Fez 75 anos no passado dia 30 de Novembro desde o desaparecimento de um enorme e incontornável vulto da literatura portuguesa e universal, Fernando Pessoa. Apesar da curta duração da sua vida, foi tradutor e correspondente comercial, empresário, editor, crítico literário, activista político, jornalista, inventor e publicitário, ao mesmo tempo que produzia a sua obra literária. Uma pouco regrada vida de abusos conduziu-o à morte em 1935, após ser internado com uma cirrose hepática, quando grande parte da sua obra se encontrava ainda por editar. Por considerar que a importante data passou mais do que deveria ao lado da opinião pública e dos holofotes da comunicação social, apresto-me neste artigo a homenagear aquele que, como a muitos e muitos outros, me desassossegou e continua a desassossegar.
Há pessoas boas e pessoas más, temos as mais simples e as menos superficiais, umas mais frias do que outras que se revelam mais calorosas, e temos também aqueles que “perdem” tempo a pensar nas coisas, tal como os que acham que “pensar” é tempo perdido. Apesar de tudo, todos são pessoas. Parece-me é que, no entanto, há gente que acaba por ser mais do que uma pessoa. Fernando António Nogueira era mais do que isso. A aparente infinita sensibilidade que parecia caracterizá-lo transportou-o para outros patamares que ultrapassam a mera existência e vivência terrena, tamanha era a sua questionação e entendimento da vida, e das suas agruras. O seu tumultuoso percurso é chorado na primeira pessoa pelo poeta, que explorou como ninguém os domínios da dor, da desilusão, da precariedade, da limitação, da tristeza e do tédio, sob múltiplos prismas. Um pequeno e pouco saudável homem com uma alma do tamanho não de um mundo apenas, mas de vários, todos diferentes e diferentemente fascinantes, mas que compõem um universo uno, o inigualável universo pessoano.
O desdobramento de personalidade do escritor é talvez o seu traço mais vincadamente distintivo, e a prova primeira da sua imensidão intelectual. A tentativa de olhar o mundo de uma forma múltipla levou-o a conceber alter-egos que nele tiveram a sua própria existência com efeito, não apenas na sua obra mas também na sua vida, sempre com uma forte componente filosófica racionalista, apesar das diferentes vertentes de análise e da contradição, que é presença constante na sua escrita. Imerso nas recorrentes “viagens” de um quotidiano delirante, cujo desconcerto demasiadamente lúcido e pouco sóbrio o revelava de uma forma que poucos ou nenhuns se conseguiram revelar, Pessoa fragmentava-se por necessidade, por no fundo lhe ser impossível encontrar a sua própria identidade. Era por vezes o simples e anti-metafísico naturalista Alberto Caeiro que se lhe aparecia, em outras o indiferente e ataráxico mas perturbado existencialista Ricardo Reis, ou ainda Álvaro de Campos, esse entediado, decadente e ansioso sensacionista, de avidez ruidosa. Além dos três heterónimos por ele criados, temos também um semi, Bernardo Soares, caracterizado pelo escritor como sendo “…eu, menos o raciocínio e afectividade”. Este foi o autor do “Livro do Desassossego”, um marco na ficção literária portuguesa que percorre desencantadamente caminhos vários que vão do pragmatismo perante a condição humana até ao absurdo da própria literatura. Segundo o escritor, trata-se de uma “autobiografia sem factos”, um perturbado relato que deveria ser prescrito a todos aqueles que sofrem e desesperam, pois uma angústia maior do que aquela que é retratada torna-se quase impossível de sequer imaginar, o que acaba por ter um surpreendentemente positivo efeito terapêutico. Ainda hoje subsiste a incerteza e a dúvida interpretativa que divide os críticos pessoanos a respeito desta obra, o que atesta de sobremaneira a complexidade e envergadura intelectual e filosófica que a caracteriza.
As palavras escritas por Pessoa atingem uma dimensão difícil de quantificar, pela capacidade única de “mexer” com quem o lê. Ainda hoje recordo a paixão com que me foi transmitido o gosto pelo saber da sua literatura por parte da minha professora da altura, no ensino secundário, que não disfarçava nem conseguia disfarçar o (des)encanto que a percorria no momento de (re)ler e (re)interpretar os textos por ela seleccionados. Por mais que se leiam excertos, pensamentos, frases ou poemas do escritor, parece que somos sempre invadidos por novas sensações, que se tornam únicas dentro de nós, apesar de surgirem enquanto analisamos o sentir descrito por outro alguém. Muitos ignorarão por princípio e opção o seu conteúdo e a sua forma, provavelmente por não se identificarem ou apenas até por nem sequer o intentarem, mas quem verdadeiramente o sente nunca poderia ficar indiferente, tamanhos que são o significado e o significante da sua mensagem. Transportamos muitas vezes as reflexões, os estados de espírito e as sucessivas divagações para as nossas próprias vidas, e acabamos por dar connosco a sentir e a pensar a nossa identificação com o autor dos escritos que com efeito nos “abanam”.
Pessoa era obcecado pela análise, inquietado pelo enigma indecifrável que lhe parecia o seu mundo e que lhe tornava a vida num doloroso e permanente conflito de existência. Sofrido como muitos, retratava a dor como poucos, sempre dando conta de como e quanto o pensamento lhe tolhia o sentimento positivo, embargando-o numa celebração negativa do mundo e da vida, sempre nostálgico, sempre céptico, nunca satisfeito. A monstruosa solidão que o habitava acentuou ainda mais o tédio e a desilusão nele presentes, levando-o a um cúmulo de assumir a total ausência de impulsos afectivos, como que já não esperando nada da vida, afundado no mais repleto dos vazios. Pessoa despersonalizava-se, porque a fingir tentava contornar a sinceridade que tanto o perturbava. Pessoa deambulava entre estados conscientes, inconscientes e semi-conscientes porque só assim conseguia procurar respostas para a inquietude e o negrume que lhes assolavam o simples estar. Apesar da dor provocada, Pessoa pensava mais do que queria sentir, porque sabia como ninguém o que era e o que hoje ainda é sentir, daí também a intemporalidade da sua escrita.
Todos nos sentimos mais frágeis e sensíveis em determinados momentos da vida, fruto das ocorrências inesperadas em que a mesma é fértil, e que nos levam a um processo de amadurecimento por vezes forçado e pouco agradável, mas necessário. Nada nos faz crescer tanto como a dor, que em boa verdade nos vai fazendo mais fortes, apesar do “lugar-comum” da afirmação. O idealismo ilusório pouco sustentado no realismo da sua vida caracterizava Pessoa, que se refugiava no sonho e no sono para se insensibilizar do mal, da tormenta. Atrai-me particularmente e de uma forma difícil de explicar a filosofia epicurista que se encontra implícita em alguma da sua literatura, onde procura centrar o bem nos valores e nos prazeres intelectuais, os mais puros e duradouros, como forma de atingir um estado de total ataraxia, esse precioso mas utópico e inatingível estado de completa ausência de perturbação, de profunda tranquilidade de espírito. Quem tudo questiona, tende a ser e a estar menos satisfeito. É pena que assim seja, mas é inevitável negá-lo, pois assim é. Resta procurar fazer a melhor gestão emocional possível para continuar activo na incessante luta pela felicidade, relativizando memórias que se tornaram absolutas, diluindo sentimentos que na sua essência são indeléveis. Só assim o sorriso do dia-a-dia se torna genuinamente autêntico.
“Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” - FP
Há pessoas boas e pessoas más, temos as mais simples e as menos superficiais, umas mais frias do que outras que se revelam mais calorosas, e temos também aqueles que “perdem” tempo a pensar nas coisas, tal como os que acham que “pensar” é tempo perdido. Apesar de tudo, todos são pessoas. Parece-me é que, no entanto, há gente que acaba por ser mais do que uma pessoa. Fernando António Nogueira era mais do que isso. A aparente infinita sensibilidade que parecia caracterizá-lo transportou-o para outros patamares que ultrapassam a mera existência e vivência terrena, tamanha era a sua questionação e entendimento da vida, e das suas agruras. O seu tumultuoso percurso é chorado na primeira pessoa pelo poeta, que explorou como ninguém os domínios da dor, da desilusão, da precariedade, da limitação, da tristeza e do tédio, sob múltiplos prismas. Um pequeno e pouco saudável homem com uma alma do tamanho não de um mundo apenas, mas de vários, todos diferentes e diferentemente fascinantes, mas que compõem um universo uno, o inigualável universo pessoano.
O desdobramento de personalidade do escritor é talvez o seu traço mais vincadamente distintivo, e a prova primeira da sua imensidão intelectual. A tentativa de olhar o mundo de uma forma múltipla levou-o a conceber alter-egos que nele tiveram a sua própria existência com efeito, não apenas na sua obra mas também na sua vida, sempre com uma forte componente filosófica racionalista, apesar das diferentes vertentes de análise e da contradição, que é presença constante na sua escrita. Imerso nas recorrentes “viagens” de um quotidiano delirante, cujo desconcerto demasiadamente lúcido e pouco sóbrio o revelava de uma forma que poucos ou nenhuns se conseguiram revelar, Pessoa fragmentava-se por necessidade, por no fundo lhe ser impossível encontrar a sua própria identidade. Era por vezes o simples e anti-metafísico naturalista Alberto Caeiro que se lhe aparecia, em outras o indiferente e ataráxico mas perturbado existencialista Ricardo Reis, ou ainda Álvaro de Campos, esse entediado, decadente e ansioso sensacionista, de avidez ruidosa. Além dos três heterónimos por ele criados, temos também um semi, Bernardo Soares, caracterizado pelo escritor como sendo “…eu, menos o raciocínio e afectividade”. Este foi o autor do “Livro do Desassossego”, um marco na ficção literária portuguesa que percorre desencantadamente caminhos vários que vão do pragmatismo perante a condição humana até ao absurdo da própria literatura. Segundo o escritor, trata-se de uma “autobiografia sem factos”, um perturbado relato que deveria ser prescrito a todos aqueles que sofrem e desesperam, pois uma angústia maior do que aquela que é retratada torna-se quase impossível de sequer imaginar, o que acaba por ter um surpreendentemente positivo efeito terapêutico. Ainda hoje subsiste a incerteza e a dúvida interpretativa que divide os críticos pessoanos a respeito desta obra, o que atesta de sobremaneira a complexidade e envergadura intelectual e filosófica que a caracteriza.
As palavras escritas por Pessoa atingem uma dimensão difícil de quantificar, pela capacidade única de “mexer” com quem o lê. Ainda hoje recordo a paixão com que me foi transmitido o gosto pelo saber da sua literatura por parte da minha professora da altura, no ensino secundário, que não disfarçava nem conseguia disfarçar o (des)encanto que a percorria no momento de (re)ler e (re)interpretar os textos por ela seleccionados. Por mais que se leiam excertos, pensamentos, frases ou poemas do escritor, parece que somos sempre invadidos por novas sensações, que se tornam únicas dentro de nós, apesar de surgirem enquanto analisamos o sentir descrito por outro alguém. Muitos ignorarão por princípio e opção o seu conteúdo e a sua forma, provavelmente por não se identificarem ou apenas até por nem sequer o intentarem, mas quem verdadeiramente o sente nunca poderia ficar indiferente, tamanhos que são o significado e o significante da sua mensagem. Transportamos muitas vezes as reflexões, os estados de espírito e as sucessivas divagações para as nossas próprias vidas, e acabamos por dar connosco a sentir e a pensar a nossa identificação com o autor dos escritos que com efeito nos “abanam”.
Pessoa era obcecado pela análise, inquietado pelo enigma indecifrável que lhe parecia o seu mundo e que lhe tornava a vida num doloroso e permanente conflito de existência. Sofrido como muitos, retratava a dor como poucos, sempre dando conta de como e quanto o pensamento lhe tolhia o sentimento positivo, embargando-o numa celebração negativa do mundo e da vida, sempre nostálgico, sempre céptico, nunca satisfeito. A monstruosa solidão que o habitava acentuou ainda mais o tédio e a desilusão nele presentes, levando-o a um cúmulo de assumir a total ausência de impulsos afectivos, como que já não esperando nada da vida, afundado no mais repleto dos vazios. Pessoa despersonalizava-se, porque a fingir tentava contornar a sinceridade que tanto o perturbava. Pessoa deambulava entre estados conscientes, inconscientes e semi-conscientes porque só assim conseguia procurar respostas para a inquietude e o negrume que lhes assolavam o simples estar. Apesar da dor provocada, Pessoa pensava mais do que queria sentir, porque sabia como ninguém o que era e o que hoje ainda é sentir, daí também a intemporalidade da sua escrita.
Todos nos sentimos mais frágeis e sensíveis em determinados momentos da vida, fruto das ocorrências inesperadas em que a mesma é fértil, e que nos levam a um processo de amadurecimento por vezes forçado e pouco agradável, mas necessário. Nada nos faz crescer tanto como a dor, que em boa verdade nos vai fazendo mais fortes, apesar do “lugar-comum” da afirmação. O idealismo ilusório pouco sustentado no realismo da sua vida caracterizava Pessoa, que se refugiava no sonho e no sono para se insensibilizar do mal, da tormenta. Atrai-me particularmente e de uma forma difícil de explicar a filosofia epicurista que se encontra implícita em alguma da sua literatura, onde procura centrar o bem nos valores e nos prazeres intelectuais, os mais puros e duradouros, como forma de atingir um estado de total ataraxia, esse precioso mas utópico e inatingível estado de completa ausência de perturbação, de profunda tranquilidade de espírito. Quem tudo questiona, tende a ser e a estar menos satisfeito. É pena que assim seja, mas é inevitável negá-lo, pois assim é. Resta procurar fazer a melhor gestão emocional possível para continuar activo na incessante luta pela felicidade, relativizando memórias que se tornaram absolutas, diluindo sentimentos que na sua essência são indeléveis. Só assim o sorriso do dia-a-dia se torna genuinamente autêntico.
“Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” - FP
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