O caso de Leandro Pires, um menino de 12 anos apenas, lançou recentemente no nosso país a discussão em torno da violência nas escolas. A ocorrência continua por resolver e tem versões múltiplas que carecem de confirmação, mas o verdadeiro drama que os seus contornos reais indiciam arrepiou-me, como terá arrepiado qualquer indivíduo que tenha o mínimo de sensibilidade. A criança vivia na aldeia de Cedaínhos, com meia centena de habitantes, numa zona rural da periferia do concelho de Mirandela, e frequentava a Escola Básica 2,3 Luciano Cordeiro, onde aparentemente a agressão e a ridicularização fazem parte do quotidiano. Ferido no orgulho, o menino saiu a correr pelos portões da escola após mais uma zaragata, em desespero, dizendo para quem queria ouvir que se ia atirar ao rio, o que acabou por concretizar, num acto tresloucado que apenas poderá derivar da mais profunda das angústias.
Mais do que apurar responsabilidades, o que terá inevitavelmente que acontecer, importa sobretudo retirar ensinamentos e rever atitudes, no sentido de combater o fenómeno e prevenir situações futuras. Alguns testemunhos referem que Leandro era uma criança rebelde, que por vezes era indelicado para alguns professores, e que se envolvia com frequência em discussões. Já havia um precedente de violência, há dois anos atrás esteve internado num hospital após ser brutalmente agredido por colegas mais velhos com pontapés na cabeça. Irreverente ou não, a verdade é que o triste destino deste menino teve as águas rápidas do rio Tua como derradeiro capítulo de uma curta vida, engrossadas pelas chuvas intensas do Inverno, onde desapareceu para sempre. Com raízes humildes, e vivendo numa região desertificada, a personalidade do menino foi progressivamente lapidada num meio complicado, tendo ainda como cenário uma escola e um recreio onde aparentemente reinam as leis da selva e do mais forte, circunstâncias que foram moldando o Leandro, que de uma forma natural tentava safar-se como podia.
A necessidade de afirmação leva a criança ou o adolescente a procurar dominar, e essa será a principal base do Bullying. Ser popular e sentir-se poderoso através do recurso à troça e à ameaça, física e psicológica. Os rapazes por norma recorrem à agressão directa, roubando e atacando com empurrões, murros e pontapés, sendo que as raparigas agem de uma forma mais indirecta, humilhando verbalmente ou criando boatos, por exemplo, numa derivação ainda mais recente do fenómeno, o Cyberbullying, que está presente sobretudo nas actuais redes sociais como o “hi5” e o “facebook”, ou ainda nos telemóveis. As estatísticas revelam que em Portugal uma em cada quatro crianças está envolvida directamente no fenómeno, na qualidade de vítima ou agressor. Os alvos mais fáceis são os mais apetecíveis, por serem mais vulneráveis e submissos, num jogo de poder fortemente influenciado por factores externos como problemas familiares, falta de dinheiro, drogas e álcool, e que ocorre sobretudo por factores de exclusão como o racismo, a obesidade, o uso de óculos ou quaisquer outras características particulares que de alguma maneira originem esses sentimentos de repulsa. Penso que as escolas e os seus recreios têm impreterivelmente que ser objecto de reflexão, como espaços determinantes que são para a formação dos adultos de amanhã, e que a meu ver têm vindo a deteriorar-se. Sempre houve crueldade nos espaços escolares, eu próprio me recordo de inúmeras situações na minha meninice, mas casos como o do Leandro devem provocar uma reavaliação de posturas e procedimentos. O que fazer?
Na minha opinião deveria reforçar-se o número de auxiliares da acção educativa e de psicólogos. Propunha a criação de uma (ou mais) figura que zelasse pelos alunos no recreio, um vigilante que assegure alguma tranquilidade, que monitorize a interacção dos jovens, identificando dessa forma eventuais situações de risco. Em conjunto com a equipa de psicólogos, a direcção da escola, as associações de pais e os conselhos pedagógicos, todos terão que se responsabilizar pelo acompanhamento destas situações e agir, não alhear-se. Temos até bons exemplos em algumas escolas, de projectos estabelecidos em que alunos finalistas, os mais velhos, têm uma função integradora e protectora relativamente aos recém-chegados, promovendo junto destes uma melhor adaptação a uma nova realidade. Porque não generalizar? Havendo uma estrutura própria com todos estes intervenientes, seria possível actuar nestas situações específicas com a certeza que seriam colhidos frutos, pela acção preventiva e dissuasora. É um facto que a fatia dos recursos financeiros destinados à Educação não permite grandes extravagâncias, como é sabido, mas tenho a certeza que uma escola bem organizada e munida da equipa de profissionais que referi seria melhor, mais harmoniosa e eficiente – um espaço onde se promova uma convivência saudável.
É importante retirar ilações deste sucedido lamentável que vitimou o menino. Impõe-se um olhar mais atento às crianças e aos jovens, não apenas no recreio mas em todos os espaços onde estas interajam e, principalmente, no local mais fundamental da formação da personalidade do indivíduo, o lar. Sem esquecer os principais responsáveis por essa mesma formação, os progenitores. Precisamos de uma escola mais proactiva, sem dúvidas, mas precisamos também de pais mais comprometidos.
O caso concreto que analiso ainda carece de definição concreta, independentemente da inegável responsabilidade da escola, desprovida no momento de um simples porteiro que cumprisse a ordem da mãe, que assinou uma declaração para impedir a saída do aluno. Também já correu alguma tinta no sentido de ter sido um terrível acidente, dado que o menino tirou a roupa antes de se atirar, um indício de que poderia não intencionar o suicídio, mas apenas atrair atenções. No fundo, não interessa. Para a família, a dura realidade é só uma, o menino já não está no meio de nós.
Para a comunidade, fica o alerta. A situação deverá configurar-se como um “case study”, que sirva de exemplo. Ainda há muito para fazer.
Mais do que apurar responsabilidades, o que terá inevitavelmente que acontecer, importa sobretudo retirar ensinamentos e rever atitudes, no sentido de combater o fenómeno e prevenir situações futuras. Alguns testemunhos referem que Leandro era uma criança rebelde, que por vezes era indelicado para alguns professores, e que se envolvia com frequência em discussões. Já havia um precedente de violência, há dois anos atrás esteve internado num hospital após ser brutalmente agredido por colegas mais velhos com pontapés na cabeça. Irreverente ou não, a verdade é que o triste destino deste menino teve as águas rápidas do rio Tua como derradeiro capítulo de uma curta vida, engrossadas pelas chuvas intensas do Inverno, onde desapareceu para sempre. Com raízes humildes, e vivendo numa região desertificada, a personalidade do menino foi progressivamente lapidada num meio complicado, tendo ainda como cenário uma escola e um recreio onde aparentemente reinam as leis da selva e do mais forte, circunstâncias que foram moldando o Leandro, que de uma forma natural tentava safar-se como podia.
A necessidade de afirmação leva a criança ou o adolescente a procurar dominar, e essa será a principal base do Bullying. Ser popular e sentir-se poderoso através do recurso à troça e à ameaça, física e psicológica. Os rapazes por norma recorrem à agressão directa, roubando e atacando com empurrões, murros e pontapés, sendo que as raparigas agem de uma forma mais indirecta, humilhando verbalmente ou criando boatos, por exemplo, numa derivação ainda mais recente do fenómeno, o Cyberbullying, que está presente sobretudo nas actuais redes sociais como o “hi5” e o “facebook”, ou ainda nos telemóveis. As estatísticas revelam que em Portugal uma em cada quatro crianças está envolvida directamente no fenómeno, na qualidade de vítima ou agressor. Os alvos mais fáceis são os mais apetecíveis, por serem mais vulneráveis e submissos, num jogo de poder fortemente influenciado por factores externos como problemas familiares, falta de dinheiro, drogas e álcool, e que ocorre sobretudo por factores de exclusão como o racismo, a obesidade, o uso de óculos ou quaisquer outras características particulares que de alguma maneira originem esses sentimentos de repulsa. Penso que as escolas e os seus recreios têm impreterivelmente que ser objecto de reflexão, como espaços determinantes que são para a formação dos adultos de amanhã, e que a meu ver têm vindo a deteriorar-se. Sempre houve crueldade nos espaços escolares, eu próprio me recordo de inúmeras situações na minha meninice, mas casos como o do Leandro devem provocar uma reavaliação de posturas e procedimentos. O que fazer?
Na minha opinião deveria reforçar-se o número de auxiliares da acção educativa e de psicólogos. Propunha a criação de uma (ou mais) figura que zelasse pelos alunos no recreio, um vigilante que assegure alguma tranquilidade, que monitorize a interacção dos jovens, identificando dessa forma eventuais situações de risco. Em conjunto com a equipa de psicólogos, a direcção da escola, as associações de pais e os conselhos pedagógicos, todos terão que se responsabilizar pelo acompanhamento destas situações e agir, não alhear-se. Temos até bons exemplos em algumas escolas, de projectos estabelecidos em que alunos finalistas, os mais velhos, têm uma função integradora e protectora relativamente aos recém-chegados, promovendo junto destes uma melhor adaptação a uma nova realidade. Porque não generalizar? Havendo uma estrutura própria com todos estes intervenientes, seria possível actuar nestas situações específicas com a certeza que seriam colhidos frutos, pela acção preventiva e dissuasora. É um facto que a fatia dos recursos financeiros destinados à Educação não permite grandes extravagâncias, como é sabido, mas tenho a certeza que uma escola bem organizada e munida da equipa de profissionais que referi seria melhor, mais harmoniosa e eficiente – um espaço onde se promova uma convivência saudável.
É importante retirar ilações deste sucedido lamentável que vitimou o menino. Impõe-se um olhar mais atento às crianças e aos jovens, não apenas no recreio mas em todos os espaços onde estas interajam e, principalmente, no local mais fundamental da formação da personalidade do indivíduo, o lar. Sem esquecer os principais responsáveis por essa mesma formação, os progenitores. Precisamos de uma escola mais proactiva, sem dúvidas, mas precisamos também de pais mais comprometidos.
O caso concreto que analiso ainda carece de definição concreta, independentemente da inegável responsabilidade da escola, desprovida no momento de um simples porteiro que cumprisse a ordem da mãe, que assinou uma declaração para impedir a saída do aluno. Também já correu alguma tinta no sentido de ter sido um terrível acidente, dado que o menino tirou a roupa antes de se atirar, um indício de que poderia não intencionar o suicídio, mas apenas atrair atenções. No fundo, não interessa. Para a família, a dura realidade é só uma, o menino já não está no meio de nós.
Para a comunidade, fica o alerta. A situação deverá configurar-se como um “case study”, que sirva de exemplo. Ainda há muito para fazer.
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