sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Crueldade Gratuita no Século XXI

Foi com grande satisfação, partilhada inclusivamente com alguns amigos de semelhante pensamento, que recebi a notícia da proibição das touradas na Catalunha. A iniciativa partiu de uma petição assinada por 180.000 pessoas, tendo sido a proposta legislativa popular aprovada no parlamento catalão com 68 votos a favor, 55 contra e nove abstenções, no passado dia 28 de Julho. O equilíbrio do resultado do sufrágio é evidente, embora nunca devamos esquecer que a Espanha será provavelmente o país com mais tradição tauromáquica, a par do México e de uns tantos outros, pelo que a aprovação da referida proposta ganha outro relevo, e torna-se até algo surpreendente. Estaremos nos tempos que correm a alimentar uma tendência de inversão de costumes? A discussão (re)acende-se no momento, e creio ser essa a necessidade premente em relação a este assunto: promover o debate.

Acaba aparentemente por ser uma questão de sensibilidade. Uns têm-na, já outros nem por isso. Temos o grupo de indivíduos que se sentem realmente indignados e revoltados com a crueldade que é exercida sobre os animais, sejam eles quais forem, como também temos o grupo de indivíduos que, à luz da “tradição” e dos “costumes”, encaram o espectáculo violento e sanguinário das arenas como uma forma de lazer, entretenimento, ou até desporto! Incluo-me claramente no primeiro, mas faço um esforço para respeitar e tentar compreender a argumentação dos defensores da tauromaquia, embora admita que se trata efectivamente de um grande esforço. Inútil até, confesso. Talvez por não ter nada a ver com essa forma de estar. Lá está, não sou assim. Gosto dos animais, da sua natureza, e tento respeitá-los, os animais e a sua natureza. Sem ofensa barata, confesso que será também por aí que me move a consideração pelos diversos agentes tauromáquicos. São animais como todos os outros, eu inclusive, e a verdade é que cada um é como é. As touradas quase que fazem lembrar outros tempos, em que se fazia um pouco ao contrário, substituindo toureiros por esfomeados leões, e touros por homens indefesos, no ancestral anfiteatro romano do Coliseu, à mercê da vontade do vil imperador Nero. Também aí as pessoas aplaudiam o sacrifício, a violência crua, a “classe” da execução. Quando será que o respeito pelos animais e pela sua dignidade serão valores mais tidos em consideração? Tenho fé que seja algures ainda por este século, embora lá no fundo tenha uma suave e desagradável convicção que tal assim não acontecerá.

As pessoas dão muito valor ao que é considerado “tradicional”, por isso é que a cultura de um povo precisa de largos anos para ir sendo substancialmente alterada na sua morfologia. Sucedem-se as manifestações de revolta contra os “anti”, multiplicam-se os insultos e a ira contra os que apregoam uma “mudança de mentalidades”. A tourada é de um sadismo absoluto, e creio que a discussão deva começar por aí: será sensata, ou racional até, a prática de espectáculos que promovam a violência no seu sentido mais básico, à luz da sociedade contemporânea, sejam elas perpetradas contra homens ou animais? Indigna-me profundamente este tipo de “tradições”, fazem-me quase lembrar as ainda actuais execuções islâmicas por apedrejamento, salvo o óbvio distanciamento, também são “tradição”. Ainda há relativamente pouco tempo fiquei completamente estupefacto com a notícia da execução de um jovem casal no norte do Afeganistão, nestes moldes, por suposto adultério. Em 2010. Com uma assistência de 150 pessoas, plateia e tudo! Sejam muçulmanos, cristãos, talibãs, ou o raio que os parta, quem lhes dá o direito de enterrar uma pessoa até à cintura e apedrejá-la até à morte? As pedras não podem ser suficientemente grandes para causar uma morte imediata, nem tão pouco suficientemente pequenas para que não causem quaisquer danos físicos. Geralmente, os homens são enterrados pela cintura, e as mulheres até ao pescoço. Louve-se alguma clemência para com o sexo feminino, com certeza que a morte será mais rápida e menos dolorosa.. mas o que é isto? O acto é de uma crueldade e barbaridade tal, que me custa imenso a aceitar que as autoridades internacionais não se imponham e intervenham, nos dias que correm. Onde está o respeito pela dignidade do ser humano, uma das prerrogativas base de organizações como a ONU, que supostamente deveriam zelar por, e agir congruente e coerentemente sobre? Parece haver uma espécie de conformismo letárgico e resignado em relação à matéria, um conformismo que me irrita. Evoluímos num sem número de aspectos como sociedade global, sem dúvida, já em outros de tão crassa elementaridade parecemos uns verdadeiros primitivos, animais desprovidos de qualquer racionalidade.

O que me move a adoptar esta postura não será o simples desprezo pela crueldade gratuita que por aí vá sendo infligida, nas mais variadas formas, nas mais diversas acepções. Importa-me agir, nem que seja unicamente na esfera da dimensão pessoal e individual, conivente com as ideias que defendi. Abordando o tema, promovo a reflexão, exorto a uma tomada de posição mais digna, mais humanista. Afinal o que vale a “tradição”? Não será apenas uma transmissão de práticas e de valores de geração em geração? Gostava que esta dita “transmissão” passasse por um rigoroso processo de harmonização e purificação, e fomento do respeito pela valorização da vida, seja ela humana ou animal. Um dia orgulhar-nos-emos de ter posto fim a práticas promotoras de crueldade gratuita, e aí sim, seremos pessoas melhores, e geraremos filhos melhores, estou certo. A Paz no mundo, por mais utópica que seja e longínqua que pareça, poderá sempre ser intentada quando assumirmos pequenos passos nesse sentido, como este, de abolição da atrocidade, da perversidade, da maldade no seu estado puro.

A Catalunha é apenas uma província espanhola, mas esta proibição abre um precedente, que precisa de ter continuidade. Haja coragem para o efeito, para melhor muda-se sempre, é uma importante forma de estar.

O respeito básico pelos animais é fértil, e bom conselheiro para o respeito básico pelo ser humano.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O Calor e a Morte

Está um calor abrasador. Suo muito enquanto escrevo, quase sem roupa mas longe de me sentir fresco, pois está realmente quente. Quem me estiver a ler deverá estar a pensar o porquê do título do artigo, e da associação dos respectivos conceitos, mas há uma razão muito simples que o fundamenta: o calor aumenta o risco de morte. Além desta verdade científica, eu próprio deambulo permanentemente entre pensamentos existencialistas diversos, e parece-me que o calor os tem estimulado, fazendo com que a vontade que tenho de escrever sobre assuntos harmoniosos e mais positivos não se sobreponha ao que escreverei, e que sinto que devo escrever. Começo pelo calor..

Os dados que circulam deixam poucas dúvidas aos cientistas, 2010 deverá bater novos recordes em relação ao degelo, e à temperatura no planeta. De acordo com as previsões de início do ano da Organização Meteorológica Mundial, a última década foi "a mais quente da História, com temperaturas superiores à média das do século XX", mas pelos vistos o pior ainda estará para vir, dado que o ano de 2010 poderá ficar na história como o mais quente de sempre, segundo dados relativos aos primeiros meses do corrente. Com o tempo quente a manter-se durante dias consecutivos, os problemas de saúde vão inevitavelmente aparecendo, especialmente em relação aos mais vulneráveis, a população idosa e as crianças, sendo que a afluência aos hospitais também tem aumentado substancialmente, uma subida sazonal e de natural explicação. A este propósito, refira-se que a Direcção-Geral de Saúde colocou sete distritos em alerta vermelho, o mais alto de três níveis, devido à persistência das temperaturas altas que continuam a afectar o país, informando que estas poderão provocar "graves problemas" para a saúde, pelo que os cuidados deverão "ser redobrados". Desde 2004 que a DGS tem vindo a apresentar anualmente um Plano de Contingência para as Ondas de Calor, que tem como objectivo geral minimizar os efeitos negativos do calor intenso na saúde das populações, através da disponibilização de toda a informação pertinente. Surgiu como uma resposta à letal vaga de calor de 2003, que se prolongou em algumas zonas do país por mais de duas semanas, tendo ficado associada a um excesso de mortalidade de 1.953 óbitos, com particular incidência em indivíduos com idades iguais ou superiores a 75 anos de idade. Os números estão aí e não deixam espaço para dúvidas, sendo por norma um excelente indicador para a aferição de determinadas realidades, pelo que resta alertar a população para tomar todas as precauções necessárias, porque o alarme associado não é hipotético ou casual, mas sim realista e factual.

Este ano, no nosso país, terá havido um excesso de 1.081 mortes por problemas associados ao calor, segundo estimativas calculadas pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. Serão estimativas apenas, que se baseiam em comparações feitas com a mortalidade ocorrida em períodos idênticos em que não houve temperaturas elevadas para a época. Entretanto, não é só por cá que o calor se sente, por toda a Europa tem havido uma vaga intensa que tem afectado a vida das populações, provocando dificuldades várias e um aumento da sinistralidade. Por tudo isto terá que haver uma atitude generalizada, à escala global, no sentido de combater a tendência, já mais do que provada pela comunidade científica. As alterações climáticas e a insustentabilidade do ambiente, causando ondas de calor cada vez mais frequentes e mais intensas, também afectam a saúde humana, e de que maneira! Agimos ou resignamo-nos?

Além do calor que me tem perturbado, também há a tragédia. Talvez decorra disso mesmo a natureza da dissertação entre estes dois conceitos que correlaciono. Além de um temor pessoal que tenho alimentado de há uns tempos a esta parte, natural e justificado, parece que o tempo quente o denota ainda mais, deixando-me envolvido em desagradáveis e resignadas sensações relacionadas com o sentido da vida, mais propriamente com o fim desta. Temos o natural e justificado, e temos também o abrupto e inexplicável, será que a nossa estrutura e construção enquanto pessoas deverá ser capaz de suportar e aceitar os tristes episódios com os quais temos forçosamente que lidar durante a vida? Há acontecimentos muito delicados, e situações muito específicas, e continua a ser bastante diferente o “sentir” do desaparecimento de alguém que nos é próximo, ou que estejamos habituados a ver, do que outro mais distante, e que acaba por se nos revelar indiferente, de certa forma. O que poderá passar na cabeça de algumas pessoas que as tornem capazes dos actos mais horrendos e impensáveis? O povo mortaguense foi abalado recentemente por mais uma tragédia, daquelas difíceis de explicar e, por conseguinte, de digerir. O brutal desaparecimento de uma senhora ilustre da terra, que já não residia por cá, fruto das vicissitudes da vida, mas que era parte do povo, pelos laços pessoais criados e pela sua longa ligação como professora, tal como pela associação a diversas iniciativas e movimentos culturais. Inexplicavelmente, porque nunca ciúmes ou esgotamentos nervosos serão explicação para um crime tão violento, pereceu o ser humano, mas a sua memória por certo que perdurará. É em situações como esta que o que faz sentido deixa de o fazer, e que a Razão de as coisas serem tal como são, como princípio ou fundamento, perde todo o seu significado, alimentando todos e quaisquer sentimentos de reacção negativa mais primários, como a revolta e a indignação pelo que se perdeu, mas que não se devia ter perdido. A vida é mesmo muito curta, e as despedidas são e serão sempre realmente dolorosas, sejam elas súbitas ou preparadas, se é que isso existe.

Terminando, cito uma mensagem deixada por outro recente desaparecido, o actor e encenador António Feio, já em consciência com a sua mórbida condição. Tão verdadeira, tão sentida, tão profunda. E que tantas vezes ignoramos.

“Se há coisa que eu costumo dizer, é: aproveitem a vida, e ajudem-se uns aos outros, apreciem cada momento, agradeçam, e não deixem nada por dizer, nada por fazer.”