segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

4K

 

Começo por assumir a paternidade da alcunha que colou, e de que maneira, ao visado no título, com quem nunca troquei uma palavra que fosse e em relação ao qual não tenho qualquer tipo de animosidade, ou coisa que o valha, dado que o desconhecimento pessoal entre ambos é rigorosamente absoluto. 4K não foi mais do que um soundbyte político que me ocorreu naturalmente e por motivos óbvios, em função da escandalosa avença auferida enquanto prestador de serviços no concelho onde resido, pago com dinheiros públicos, de todos nós, e que eu enquanto habitual comentador nunca poderia deixar passar, tamanha era a bizarria e a inadequação da relação que ali estava estabelecida entre dois amigos, com o município pelo meio. Ora, a desfaçatez foi sempre ganhando novos contornos à medida que o escrutínio ia sendo aguçado e a respetiva malha apertada. Levantei a questão pela primeira vez em julho de 2022, tendo depois em janeiro do ano seguinte denunciado publicamente a ilegalidade evidente de uma “escolha pessoal” para “assessor” do Presidente, que valia “todos os cêntimos que [os Mortaguenses] lhe pagam”, assim afirmado em plena sessão de assembleia, despudorada e desassombradamente, num número que nunca se descolará da imagem da presidência do Ricardo Pardal. O amadorismo político e a ingenuidade crassa foram de tal ordem que esta posição acabou assumida preto no branco em ata, assinada página a página, quando o que estava em causa era uma contratação em regime de prestação de serviços, suposta e devidamente escrutinada através de um concurso público ou procedimento de consulta prévia, dependendo dos montantes envolvidos, ambos sujeitos a regras de transparência muito precisas. Básica e resumidamente, foi a assumpção de um comportamento alegadamente ilícito, portanto. O mau da fita acabei por ser eu, claro, o falatório na rua então foi imenso, mas a consequência foi pouca ou nenhuma, até porque o povo esquece depressa e a vergonha de quem governa cada vez se perde com maior facilidade. Adiante. O antigo vereador da oposição, no entanto, fez uma denúncia às autoridades que, entretanto, foi atendida, apesar de já ir tarde para ter implicação eleitoral, e pronto, lá apareceu o nome do concelho nas capas dos jornais pelos piores motivos. A “bomba” de que o Presidente da Câmara Municipal de Mortágua tanto falava enquanto vestia a roupagem de candidato nas autárquicas de 2017 e 2021 pelos vistos demorou a rebentar e foi logo nas mãos do próprio, passado todos estes anos. Irónico, não? Na altura, a lebre levantada servia para alimentar suspeitas de ilicitudes várias na autarquia, que nunca se concretizaram. Eis que precisamente uma semana antes do Natal…. boom! Terá sido o karma?

Ainda recentemente, na euforia do discurso da vitória eleitoral, o Ricardo Pardal mostrou novamente que é muito tenrinho nestas lides, apesar da barba grossa, voltando a defender a sua escolha-pessoal-travestida-de-contratação-pública-com-regras-concretas, referindo-se até ao senhor pelo famoso cognome, coitado, como que clamando pelas glórias e virtudes do injustiçado enquanto se esquecia da lei que tão nitidamente atropelou. À imprensa, e a propósito das inéditas buscas realizadas na Câmara, revelou-se “absolutamente sereno” ao jornal que o entrevistou, apesar de ter passado a transparecer precisamente o oposto dentro de portas. É natural, até porque a inocência atrevida pode sair-lhe cara, muito cara. Não acredito numa perda de mandato, apesar de possível, mas especialistas em contratação pública admitem como cenário provável que os montantes em causa tenham de ser repostos à autarquia, sendo que se isso se vier a confirmar, o pagamento é da responsabilidade pessoal do próprio Ricardo Pardal. Que o crime não compensa já toda a gente e mais alguma sabe, mas pelos vistos o “quero, posso e mando” também não. Para quem se arrogava ser o porta-estandarte de toda a seriedade e transparência do mundo, estamos conversados. Trata-se, sem dúvidas algumas, de um sério aviso à navegação e de um monumental “abre-olhos” ao autoritarismo do Presidente (veremos se as consequências se ficam por aí…) e atenção que quem o deixa fazer tudo e mais alguma coisa, assinando sempre por baixo e com conhecimento de causa toda e qualquer decisão, também tem a sua responsabilidade bem vincada. Falo do restante Executivo, claro, nas pessoas do Luís Filipe Rodrigues e da Ilda Matos. Reflitam, pois. Às ferozes claques do movimento Melhor Mortágua que cantam “humildade” nas redes sociais também se agradece algum decoro, dos fanáticos da guarda pretoriana do partido às famosas “pardaletes” que defendem tudo e mais alguma coisa, por mais indefensável que seja. Para quem anda minimamente atento às evidências, isto não foi propriamente uma surpresa. Agora é lidar.