segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Manifestos, Imprudências e Carneirices

Após ter sido recentemente interpelado em relação aos assuntos que tenho seleccionado para abordar neste espaço de opinião, entendi por bem tecer algumas considerações que considero pertinentes, e que porventura poderão esclarecer quem tiver eventuais dúvidas sobre a natureza do mesmo. O “Perspectivas” surgiu após um convite para que colaborasse com o Frontal. Essa colaboração previa que eu, a título livre e individual, escrevesse periodicamente num espaço da minha responsabilidade, com total autonomia relativamente aos temas abordados e aos pontos de vista defendidos, uma colaboração quinzenal e efectiva que, por ter estes moldes, acabou por me seduzir. Entretanto, volvidas dez edições, foi-me dirigida a acusação de que não escrevia sobre a minha terra, Mortágua, fugindo desta forma à responsabilidade assumida, na qualidade de deputado municipal eleito, função esta que me obrigaria, supostamente, a direccionar toda e qualquer posição pessoal tornada pública para a política local e respectiva actividade municipal decorrente. Parece-me fundamental dissociar posições. Independentemente de desempenhar funções na Assembleia Municipal, desempenho esse que luto para que seja o mais sério e responsável possível, as opiniões que assino na imprensa não estão (nem estarão!) vinculadas a qualquer causa específica, constituindo-se antes apenas e somente como considerações pessoais relativamente a temáticas que de alguma maneira tocam a minha sensibilidade, cuja redacção estou ciente que poderá suscitar reacções, positivas e negativas, não sendo no entanto esse mesmo feedback que me alimenta a vontade de os publicar.

Quem procurou estimular o meu “activismo discursivo” em relação a Mortágua escreve de quando em vez para um outro jornal da região que, segundo consta, e apesar de ter um público distinto, continua a ser o melhor veículo para chegar às pessoas, numa óptica pretensiosa e instrumental da imprensa, da qual me procuro afastar. Quem não tem curta memória recordar-se-á com certeza dos recentes manifestos eleitoralistas “por aí” publicados, e da sua natureza intriguista e mesquinha. Enfim.. a pobreza de espírito no seu melhor! Trata-se daqueles que dizem que não se faz nada, e o pouco que se faz é mal feito. Aqueles que se referem constantemente a ditaduras, a prepotências, a tendenciosismos, a clientelismos, a políticas ocultas... Aqueles que acusam o partido no poder de perpetuar um sistema de elitismos, numa espécie de “oligarquia municipal”… Aqueles que falam em carneiros, em carneirices, em carneiros-mor… Pois é, e acabam por ser esses os mesmos que pouco, ou mesmo nada acrescentam à discussão e ao que de facto interessa para o futuro do concelho. Uns reviram a sua posição após o claríssimo resultado do último sufrágio (e que resultado!), com o povo mortaguense a votar massiva e inequivocamente em Abrantes e na sua equipa, numa clara demonstração de confiança inabalável em quem fez por merecer essa mesma credibilidade. Aparentemente, outros mantêm a postura cortante e colérica, como se o povo fosse facilmente manipulável e estivesse imbuído numa qualquer espécie de cegueira que permitisse validar tudo o que é disparate. Recorrentes são os exercícios pseudo-demagógicos desprovidos da mais pequena substância, que “por aí” circulam. Propagandismo barato, porventura eficaz e com resultados eleitorais em países do terceiro mundo, onde infelizmente se torna muito mais fácil atirar areia para os olhos das pessoas. Não aos mortaguenses.

Ninguém é dono por absoluto da Razão, e pobre coitado do pretensioso que assim se julgue. Falar mal por falar e criticar por criticar torna-se demasiado fácil para quem nada mais tem para acrescentar. Difícil é tomar decisões e responder por elas responsavelmente. A liberdade de expressão, que tanto estimo e que considero que seja das mais representativas bandeiras do nosso Estado de Direito Democrático, deve ser uma forma de manifestação política de feição construtiva e cooperadora, não uma arma de arremesso. Não se proíbem as manifestações de ruptura, de maldizer, a maior parte das vezes de baixo nível, mas há sempre determinados limites que a idoneidade e a elevação de um indivíduo não devem permitir ultrapassar, sob o risco de o mesmo acabar rotulado. Isto claro, apenas para quem se quer levar a sério. Daí que o exercício da escrita e do “opinion-making” deva ser zeloso, não por cobardia, longe disso, mas por prudência, outro valor que procuro preservar. Importa discutir o concelho, sim senhor, mas com seriedade e sentido de responsabilidade, não com o simples intuito de atacar e procurar destruir, numa estratégia concertada de busca desenfreada de meios que posteriormente justifiquem um fim. Sendo pacifista por natureza, logo com objectivos distanciados do simples gerar de convulsões ou conflitos, lamento desiludir quem procura ler os meus artigos com a finalidade de os utilizar como argumento político, talvez já em desespero pois, coitados, pouco ou nada que se louve lhes ocorre.

Por norma, e algo inconscientemente até, tenho dado por mim a soltar os dedos pelo teclado acerca do que realmente penso das pessoas, dos comportamentos e das mais diversas situações, através de uma escrita mais interior, embora prudente, até por estar ciente, melhor do que ninguém, do meu posicionamento e do meu grau de maturação. O que não inviabiliza que trate este ou aquele tema de outra forma. Por isso aceitei o desafio de colaborar com o Frontal, por não estar condicionado ou subordinado a qualquer causa, partido ou credo. Apenas pelo gosto de escrever. Quando assim não for prontamente cessarei a dita colaboração, com certeza que de imediato.

Como disse um dia Nietzsche, “nenhum preço é demasiado alto para pagar pelo privilégio de sermos donos de nós próprios”, máxima pela qual me procuro reger.

E dela não abdico nem abdicarei nunca.

Sem comentários:

Enviar um comentário