terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O Ruído Bom e o Ruído Mau

As sucessivas revoluções com “efeito dominó” que se têm observado nos países com governações autoritárias, corruptas e repressivas provam que a emergência de uma sociedade global mais instruída por via do acesso à informação pela informatização tem sido determinante nestes dias para a lenta mas efectiva erradicação de sistemas políticos ditatoriais que já contam décadas de existência. O povo perdeu o medo. Perdeu inclusivamente o maior de todos os medos, o da morte, pelo que na união revolta e desesperada configura-se como uma força brutal e imparável na demanda por uma vida melhor, pela liberdade e por uma condição mais digna, à imagem do Ocidente e do séc. XXI. A Internet e os meios de comunicação em geral vão progressivamente cultivando as massas, que procuram agora combater a subserviência e a miséria a que sempre foram submetidos, pelo que é ver um grande líder atrás do outro a ligar os motores dos seus jactos privados e a prepararem devidamente as suas contas no estrangeiro, para todas as circunstâncias que se possam vir a verificar.

Mais instruídos, os novos “filhos” destas nações amplamente viciadas em todos os sectores unem-se pela ruptura com regimes que promovem a violação dos direitos humanos mais básicos, a atrocidade, a censura e o tratamento desigual, sujeitando o povo à mais penosa privação, em prol do fausto irrazoavelmente exagerado dos chefes e seus aliados, que entre ostras, caviar, vinhos selectos e haréns repletos das mais voluptuosas carnes, nunca tanto terão temido pela manutenção do seu poder absoluto como hoje. Este “ruído”, outrora inexistente, assume agora proporções cada vez maiores, sendo que até já se vêem na televisão mulheres árabes destemidas e com o rosto descoberto, dando voz à indignação geral e nomeando sem quaisquer pudores os responsáveis pelo estado catastrófico em que se encontram os seus países. Um “ruído bom”, construtivo, determinado e empenhado nas suas nobres causas promotoras de igualdade de direitos, deveres e oportunidades, que no fundo certifiquem o mínimo de dignidade a quem nunca soube o que isso era. Um “ruído” justo, portanto, e plenamente justificado, embora algo tardio, considerando a evolução da sociedade contemporânea. Os propósitos a que este se reporta são mais do que válidos, pelo que faz todo o sentido que sejam intentados em abono da democracia, seja de que forma for, custe o que custar.

Consumada a primeira parte desta reflexão, encaminho o leitor para uma segunda deixando claro desde já que esta se debruçará sobre uma realidade completamente distinta, embora haja e continue a haver quem goste de metaforizar o poder político local mortaguense como uma ditadura, sob o jugo d´”O Ditador”. A comparação interessa-me sobretudo pelo objectivo de dissertar sobre o exercício do “ruído”, os seus pressupostos, os seus objectivos e a sua operacionalização tacticista, isto porque se torna importante dissociar o “bom ruído” do “mau ruído”.

Aliada a uma constante campanha de “cosmética” que floresce em alguma comunicação social regional, concretizada em manifestos e tomadas de posição pseudo-demagógicas e de cariz populista, projectoras de uma acção política aparentemente “exemplar e desinteressada”, está o já habitual ataque feroz aos suspeitos do costume, os “oligarcas socialistas”. Abstraindo-me da esfera pessoal que compõe a minha razão, consciência e compromisso, suspendo-me por momentos e observo de forma crua mas acima de tudo realista a actividade política local, pesando de um lado a competência e o rigor absolutamente inquestionáveis que a liderança deste município tem levado a cabo na prossecução da boa gestão autárquica até agora consensualmente avaliada, e devidamente fiscalizada; e pesando do outro a qualidade e a quantidade da contribuição da Oposição, bem como dos seus posicionamento e postura políticos, considero que qualquer mortaguense com dois dedos de testa e o com o mínimo conhecimento da actividade municipal desenvolvida pode confirmar a eficiência e a credibilidade deste Executivo, porque este é de facto experiente e competente. Inocente e despretensiosamente sabe-se que assim é, tornando-se consensual a análise, tão clara é a evidência. Qualquer mortaguense com dois dedos de testa e algum conhecimento da actividade municipal exercida, porque a acompanha de perto ou porque assiste por dentro, sabe muito bem da quase inacção das forças partidárias da Oposição, que acaba por se basear muito mais em meros acenos de cabeça do que na apresentação de um modelo político alternativo válido e convincente, digno de ser posto à consideração. Ou este inexiste, ou então continua sagradamente no segredo dos deuses, tão escassa é a efectiva contribuição. As sessões de Assembleia Municipal fazem por vezes com que recorde os meus tempos de estudante, num qualquer auditório onde se transmitem conhecimentos e conteúdos vários, onde se identificam lacunas cognitivas e se procura a melhor forma de as colmatar... onde se aprende!

Apesar de pouco brilhantes, é certo que temos também figuras esforçadas e acima de tudo bem intencionadas em alguma Oposição, bastante válidas e ponderadas. Humildes na aparência pelo facto de estarem cientes das suas limitações, mas voluntariosos, conscientes do peso da sua responsabilidade e com noção do que será verdadeiramente o serviço público, agindo nessa conformidade por Mortágua. Depois temos também os emissores do que caracterizo de “mau ruído”, empenhados na luta desenfreada pelo poder, na ambição desmedida e na avassaladora ganância onde impera a tirania, por vezes baixa. Figuras políticas e aspirantes a sê-lo, que em vez de se preocuparem em credibilizar e enriquecer as suas imagens pessoais e partidárias, aspirando a que o povo, no momento de sufragar, lhes reconheça a capacidade necessária para lhes confiar as decisões e a trajectória governativa, acabam no fundo por irremediavelmente se afundar na sua própria maledicência.

Confesso que ainda estou numa fase de alguma habituação à mesquinhice que é parte indissociável da acção política na sua globalidade, tanto à dimensão nacional como local, mas apesar de inevitável parece-me que esta específica lição será porventura uma das menos importantes no percurso de amadurecimento político de qualquer aspirante. Há todo um conjunto de lições e princípios fundamentais que deverão ser priorizados, alguns bem elementares, até. A noção básica do real funcionamento das instituições, da natureza da inter-ligação e articulação das suas competências e atribuições; o estudo profundo das verdadeiras necessidades da população em relação com a quantidade e qualidade dos recursos patrimoniais, humanos e financeiros à disposição, sempre numa lógica de pragmatismo, adequação, pertinência e de realismo absoluto, agindo nessa conformidade com determinação mas de forma calculada, com optimismo mas de forma prudente, com ambição mas sem nunca perder a noção do razoável.

O país necessita como nunca de voltar a ver credibilizada a sua classe política, pelo que precisa de formar futuros agentes argutos e com personalidade, bom senso e um efectivo sentido de Estado, cientes da enorme responsabilidade que encerra a prestação de um serviço público de qualidade, que se pretende desinteressado.

Portugal precisa como nunca de futuros agentes políticos a sério, chega de políticos de cordel.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

L´Amour

L´Amour. Perguntará eventualmente o leitor sobre o porquê do título do artigo, mas eu passo a explicar, é doce. Doce como o Amor deverá ser, e em momentos como este, de escritas mais descontraídas, perdoem-me o galicismo mas era assim mesmo que eu gostaria de o denominar, sabendo também a forte ligação intemporal que França e os franceses sempre tiveram com este fantástico sentimento, e que vai muito além da doçura da dicção de uma simples palavra.

Mas afinal o que é o Amor? Uma rápida investigação em qualquer dicionário remete-nos de imediato para a associação deste sentimento com afeição, atracção, satisfação, apetite, paixão, desejo, e sensações semelhantes, mas será o Amor concretamente definível? Não creio, e será também por aí que suscitará tantas e tão diferentes interpretações, dissertações e reflexões várias desde tempos imemoriais, com a Arte a ser um veículo especialmente sensível e demonstrativo da importância e do relevo que este afecto tem nas nossas vidas, e do papel deste no equilíbrio das mesmas. Canta-se, escreve-se e pinta-se o Amor há séculos, umas vezes a preto e branco e outras com as mais garridas cores, porque não haverá outro sentimento nesta vida que nos transporte para estados de espírito tão antagónicos que vão do mais enebriante êxtase à mais perturbada e angustiada melancolia. O Amor é a melhor e a pior coisa do mundo ao mesmo tempo, por mais absurdo que possa parecer.

O que será estar apaixonado? Como escreveu um dia o poeta Camões, é “fogo que arde sem se ver”. Todos os dias, pessoas de quase todas as idades descobrem que estão apaixonadas por um colega, um vizinho, um amigo ou até por alguém quase completamente desconhecido. Faz parte da natureza do ser humano, gostar. Gostar muito também, amar. Diz-se que o Amor “anda por aí”, e a verdade é que anda mesmo, nós é que por vezes poderemos não nos aperceber disso, voluntária ou involuntariamente, consciente ou inconscientemente. Segundo Sternberg, reputado estudioso da atracção e das relações amorosas, o Amor pode ser compreendido através de uma teoria triangular que defende a existência de três componentes indissociáveis, que se integram e co-relacionam: a paixão, a intimidade e o compromisso. De uma forma muito simplificada, poderei dizer que esta teoria aborda o Amor como o resultado do momento em que nos sentimos bem e próximos de alguém, desejamos ou erotizamos essa pessoa e estamos comprometidos e decididos a permanecer numa relação amorosa com ela. Quem ama verdadeiramente sabe o quão gratificante e realizador é amar e ser amado.

Será o Amor um “mar de rosas”? Não. Não mesmo. Apesar de existirem inúmeros casos de paixões que resultam em relacionamentos para a vida toda, a crua realidade é que isto cada vez mais acontece como excepção do que como regra, na sociedade contemporânea. Por motivos vários, as pessoas também se afastam. A verdade é que o tempo passa e vai passando, e as pessoas mudam, como aliás tudo muda na vida. Hoje em dia todos nos consideramos demasiado “especiais”, e por conseguinte damos prioridade à carreira profissional, à tentação, à busca de sonhos antigos ou simplesmente cedemos à nossa visão sempre muito única e pessoal do que queremos para as nossas vidas, abdicando muitas vezes de as viver de uma forma partilhada, uma evidência decorrente de estudos sociológicos que analisam o comportamento humano através da evolução das sociedades. Basta atentar ao crescimento do número de divórcios de ano para ano, associado ao decrescimento do número de matrimónios. Além desta progressiva “despersonalização” do Amor, que sublinho não ser regra, outra verdade é que cada vez há menos tempo para namorar, com a vida difícil que a maior parte das pessoas tem. A somar a problemas e privações da mais variada espécie, o mundo real de cada um de nós por vezes não é muito propício ao Amor, podendo mesmo acabar com ele. A certa altura, este nosso “mundo interior” poderá sobrepor-se à paixão, à ideia de que o outro “é perfeito”, o “tal”, aquele “com quem posso contar”, “com quem me divirto mais”, “a pessoa que me conhece melhor”. No “mundo interior” de cada um existe também amigos, familiares, trabalho, hobbies, contas para pagar, períodos de mau humor, discussões e os mais variados constrangimentos. Não é fácil.

A propósito de relações desgastadas e casamentos falhados, fruto de problemáticas várias, aproveito também para alertar para uma chocante realidade subsequente ao tema, que tem vindo a aumentar e redunda já num autêntico problema social: morreram 43 mulheres em Portugal por violência doméstica no ano de 2010, uma notícia que fez manchetes esta semana. Apesar de não ser a vítima exclusiva por excelência, uma vez que também há homens violentados, a dura estatística dá que pensar. A que ponto conseguem chegar as coisas para tudo desabar na morte de um dos cônjuges? A deterioração dos relacionamentos, associada aos mais diversos problemas que poderemos ter na vida podem fazer mergulhar o mais belo conto de fadas num autêntico pesadelo. Lamento profundamente estes números, e esta triste realidade dos dias que correm.

No próximo dia 14, celebra-se mais um tradicional Dia dos Namorados, em honra de São Valentim. Uma data por muitos ansiada, onde se celebra o genuíno sentimento que une intensamente duas pessoas, como poderá também ser um dia penoso para outros tantos, pela negação dessas mesmas razões. Nesta tão especial data, gostaria de desejar a mais profunda alegria a todos aqueles que têm uma “alma gémea”, aproveitando ainda para lhes recomendar que a respeitem e valorizem não só nesta data mas também em todos os restantes dias do ano. É muito importante que assim seja. Por outro lado, desejo tranquilidade e também alguma sorte a todos aqueles que (ainda) a não têm, mas que certamente um dia terão, até porque a vida faz muito mais sentido quando é partilhada.

Toda a gente tem o direito de ser feliz, e o Amor, mesmo que por vezes seja um pouco feio, lá no fundo é a coisa mais bonita que pode haver. Nunca deixem de acreditar que assim é.