Agora que a “silly season” está prestes a terminar, o povo começa lentamente a reconcentrar-se na realidade do país, e nos duros tempos que se avizinham. Apesar do Presidente Cavaco Silva já se ter referido por mais de uma ocasião a “limites” nos sacrifícios aos portugueses, o Governo parece cada vez mais determinado em levar adiante todas as medidas (… e mais algumas!) consideradas necessárias para colocar as contas públicas em ordem, apesar de estas continuarem a incidir sobretudo sobre os rendimentos do trabalho e não sobre as grandes fortunas, os desmesurados lucros de algumas empresas e as contínuas e escandalosas operações financeiras cujas mais-valias continuam vergonhosamente por tributar. Insiste-se em ir “mais além” do que o previsto no memorando assinado com a “troika”, mas vamos ver até que ponto resistirão os portugueses, pois estou em crer que os tempos próximos serão de fortíssima contestação social a vários níveis, até porque temos imensos indicadores nesse sentido no plano nacional, acrescentados ainda a recentes exemplos de convulsões noutros países de natureza idêntica, e que se poderão vir a verificar no nosso. A problemática será de complexo tratamento, e terá toda a minha atenção a seu tempo, como terá a de todos os que se considerem integrados na responsabilização civil comum que deverá caracterizar qualquer Estado democrático, mas no presente exercício vou procurar analisar mais objectivamente a situação específica da Madeira e do seu peculiar Governo Regional, cuja campanha eleitoral para as eleições que se avizinham começa a aquecer.
Nunca simpatizei com Alberto João Jardim, confesso, e apesar do seu desempenho político suplantar ainda em uns pares de anos a minha própria idade, são imensas as evidências políticas e pesadíssima a sustentação factual para que a relativa animosidade que por ele nutro seja um mero capricho por não ser um seu seguidor, ou por não me rever no seu estilo político único. (Vá, talvez um tudo nada semelhante ao de algumas figuras de regimes africanos, ou sul-americanos...) Motiva-me para esta reflexão o engraçado “número” que foi o discurso de Jardim no comício da “rentrée” política do PSD-Madeira, em Porto Santo, onde mais uma vez vociferou contra aqueles que, “em Lisboa”, recusaram à região uma autonomia mais ampla, isentando a sua longa governação que “reina” desde 1978 de todas as responsabilidades pelo caótico estado das contas madeirenses. Segundo dados apresentados pelo Diário Económico, a dívida da Madeira mais que duplicou nos últimos cinco anos, tendo o carismático governante referido incrivelmente a esse propósito que foi “obrigado a aumentar a dívida”, estratégica e conscientemente, “para agora poder negociar com o Governo liderado pelo PSD”. A gratuita e irresponsável “confissão” de Jardim diz tudo da sua postura do “quero, posso e mando”, e é bem caracterizadora do permanente desprezo e da sedição com que o insurrecto líder se move e sempre moveu contra os “cubanos do cont´nente”, a quem agora solicita com urgência “liquidez”, numa pretensa nova ajuda financeira para continuar a alimentar o sorvedouro madeirense. João Jardim personifica uma execrável figura que pratica um tipo de política que considero asquerosa, sendo que recomendo ao leitor uma breve pesquisa no “Youtube” por algumas das preciosidades que compõem um já de si extenso rol. Decerto que irá elucidá-lo melhor quanto ao carácter da figura; uma figura vil, ditatorial, ultra-populista e de baixo nível, sem uma ponta de educação e de respeito para com quem não vista um qualquer fato de palhaço ou de macaco e faça parte do seu circo de marionetas.
Além das contas, e tendo presente a permanente discussão em torno das “gorduras” do Estado português, que dizer em relação às do Governo Regional, consensualmente reconhecido pela sua excessiva estrutura governativa, nomeadamente em direcções regionais, institutos e empresas públicas e participadas? Jardim, um épico crítico feroz das políticas despesistas de Sócrates, mostra a todos como se faz em matéria de gastar aquilo que não se tem e, por conseguinte, aquilo que não se pode. Tem agora a palavra Pedro Passos Coelho, com um “dossier” em mão muito complicado de gerir, dadas as agudas sensibilidades implicadas no seu duplo desempenho como Primeiro-Ministro e como Presidente do PSD. Por um lado, quererá com certeza proteger o partido a que preside, evitando mais cisões internas e apostando em recuperar a coesão e a unidade entre todos os militantes, que por enquanto continua longe de ser uma realidade, como recorrentemente se comprova em declarações “ziguezagueantes” de notáveis à Comunicação Social, desde a tomada de posse do Governo. Por outro lado, Passos Coelho tem um compromisso bem maior com todos os portugueses, inclusivamente os que não “vestem” laranja, e a situação das contas madeirenses é tão grave que se aguarda uma posição relativamente ao pedido de assistência financeira de Jardim que, recorde-se, afirmou que “agora pode negociar com o Governo PSD”. A credibilidade do Primeiro-Ministro aos olhos de todos nós vai com toda a certeza ser influenciada pela cumplicidade revelada com o totalitário governante regional, o que também ajuda a explicar as suas prudência e hesitação.
A 9 de Outubro, os madeirenses vão a votos. Irá Alberto João Jardim sentar-se novamente no “trono” e ampliar o seu legado político que já perdura há 33 anos?! Estóico resistente, o “histórico” Jardim adopta já um bélico discurso de campanha, prometendo “resistir e voltar a derrotar a Esquerda”. A monstruosa dívida que caracteriza o presente das finanças por si geridas é obviamente da sua exclusiva responsabilidade, apesar de este se isentar da mesma, culpabilizando o “ataque financeiro” dos anteriores governos, e inclusivamente o próprio sistema capitalista. A pouco mais de um mês das eleições e já depois de ter pedido a tal “ajuda” ao Estado português para sanear as contas, o governante continua a lançar novos concursos e a adjudicar obras públicas, dando prioridade à construção de um gimnodesportivo, uma piscina e um centro paroquial, entre outras edificações. Entretanto, e supostamente em tempos de crises regional, nacional e mundial, a Festa dos 500 anos do Funchal custou mais 75,5% do previsto, segundo o Tribunal de Contas.
Habituado como está à desresponsabilização, gostava pessoalmente de ter a oportunidade de perguntar à criatura de quem terá sido a culpa de mais esta derrapagem. A resposta viria com certeza elegantemente acompanhada de um “Bastardo! Para não [me] chamar filho-da-p***!”