quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Um Fim de Semana Mediático

Os dias 19 e 20 do corrente mês foram de um grande frenesim pela capital Lisboa, onde mais de 50 chefes de Estado se reuniram para a Cimeira da NATO, que acabou por correr da melhor forma, para gáudio do fervoroso nacionalista. O desfile de estrelas como Merkel, Sarkozy, Cameron, Medvedev, Berlusconi, Barroso, Van Rompuy, Rasmussen, e da quase “rock star” Barack Obama, entre outros, exigiu o estabelecimento de uma mega-operação de segurança como provavelmente o nosso país nunca vira até hoje. Felizmente que tudo acabou por decorrer de forma pacífica, dentro e fora do pavilhão da FIL, tendo o referido encontro sido um verdadeiro sucesso. A plataforma operacional conjunta das polícias europeias acabou por culminar na barrada da entrada no país a cerca de 180 indivíduos, através dos controlos de fronteira terrestre. Estes, já mais do que referenciados por desacatos provocados e tumultos diversos, foram impedidos de se agregar aos restantes activistas que se manifestaram pelas ruas da capital de uma forma pouco agitada, contra o que tem sido hábito acontecer nas cimeiras da NATO, uma realidade que tirou algum peso interventivo ao activismo que, sendo pacífico, se saúda sempre; por outro lado acabou por acrescentar algum brilho à actuação do SEF e das forças policiais portuguesas como a PSP e a GNR, cronicamente necessitadas de algum polimento nas suas imagens, como é mais do que sabido, o que acaba por ser um registo positivo.

Anfitrião-mor da prestigiada reunião, Sócrates não cabia em si de contente pela forma como os acontecimentos iam decorrendo, bastava para isso apreciá-lo nas objectivas com o mais radiante dos sorrisos, tanto nos sempre obrigatórios cumprimentos de recepção aos líderes como nos discursos e declarações oficiais efectuadas no encerramento da Cimeira. O primeiro-ministro de Portugal terá até por algumas vezes estranhado como poderia estar a correr tudo tão bem, habituado que está às pedras que teimam em lhe ir entrando nos sapatos, mas como nem tudo são rosas lá teria que surgir uma situação desagradável que, não surpreendentemente, se revelou de imediato um isco para os vorazes e sanguinários apetites da Oposição, a propósito dos blindados que seriam “importantes”, mas não “determinantes” para as operações de segurança. Apesar do balanço final neste capítulo ser francamente positivo, não deixa de se sublinhar alguma desorientação do titular da pasta da Administração Interna do actual Executivo que, talvez incomodado com a pressão dos media, ávidos de esclarecimentos vários, “chutou a bola” da justificação para a PSP que, por sua vez e habilmente, a dominou de peito e devolveu ao ministro através do seu porta-voz, referindo que “o transporte e o contrato de aquisição dos blindados não é da responsabilidade da Polícia”. Uma inegável falha organizativa que no entanto terá sido das poucas, e que em abono da verdade e a posteriori acabou mesmo por não se revelar “determinante”, dado que as viaturas que chegaram dois dias após o encerramento do evento não foram imprescindíveis à boa segurança evidenciada.

Mas afinal, o que esteve de facto em cima da mesa das negociações? Foram discutidos 4 grandes temas: a aprovação de um novo conceito estratégico da Aliança Atlântica, o planeamento da transição das forças de segurança da NATO para as forças do exército afegão até 2014, a negociação do escudo anti-míssil e as relações institucionais da Aliança com a Rússia. Já se sabe que os temas discutidos nestes encontros são sempre antecedidos de preparações prévias e pré-negociações entre delegações e ministérios dos países envolvidos, sendo o momento mais virado para a formalização e respectiva oficialização dos acordos estabelecidos, mas até alguns dos principais intervenientes na cimeira se revelaram surpreendidos pelas facilidade e celeridade negociais encetadas, o que também acaba por consagrar a diplomacia internacional que actualmente se verifica. O secretário-geral da NATO, Anders Rasmussen, elogiou particularmente a conciliação estratégica entre a Organização e a Rússia, dado que foi acordada a “não imposição de ameaça mútua”, tendo sido identificado o “inimigo comum a ambos: o terrorismo, as armas de destruição maciça e a pirataria”. Terá sido porventura a melhor das novidades deste encontro, o enterro de mais alguns “fantasmas” de uma Guerra Fria que foi uma realidade num passado não muito distante. Em Lisboa, Obama referiu-se a Medvedev como “seu amigo”, sublinhando que os Estados Unidos da América encaram a Rússia como “um parceiro e não como um inimigo”. A ser verdade, e com efeito pela Paz no futuro, óptimo! O Mundo inteiro saúda a dissuasão nuclear progressiva das duas maiores potências, e uma diminuição significativa e equilibrada do potencial bélico de ambos os blocos.

O importante evento representou também uma vitória da diplomacia internacional, como já referi, sendo engraçado analisar as bem-dispostas declarações de Obama a este propósito, que revelou que a Cimeira de Lisboa não foi “tão excitante como outras, porque basicamente concordámos com tudo”. De facto, e pelos relatos chegados à Comunicação Social, à hora do jantar informal de encerramento já todas as arestas negociais estavam limadas, podendo os altos responsáveis digladiar descontraidamente vontades e estados de espírito à mesa, de consciência tranquila pelo dever cumprido, enquanto degustavam o creme de espinafres, os medalhões de vitela com queijo da serra e o pudim Abade de Priscos que compuseram a refeição, tudo devidamente acomodado com os melhores vinhos brancos e tintos da Burmester. Nem só de labor vive o Homem.

Continuando a analisar a actualidade do mundo que nos rodeia, e mudando um pouco de tema, não podia deixar de reservar uma pequena atenção para mais um rocambolesco episódio protagonizado pela Igreja, na figura do Papa Bento XVI. Noticiou-se a 20 do mês e um pouco pelos media de todo o mundo que se assistia a um verdadeiro avanço na doutrina católica, com direito a “bênçãos” de figuras diversas do movimento eclesiástico nacional e internacional; Bento XVI perdera a cabeça e admitia o uso do preservativo para reduzir os riscos de contaminação do vírus da SIDA, preparando assim “o caminho para uma sexualidade mais humana”. O iluminado delírio teve desde logo grande impacto a nível global, merecendo até rasgados elogios do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, que louvou as declarações “práticas e realistas” do santo padre, que reflectem “consciência e compreensão” por parte do Vaticano para um flagelo que ceifa anualmente milhares e milhares de vidas. Tal “revolução ideológica” rapidamente incomodou e abalou as bases ultra-conservadoras do sagrado palacete, que logo no dia a seguir (!) às abusivas e precipitadas declarações do Papa se apressou a declarar que estas não “eram nenhuma revolução”, assegurando ainda de forma categórica que a Igreja não considera o preservativo como a "solução moral" para o problema da SIDA.

A irrazoabilidade e falta de bom senso são de tal ordem que me limita a apreciação e consequente adjectivação do ocorrido, até por considerar que terei pelo menos um pouco desses valores presente junto de mim.

“Solução moral”. Enfim..

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A Rede Social

Tive recentemente a oportunidade de assistir ao filme “The Social Network”, dirigido pelo excelente realizador David Fincher, e entendi por bem redigir um pequeno ensaio a propósito do facebook, esse emergente “novo mundo” cibernético que se encontra em plena fase de consolidação na sociedade contemporânea, um pouco por toda a parte. O fenómeno é real, e global, um facto praticamente impossível de refutar quando até a hiper-conservadora rainha Isabel II surge por estes dias nas manchetes por ter também aderido à famosa rede social criada por Mark Zuckerberg, o mais jovem bilionário de sempre. É incontornável pelo menos tentar perceber do que se trata, porque apesar de ser uma plataforma que já reúne a impressionante soma de 500 milhões de utilizadores, torna-se recorrente escutar esta ou aquela voz discordante que, em muitos casos, se manifesta a propósito apenas com essa mesma intenção: discordar. Desconfiados por natureza, e desconfortáveis com a massificação entretanto alcançada, preferem claramente “negar à partida uma ciência que desconhecem”, optando por relevar todos os malefícios que dali poderão advir. Apesar de como é evidente respeitar todas as tomadas de posição em relação ao assunto, interessa-me explorar a questão, até para desmistificar algumas ideias feitas, muitas destas de conteúdo erróneo. É que lá está, como tudo na vida, temos que experimentar para conhecer.

O famoso facebook é uma ferramenta de interacção social com múltiplas possibilidades e utilizações. Quem adere começa por criar um perfil que irá conter apenas a informação que cada um desejar tornar pública; informação escrita, como dados pessoais, notas, textos, ensaios; informação audiovisual, como fotografias, vídeos, músicas ou apresentações. Tudo o que é publicado é da exclusiva responsabilidade do utilizador. Consequentemente, este cria a sua rede privada, convidando outros utilizadores para a integrarem ou aceitando pedidos de outros que intentam o mesmo fim. A visualização dos dados detalhados de cada membro é restrita aos elementos que compõem a tal rede. Assim, todos os membros que integram a rede privada são da exclusiva responsabilidade do utilizador. Tudo é 100% configurável, 100% controlado. Este aspecto é que é determinante salientar, o absoluto livre arbítrio de cada um, que desvirtua logo a tal pré-conceptualização céptica da “falta de privacidade”. No fundo, é uma “treta”, pois cada um expõe exactamente o que deseja permitir ver aos outros membros que integram a nossa rede com o nosso consentimento, logo acaba por ser uma não questão. É exactamente como na vida pessoal de cada um, onde só entregamos e “abrimos” verdadeiramente o nosso íntimo a quem queremos, e da forma que queremos, sabido que é que somos donos e senhores de nós próprios, e sabendo ainda que é a conduta de cada um perante a vida que estabelece aquilo que somos aos olhos dos que nos rodeiam. La Palice, é certo, mas convém relembrar, sempre com o objectivo de apelar à reflexão, que muitas vezes inexiste. A rede social é potencialmente “perigosa”, sem dúvida alguma, mas depende em exclusivo do tipo de utilização que lhe é empregue. Não se deve divulgar demasiada informação pessoal, mas disso tem noção qualquer indivíduo lúcido e consciente. No entanto, torna-se de natureza fundamental acompanhar crianças e adolescentes que nos são próximos, como filhos ou familiares, de forma a elucidá-los devidamente para todos os riscos que poderão correr, pois quaisquer situações de coerção, vulgo cyber-bullying, podem e devem ser evitadas pela via da prevenção. Adultos impulsivos e pouco ponderados poderão também incorrer em situações delicadas por acção própria, mas também não será exactamente assim na “vida real”? Voyeurismo, coacção, hipocrisia, intriguismo e até potenciais atitudes criminosas fazem parte da natureza humana em comunidade, característica do “animal social”, pelo que basta sermos absolutamente prudentes e responsáveis na rede.. tal como somos na vida.

Procurando dissertar sobre o fenómeno sob outro prisma, o que será que atrai tanto um facebooker? Muitas coisas mesmo, dependerá sempre do perfil de cada um, e das suas expectativas, naturalmente. Utilizado na proporção certa e com os devidos cuidados, a rede acaba por ser uma poderosa ferramenta de divulgação, nos planos pessoal e profissional. No primeiro pela interacção, pelo simples facto de aproximar as pessoas independentemente da distância a que se encontram, e eu sou a favor de tudo o que aproxime as pessoas. No segundo pelo marketing, que bem planeado e posteriormente executado acaba por trazer grande visibilidade a quem decide lançar o seu negócio ou serviço na rede. Sem margem para dúvidas. Com a incrível expansão de pessoas e empresas no facebook, as oportunidades multiplicam-se. Tendo em conta a sociedade actual de informação em que vivemos, e em comparação com o verdadeiro “autismo” em que vivia a população do século passado, em que as notícias fluíam essencialmente através de estafetas, à “velocidade da voz”, é caso para perguntar: qual o real valor desta plataforma? É imenso! Pessoas e empresas têm a possibilidade de se darem a conhecer ao mundo inteiro com pouca dificuldade, e de forma totalmente gratuita.

Até a própria classe política já percebeu que se pode chegar a muita gente com toda a rapidez e facilidade, e não menos importante em tempos de crise, de uma forma económica. A nível nacional mas também a nível local, já se percebeu que o facebook possibilita uma espécie de interacção que pode ter uma influência decisiva nas pessoas, exactamente por estar perto delas, pertíssimo. Através das posições defendidas e dos interesses e preferências manifestados, as pessoas aproximam-se ou afastam-se, tal e qual como na “vida real”. Dinamizam-se debates sobre as mais variadas temáticas. Trabalha-se a imagem, co-constrói-se uma reputação, luta-se pela popularidade. É tudo uma questão de objectivos e expectativas. E acima de tudo oportunidades. A título de exemplo, uma pessoa desempregada pode divulgar o seu currículo e obter muito mais visibilidade, multiplicando as hipóteses de eventuais ofertas que possam surgir a nível profissional. Aproveito também para lançar a sugestão às empresas locais para se lançarem na rede, porque não? Poderão assim promover os seus produtos ou eventos de forma gratuita, chegando a um grande número de pessoas. A maior parte já o faz, para quê ficar para trás? Em todos os sectores, está um “mundo” lá fora à distância de um “click”, e é lógico que quem não arrisca não poderá depois colher dividendos, a todos os níveis. Uma estratégia de marketing bem planeada e direccionada poderá revelar-se bastante profícua e dar um “empurrão” ao seu negócio, sem dúvida alguma.

Já no plano pessoal, a possibilidade de encontrar velhos amigos e colegas é enorme, o que permite reaproximações que se podem revelar verdadeiramente gratificantes, quem já o experimentou sabe do que escrevo. O contacto permanente e imediato que familiares afastados podem estabelecer também é um aspecto muito positivo, ajuda a combater o isolamento e a solidão que milhares de quilómetros de distância conferem a quem tem saudades de casa e dos seus, quem já o experimentou sabe do que escrevo.

Passada a Era Industrial, estamos agora perante a Era da Informação, e o facebook acaba por ser um pequeno “aroma” da realidade futurista que os tempos vindouros nos reservam.

“Gosto”