Os dias 19 e 20 do corrente mês foram de um grande frenesim pela capital Lisboa, onde mais de 50 chefes de Estado se reuniram para a Cimeira da NATO, que acabou por correr da melhor forma, para gáudio do fervoroso nacionalista. O desfile de estrelas como Merkel, Sarkozy, Cameron, Medvedev, Berlusconi, Barroso, Van Rompuy, Rasmussen, e da quase “rock star” Barack Obama, entre outros, exigiu o estabelecimento de uma mega-operação de segurança como provavelmente o nosso país nunca vira até hoje. Felizmente que tudo acabou por decorrer de forma pacífica, dentro e fora do pavilhão da FIL, tendo o referido encontro sido um verdadeiro sucesso. A plataforma operacional conjunta das polícias europeias acabou por culminar na barrada da entrada no país a cerca de 180 indivíduos, através dos controlos de fronteira terrestre. Estes, já mais do que referenciados por desacatos provocados e tumultos diversos, foram impedidos de se agregar aos restantes activistas que se manifestaram pelas ruas da capital de uma forma pouco agitada, contra o que tem sido hábito acontecer nas cimeiras da NATO, uma realidade que tirou algum peso interventivo ao activismo que, sendo pacífico, se saúda sempre; por outro lado acabou por acrescentar algum brilho à actuação do SEF e das forças policiais portuguesas como a PSP e a GNR, cronicamente necessitadas de algum polimento nas suas imagens, como é mais do que sabido, o que acaba por ser um registo positivo.
Anfitrião-mor da prestigiada reunião, Sócrates não cabia em si de contente pela forma como os acontecimentos iam decorrendo, bastava para isso apreciá-lo nas objectivas com o mais radiante dos sorrisos, tanto nos sempre obrigatórios cumprimentos de recepção aos líderes como nos discursos e declarações oficiais efectuadas no encerramento da Cimeira. O primeiro-ministro de Portugal terá até por algumas vezes estranhado como poderia estar a correr tudo tão bem, habituado que está às pedras que teimam em lhe ir entrando nos sapatos, mas como nem tudo são rosas lá teria que surgir uma situação desagradável que, não surpreendentemente, se revelou de imediato um isco para os vorazes e sanguinários apetites da Oposição, a propósito dos blindados que seriam “importantes”, mas não “determinantes” para as operações de segurança. Apesar do balanço final neste capítulo ser francamente positivo, não deixa de se sublinhar alguma desorientação do titular da pasta da Administração Interna do actual Executivo que, talvez incomodado com a pressão dos media, ávidos de esclarecimentos vários, “chutou a bola” da justificação para a PSP que, por sua vez e habilmente, a dominou de peito e devolveu ao ministro através do seu porta-voz, referindo que “o transporte e o contrato de aquisição dos blindados não é da responsabilidade da Polícia”. Uma inegável falha organizativa que no entanto terá sido das poucas, e que em abono da verdade e a posteriori acabou mesmo por não se revelar “determinante”, dado que as viaturas que chegaram dois dias após o encerramento do evento não foram imprescindíveis à boa segurança evidenciada.
Mas afinal, o que esteve de facto em cima da mesa das negociações? Foram discutidos 4 grandes temas: a aprovação de um novo conceito estratégico da Aliança Atlântica, o planeamento da transição das forças de segurança da NATO para as forças do exército afegão até 2014, a negociação do escudo anti-míssil e as relações institucionais da Aliança com a Rússia. Já se sabe que os temas discutidos nestes encontros são sempre antecedidos de preparações prévias e pré-negociações entre delegações e ministérios dos países envolvidos, sendo o momento mais virado para a formalização e respectiva oficialização dos acordos estabelecidos, mas até alguns dos principais intervenientes na cimeira se revelaram surpreendidos pelas facilidade e celeridade negociais encetadas, o que também acaba por consagrar a diplomacia internacional que actualmente se verifica. O secretário-geral da NATO, Anders Rasmussen, elogiou particularmente a conciliação estratégica entre a Organização e a Rússia, dado que foi acordada a “não imposição de ameaça mútua”, tendo sido identificado o “inimigo comum a ambos: o terrorismo, as armas de destruição maciça e a pirataria”. Terá sido porventura a melhor das novidades deste encontro, o enterro de mais alguns “fantasmas” de uma Guerra Fria que foi uma realidade num passado não muito distante. Em Lisboa, Obama referiu-se a Medvedev como “seu amigo”, sublinhando que os Estados Unidos da América encaram a Rússia como “um parceiro e não como um inimigo”. A ser verdade, e com efeito pela Paz no futuro, óptimo! O Mundo inteiro saúda a dissuasão nuclear progressiva das duas maiores potências, e uma diminuição significativa e equilibrada do potencial bélico de ambos os blocos.
O importante evento representou também uma vitória da diplomacia internacional, como já referi, sendo engraçado analisar as bem-dispostas declarações de Obama a este propósito, que revelou que a Cimeira de Lisboa não foi “tão excitante como outras, porque basicamente concordámos com tudo”. De facto, e pelos relatos chegados à Comunicação Social, à hora do jantar informal de encerramento já todas as arestas negociais estavam limadas, podendo os altos responsáveis digladiar descontraidamente vontades e estados de espírito à mesa, de consciência tranquila pelo dever cumprido, enquanto degustavam o creme de espinafres, os medalhões de vitela com queijo da serra e o pudim Abade de Priscos que compuseram a refeição, tudo devidamente acomodado com os melhores vinhos brancos e tintos da Burmester. Nem só de labor vive o Homem.
Continuando a analisar a actualidade do mundo que nos rodeia, e mudando um pouco de tema, não podia deixar de reservar uma pequena atenção para mais um rocambolesco episódio protagonizado pela Igreja, na figura do Papa Bento XVI. Noticiou-se a 20 do mês e um pouco pelos media de todo o mundo que se assistia a um verdadeiro avanço na doutrina católica, com direito a “bênçãos” de figuras diversas do movimento eclesiástico nacional e internacional; Bento XVI perdera a cabeça e admitia o uso do preservativo para reduzir os riscos de contaminação do vírus da SIDA, preparando assim “o caminho para uma sexualidade mais humana”. O iluminado delírio teve desde logo grande impacto a nível global, merecendo até rasgados elogios do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, que louvou as declarações “práticas e realistas” do santo padre, que reflectem “consciência e compreensão” por parte do Vaticano para um flagelo que ceifa anualmente milhares e milhares de vidas. Tal “revolução ideológica” rapidamente incomodou e abalou as bases ultra-conservadoras do sagrado palacete, que logo no dia a seguir (!) às abusivas e precipitadas declarações do Papa se apressou a declarar que estas não “eram nenhuma revolução”, assegurando ainda de forma categórica que a Igreja não considera o preservativo como a "solução moral" para o problema da SIDA.
A irrazoabilidade e falta de bom senso são de tal ordem que me limita a apreciação e consequente adjectivação do ocorrido, até por considerar que terei pelo menos um pouco desses valores presente junto de mim.
“Solução moral”. Enfim..
Anfitrião-mor da prestigiada reunião, Sócrates não cabia em si de contente pela forma como os acontecimentos iam decorrendo, bastava para isso apreciá-lo nas objectivas com o mais radiante dos sorrisos, tanto nos sempre obrigatórios cumprimentos de recepção aos líderes como nos discursos e declarações oficiais efectuadas no encerramento da Cimeira. O primeiro-ministro de Portugal terá até por algumas vezes estranhado como poderia estar a correr tudo tão bem, habituado que está às pedras que teimam em lhe ir entrando nos sapatos, mas como nem tudo são rosas lá teria que surgir uma situação desagradável que, não surpreendentemente, se revelou de imediato um isco para os vorazes e sanguinários apetites da Oposição, a propósito dos blindados que seriam “importantes”, mas não “determinantes” para as operações de segurança. Apesar do balanço final neste capítulo ser francamente positivo, não deixa de se sublinhar alguma desorientação do titular da pasta da Administração Interna do actual Executivo que, talvez incomodado com a pressão dos media, ávidos de esclarecimentos vários, “chutou a bola” da justificação para a PSP que, por sua vez e habilmente, a dominou de peito e devolveu ao ministro através do seu porta-voz, referindo que “o transporte e o contrato de aquisição dos blindados não é da responsabilidade da Polícia”. Uma inegável falha organizativa que no entanto terá sido das poucas, e que em abono da verdade e a posteriori acabou mesmo por não se revelar “determinante”, dado que as viaturas que chegaram dois dias após o encerramento do evento não foram imprescindíveis à boa segurança evidenciada.
Mas afinal, o que esteve de facto em cima da mesa das negociações? Foram discutidos 4 grandes temas: a aprovação de um novo conceito estratégico da Aliança Atlântica, o planeamento da transição das forças de segurança da NATO para as forças do exército afegão até 2014, a negociação do escudo anti-míssil e as relações institucionais da Aliança com a Rússia. Já se sabe que os temas discutidos nestes encontros são sempre antecedidos de preparações prévias e pré-negociações entre delegações e ministérios dos países envolvidos, sendo o momento mais virado para a formalização e respectiva oficialização dos acordos estabelecidos, mas até alguns dos principais intervenientes na cimeira se revelaram surpreendidos pelas facilidade e celeridade negociais encetadas, o que também acaba por consagrar a diplomacia internacional que actualmente se verifica. O secretário-geral da NATO, Anders Rasmussen, elogiou particularmente a conciliação estratégica entre a Organização e a Rússia, dado que foi acordada a “não imposição de ameaça mútua”, tendo sido identificado o “inimigo comum a ambos: o terrorismo, as armas de destruição maciça e a pirataria”. Terá sido porventura a melhor das novidades deste encontro, o enterro de mais alguns “fantasmas” de uma Guerra Fria que foi uma realidade num passado não muito distante. Em Lisboa, Obama referiu-se a Medvedev como “seu amigo”, sublinhando que os Estados Unidos da América encaram a Rússia como “um parceiro e não como um inimigo”. A ser verdade, e com efeito pela Paz no futuro, óptimo! O Mundo inteiro saúda a dissuasão nuclear progressiva das duas maiores potências, e uma diminuição significativa e equilibrada do potencial bélico de ambos os blocos.
O importante evento representou também uma vitória da diplomacia internacional, como já referi, sendo engraçado analisar as bem-dispostas declarações de Obama a este propósito, que revelou que a Cimeira de Lisboa não foi “tão excitante como outras, porque basicamente concordámos com tudo”. De facto, e pelos relatos chegados à Comunicação Social, à hora do jantar informal de encerramento já todas as arestas negociais estavam limadas, podendo os altos responsáveis digladiar descontraidamente vontades e estados de espírito à mesa, de consciência tranquila pelo dever cumprido, enquanto degustavam o creme de espinafres, os medalhões de vitela com queijo da serra e o pudim Abade de Priscos que compuseram a refeição, tudo devidamente acomodado com os melhores vinhos brancos e tintos da Burmester. Nem só de labor vive o Homem.
Continuando a analisar a actualidade do mundo que nos rodeia, e mudando um pouco de tema, não podia deixar de reservar uma pequena atenção para mais um rocambolesco episódio protagonizado pela Igreja, na figura do Papa Bento XVI. Noticiou-se a 20 do mês e um pouco pelos media de todo o mundo que se assistia a um verdadeiro avanço na doutrina católica, com direito a “bênçãos” de figuras diversas do movimento eclesiástico nacional e internacional; Bento XVI perdera a cabeça e admitia o uso do preservativo para reduzir os riscos de contaminação do vírus da SIDA, preparando assim “o caminho para uma sexualidade mais humana”. O iluminado delírio teve desde logo grande impacto a nível global, merecendo até rasgados elogios do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, que louvou as declarações “práticas e realistas” do santo padre, que reflectem “consciência e compreensão” por parte do Vaticano para um flagelo que ceifa anualmente milhares e milhares de vidas. Tal “revolução ideológica” rapidamente incomodou e abalou as bases ultra-conservadoras do sagrado palacete, que logo no dia a seguir (!) às abusivas e precipitadas declarações do Papa se apressou a declarar que estas não “eram nenhuma revolução”, assegurando ainda de forma categórica que a Igreja não considera o preservativo como a "solução moral" para o problema da SIDA.
A irrazoabilidade e falta de bom senso são de tal ordem que me limita a apreciação e consequente adjectivação do ocorrido, até por considerar que terei pelo menos um pouco desses valores presente junto de mim.
“Solução moral”. Enfim..