoptadas redundem no completo colapso socioeconómico do país? Que estratégia existe para o crescimento da Economia, que traga pelo menos um pouco de esperança à nossa população? Ocorre-me lançar este questionamento por ter assistido recentemente a um anúncio da JSD, pela voz do seu líder, em que defende a responsabilização criminal dos políticos responsáveis pelos actos da gestão anterior. Trata-se, no meu ponto de vista, de um caminho perigoso. Parece estar na moda ser “anti”, e a emergência de um crescente fanatismo contra Sócrates e a anterior governação socialista parece trazer na sua génese uma espécie de “agenda escondida”. Os “jotas” social-democratas serão talvez ainda demasiado jovens para perceber que os gastos acima das possibilidades vêm já muito de trás, levados inclusivamente a cabo por figuras da maior proeminência do actual panorama político. Já os “graúdos” social-democratas, agora no Poder, “lembraram-se” de que afinal o contexto internacional talvez tenha alguma influência na crise económica e no estado das contas portuguesas, apesar de na Oposição renegarem constantemente a importância dessa mesma conjuntura.

Como a política costuma ser espantosamente fértil em termos de volatilidade, e como também não se trata de uma área onde a boa memória seja por norma evidente, recuperemos por instantes algumas das preciosas afirmações de Pedro Passos Coelho, que têm feito furor na Internet neste momento de grande tensão: "Se vier a ser primeiro-ministro, a minha garantia é que a [carga fiscal] será canalizada para os impostos sobre o consumo e não sobre o rendimento das pessoas"; "Dizer que o PSD quer acabar com o 13.º mês é um disparate"; "O PSD acha que não é preciso fazer mais aumentos de impostos, do nosso lado não contem com mais impostos"; "O IVA, já o referi, não é para subir"; "Eu não quero ser primeiro-ministro para proteger os mais ricos"; "Tributaremos mais o capital financeiro, com certeza que sim"; "Não podem ser os mais modestos a pagar pelos que precisam menos". Se José Sócrates era frequentemente acusado pelos seus opositores de ser mentiroso, a verdade é que estes pouco mais de 100 dias de Pedro Passos Coelho como primeiro-ministro fazem dele um autêntico Pinóquio! Seguro de si e de forma categórica, declarou em plena campanha: "Nós não dizemos hoje uma coisa e amanhã outra".

Já líder do PSD, e no momento em que recusou aprovar o PEC IV que acabou por derrubar o anterior Governo e lançar uma nova disputa eleitoral, afirmou que o fazia porque havia “um limite para os sacrifícios que são pedidos aos portugueses”... nota-se!

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

“Back To School”

100 dias após a tomada de posse do último Governo, os balanços efectuados são claramente distintos à Esquerda e à Direita. PSD e CDS congratulam-se pelo trabalho até aqui desenvolvido, salientando o facto de estarem a cumprir exemplarmente os compromissos assinados com a Troika, enquanto os restantes partidos políticos vão permanecendo atentos ao rumo traçado pela coligação governativa, criticando os sacrifícios pedidos que vão “além” do que ficou estipulado no famoso memorando de entendimento e ainda denunciando o aumento das desigualdades sociais decorrentes das opções entretanto tomadas. Segundo dados adiantados pela imprensa, parece que o único orçamento contemplado para 2012 que não sofrerá cortes será o da Administração Interna, o que poderá ser interpretado como um sinal de que Pedro Passos Coelho estará realmente inquietado quanto à possibilidade do país ser palco de “tumultos” originados por convulsões sociais, sendo que o melhor remédio será sempre prevenir, como prova a aposta no reforço das forças de segurança, não vá o diabo tecê-las. Justiça, Saúde e Educação continuam preocupantemente a ser alvos de cortes e mais cortes, e apesar de ser conhecida a necessidade de abatermos uns quilos das “gorduras” do nosso Estado, estou em crer que em alguns dos sectores mais importantes estas começam a ser confundidas com o “músculo”, ou mesmo até com o “osso”.

Tendo em mente o recente arranque do novo ano lectivo, centrarei a minha atenção na pasta assumida por Nuno Crato, sendo que me parece que os cortes efectuados e os entretanto previstos são demasiados para uma área tão determinante para o futuro do país, e que nunca poderá ser alvo de um tratamento cego e indiscriminado que possa ter inclusivamente como consequência a ruptura do funcionamento de algumas escolas, como alguns já temem. Apesar da doutrina filosófica adoptada do “fazer mais com menos”, há de facto limites que não deverão ser ultrapassados, pelo que analisando os problemas e as carências de muitos dos estabelecimentos de ensino do país neste regresso às aulas, é com justificado receio que se antecipam cenários muito maus caso os novos cortes previstos para os próximos dois anos sejam integralmente aplicados. A rever.

Colocando por agora um pouco de parte as legítimas preocupações que o actual panorama político nacional inspira em qualquer um de nós, gostaria de me reportar à entrada em funcionamento do novo Centro Educativo e Creche de Mortágua. Trata-se de uma infraestrutura de grandes dimensões que junta no mesmo espaço os níveis de ensino do Pré-Escolar e do Primeiro Ciclo, para além do serviço da Creche, sendo um edifício dotado de todos os recursos indispensáveis e devidamente apetrechado com os mais modernos equipamentos, dos quais se destaca a título de exemplo a existência de um quadro interactivo por sala de aula. Longe irão estar os tempos do giz e da ardósia, que um dia farão parte do imaginário nostálgico dos mais velhos, sendo que, como tudo na vida, o inevitável devir trouxe uma realidade absolutamente nova a toda a Comunidade Educativa do Concelho. O maior investimento de sempre do Município resultou num espaço físico facilitador a um aumento da qualidade do ensino que é ministrado, e do qual todos beneficiarão. Com preocupações e prioridades estabelecidas que foram muito mais além das habituais recomendações do Ministério da Educação para edifícios deste género, a Câmara Municipal de Mortágua prova de facto que dá primazia a este importantíssimo sector, ciente de que este será determinante para um melhor futuro das suas crianças de hoje, os adultos de amanhã.

Este regresso à escola foi para todos especial, numa transição para todos completamente diferente, dos professores aos alunos, dos pais aos auxiliares. Duas semanas de actividade volvidas, o balanço é claramente positivo, apesar de contratempos pontuais e imprevistos que vão sendo gradualmente corrigidos à medida que são aferidos, como aliás é perfeitamente natural. Colocar em pleno funcionamento uma infraestrutura desta envergadura foi com certeza um desafio, e tratando-se de uma complicadíssima operação logística é de justiça saudar o enorme esforço nesse sentido de todos os intervenientes no processo.

Realmente gratificante foi mesmo poder constatar a alegria transbordante das crianças nos primeiros contactos com a sua nova escola, que compõe um espaço inovador que vê francamente melhoradas as condições de ensino e aprendizagem anteriormente verificadas nos antigos equipamentos, a aliar a uma inequívoca maior igualdade de acesso e de oportunidades de que todos os alunos sem excepção agora usufruem.

Por estes, e na qualidade de professor de Inglês de grande parte deles, dedico-lhes com boa disposição o título deste artigo.

“Back to School”

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O Medo

Apenas 102 minutos passaram desde o embate do primeiro avião comercial desviado por terroristas da Al-Qaeda até à queda da segunda torre do World Trade Center, um dos maiores símbolos do orgulho americano. No dia 11 de Setembro de 2001 esse mesmo orgulho ficou ferido de morte para todo o sempre, após um terrível atentado acompanhado em directo por um Mundo perplexo pelo realismo “snuff” das imagens, num mórbido espectáculo mediático sem precedentes. Um verdadeiro acto de guerra impiedoso, que culminou no desaparecimento de 2996 homens, mulheres e crianças, sendo este o “número” que fica tragicamente para a História. A dor do povo americano é de respeito intocável, mas é importante salientar que se trata de uma dor igual à de qualquer povo que sofra um ataque semelhante na brutalidade e no total desrespeito pela vida humana, mesmo que este seja menos visível aos olhos de todos. Devemos ter presente que lamentavelmente há mortes das quais se fala e outras tais que nem por isso, e isto parece-me fundamental não esquecer nunca, quando reflectimos sobre tensões e conflitos mundiais, pois independentemente de factores de ordem política, económica, social e cultural, as pessoas são e serão sempre pessoas, nasçam onde nascerem.

A heterogeneidade de convicções de ordem religiosa, xenofóbica e não só, divide-nos cada vez mais, acentuando o grau de violência entre diferentes Estados e comunidades, cujas específicas sensibilidades nunca deverão ser ignorada ou sequer subestimadas, um erro que tem sido recorrente e reincidentemente repetido. A crescente islamofobia que se espalhou um pouco por todo lado no pós 11/9 não veio fazer mais do que avolumar o ódio sectário que ilustra a relação entre as diferentes posições, daí ser prioritário reflectir sobre as causas de toda a espécie de extremismo, e não apenas daquele que surge como forma de discriminação religiosa. Orgulho, dor, desespero e sacrifício são conceitos que muito facilmente redundam na expressão fanática e intolerante. Seja em que parte do mundo for, se um homem com fome deverá sempre ser temido, mais ainda deveremos temer um homem cujos filhos tenham fome; por outro lado, mas mantendo a lógica de pensamento, o que dizer da angústia daqueles que perdem parte ou mesmo a sua família inteira?! A dor do luto de pais, filhos, maridos, mulheres, irmãos e irmãs cujas vidas são para sempre abaladas pelo nojo produzem uma agonia existencial de tal ordem que pode perfeitamente levar à represália, como forma de vingança. O lado negro da natureza humana é complexo, e pode e deve ser temido pelo grau de perversidade que pode atingir. O leitor já pensou na razão da obstinação de um qualquer suicida?!

Não pretendo de forma alguma relativizar aquela fatídica manhã, até porque todos e quaisquer crimes contra a humanidade deverão sempre ser relevados e objectos de reflexão e discussão conjunta, visando um crescente dirimir destes mesmos actos que atentam contra o orgulho de qualquer cidadão global. Pretendo apenas sublinhar que a vida de um americano vale tanto como a de um iraquiano, de um português, de um etíope ou de um indiano. O mediatismo louco e absolutamente parcial a que presentemente estamos vetados é que desvirtua e distorce essa mesma realidade. O “terror” provocado pelas bombas americanas também é “terror”, e bem real! Nós é que não sentimos o “medo” daí decorrente. Invertendo os actores desta dicotomia terrorismo vs medo, podemos lembrar-nos de que o número de vítimas das guerras no Afeganistão e no Iraque, ainda longe de estarem cessadas, já somam muitas mais do que as do 11/9. E insisto em repetir, uma vida vale precisamente o mesmo em qualquer parte do planeta.

Além da crescente fracturação socioeconómica e todas as consequências que daí advêm, dez anos depois da tragédia o Mundo mostra-nos que como está oferece tudo menos garantias de que alguma lição tenha sido entretanto aprendida, bastando para isso ter presente o histórico de “acções militares” e “actos terroristas” (qual a diferença, mesmo?!) que se têm verificado em zonas de conflito ou sensíveis do ponto de vista estratégico. Por estes dias, precisamente na véspera das cerimónias que assinalaram a tragédia americana, um suicida conduziu um camião carregado de explosivos contra uma base da NATO no Afeganistão. Entre as vítimas, um menino de 8 anos… À data que escrevo, 13 de Setembro, um ataque talibã no Paquistão contra um autocarro escolar (!) provocou a morte do motorista e de pelo menos cinco crianças. Enfim…

Estou em crer que o autoritarismo político intransigente que tem vindo a ser perpetrado e que culmina invariavelmente em fortes repressões bélicas, está longe de ser a solução, pelo contrário. Tal constitui-se como um elemento gerador e agudizador da tal correlação entre “terror” e “medo”, que resulta sempre no mesmo: mais guerra, mais mortes. Enquanto o Mundo e os seus grandes líderes não se mentalizarem de que não devemos combater fogo com ainda mais fogo, mas sim promover gradual e globalmente valores universais de paz, amor, dignidade, liberdade, tolerância e acima de tudo o mais elementar respeito pela vida humana, não creio que haja optimismo algum que possa trazer Esperança ao futuro da Humanidade.

Não é nem nunca será com mais “terror” que se combate eficazmente o “medo” que vai proliferando de um lado e do outro.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

A "Rentrée" de Jardim

Agora que a “silly season” está prestes a terminar, o povo começa lentamente a reconcentrar-se na realidade do país, e nos duros tempos que se avizinham. Apesar do Presidente Cavaco Silva já se ter referido por mais de uma ocasião a “limites” nos sacrifícios aos portugueses, o Governo parece cada vez mais determinado em levar adiante todas as medidas (… e mais algumas!) consideradas necessárias para colocar as contas públicas em ordem, apesar de estas continuarem a incidir sobretudo sobre os rendimentos do trabalho e não sobre as grandes fortunas, os desmesurados lucros de algumas empresas e as contínuas e escandalosas operações financeiras cujas mais-valias continuam vergonhosamente por tributar. Insiste-se em ir “mais além” do que o previsto no memorando assinado com a “troika”, mas vamos ver até que ponto resistirão os portugueses, pois estou em crer que os tempos próximos serão de fortíssima contestação social a vários níveis, até porque temos imensos indicadores nesse sentido no plano nacional, acrescentados ainda a recentes exemplos de convulsões noutros países de natureza idêntica, e que se poderão vir a verificar no nosso. A problemática será de complexo tratamento, e terá toda a minha atenção a seu tempo, como terá a de todos os que se considerem integrados na responsabilização civil comum que deverá caracterizar qualquer Estado democrático, mas no presente exercício vou procurar analisar mais objectivamente a situação específica da Madeira e do seu peculiar Governo Regional, cuja campanha eleitoral para as eleições que se avizinham começa a aquecer.


Nunca simpatizei com Alberto João Jardim, confesso, e apesar do seu desempenho político suplantar ainda em uns pares de anos a minha própria idade, são imensas as evidências políticas e pesadíssima a sustentação factual para que a relativa animosidade que por ele nutro seja um mero capricho por não ser um seu seguidor, ou por não me rever no seu estilo político único. (Vá, talvez um tudo nada semelhante ao de algumas figuras de regimes africanos, ou sul-americanos...) Motiva-me para esta reflexão o engraçado “número” que foi o discurso de Jardim no comício da “rentrée” política do PSD-Madeira, em Porto Santo, onde mais uma vez vociferou contra aqueles que, “em Lisboa”, recusaram à região uma autonomia mais ampla, isentando a sua longa governação que “reina” desde 1978 de todas as responsabilidades pelo caótico estado das contas madeirenses. Segundo dados apresentados pelo Diário Económico, a dívida da Madeira mais que duplicou nos últimos cinco anos, tendo o carismático governante referido incrivelmente a esse propósito que foi “obrigado a aumentar a dívida”, estratégica e conscientemente, “para agora poder negociar com o Governo liderado pelo PSD”. A gratuita e irresponsável “confissão” de Jardim diz tudo da sua postura do “quero, posso e mando”, e é bem caracterizadora do permanente desprezo e da sedição com que o insurrecto líder se move e sempre moveu contra os “cubanos do cont´nente”, a quem agora solicita com urgência “liquidez”, numa pretensa nova ajuda financeira para continuar a alimentar o sorvedouro madeirense. João Jardim personifica uma execrável figura que pratica um tipo de política que considero asquerosa, sendo que recomendo ao leitor uma breve pesquisa no “Youtube” por algumas das preciosidades que compõem um já de si extenso rol. Decerto que irá elucidá-lo melhor quanto ao carácter da figura; uma figura vil, ditatorial, ultra-populista e de baixo nível, sem uma ponta de educação e de respeito para com quem não vista um qualquer fato de palhaço ou de macaco e faça parte do seu circo de marionetas.


Além das contas, e tendo presente a permanente discussão em torno das “gorduras” do Estado português, que dizer em relação às do Governo Regional, consensualmente reconhecido pela sua excessiva estrutura governativa, nomeadamente em direcções regionais, institutos e empresas públicas e participadas? Jardim, um épico crítico feroz das políticas despesistas de Sócrates, mostra a todos como se faz em matéria de gastar aquilo que não se tem e, por conseguinte, aquilo que não se pode. Tem agora a palavra Pedro Passos Coelho, com um “dossier” em mão muito complicado de gerir, dadas as agudas sensibilidades implicadas no seu duplo desempenho como Primeiro-Ministro e como Presidente do PSD. Por um lado, quererá com certeza proteger o partido a que preside, evitando mais cisões internas e apostando em recuperar a coesão e a unidade entre todos os militantes, que por enquanto continua longe de ser uma realidade, como recorrentemente se comprova em declarações “ziguezagueantes” de notáveis à Comunicação Social, desde a tomada de posse do Governo. Por outro lado, Passos Coelho tem um compromisso bem maior com todos os portugueses, inclusivamente os que não “vestem” laranja, e a situação das contas madeirenses é tão grave que se aguarda uma posição relativamente ao pedido de assistência financeira de Jardim que, recorde-se, afirmou que “agora pode negociar com o Governo PSD”. A credibilidade do Primeiro-Ministro aos olhos de todos nós vai com toda a certeza ser influenciada pela cumplicidade revelada com o totalitário governante regional, o que também ajuda a explicar as suas prudência e hesitação.


A 9 de Outubro, os madeirenses vão a votos. Irá Alberto João Jardim sentar-se novamente no “trono” e ampliar o seu legado político que já perdura há 33 anos?! Estóico resistente, o “histórico” Jardim adopta já um bélico discurso de campanha, prometendo “resistir e voltar a derrotar a Esquerda”. A monstruosa dívida que caracteriza o presente das finanças por si geridas é obviamente da sua exclusiva responsabilidade, apesar de este se isentar da mesma, culpabilizando o “ataque financeiro” dos anteriores governos, e inclusivamente o próprio sistema capitalista. A pouco mais de um mês das eleições e já depois de ter pedido a tal “ajuda” ao Estado português para sanear as contas, o governante continua a lançar novos concursos e a adjudicar obras públicas, dando prioridade à construção de um gimnodesportivo, uma piscina e um centro paroquial, entre outras edificações. Entretanto, e supostamente em tempos de crises regional, nacional e mundial, a Festa dos 500 anos do Funchal custou mais 75,5% do previsto, segundo o Tribunal de Contas.


Habituado como está à desresponsabilização, gostava pessoalmente de ter a oportunidade de perguntar à criatura de quem terá sido a culpa de mais esta derrapagem. A resposta viria com certeza elegantemente acompanhada de um “Bastardo! Para não [me] chamar filho-da-p***!”

quinta-feira, 28 de julho de 2011

A Maior Tragédia Do Mundo

Recentemente aproveitei uma boa oportunidade que surgiu e tive a possibilidade de visitar pela primeira vez o continente africano, mais precisamente a cidade de Marraquexe, no sudoeste de Marrocos. Da viagem propriamente dita, apesar de curta, tenho a retirar a novidade que foi para mim estar embrenhado numa cultura completamente diferente da nossa, a muçulmana. Poderia aproveitar o espaço e a ocasião para retratar romanticamente a experiência, dissertando sobre as pessoas, o comércio, a religião, a gastronomia ou mesmo até sobre o impressionante e peculiar trânsito frenético das ruas da metrópole, mas infelizmente não será o caso, pois debruçar-me-ei sobre um assunto muitíssimo mais importante do ponto de vista humano, e que adiante explicitarei. Recordo um momento particular da estadia, em que conversava tranquilamente com um dos amigos que me acompanharam acerca da visível miséria que por ali grassa, e que em reflexão conjunta analisámos. Os tempos que os portugueses vivem são de facto conturbados, marcados por uma crise que torna crescente a privação material e que em muitos casos ascende já ao básico, aumentando o número de afectados pela pobreza extrema e pela fome, mas nada comparado com a realidade que ali pudemos observar, e que confesso que me deixou algo perturbado. Estar perante gente que faz de cada dia que passa uma luta intensa pela sobrevivência e pela procura do mínimo de dignidade para a qualidade da sua vida toca até o mais insensível dos indivíduos. Se a este propósito o cenário de alguns grupos sociais portugueses é de facto incomparável com o cenário marroquino que presenciei “in loco”, que dizer do que se passa neste preciso momento no chamado “Corno de África”, e que já é por muitos considerado como a maior tragédia do mundo?

A maior seca dos últimos 60 anos, aliada ao aumento do preço dos cereais e às guerras que teimam em não mais cessar na região, está a pôr em sério risco de fome extrema 10 a 12 milhões de pessoas, o que se constitui como uma verdadeira catástrofe humanitária. O horror da imagem da criança africana em absoluto estado de desnutrição, caracterizada pela barriga inchada, os globos oculares a sair das pálpebras e um crânio desproporcionalmente grande em relação a um corpo profundamente esquálido, volta agora a ser alvo de enorme preocupação de activistas e membros de ONG’s de todo o mundo, determinados em combater este “espectáculo insuportável para qualquer consciência humana”, nas palavras de Josette Sheran, a responsável pelo Programa Alimentar Mundial. Os números são, de facto, “espectaculares”, dado que as vítimas mortais diárias ascendem a 2500. Mais tragicamente ainda se constata que todos os dias morrem cerca de 100 crianças na região, devido à falta de alimentos e de assistência. Para ajudar a ilustrar a penosa ironia que reflecte o mundo de profundas diferenças em que vivemos, um estudo recente da ONU afirma que um terço de toda a comida produzida para consumo humano vai para o lixo, todos os anos. Cerca de mil milhões de toneladas de desperdício, na sua maioria frutas e vegetais. Incrível. Teme-se uma repetição da grande fome de 1984, na Etiópia, onde pode evitavelmente ter morrido cerca de um milhão de pessoas. Na altura, Bob Geldof surgiu como um dos grandes activistas da ajuda ao desenvolvimento em África, com a criação do “Live Aid”, despertando dessa forma o Ocidente para o flagelo, embora fosse já demasiado tarde. Os testemunhos de terror que vão dando conta do que se passa nos enormíssimos e mais do que sobrelotados campos de refugiados, bem como no trajecto destes até ali chegar (os que conseguem, claro…), são demasiado chocantes para ignorar, o que de certa forma é o que muitos fazem para evitar o pequeno sofrimento que a constatação dessa realidade lhes provoca. “Prefiro nem olhar…” Afinal, será que a humanidade na sua massa ainda é humana?

A ajuda internacional existe, como é do conhecimento geral, mas em quantidade insuficiente, e assente numa plataforma logística desorganizada e pouco articulada, que a torna próxima do ineficiente e ineficaz. Muitas vezes até por falta de vontade política, a ajuda continua a chegar demasiado tarde a quem dela mais precisa. Que sentido poderá fazer a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, quando afirma que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”?! O mundo evolui da forma mais sarcástica e hipócrita que se possa imaginar, e assim sendo como poderemos contornar visões cataclísmicas do nosso Futuro? O capitalismo voraz persiste sólido e permanece impune, mesmo sendo o maior assassino dos dias que correm. A especulação sobre as matérias-primas alimentares caracteriza tristemente um mercado global desregulado e que se revela um autêntico criminoso, frio e sem face. Milhares de pessoas morrem enquanto grupos financeiros restritos e cada vez mais pequenos se banqueteiam… mas o que é isto?!

Se o sistema faz com que as fronteiras nacionais e políticas tenham cada vez menos sentido, do ponto de vista de soberania e dependência, parece-me que só uma mudança radicalíssima de perspectiva e de actuação perante as crescentes e insustentáveis assimetrias poderá trazer um pouco de justiça e equidade a este mundo. Ignoro a feição utópica do meu presente manifesto tanto quanto desejaria uma espécie de regresso ao humanismo, um pouco à imagem do movimento intelectual europeu associado à cultura do Renascimento, mas desta vez que esse impulso fosse global, do ponto de vista ideológico, político e obviamente que também económico. Numa escala de importância, as pessoas têm obrigatoriamente que ser colocadas no topo dos topos, nunca o capital!

Se a evolução do mundo acarreta um evidente processo de globalização que se vai reflectindo a tantos níveis, porque não conseguir acreditar que este possa ser mais justo, e homogéneo no seu desenvolvimento? Por falta de vontade, sensibilidade e espírito humano de quem tem o dinheiro?

Sejamos dignos!

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Desconcerto

É uma da tarde e estou sentado à frente da minha secretária, aparentemente tranquilo. Apesar da desarrumação do costume, comum a tanto escritório de tanta gente por esse mundo fora, concentro-me apenas no rectângulo branco de papel que os meus olhos vislumbram, bem como na esferográfica vermelha que escreve a preto, da qual me sirvo no momento para redigir este texto. Confesso-lhe o seguinte caro leitor: não tenho assunto. Melhor, até tenho, dado que o que não falta são acontecimentos e temas para tratar, mas muito honestamente não desejo especificamente por algum optar, não pretendo ser convencional. Porque hei-de o ser sempre se cá no fundo não sinto de todo que o seja em absoluto nem tão pouco que o deva ser? Nesta “coisa” de elaborar exercícios escritos que os outros acabam por ler cai-se muito facilmente na tentação de parecermos bem, de produzirmos como seres de feição idealista ou moralista; de querermos convencer quem nos lê relativamente a algo, quando se calhar o que procuramos principalmente é convencer-nos a nós próprios em relação a essa mesma questão que é tratada. Nada disso me interessa neste momento, quero ser e parecer tudo menos o habitual. Nenhum parágrafo, frase ou simples palavra são pré-fabricados, pelo que opto por deixar o texto “correr” com a maior das naturalidades. Até onde? Não interessa.

Se quem não me conhece julgará pela escrita que sou um sujeito algo excêntrico e eventualmente pouco reservado, aqueles que comigo lidam com maior ou menor frequência e intimidade julgarão que me “passei” de vez. Calma aí malta conhecida, estou bastante sereno até, apesar de alguma dose de desassossego crónico que me parece ter vindo a atenuar-se com o crescendo da idade. Pelo menos assim o considero, daí o “parece”. Quem gosta de escrever tem que se assumir como tal e traduzir o que sente da forma menos filtrada possível, com clarividente transparência. Só assim poderá ser genuíno. Exponho-me muito? Talvez.. e depois?! Assusta-me muito mais o isolamento da reclusão do que a partilha da exposição. Por outro lado, sinto-me revigorado, inspira-me, dá-me vida! Se uma grande parte de mim alinha pelo convencionalismo do “devoir être”, seguindo o estreito caminho que “deverá” ser seguido, se calhar a parte mais reveladora da minha natural essência vai pelo desvio, por um desvio controlado, mas que não deixa de o ser, um desvio. Bom ou mau, de fácil ou difícil digestão, talvez seja mesmo um “artista”, ou pelo menos uma espécie de. Não que o revele com pretensão ou qualquer tipo de “inchaço”, simplesmente dou asas à livre expressão sem grandes preocupações de qualquer ordem, e com o menor dos constrangimentos.. porquê? Apetece-me. A norma futiliza-nos, e de existências banais está infelizmente o mundo cheio.

Uma das hipóteses temáticas que tinha mentalmente conjecturado era a da morte do cantor Angélico, que tinha precisamente a minha idade. Não por me encontrar assolado por um qualquer tipo de ímpeto sensacionalista que eventualmente pretendesse explorar de forma barata, como tantos fizeram e fazem, mas tão simplesmente porque o abrupto fim da vida de alguém, de uma pessoa qualquer como eu, permite sempre reflexões várias e de naturezas distintas. Lamentavelmente, estes dias têm sido férteis em desaparecimentos de pessoas com alguma proximidade à minha pessoa, e apesar de resignadamente consciente de que a toda a hora e em todo o lugar acabam pessoas de toda a espécie, de todas as idades e de ambos os géneros, não consigo deixar de me enredar em pensamentos esquisitos. Esquisitos por serem estranhos. Estranhos porque se calhar ainda me vou habituando a eles, e será apenas com o tempo e a experiência de passar por situações diferentes que o meu conformismo relativamente a esses pensamentos emergirá.

“Isto” às vezes é uma merda caro leitor, escrevo-o como se lho estivesse a dizer na cara, sem pudor algum pelo palavrão. Tudo é nada, e nada é tudo. Vivemos muitas vezes sem problemas de maior e tantas são as situações e os momentos em que nos sentimos profundamente desgostosos com a nossa condição, que se torna penoso e quase irónico pensar no modo e na qualidade com que empregamos o nosso tempo. Sim, porque o relógio não pára. O que não daríamos por ver durante meros instantes caso fôssemos cegos, ou por caminhar uma curta distância se a dureza da nossa realidade fosse uma cadeira de rodas.. Filosofias cada um tem a sua, porque se “de santo e de louco todos temos um pouco”, para uns “a vida mais doce é não pensar em nada”, como para outros “a vida é demasiado importante para ser levada a sério”. Pessoalmente, tanto sinto um bocadinho de tudo o que atrás referi como não sinto coisa alguma. “Isto” acaba num instante.. e passa tão depressa! Vou alternando entre algum saudosismo quando por exemplo vejo os meus alunos no recreio a brincar, como descubro por vezes em mim uma avidez imensa e quase incontrolável de viver e sentir tudo aquilo que ainda está por vir, da forma mais instantânea, como se ignorasse ou quisesse ignorar tudo aquilo que já passou. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez.. respire fundo! Se desconcertado poderei parecer, desconcertá-lo a si é o meu objectivo principal caro leitor. Se o texto que está a ler lhe permitir ponderar um pouco que seja a sua existência, a forma como lida com ela e gere a sua duração, dou-me por bastante satisfeito. Nem que considere um desperdício de tempo o bocado que reservou para digerir o que lhe escrevo, porque a considerá-lo é porque nele reflectiu.

Não procuro a sua simpatia, muito menos qualquer tipo de aceitação. Simplesmente transpareço o que estou a sentir, e que consigo pretendo partilhar. É tão importante demonstrarmos o que nos preenche, revelarmos os nossos afectos e dar conta aos outros das nossas preocupações que perturba-me de sobremaneira que por um ou outro motivo não fosse capaz de o fazer. Para quê viver numa redoma, porque viver só para nós? Solte-se leitor… se não está contente com a sua presente situação é simples: mude! Mas mude mesmo, porque “isto” realmente passa depressa... muito depressa! Seja bonzinho, cultive o seu karma... tenha gosto próprio, renove-se! Não se deixe irritar muitas vezes, evite quezílias… alegre-se! Diga sempre às pessoas que gosta delas quando é o caso, nunca se sabe se terá outra oportunidade... não perca tempo meu caro, é porventura o mais precioso de todos os bens.

Por isso.. cante, festeje, grite, beba, coma, corra, beije, dance, salte, fale, abrace, sorria, chore, recorde, conheça, observe, sinta, cheire, toque, ouça, aqueça, conquiste, apaixone-se.. viva!

“You only live once”

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Fé no Futuro

Após um complicado processo de apuramento definitivo dos resultados eleitorais, o país assistiu no passado dia 21 de Junho às cerimónias de tomada de posse do XIX Governo Constitucional, a coligação PSD/CDS liderada por Pedro Passos Coelho. Invariavelmente, o momento solene consistiu nas tradicionais juras de cumprimento de tarefas designadas por parte de cada um dos membros do novo Executivo, o mais pequeno desde Abril de 74, além dos habituais discursos do todo-poderoso Presidente da República e do novo Primeiro-Ministro empossado. De uma forma geral pode concluir-se que estão em perfeita sintonia, tendo ambos proferido orações convergentes de cariz programático, destacando a urgência do momento e a imperiosa necessidade de “não falhar”. Cavaco exigiu “solidez e consistência” à coligação governativa, Passos Coelho prometeu um “pacto de confiança” e o seu empenhamento total na resolução dos delicados imbróglios com que se depara o país, contando para isso com a imprescindível colaboração da equipa que formou. A “mudança” garantida pelo vencedor das últimas legislativas começa gradualmente a ganhar forma, traduzindo no sentimento do português comum um misto de desconfiança e de fé, que o futuro rapidamente começará a melhor definir. Conseguirá o novo Governo regenerar positivamente o Estado e restaurar a confiança dos cidadãos numa Democracia cada vez mais corroída e desacreditada? Não será tarefa fácil, mas os dados estão lançados com promessas de transparência, contenção e rigor, valores que terão impreterivelmente que ser aplicados numa governação que terá que dar a entender ao país que há uma contrapartida aos sacrifícios que lhe serão exigidos. A próxima legislatura tem há muito um programa bem definido com medidas duras que terão inevitavelmente de ser impostas, um programa acordado entre a “troika” partidária nacional e a “troika” das instituições internacionais que trará com certeza delicadas implicações sociais que terão que ser atenuadas, sob o risco de gerar grandes convulsões como as que temos assistido na problemática Grécia, cujo desfecho permanece ainda imprevisível.

Passos Coelho diz que as prioridades são claras, e passam por “estabilizar as finanças, socorrer os mais necessitados e fazer crescer a economia e o emprego”. Para isso, formou uma equipa de 11 ministros com algum défice de experiência política e governativa, mas com inequívoco prestígio técnico e académico. Antes de mais, sublinhe-se o corte geracional com o passado, dada a juventude do elenco, e a presença de bastantes independentes, sendo que o PSD dispõe apenas de mais um ministro do que o CDS. São, no entanto, pessoas da confiança de Passos Coelho e com provas dadas na sociedade civil, onde se destacaram claramente nas suas áreas. As escolhas do novo Primeiro-Ministro necessitarão de tempo para colocar em prática as novas políticas, sendo que, estou em crer, todos estarão cientes da responsabilidade que este momento crucial lhes acarreta no cumprimento das suas funções. Da minha parte terão um prudente benefício de dúvida e um forte desejo de bom trabalho, um bom trabalho que se pretende direccionado para o povo e para as suas necessidades mais prementes. Haja fé no futuro!

Por outro lado, a eleição em sede parlamentar do novo Presidente da Assembleia da República assumiu contornos absolutamente deliciosos. Cabeça de lista do PSD pelo círculo eleitoral de Lisboa, o isento e absolutamente insuspeito Fernando Nobre teve dois momentos inolvidáveis da sua ainda curta carreira política, mas que consagra já apontamentos históricos. O Parlamento rejeitou pela primeira vez desde sempre o candidato a presidente proposto pelo partido maioritário, a escolha pessoal (e eleitoralista, com toda a certeza…) de Passos Coelho. Mais, rejeitou-o duas vezes. Nobre é, de facto, um predestinado, pois conseguiu em dobro aquilo que nunca ninguém tinha alcançado, o que atesta conclusivamente todo o (des)crédito que a sua figura encerra. O verdadeiro “candidato suprapartidário” às últimas presidenciais; o apoiante convicto do Bloco de Esquerda nas últimas europeias por se “identificar com as suas políticas”; o verdadeiro representante do movimento cívico com ancestrais ligações a destacados membros do Partido Socialista. Uma verdadeira “Maria-vai-com-todos”, que tanto e tão mal já verberou contra a política e os políticos portugueses, mas não se fica por aqui no seu cada vez mais promissor discurso contraditório. É mais forte que ele! Numa entrevista ao Expresso em Abril passado, sublinhou: “se, seja por que razão for, não puder ser nomeado presidente da Assembleia, renuncio imediatamente ao mandato de deputado. Não serei só um deputado”. A personagem prestigiada e de grande “coerência” provou mais uma vez que o valor das suas palavras está longe de se revelar na integridade da sua conduta, dado que será mesmo “só um deputado”. Enfim.. “noblesse oblige”! Largas serão as franjas de eleitores profundamente desiludidos com esta figura, que de forma cínica e populista um dia os conseguiu convencer. Pobre Nobre, bastou constatar a sua pequenez no momento da revelação da vontade do Parlamento: uma criatura só, atónita e decerto que profundamente embaraçada com o absurdo da sua desmesurada e surreal ambição.

No entanto, há mesmo “males que vêm por bem”, pois a segunda escolha do PSD foi objecto de grande consenso na eleição que se seguiu. Outro momento histórico, pois nunca uma mulher tinha sido eleita para um cargo político tão elevado como Assunção Esteves, cuja seriedade, competência e sentido de Estado foram profundamente reconhecidos e deferidos por todas as bancadas parlamentares. Uma vitória da paridade e uma verdadeira lufada de ar fresco na Assembleia da República, agora presidida por uma mulher a que de forma global todos enaltecem a isenção e coerência de pensamento, e que já prometeu exercer o cargo com a “natureza não partidária” que este justifica. Saúdo vivamente este “volte face”, que traz também uma nova esperança para a qualidade da nossa Democracia.

Haja fé no futuro!

terça-feira, 7 de junho de 2011

Viragem à Direita

O resultado das eleições do passado domingo é inequívoco, e fez com que Pedro Passos Coelho cumprisse finalmente o sonho antigo de Sá Carneiro, três décadas após o desaparecimento do fundador do PSD – “uma Maioria, um Governo, um Presidente”. Terminada mais uma penosa campanha eleitoral, eis que os dirigentes máximos dos partidos vencedores puderam finalmente abrir as garrafas há muito postas no fresco, numa celebração efusiva mas previsivelmente curta, dados os tempos difíceis de governação que os esperam. Sem grandes surpresas, o panorama político português assiste agora a uma absoluta viragem à Direita.

Analisado o sufrágio, de imediato se poderão inferir algumas conclusões aparentemente óbvias. Começando pela adesão do povo às urnas, a questão impõe-se: onde está o espírito cívico dos portugueses? A julgar pela elevadíssima abstenção verificada num momento particularmente crítico da realidade nacional política, social e económica, facilmente se constata que o país está de facto de costas voltadas para uma classe que continua a cair no descrédito, pois de outra forma não se compreende tão irresponsável alheamento. Segundo palavras do Presidente Cavaco, parece que teremos agora uma grossíssima fatia de 40% do eleitorado que perdeu “autoridade” e “legitimidade” para criticar o que quer que seja relativamente ao rumo das políticas que irá ser traçado pelo novo Governo. A reflectir…

Outra conclusão fácil de retirar dos resultados é o evidente chumbo do país ao movimento “anti-Troika” manifestado pelos partidos de extrema esquerda, e que visava sobretudo uma arriscada desobediência financeira por via da reestruturação da dívida, em favor de uma suposta defesa da soberania nacional, como se “isso” ainda existisse no seio da comunidade em que estamos inseridos. Um aventureirismo ao qual os portugueses disseram claramente “Não”, a julgar essencialmente pela paupérrima votação bloquista, dado que o eleitorado comunista é por natureza fiel, como mais uma vez ficou comprovado. O aparente “irrealismo” do direccionamento político destes partidos não logrou persuadir o país, de todo. Quem também não conseguiu convencer Portugal foi o grande derrotado da noite, José Sócrates. O grande desgaste público desta figura era de consensual análise, num crescente processo de antipatização que culminou num resultado eleitoral ainda pior do que era expectável, tendo como lógica e natural consequência o abandono da liderança do partido. Uma renovação que se justifica, no meu entender. O povo já estava realmente saturado, mostrando assim o “cartão vermelho” ao mais resistente e determinado líder político de que me recordo. Ninguém é insubstituível, e Sócrates foi digno no momento do abandono, proferindo um discurso onde mostrou que também sabe perder, revelando ainda um lado humano que muitos sempre pensaram inexistir. Não sou hipócrita, nunca consegui idolatrar ou sequer incondicionalmente apoiar uma liderança que tantas vezes a todos fez confundir determinação com arrogância, realidade com fantasia, honestidade com mentira. No entanto, e parecendo-me ser este um aspecto fundamental e inerente a qualquer desempenho de cargos públicos, nunca duvidei da sua boa intencionalidade, do seu amor ao país, e de ter dado o seu melhor por este. Cometeu erros como todos cometem, alguns porventura até de relevante gravidade, mas também é verdade que nunca virou a cara à luta, enfrentando com inaudita coragem um sem número de dificuldades ao longo da sua governação, que esteve muito longe de ser facilitada, como a História a seu tempo julgará. Sócrates caiu, mas muitas marcas positivas do seu legado perdurarão, apesar do crescente denegrir da sua imagem, alvo habitual de impiedosos ataques como provavelmente nunca nenhum outro governante terá sido. Pessoalmente, desejo um PS mais democrático no futuro. Um PS mais virado à Esquerda, o seu posicionamento de raiz. Um PS mais respeitador da natureza igualitária da sua matriz ideológica, que progressiva e visivelmente foi caminhando para uma espécie de elitismo obstinado e autista para com determinados valores importantes defendidos em Democracia. Faço votos para que o futuro sucessor de Sócrates renove efectivamente o partido, coordenando uma Oposição que se pretende responsável, credível e activa do ponto de vista propositivo, trabalhando na “arena parlamentar” no sentido de encontrar espaços de entendimento, gerando os consensos necessários para ajudar o país a inverter a terrível situação em que se encontra mergulhado. É fundamental por ora enterrar machados de guerra e unir todas as forças para lutar pelo futuro do país, que bem precisa desse esforço conjunto. Só pela atitude o PS poderá de novo reerguer-se e afirmar-se como o grande partido que é.

O espírito democrático e o respeito pela vontade do povo impõem uma justa congratulação ao PSD e um aprimorado sentido de cooperação com o novo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, que necessitará de uma base de apoio alargada para enfrentar os complicadíssimos desafios que se avizinham. Pessoalmente, desejo-lhe todo o sucesso, alguma prudência e também um pouco de sorte, a bem do futuro de Portugal, esperando que o anseio por “mudança” que inspirou junto de uma grande franja da população seja plena e positivamente correspondido, não obstante os “perigos” que implicam muitas medidas previstas no seu programa eleitoral, que é efectivamente de grande ruptura com o tipo de Estado que possuíamos até agora, principalmente no que toca à sua função social. Toda a cautela será ainda necessária em relação ao ambicioso plano de privatizações anunciado, que terá com certeza toda a atenção da opinião pública, na qual claramente me incluo. Com franqueza, nutro alguma simpatia pela forma do novo primeiro-ministro, figura simpática e de aparência apaziguadora, embora me reserve a uma análise substantiva mais concreta, que os próximos meses com certeza ajudarão a melhor definir. É importante não esquecer que pouco interessa ao novo Governo hostilizar o PS, como já se pôde constatar pela pertinência do “charme” de Passos Coelho, que sabe perfeitamente que para levar a cabo as desejadas alterações de natureza constitucional vai necessitar de uma maioria de dois terços dos deputados, só possível com a contribuição socialista. Veremos como será o ambiente e como se desenrolarão os acontecimentos no seio do Parlamento, pois é urgente colocar o interesse nacional acima de todos os outros. Neste aspecto estou em crer que todos estaremos de acordo.

No discurso de vitória, Passos Coelho prometeu transparência ao povo português. Saúdam-se as palavras, esperemos que não se fique por elas. Anunciou uma “vontade clara e inequívoca de mudança”, frisando que não descansará enquanto “não puser Portugal a crescer”. Sabendo-se de antemão que pretende levar ainda mais além o pacote de medidas previstas no memorando assinado com a Troika pelos três principais partidos, garantindo ainda a “defesa” da função social do Estado e prometendo uma “melhor distribuição do rendimento e da riqueza no nosso país”, resta-me mesmo desejar-lhe toda a boa ventura para que consiga levar os seus intentos avante.

Será realista a ambição demonstrada por Passos Coelho? Oxalá...

quarta-feira, 11 de maio de 2011

"Black Dog"

Resiliência é a capacidade do indivíduo para lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de conjunturas adversas, sem entrar em surto psicológico. Em situações particularmente difíceis de crise, seja de que tipo for, torna-se necessário aprender a estimular a nossa capacidade de dar a volta às circunstâncias desfavoráveis que nos desequilibram e criam uma espécie de ansiedade que, quando levada ao extremo, pode tornar-se incontrolável e mesmo incapacitante. O risco do colapso é inerente à natureza do ser, mas é sempre possível a tudo reagir através da atitude que se adopta perante a realidade que nos habita. Os tempos difíceis que caracterizam o presente do nosso país poderão propiciar os mais diversos problemas ao cidadão comum, a começar pela privação material. O desencanto latente com que muitos encaram as suas próprias vidas, de uma forma geral, levou-me a investigar as áreas da depressão e do pessimismo, que por variadas razões sempre me despoletaram algum interesse. Muitos poderão ignorá-lo, mas segundo o último Eurobarómetro sobre Saúde Mental, realizado e com resultados divulgados pela Comissão Europeia no último trimestre de 2010, Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população, e consumo de anti-depressivos. O que fazer para superar os dias sombrios?


Momentos menos bons todos temos, mas será que os outros terão inevitavelmente que suportar o nosso mau estar, ou simplesmente até o nosso tradicional mau feitio? Seria óptimo se assim não fosse, mas esse não seria com certeza o mundo em que vivemos, o dos seres humanos imperfeitos. No entanto, se pensássemos um bocadinho que fosse no quanto podemos poupar das nossas agruras aqueles que nos são e estão próximos, não tenho dúvidas que muitos de nós viveriam um pouco mais felizes, tanto em casa como no trabalho. A questão pode, todavia, atingir contornos mais graves. O simples “rezingão”, a que tudo insatisfaz e irrita, também acaba por ter os seus momentos de descontracção, em que aqui e ali lá vai esboçando uns sorrisos que atestam que de facto nem só de contrariedade e infortúnio se caracteriza a sua alma. O grande problema é quando a angústia e o completo desespero se apoderam por inteiro do indivíduo, minando-lhe a sua natural alegria. Na sua forma mais extremada, este deixa inclusivamente de ter dias bons, perde o prazer em tudo o que fazia e deixa de dominar o transtorno que o preenche, entrando “em depressão”. Os obstáculos fazem parte da vida, mas nem todos os conseguem enfrentar da mesma forma, sendo que uns conseguem ter o poder de relativizar com alguma facilidade situações adversas várias, que para outros acabam por se revelar autênticas montanhas inultrapassáveis. A realidade custa tanto a encarar que o desalento apodera-se do indivíduo, anestesiando-o. Há alturas em que temos obrigatoriamente que “arregaçar as mangas” e agir, mantendo a cabeça fria o suficiente para evitar o desmoronar da nossa estrutura psicológica, que tanto pode ser feita do material mais resistente como do mais vulnerável.


Filosofias de vida, cada um tem a sua, mas há sempre determinadas premissas que nos podem ajudar a manter a cabeça fria e a ter uma atitude mais positiva perante a própria existência e a dos que nos rodeiam. A capacidade de resistir é passível de ser aprendida, a resiliência do indivíduo reside na sua atitude. Desenvolver uma postura optimista previne eventuais perturbações de carácter, por isso o melhor é mesmo seguir o caminho do brio pessoal, cultivando corpo e mente. A consciência de cada um é a melhor monitorização que pode haver sobre o que temos de bom, e de mau. Logo, importa valorizar os pontos fortes que possuímos, relativizando os mais fracos e lutando inclusivamente para aligeirar ou mesmo evitar por completo hábitos nocivos que façam parte do nosso dia-a-dia. Apesar de ter o seu lado enriquecedor, a solidão muitas vezes não é boa conselheira, por isso nada como fortalecer os laços que existem com os familiares e os amigos mais próximos, pois o bom convívio é sempre restaurador. A prática de exercício físico é determinante, dado que além de extremamente saudável acaba por produzir a libertação de químicos cerebrais que actuam directamente no humor e na robustez psicológica, além de ter um papel decisivo no combate ao stress. Quando tudo à nossa volta parece estar virado do avesso, nada como pegar num livro de qualidade e ler algumas passagens, cultivando a própria espiritualidade e definindo assim de forma mais arguta a nossa própria filosofia, o que fazemos neste mundo. Há autores que são excelentes companheiros, nos momentos mais difíceis..


É importante estar activo e interventivo, manter a cabeça ocupada e saber ter a frieza necessária para não ceder ao desencanto, à mágoa e à raiva que situações diversas poderão potenciar. Por outro lado, a procura da boa disposição é meio caminho andado para o bem estar, mantendo o coração a uma temperatura que permita acolher todas as boas sensações exteriores, sendo que para isso por vezes basta um simples sorriso. Ter um bom “karma” ajuda e muito a estarmos bem connosco e com os que nos rodeiam. Apesar de haver diferentes “sortes” no decorrer do percurso de cada um, o “savoir être” quando levamos um valente “abanão” nas nossas vidas varia de pessoa para pessoa, daí parecer-me extraordinária, e mesmo brilhante, a boa capacidade de relativização do indivíduo. Não temos uma só vida? Passa tudo tão depressa, o que é mesmo o Tempo? O caminho do martírio é um verdadeiro desperdício de vitalidade, daí a importância da atitude. Uma forma de estar positiva e confiante é conducente à Luz, o oposto leva-nos inevitavelmente ao adensar do negrume. Que caminho seguir? O óbvio! Há que viver com o que se tem, não com o que se teve e entretanto perdeu, mas sim com o que ainda se pode ganhar. O ser humano tem uma capacidade fantástica para se adaptar às condições mais desfavoráveis, mais extremas, basta procurá-la e explorá-la ao máximo, de cabeça erguida.


Por variadíssimas razões e exemplos que me rodeiam, parece-me postiço o positivismo temporário que o consumo de anti-depressivos provoca, uma espécie de cuidado paliativo que apenas adia o inevitável, piorando progressivamente até o real, que é o que de facto dói. Recorrer à fé e à religião é o rumo por muitos seguido, a salvação de muitas almas atormentadas, um poiso onde encontram a sua paz interior e o equilíbrio para seguirem em harmonia com as suas vidas. Materialista como me considero, abnego por completo outro caminho que não o da tal relativização, que terá todavia que assentar sempre numa base estrutural sólida para resultar, a força psicológica. Está tudo na cabeça de cada um.


Winston Churchill, um histórico resistente da adversidade e também fiel adepto de poesia, metaforizava a “nuvem negra” do desalento que volta e meia o perseguia como um “black dog”. Para ele, a depressão não passava de um cão que pode “morder” de vez em quando, mas que lá no fundo é sempre “domesticável”.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O que é Liberdade?

Em Abril, torna-se um lugar-comum invocar vitórias e glórias do nosso país, de um passado não muito distante. Tenho presente a importância e a enorme grandeza dos feitos de 74, pois apesar de não ser ainda nascido à data, cedo me foram transmitidos e inculcados os valores entretanto conquistados pelo povo português, que convergem todos num mesmo sentido de grande abrangência – a Liberdade. Por serem recorrentes os exercícios escritos que recordam o momento e o transportam para realidades actuais, uns de forma mais encantada que outros, apresto-me com este meu a não o fazer. Não porque o subvalorize, longe disso, ou que o desdenhe, ainda mais longe até, mas simplesmente entendo que abunda pela nossa sociedade quem o faça com mais legitimidade do que eu, por o terem vivido, pelo que prefiro centrar a presente reflexão no conceito “liberdade” em si. Sim, porque por vezes também é importante (tão importante…) “esquecermos” por momento as nossas realidades enquanto membros de uma comunidade, com todas as suas leis, regras e regulamentos, privilegiando nesses mesmos instantes um pensamento mais direccionado para a nossa natureza enquanto seres vivos, enquanto seres vivos livres, como no fundo todos somos.

Afinal, o que é Liberdade? Em apenas duas palavras, arrisco: voluntariedade comportamental. Falo de voluntarismo pela vontade, pelo querer. Sendo livre, não terei necessariamente que ser autónomo (quem é?) ou independente (isso existe?). Sou livre porque faço as opções que entendo fazer, em consciência, e esse é o verdadeiro acto libertador, defender espontaneamente causas e revelar atitudes decorrentes de decisões próprias, sempre influenciadas mas nunca determinadas em absoluto por algo exterior, apesar do respeito pelas leis morais vigentes. Mais importante ainda do que ser livre é querer ser livre, e essa sim é a verdadeira força propulsora do arbítrio de cada um. No entanto, a auto-determinação do nosso comportamento deverá ter sempre uma feição ética, porque nunca podemos dissociar o conceito de liberdade com o de responsabilidade, dado que um decorre do outro. Ser livre implica também a assumpção do conjunto dos nossos actos e do impacto dos mesmos nos outros e no meio, e deverá também implicar sempre o saber responder por estes. Conscientemente, parece-me importante termos a capacidade de ser responsavelmente livres, o que não significa todavia que nos tornemos reféns das nossas responsabilidades. A vontade, para o bem e para o mal, é soberana na definição da conduta de cada um.

Para muitos, a liberdade só existe mesmo quando se conseguem livrar das restrições impostas pela civilização a que pertencem. Este mesmo sentido de pertença tolhe-lhes de certa forma o instinto natural e toda a realidade psicossomática que inconscientemente vão constituindo desde o nascimento. O mundo exterior acorrenta-os, num progressivo processo de desencanto que redunda muitas vezes em grandes tragédias, em que a História é infelizmente fértil. O lado negro da natureza humana é bem real e incontornável, apesar de no fundo tudo não passar de uma opção. A “cabeça” de cada um permite-nos sempre escolher. Sartre defendia que “a liberdade humana se revela na angústia”, e a verdade é que todos temos e teremos sempre que fazer escolhas. Impliquem estas o que implicarem…

Afinal, o que é Liberdade? Há pessoas ainda que, na ânsia de se sentirem genuinamente livres, acabam por embarcar numa louca e incessante procura de todo o tipo de prazer. No entender destas, só assim poderão sentir-se satisfeitas, realizadas. Entregam-se em larga medida a comportamentos desviantes supostamente libertadores, que vastas vezes redundam no fracasso, descobrindo a posteriori que afinal essa pretensa “liberdade” não passava de um sonho, de uma utopia. Todos caem, mas a imensa frustração causada inibe muitos de se conseguirem levantar. A contínua busca pela liberdade no seu estado mais extremo pode muitas vezes levar o indivíduo à mais penosa escravidão, à mais profunda submissão.

O que importa mesmo é saber escolher, saber viver. Muitas pessoas gabam-se da sua liberdade, obtendo grande satisfação a anunciar que são livres para fazer o que lhes apetece, de forma descomprometida. Vão para onde querem, e para onde não querem não vão. Não se “amarram” a nada, nem a uma causa, nem a uma companhia, nem a uma família. Consideram-se “livres” por viver por si e para si, mas não será esta simplesmente a opção por uma filosofia hiper-egoísta de vida? Liberdade nunca será um antónimo de pertença. Liberdade é sinónimo de opção, presente a todo o instante na acção de qualquer um de nós, por cada qual determinada. As “amarras” deverão ser sempre por nós livremente estabelecidas, nunca sendo a partir destas que de seguida se determinará ou não a verdadeira liberdade do indivíduo.

Independentemente das opções que faço e das causas que defendo, sinto-me a pessoa mais livre deste mundo, porque todas as “amarras” que caracterizam o meu ser subsistem em harmonia com a minha consciência, e é essa toda a liberdade que procuro, a auto-lealdade. Procurando que essa atitude não interfira negativamente com o Outro, não deixo no entanto de reconhecer a volatilidade intrínseca do ser humano, pelo que creio na não existência de realidades absolutas, a Vida assim mo ensinou. As mais profundas convicções não terão necessariamente que ser perpetuadas, antes parece-me que a liberdade do indivíduo reside na cristalização da fidelidade que este tem consigo próprio, com a sua conduta e o seu carácter, sejam estes de que natureza for.

“Torna-te aquilo que és!”, disse o brilhante Nietzsche um dia.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Habemus Presidente?

Apesar de se tornar ilegítimo afirmar que as medidas contempladas na famosa quarta versão do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) seriam as suficientes para inverter o caminho do precipício, o certo é que, como muitos “adivinharam”, a sua precipitada rejeição parlamentar catapultou subitamente o país para um ainda maior descrédito junto das instituições financeiras, cujo baronato, figurado nos “mercados” e nas cúmplices “agências de rating”, terá sido provavelmente quem mais celebrou a queda do Governo de Sócrates. Estas sanguinárias personagens assustam pelo acerto da sua concertação estratégica, que chega a roçar o bárbaro, pela total ausência de escrúpulos com que a sua ganância fervorosa saqueia os Estados economicamente mais debilitados, lançando as suas populações na miséria. Sem o mínimo pudor ou a mais pequena consideração humana, dado que apenas se movem pela avidez da acumulação de lucro, a principal raiz da natureza desse capitalismo global que persiste como sistema, e que se tem manifestado cada vez mais poderoso e incontornável. O triunfo da especulação! Com toda a sinceridade, temo pelo futuro do poder político, tão subjugado que este se encontra presentemente pelos económico e financeiro, mas adiante..

Tendo em conta que vamos de novo às urnas a 5 de Junho, das duas uma: ou se elege e constitui um governo de maioria que se comprometa em absoluto a agir responsavelmente e em conformidade com as directrizes europeias, ou então seguimos o caminho da insurreição, enchendo o peito de orgulho e fulgor patriótico, desafiando os grupos de capital e partindo para um aventureirismo sem precedentes, e de consequências imprevisíveis. Pessoalmente, alinho pela primeira, pois parece-me mais sensata, e acima de tudo credível, para “levar a nau a bom porto”. Credibilidade e Sensatez. São estes os valores que creio terem sido dos mais escassos na discussão política que se tem verificado recentemente, pelo que enalteço o apelo materializado em “Um Compromisso Nacional”, documento subscrito por 47 reputados signatários, num texto publicado pelo jornal Expresso a 9 de Abril. Aí, figuras como os ex-Presidentes Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio manifestam-se a favor de que “haja juízo” e se “evitem jogadas políticas” num momento tão delicado da história contemporânea do nosso país, onde o próprio regime instaurado nunca esteve tão ameaçado, tamanha é a dimensão da crise. Não posso corroborar mais a feição preocupada deste manifesto, pelo que chega de “pugilismos verbais” e “arbustos”, deixemo-nos de palhaçadas e de brincar aos políticos e preocupemo-nos assim a sério com o futuro do país. Haja bom senso e sentido de dever, pois essa é a prioridade das prioridades. A “ajuda” externa está aí (estima-se um lucro de 520 milhões de euros para quem nos vai “ajudar”…), pelo que se torna determinante o bem governar, no sentido de cumprir todos os objectivos a estabelecer para os próximos 3 anos, concentrando todos os esforços nessas metas, e impedindo assim que o povo continue por ainda mais tempo submetido a tanto sacrifício, que para muitos é já intolerável. Importa exigir seriedade e rigor aos governantes, para não deixarem piorar uma situação já de si francamente má, devendo estes cingir-se somente à recuperação de uma forma clara e pragmática, construindo consensos e ignorando querelas políticas inúteis, as tais eternamente associadas ao interesse e à ambição. Entretanto, surge a questão: quem para nos governar?

Parece-me necessária a constituição de um governo amplo a que seja dada toda a legitimidade, em primeiro lugar, e seguidamente toda a estabilidade possível no decorrer da legislatura, que no fundo acabará por ser uma governação conjunta com as entidades externas, na sua base. O programa de governo será sempre co-construído, pelo que cada vez mais se torna irrazoável falar em soberania nacional, já não é realista fazê-lo, e parece-me que a tendência é para um aligeiramento ainda maior destas “consciências” ou identidades individuais, prevalecendo o interesse comum: o europeu. A continuar a haver Europa, e nos moldes como esta tem evoluído, assim terá forçosamente que ser. Como nem eu nem ninguém acreditará em maiorias absolutas de PS ou PSD, a constituição de um governo de bloco central permitiria em primeira instância colocar os interesses de Portugal e dos portugueses acima de todos os outros, e a meu ver será essa a prioridade maior. Considerando os mais recentes desenvolvimentos político-partidários, teremos Sócrates ou Passos Coelho como próximo primeiro-ministro? Considerando que se trata do “gato” e do “rato”, parece-me extraordinariamente difícil que cheguem a um acordo pós-eleitoral. Só com o conhecimento do sentido de voto do povo se poderão equacionar cenários, mas não creio que um venha a subordinar-se ao outro na formação do novo governo. As sondagens que têm sido divulgadas lançam a ideia de que o resultado do sufrágio será muito equilibrado, pelo que é de superior importância garantir uma solução governativa que se pretende estável. O Presidente da República terá um papel de grande relevo nessa importante negociação, pois o país precisa como nunca de um governo de consenso, determinado no procedimento e na substância, tranquilo e livre de interferências menores.

Cavaco Silva, o único cidadão português que poderia e deveria ter evitado a crise política mais irresponsável de que há memória, terá em breve a seu cargo a missão de ser o garante de estabilidade que não tem sido até agora. Cavaco precisa de emergir positivamente de uma vez por todas, e provar que a magistratura activa que tanto apregoou em campanha deixe de facto de ser uma mera ilusão. A responsabilidade é inequivocamente de todos, mas cabe à mais importante figura da Nação assegurar que esta, no mais perturbado momento desde a instauração do novo regime, tenha as tranquilidade e capacidade necessárias para inverter o rumo do desequilíbrio.

Senhor Cavaco, diga-nos lá afinal: “Habemus Presidente”?

quarta-feira, 23 de março de 2011

A Importância da Floresta

Após um Inverno frio e longo, foi com uma semana de sol resplandecente que a Natureza deu as boas vindas à nova estação, impulsionando a sazonal renovação da flora e trazendo um pouco mais de calor e de aconchego a toda à fauna, humana incluída. Rebentam as flores e ouve-se de novo os pássaros cantar, compondo uma agradável melodia primaveril que consegue cativar e aquecer um pouco até o mais frio dos corações. Aí está ela de novo finalmente, a estação das cores!

Encerradas as considerações românticas relativas à época, e recordando que a ONU proclamou 2011 como o Ano Internacional das Florestas, tenciono agora centrar-me de uma forma mais séria sobre o valor destas, um bem precioso que não contribui apenas para o equilíbrio ecológico do planeta, pois tem-se revelado como um meio fundamental para a sobrevivência do Homem, quer através da sua importantíssima função purificadora do ar que todos respiramos, pela produção de oxigénio, quer através das vastas possibilidades de exploração na actividade florestal, um sector muito importante e com grande impacto económico no nosso país, por exemplo.

Não será lisonjeiro referir que Portugal é um país com bastante peso neste sector, tanto a nível europeu como internacional até, contribuindo relevantemente para o mercado global com produtos como o papel, a pasta de papel e a cortiça, além do mobiliário e da própria madeira. Além do pinheiro bravo e do eucalipto, as espécies com maior volume de metros quadrados de madeira cortada, temos ainda o sobreiro, que tem ganho grande destaque a nível global nos últimos anos, dado que Portugal é presentemente o maior produtor mundial de cortiça, uma nobre matéria-prima que tem adquirido múltiplas utilizações nas mais diversas áreas. Só estas três espécies representam dois terços do coberto florestal nacional, e embora com diferentes velocidades de crescimento e impactos no ambiente, são sem dúvida as mais lucrativas. Com o país estrangulado pelo garrote do défice e urgentemente necessitado de apostar nas exportações para incrementar a sua receita e continuar a lutar pela estabilização das contas públicas, importa salientar o enorme contributo do sector florestal a este propósito, tratando-se do terceiro que mais exporta. Para se ter uma ideia do que tem evoluído, e segundo dados apresentados pelo Ministério da Agricultura, a floresta passou a ter um peso de 13% no total das exportações nacionais, tendo conseguido a obtenção de um valor aproximado de 5 mil milhões de euros durante o ano de 2010, equivalente a 3,2% do Produto Interno Bruto (PIB), constituindo-se assim como um recurso imprescindível para a riqueza criada no país. A floresta é fundamental para a qualidade do ambiente e do equilíbrio ecológico, mas torna-se também muito importante para o crescimento económico, como comprova a evolução analisada neste parágrafo.

Segundo dados de um estudo realizado pela Direcção Geral de Florestas, a floresta portuguesa ocupa uma área de aproximadamente 3,3 milhões de hectares, correspondente a 38% do território nacional, mas este registo tem um potencial de crescimento enorme se forem aproveitadas áreas de incultos e improdutivos, que ocupam cerca de 23% do território segundo o mesmo estudo, pelo que certamente que ainda há muito que poderá ser feito no sentido de fomentar o rendimento deste sector. Além desta realidade, e apesar de se tratar de um recurso renovável, é por todos sabido que o flagelo dos incêndios, que todos os anos se verifica, é provavelmente o maior inimigo da floresta e dos seus produtores, consumindo anualmente milhares de hectares que demoram décadas a desenvolver-se. A floresta arde essencialmente por falta de prevenção, pelo que nunca será demais recordá-lo, sendo determinante apostar na sua valorização e optimizar a sua preservação. Tendo em vista esse objectivo, um correcto e adequado ordenamento do território revela-se fundamental, tal como campanhas de sensibilização para a população e uma cuidada acção de vigilância, que permita por um lado dissuadir potenciais mãos criminosas, e por outro detectar eventuais ocorrências de forma mais célere, intervindo de imediato sobre estas. A este propósito, e tendo sempre presente os constrangimentos orçamentais que se conhecem, e que redundam recorrentemente na falta de meios, lamento constatar que o ano de 2010 foi o terceiro da última década com a maior área florestal ardida no nosso país, pelo que legitimamente pergunto: estarão reunidos e atempadamente disponibilizados todos os recursos materiais e humanos para evitar que se verifique novamente o mesmo cenário catastrófico em 2011?

Debruçando-me agora sobre a realidade local, aproveito este exercício para saudar e enaltecer o excelente funcionamento do Dispositivo Municipal de Vigilância Florestal implantado em Mortágua, cuja eficiência se tem materializado nos últimos anos em valores residuais de ocorrências e de área ardida. Convém recordar que o Concelho é constituído por uma mancha florestal muito densa, e de grande importância económica para a sua população, tornando-se relevante sublinhar os bons resultados alcançados pela actual estratégia definida nas políticas de valorização e protecção da floresta, que têm sido absolutamente exemplares. A juntar a esta realidade, a floresta mortaguense encontra-se actualmente muito melhor preparada para combater o fogo, dispondo de uma vasta rede de pontos de água estrategicamente colocados, e de cada vez mais acessibilidades garantidas por caminhos florestais principais e secundários entretanto construídos.

Com a disponibilização dos recursos necessários e o apoio de todos sem excepção, as nossas florestas podem ser mais e melhor defendidas, uma preocupação legítima que devia ser estabelecida como uma das grandes prioridades nacionais, pela sua indiscutível importância.

sábado, 5 de março de 2011

Educar Para Humanizar

O programa televisivo “Prós e Contras”, do passado dia 28 de Fevereiro, foi uma pequena amostra do estado a que chegou a Educação em Portugal, tendo como alguns dos intervenientes diversos representantes de federações e associações académicas que mais não fizeram do que auto-atestar a sua superficialíssima formação, evidenciando a debilidade do ensino que tem vindo a ser ministrado no nosso país de algum tempo a esta parte, e que resultou na formação de uma geração que, mesmo estando “à rasca”, convinha pelo menos que procurasse informar-se, instruir-se e adequadamente se “desenrascar”.

O problema da transição para o mercado laboral não é somente português, pelo que importa incutir valores determinantes nos jovens de hoje, adultos de amanhã, que os prepare da melhor maneira para os novos desafios que se avizinham, de certa forma até por uma questão de mentalidade. É importante perceber por um lado que o nosso país é demasiado pequeno para ser possível haver uma oferta laboral que todos abarque, os qualificados e os menos qualificados, o que estranhamente se constitui como que uma espécie de um dogma que parece persistir. Embora não devamos nunca abdicar da nossa própria identidade, devemos procurar integrar-nos de outra forma na Europa, sem pudores injustificados. Sem crescimento económico no nosso país não se gera mais trabalho, pelo que não podemos estar sempre a aguardar oportunidades caídas do céu, ou esperar que o Governo "crie" emprego. Importa agarrar as oportunidades que surgirem, e encarar a Europa como "um país", o nosso país também, isto porque o futuro será de europeus de diferentes nacionalidades, e não de pseudo-nacionalistas acomodados e retrógrados, pois também para isso serviu Bolonha. Para combater este preciso aspecto, a qualidade do Ensino que é providenciado torna-se fundamental. Se queremos ter de facto um futuro melhor, temos que formar convenientemente os mais novos nos tempos que correm, eu diria mesmo apostar tudo por tudo neles, porque o que de facto se viu no programa foi francamente mau, um alerta vermelho para explorar e corrigir desde já, sob o risco de progressivamente nos despersonalizarmos como indivíduos e como povo.

É imperativo agir desde já na Educação, provavelmente o sector estrategicamente mais importante e mais necessitado de uma grande reforma. Uma reforma de rigor, exigência, e acima de tudo virada para as novas exigências de um futuro global! Providenciem-se todas as condições necessárias a todos os agentes educativos, desde os alunos até à figura do professor, entre outros, e começaremos a colher bons resultados dessa aposta num prazo de 10 anos. Não somos nem temos que ser inevitavelmente "maus", precisamos é de uma melhor orientação para sermos melhores do que somos presentemente. E isso requer um forte investimento no sector, pelo que é lamentável que o critério economicista se sobreponha permanentemente ao critério pedagógico na linha estratégica seguida e consagrada nas políticas educativas adoptadas.

A conjuntura socioeconómica actual atravessa um período francamente mau, o que não constitui novidade para ninguém. A acumulação da dívida, o insuficiente desempenho da economia, o aumento do desemprego e o consequente avolumar de problemas sociais são sintomas reais e mais do que suficientemente graves para exigir uma concertação por parte das forças partidárias e dos diversos agentes políticos, devendo estes estrategicamente convergir em prol do superior interesse de Portugal, e dos seus cidadãos, colocando de parte proveitos particulares e sectoriais. Se não o fizermos, incorremos num sério risco de aumentar ainda mais a pobreza e as desigualdades, o que poderá inclusivamente despertar fundados receios de convulsões sociais no nosso país, à semelhança das que se têm visto proliferar por esse mundo fora. A paciência do povo por vezes tem limites.

Pretendo destacar a enorme importância da Educação, pelo que a este propósito me parece que toda a política deveria ser de certa forma humanizada, isto é, centrada no ser humano e não no lucro, ou na poupança. A actividade política que é exercida parece-me demasiado mecânica, assente numa racionalidade que de facto existe, mas que carece vastas vezes da importantíssima influência da ética, ou até de alguma sensibilidade. Já dizia Saramago que “se a ética não governa a razão, a razão está-se nas tintas”, e parece-me que neste aspecto particular sobre o qual reflicto, à semelhança de outros em que facilmente se observa o mesmo, existe uma espécie de desumanização latente no rumo traçado pela política global, que como se sabe assenta num modelo capitalista que se está fria e perfeitamente a borrifar para essa suposta ética. Não querendo parecer um idealista utópico, e independentemente do valor da minha palavra, não me inibo no entanto de mostrar-me inconformado, procurando até de certa forma nesse inconformismo uma vontade própria, uma vontade de mudar e agregar todos aqueles que também se sentem insatisfeitos ou injustiçados com o estado da situação. Só intervindo agora poderemos melhorar o que pode ser melhorado, e cabe aos jovens deste país, nos quais claramente me incluo, lutar por um futuro melhor para todos, um futuro que se deseja personalizado, e não mecanizado.

Humanizemo-nos gradualmente, portanto. As pessoas têm forçosamente que ser colocadas no centro de toda e qualquer decisão que determine o nosso futuro como povo, e como mundo. E é também precisamente por isto que a Educação se revela fundamental.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O Ruído Bom e o Ruído Mau

As sucessivas revoluções com “efeito dominó” que se têm observado nos países com governações autoritárias, corruptas e repressivas provam que a emergência de uma sociedade global mais instruída por via do acesso à informação pela informatização tem sido determinante nestes dias para a lenta mas efectiva erradicação de sistemas políticos ditatoriais que já contam décadas de existência. O povo perdeu o medo. Perdeu inclusivamente o maior de todos os medos, o da morte, pelo que na união revolta e desesperada configura-se como uma força brutal e imparável na demanda por uma vida melhor, pela liberdade e por uma condição mais digna, à imagem do Ocidente e do séc. XXI. A Internet e os meios de comunicação em geral vão progressivamente cultivando as massas, que procuram agora combater a subserviência e a miséria a que sempre foram submetidos, pelo que é ver um grande líder atrás do outro a ligar os motores dos seus jactos privados e a prepararem devidamente as suas contas no estrangeiro, para todas as circunstâncias que se possam vir a verificar.

Mais instruídos, os novos “filhos” destas nações amplamente viciadas em todos os sectores unem-se pela ruptura com regimes que promovem a violação dos direitos humanos mais básicos, a atrocidade, a censura e o tratamento desigual, sujeitando o povo à mais penosa privação, em prol do fausto irrazoavelmente exagerado dos chefes e seus aliados, que entre ostras, caviar, vinhos selectos e haréns repletos das mais voluptuosas carnes, nunca tanto terão temido pela manutenção do seu poder absoluto como hoje. Este “ruído”, outrora inexistente, assume agora proporções cada vez maiores, sendo que até já se vêem na televisão mulheres árabes destemidas e com o rosto descoberto, dando voz à indignação geral e nomeando sem quaisquer pudores os responsáveis pelo estado catastrófico em que se encontram os seus países. Um “ruído bom”, construtivo, determinado e empenhado nas suas nobres causas promotoras de igualdade de direitos, deveres e oportunidades, que no fundo certifiquem o mínimo de dignidade a quem nunca soube o que isso era. Um “ruído” justo, portanto, e plenamente justificado, embora algo tardio, considerando a evolução da sociedade contemporânea. Os propósitos a que este se reporta são mais do que válidos, pelo que faz todo o sentido que sejam intentados em abono da democracia, seja de que forma for, custe o que custar.

Consumada a primeira parte desta reflexão, encaminho o leitor para uma segunda deixando claro desde já que esta se debruçará sobre uma realidade completamente distinta, embora haja e continue a haver quem goste de metaforizar o poder político local mortaguense como uma ditadura, sob o jugo d´”O Ditador”. A comparação interessa-me sobretudo pelo objectivo de dissertar sobre o exercício do “ruído”, os seus pressupostos, os seus objectivos e a sua operacionalização tacticista, isto porque se torna importante dissociar o “bom ruído” do “mau ruído”.

Aliada a uma constante campanha de “cosmética” que floresce em alguma comunicação social regional, concretizada em manifestos e tomadas de posição pseudo-demagógicas e de cariz populista, projectoras de uma acção política aparentemente “exemplar e desinteressada”, está o já habitual ataque feroz aos suspeitos do costume, os “oligarcas socialistas”. Abstraindo-me da esfera pessoal que compõe a minha razão, consciência e compromisso, suspendo-me por momentos e observo de forma crua mas acima de tudo realista a actividade política local, pesando de um lado a competência e o rigor absolutamente inquestionáveis que a liderança deste município tem levado a cabo na prossecução da boa gestão autárquica até agora consensualmente avaliada, e devidamente fiscalizada; e pesando do outro a qualidade e a quantidade da contribuição da Oposição, bem como dos seus posicionamento e postura políticos, considero que qualquer mortaguense com dois dedos de testa e o com o mínimo conhecimento da actividade municipal desenvolvida pode confirmar a eficiência e a credibilidade deste Executivo, porque este é de facto experiente e competente. Inocente e despretensiosamente sabe-se que assim é, tornando-se consensual a análise, tão clara é a evidência. Qualquer mortaguense com dois dedos de testa e algum conhecimento da actividade municipal exercida, porque a acompanha de perto ou porque assiste por dentro, sabe muito bem da quase inacção das forças partidárias da Oposição, que acaba por se basear muito mais em meros acenos de cabeça do que na apresentação de um modelo político alternativo válido e convincente, digno de ser posto à consideração. Ou este inexiste, ou então continua sagradamente no segredo dos deuses, tão escassa é a efectiva contribuição. As sessões de Assembleia Municipal fazem por vezes com que recorde os meus tempos de estudante, num qualquer auditório onde se transmitem conhecimentos e conteúdos vários, onde se identificam lacunas cognitivas e se procura a melhor forma de as colmatar... onde se aprende!

Apesar de pouco brilhantes, é certo que temos também figuras esforçadas e acima de tudo bem intencionadas em alguma Oposição, bastante válidas e ponderadas. Humildes na aparência pelo facto de estarem cientes das suas limitações, mas voluntariosos, conscientes do peso da sua responsabilidade e com noção do que será verdadeiramente o serviço público, agindo nessa conformidade por Mortágua. Depois temos também os emissores do que caracterizo de “mau ruído”, empenhados na luta desenfreada pelo poder, na ambição desmedida e na avassaladora ganância onde impera a tirania, por vezes baixa. Figuras políticas e aspirantes a sê-lo, que em vez de se preocuparem em credibilizar e enriquecer as suas imagens pessoais e partidárias, aspirando a que o povo, no momento de sufragar, lhes reconheça a capacidade necessária para lhes confiar as decisões e a trajectória governativa, acabam no fundo por irremediavelmente se afundar na sua própria maledicência.

Confesso que ainda estou numa fase de alguma habituação à mesquinhice que é parte indissociável da acção política na sua globalidade, tanto à dimensão nacional como local, mas apesar de inevitável parece-me que esta específica lição será porventura uma das menos importantes no percurso de amadurecimento político de qualquer aspirante. Há todo um conjunto de lições e princípios fundamentais que deverão ser priorizados, alguns bem elementares, até. A noção básica do real funcionamento das instituições, da natureza da inter-ligação e articulação das suas competências e atribuições; o estudo profundo das verdadeiras necessidades da população em relação com a quantidade e qualidade dos recursos patrimoniais, humanos e financeiros à disposição, sempre numa lógica de pragmatismo, adequação, pertinência e de realismo absoluto, agindo nessa conformidade com determinação mas de forma calculada, com optimismo mas de forma prudente, com ambição mas sem nunca perder a noção do razoável.

O país necessita como nunca de voltar a ver credibilizada a sua classe política, pelo que precisa de formar futuros agentes argutos e com personalidade, bom senso e um efectivo sentido de Estado, cientes da enorme responsabilidade que encerra a prestação de um serviço público de qualidade, que se pretende desinteressado.

Portugal precisa como nunca de futuros agentes políticos a sério, chega de políticos de cordel.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

L´Amour

L´Amour. Perguntará eventualmente o leitor sobre o porquê do título do artigo, mas eu passo a explicar, é doce. Doce como o Amor deverá ser, e em momentos como este, de escritas mais descontraídas, perdoem-me o galicismo mas era assim mesmo que eu gostaria de o denominar, sabendo também a forte ligação intemporal que França e os franceses sempre tiveram com este fantástico sentimento, e que vai muito além da doçura da dicção de uma simples palavra.

Mas afinal o que é o Amor? Uma rápida investigação em qualquer dicionário remete-nos de imediato para a associação deste sentimento com afeição, atracção, satisfação, apetite, paixão, desejo, e sensações semelhantes, mas será o Amor concretamente definível? Não creio, e será também por aí que suscitará tantas e tão diferentes interpretações, dissertações e reflexões várias desde tempos imemoriais, com a Arte a ser um veículo especialmente sensível e demonstrativo da importância e do relevo que este afecto tem nas nossas vidas, e do papel deste no equilíbrio das mesmas. Canta-se, escreve-se e pinta-se o Amor há séculos, umas vezes a preto e branco e outras com as mais garridas cores, porque não haverá outro sentimento nesta vida que nos transporte para estados de espírito tão antagónicos que vão do mais enebriante êxtase à mais perturbada e angustiada melancolia. O Amor é a melhor e a pior coisa do mundo ao mesmo tempo, por mais absurdo que possa parecer.

O que será estar apaixonado? Como escreveu um dia o poeta Camões, é “fogo que arde sem se ver”. Todos os dias, pessoas de quase todas as idades descobrem que estão apaixonadas por um colega, um vizinho, um amigo ou até por alguém quase completamente desconhecido. Faz parte da natureza do ser humano, gostar. Gostar muito também, amar. Diz-se que o Amor “anda por aí”, e a verdade é que anda mesmo, nós é que por vezes poderemos não nos aperceber disso, voluntária ou involuntariamente, consciente ou inconscientemente. Segundo Sternberg, reputado estudioso da atracção e das relações amorosas, o Amor pode ser compreendido através de uma teoria triangular que defende a existência de três componentes indissociáveis, que se integram e co-relacionam: a paixão, a intimidade e o compromisso. De uma forma muito simplificada, poderei dizer que esta teoria aborda o Amor como o resultado do momento em que nos sentimos bem e próximos de alguém, desejamos ou erotizamos essa pessoa e estamos comprometidos e decididos a permanecer numa relação amorosa com ela. Quem ama verdadeiramente sabe o quão gratificante e realizador é amar e ser amado.

Será o Amor um “mar de rosas”? Não. Não mesmo. Apesar de existirem inúmeros casos de paixões que resultam em relacionamentos para a vida toda, a crua realidade é que isto cada vez mais acontece como excepção do que como regra, na sociedade contemporânea. Por motivos vários, as pessoas também se afastam. A verdade é que o tempo passa e vai passando, e as pessoas mudam, como aliás tudo muda na vida. Hoje em dia todos nos consideramos demasiado “especiais”, e por conseguinte damos prioridade à carreira profissional, à tentação, à busca de sonhos antigos ou simplesmente cedemos à nossa visão sempre muito única e pessoal do que queremos para as nossas vidas, abdicando muitas vezes de as viver de uma forma partilhada, uma evidência decorrente de estudos sociológicos que analisam o comportamento humano através da evolução das sociedades. Basta atentar ao crescimento do número de divórcios de ano para ano, associado ao decrescimento do número de matrimónios. Além desta progressiva “despersonalização” do Amor, que sublinho não ser regra, outra verdade é que cada vez há menos tempo para namorar, com a vida difícil que a maior parte das pessoas tem. A somar a problemas e privações da mais variada espécie, o mundo real de cada um de nós por vezes não é muito propício ao Amor, podendo mesmo acabar com ele. A certa altura, este nosso “mundo interior” poderá sobrepor-se à paixão, à ideia de que o outro “é perfeito”, o “tal”, aquele “com quem posso contar”, “com quem me divirto mais”, “a pessoa que me conhece melhor”. No “mundo interior” de cada um existe também amigos, familiares, trabalho, hobbies, contas para pagar, períodos de mau humor, discussões e os mais variados constrangimentos. Não é fácil.

A propósito de relações desgastadas e casamentos falhados, fruto de problemáticas várias, aproveito também para alertar para uma chocante realidade subsequente ao tema, que tem vindo a aumentar e redunda já num autêntico problema social: morreram 43 mulheres em Portugal por violência doméstica no ano de 2010, uma notícia que fez manchetes esta semana. Apesar de não ser a vítima exclusiva por excelência, uma vez que também há homens violentados, a dura estatística dá que pensar. A que ponto conseguem chegar as coisas para tudo desabar na morte de um dos cônjuges? A deterioração dos relacionamentos, associada aos mais diversos problemas que poderemos ter na vida podem fazer mergulhar o mais belo conto de fadas num autêntico pesadelo. Lamento profundamente estes números, e esta triste realidade dos dias que correm.

No próximo dia 14, celebra-se mais um tradicional Dia dos Namorados, em honra de São Valentim. Uma data por muitos ansiada, onde se celebra o genuíno sentimento que une intensamente duas pessoas, como poderá também ser um dia penoso para outros tantos, pela negação dessas mesmas razões. Nesta tão especial data, gostaria de desejar a mais profunda alegria a todos aqueles que têm uma “alma gémea”, aproveitando ainda para lhes recomendar que a respeitem e valorizem não só nesta data mas também em todos os restantes dias do ano. É muito importante que assim seja. Por outro lado, desejo tranquilidade e também alguma sorte a todos aqueles que (ainda) a não têm, mas que certamente um dia terão, até porque a vida faz muito mais sentido quando é partilhada.

Toda a gente tem o direito de ser feliz, e o Amor, mesmo que por vezes seja um pouco feio, lá no fundo é a coisa mais bonita que pode haver. Nunca deixem de acreditar que assim é.