Gostava de começar por
cumprimentar todos os presentes, sem excepção, e dentro do possível prometo que
vou tentar ser rápido. Intervenho sem qualquer tipo de interesse pessoal,
profissional ou político, o que parecendo que não, é de salientar, por isso me
foco nas evidências facilmente denotáveis da realidade, e não na fantasia da
conveniência. Aqui, que é uma das casas da democracia, devemos falar à vontade,
com elevação e respeito pela opinião divergente, sem insultos deliberados de
baixíssimo nível e reles tentativas de agressão, como infelizmente já
aconteceu, e não assim há tanto tempo, mas que ninguém se esqueça que vivemos
numa liberdade que muito nos custou a conquistar, e eu sei muito bem disso
porque tenho antepassados próximos que estiveram presos durante anos e anos a
fio, e que me passaram esse ensinamento e essa mensagem, pelo que tanto aqui
como no espaço público, somos e devemos sentir-nos absolutamente livres para
afirmarmos as nossas convicções, sem receios ou subterfúgios de qualquer espécie.
Também gostava de deixar bem claro que contesto antecipada e veementemente
qualquer acusação de fulanização que me possam dirigir, ou o que quer que seja
do género, porque pese embora me reporte a pessoas concretas, como é óbvio,
desafio qualquer um a apontar-me uma observação que seja que eu tenha realizado
sobre a específica esfera pessoal de quem quer que seja, ou até da esfera
profissional, sendo que sobre esta última até poderiam haver considerações a
fazer aqui, com alguma pertinência. Não fui por aí. Nem vou! A matéria política
que hoje temos em nossa posse é mais do que suficiente para produzir opinião. Assim
sendo, e uma vez que estamos aqui reunidos através de uma mera publicação de
Facebook, com local e hora de reunião, mas sem uma convocatória formal e uma
ordem de trabalhos que permitam perceber o enquadramento deste plenário, e
planeá-lo a partir do respectivo propósito, (o que é singularmente
inacreditável… diga-se de justiça) deduzo que este sirva para fazer um balanço
do mandato que agora termina, relativamente aos órgãos da Concelhia. Assim
sendo, será aí que vou centrar o meu contributo, visando sobretudo o
funcionamento interno da secção do partido e o desempenho do seu Presidente,
que lhe é indissociável. Não vou, desse modo, colocar o foco muito
especificamente no próprio percurso do Ricardo, promovendo debate sobre as
graves, gravíssimas vistas grossas da Ecobeirão e dos Bombeiros, ou ainda dos
obscuros negócios da Previum com a Autarquia de Mortágua, que demonstram um
sinal claro do princípio que existe e que é seguido sobre a não separação entre
o que é a política, ou o serviço público que é prestado, e os negócios que
gravitam em torno desta. São sinais claros de neblinas e de evidências criadas
pelo próprio protagonista, à sua única e exclusiva responsabilidade, que deixam
antever um pouco do que seria caso um dia fosse eventualmente eleito
Presidente. Adiante.
Caros camaradas socialistas, na
qualidade de militante de base activo e sustentando-me na legitimidade que esse
estatuto me confere, tenho a dizer-vos que dificilmente conseguiria fazer uma
avaliação mais negativa sobre o modo como esta secção tem sido orientada e isto
não se trata, de todo, de uma qualquer perspectiva catastrófica, até porque
basta ter em consideração alguns pormenores que estão bem visíveis, a olho nu.
Analisada de um ponto de vista democrático, a actividade da Concelhia tem sido
um autêntico desastre. Tenho, aliás, experiência associativa suficiente para
perceber que a esmagadora maioria das associações de Mortágua dão neste preciso
momento uma verdadeira lição de democracia ao nosso PS, dando o exemplo sobre o
que é promover a participação dos seus associados, permitindo e ao mesmo tempo
fomentando o seu acompanhamento e a sua intervenção, percebendo que é precisamente
o escrutínio que verifica e consequentemente valida toda uma acção governativa,
seja em que organização for. Quando se está confiante, desinteressado e de boa
fé, esse mesmo escrutínio é inclusivamente aplaudido e incentivado, havendo
sempre um tempo e um lugar marcados de forma sistemática para que este possa
ser consumado como uma realidade inquestionável. Numa associação, por norma
reúne-se religiosamente uma vez por mês, para se prestar contas e se esclarecer
a estratégia seguida, ou no fundo tudo o que se faz. Esse desígnio nasce
precisamente da vontade dos próprios órgãos eleitos em mostrarem que a sua
actividade é credível e transparente, não decorre de uma reclamação ou de uma
exigência dos seus associados, que seriam absolutamente legítimas caso esta não
se verificasse. Ora, bem vistas as coisas, não é nada disto que tem vindo a
acontecer com o PS-Mortágua, muito pelo contrário. Ao longo de todo este
mandato, houve uma reunião com todos os militantes… uma! Junho de 2018. Houve
duas, a contar com a de hoje. A Comissão Política vai reunindo, muito
esporadicamente, mas com um rigor e um respeito pelos estatutos que são tudo
menos dignos de um grande partido, como é o caso do Partido Socialista. Já nem
menciono a ausência crónica de uma ordem de trabalhos, mas em que
circunstâncias é que se poderão admitir as presenças de indivíduos alheios ao
próprio partido, como aconteceu várias vezes… indivíduos esses que nem
militantes do PS são? A própria força da equipa que o Ricardo escolheu para o
acompanhar é facilmente aferível pela frequência com que os membros comparecem
às reuniões que ele vai convocando… havendo por vezes somente 7, 8 pessoas
presentes. Não é uma surpresa, tendo em conta que o que se tem podido observar
é uma mera transmissão de informações, ou uma exibição da tomada de posição já consumada,
não havendo lugar a uma efectiva discussão do que quer que seja. Eu penso, eu
decido, eu faço… no fim informo os meus camaradas, numa reunião para essa
finalidade. Simples. O que é isto, senão um sinal claro de uma presidência
absolutista e autocentrada, prova de uma liderança política manifestamente
fraca e uma evidência crassa de que estamos perante uma representação democrática
doente? O poder de mobilização do Ricardo e o correspondente espírito de equipa
são facilmente perceptíveis pela frequência e assiduidade das reuniões da CP e dos
respectivos membros, que têm saído uns atrás dos outros, como um castelo de
cartas que se desmorona… mas o que é isto, senão um verdadeiro embaraço para a
própria democracia?
Sou muitas vezes acusado de
“fazer mal ao PS” por comentar publicamente os “assuntos internos” do partido,
sendo que estes deverão ser debatidos no “local próprio”. Onde? Quando? Como?
Ando há meses e meses a tentar comunicar com o Ricardo e ao mesmo tempo a ser
olimpicamente ignorado. A nível pessoal, tem todo o direito de criar e manter a
rede de relacionamentos que bem entender, mas como Presidente de uma Concelhia,
nunca, mas nunca mesmo!, poderá ter o desplante de desprezar o contacto e a
iniciativa de um militante. Esta atitude, por si só, demonstra o carácter do
democrata que habita dentro do próprio, mas isto não fica por aqui… fazendo-me
valer de todos os plenos direitos que a militância activa me confere (e que
está longe de ser singelamente insurrecta, como alguns fazem crer),
enderecei-lhe algumas cartas com pontos de vista que gostaria que fossem
esclarecidos pessoalmente ou, como ainda mais desejaria, e como aliás
reiteradamente lhe comuniquei, numa reunião plenária como esta, onde todos
pudéssemos estar à vontade para discutir e esclarecer tudo o que houvesse para
esclarecer e discutir. Foram largos meses e meses nisto… para nada. Eu fui
adiando, até hoje, a manifestação de uma posição pública sobre tudo isto, e o
Ricardo tem vindo sempre, mas sempre mesmo!, a fugir do escrutínio dos seus
militantes como o diabo da cruz. Porquê? Quais são os motivos para tanto
receio? Porque não cumpre o Presidente da Concelhia com o seu dever de
esclarecimento?
A partir de um dos manifestos que
lhe dirigi, a ele e somente a ele próprio, a título pessoal, o Ricardo entendeu
quebrar essa confidencialidade e reenviá-lo para todos os militantes, sem o meu
consentimento e com um objectivo claro de se vitimizar, perante as observações
que nele constavam. Impossibilitado de defender onde queria os pontos de vista
que lhe transmiti, que era numa reunião como a de hoje, procurei ser o mais
expositivo e esclarecedor possível, num conjunto de mails que enviei aos
Socialistas de Mortágua, tendo tido algumas reacções de bradar aos céus, por
parte de quem deveria considerar e acarinhar minimamente a democracia e todos
os nobres valores que ela consagra, até pelos percursos efectuados. Prova
provada de que o PS-Mortágua que todos hoje conhecemos é, efectivamente, um
clube de amigos e não uma secção de um partido político onde as coisas
funcionam democraticamente, como deve ser. Isto é tão claro e evidente que se
trata de uma realidade categórica e indiscutível, não há como contornar ou rebater
a verdade.
O facto de o Ricardo ter
desprezado em absoluto as responsabilidades que assumiu enquanto líder de todos
os Socialistas de Mortágua, de todos sem excepção, no que toca à manutenção do
mais elementar respeito e da prestação de esclarecimentos a toda a militância
local que assumiu o estrito privilégio de representar, leva-me a concluir com
lógica e com naturalidade que ele não é, com toda a certeza, a pessoa indicada
para nos continuar a liderar. Se a isso aliar as nebulosidades várias que
recheiam com fartura o seu ainda curto percurso político até agora, parece-me
evidente que está longe de ser o melhor candidato para nos representar na
corrida de 2021. Já me pareceu o contrário, mas neste momento estou em crer que
o actual Presidente da Câmara tentará um terceiro mandato. Se o Ricardo vier a
ser o seu concorrente, nosso candidato… perde novamente. E isto mesmo
considerando o enorme conjunto de asneiras que o actual Presidente tem
protagonizado, nestes últimos tempos, o que abre esperanças renovadas para
reconquistarmos a Câmara, desde que seja com a pessoa certa, e não uma que
tenha a imagem ainda mais chamuscada. Ao contrário do que tem sido ventilado
por alguns ilustres camaradas socialistas, não, não é verdade que o Ricardo
seja a “única” pessoa capaz de concorrer à Câmara. Isso parece-me, aliás, um profundo
e atroz atestado de incompetência que é passado em nome próprio, além de mais
um claro sinal da falta de renovação e de vitalidade democrática no partido.
Temos muitos e bons quadros perfeitamente competentes, muito mais completos, experientes,
reputados, de integridade comprovada e seriedade à prova de bala. Não nomeio
qualquer possibilidade nesta intervenção, para não dispersar demasiado a
discussão, mas já adiantei pelo menos três boas alternativas, em manifestos
dirigidos aos militantes. Uma delas, na minha opinião a melhor colocada para conseguir
fazer a transição entre um passado que deixará poucas saudades e um futuro que todos
esperamos grandioso, de unidade e de vitória, está inclusivamente dentro desta
sala.
Estimados camaradas socialistas,
deixo aqui transmitida a minha posição, agora a decisão cabe a todos vós. Na
mesma medida em que eu sou livre para a manifestar, vocês também têm todo o
direito de apoiar o Ricardo até ao fim, isso fica à vossa consideração. Não se
esqueçam é que, se o fizerem, são e serão coniventes com essa escolha. Quem
acompanhar o Ricardo mete-se no mesmo barco que ele, soprem os ventos que
soprarem. Em tempos de grandes desresponsabilizações, crónicas e repetitivas, é
importante que isto fique bem claro. No momento em que escrevo, não há candidaturas
assumidas, mas se o Ricardo, como parece, se lançar novamente e colher o apoio
da maioria, que se cumpra a preceito a vontade democrática dos Socialistas de
Mortágua. Antevejo, no entanto, que isso venha a ser mais um erro monumental, a
somar a alguns que temos acumulado... sendo que já não seria o primeiro a que
eu tinha dado alerta. Nem nada que se pareça. Para mim, Mortágua e os
Mortaguenses estão sempre acima de tudo e de todos, aconteça o que acontecer.
Estão e estarão! Se o entendimento da maioria vier a ser o lançamento do
Ricardo para mais uma corrida, farei com toda a certeza as minhas próprias
reflexões sobre o partido e tomarei algumas decisões quanto ao futuro,
nomeadamente em relação à natureza da minha militância e ao objecto do meu
contributo cívico. Uma coisa posso desde já garantir-vos, com elevado grau de
certeza: nem sequer equaciono abandonar a militância do nosso partido, pelo que
o combate pela transparência e pela saudável democracia interna do PS-Mortágua
está e estará para durar. Custe o que custar. Doa a quem doer. A minha boa
consciência militante a isso me obriga.
Finalizo declarando-vos que tenho
aqui na minha posse o contributo que redigi, assinei e enviei em outubro
último, à maior parte dos que hoje aqui estão presentes. Essa mensagem reuniu
um conjunto de apreciações e um rol de questões directamente dirigidas ao
Ricardo que eu estou, como é por demais evidente, disponível para aqui esclarecer
e debater convosco. Com toda a coerência e frontalidade.
Gostava de vos poder passar uma
imagem mais colorida sobre a vida da concelhia do nosso partido, mas a
realidade é a que é. É a que podemos ver.
Muito obrigado.