segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

L´Amour

L´Amour. Perguntará eventualmente o leitor sobre o porquê do título do artigo, mas eu passo a explicar, é doce. Doce como o Amor deverá ser, e em momentos como este, de escritas mais descontraídas, perdoem-me o galicismo mas era assim mesmo que eu gostaria de o denominar, sabendo também a forte ligação intemporal que França e os franceses sempre tiveram com este fantástico sentimento, e que vai muito além da doçura da dicção de uma simples palavra.

Mas afinal o que é o Amor? Uma rápida investigação em qualquer dicionário remete-nos de imediato para a associação deste sentimento com afeição, atracção, satisfação, apetite, paixão, desejo, e sensações semelhantes, mas será o Amor concretamente definível? Não creio, e será também por aí que suscitará tantas e tão diferentes interpretações, dissertações e reflexões várias desde tempos imemoriais, com a Arte a ser um veículo especialmente sensível e demonstrativo da importância e do relevo que este afecto tem nas nossas vidas, e do papel deste no equilíbrio das mesmas. Canta-se, escreve-se e pinta-se o Amor há séculos, umas vezes a preto e branco e outras com as mais garridas cores, porque não haverá outro sentimento nesta vida que nos transporte para estados de espírito tão antagónicos que vão do mais enebriante êxtase à mais perturbada e angustiada melancolia. O Amor é a melhor e a pior coisa do mundo ao mesmo tempo, por mais absurdo que possa parecer.

O que será estar apaixonado? Como escreveu um dia o poeta Camões, é “fogo que arde sem se ver”. Todos os dias, pessoas de quase todas as idades descobrem que estão apaixonadas por um colega, um vizinho, um amigo ou até por alguém quase completamente desconhecido. Faz parte da natureza do ser humano, gostar. Gostar muito também, amar. Diz-se que o Amor “anda por aí”, e a verdade é que anda mesmo, nós é que por vezes poderemos não nos aperceber disso, voluntária ou involuntariamente, consciente ou inconscientemente. Segundo Sternberg, reputado estudioso da atracção e das relações amorosas, o Amor pode ser compreendido através de uma teoria triangular que defende a existência de três componentes indissociáveis, que se integram e co-relacionam: a paixão, a intimidade e o compromisso. De uma forma muito simplificada, poderei dizer que esta teoria aborda o Amor como o resultado do momento em que nos sentimos bem e próximos de alguém, desejamos ou erotizamos essa pessoa e estamos comprometidos e decididos a permanecer numa relação amorosa com ela. Quem ama verdadeiramente sabe o quão gratificante e realizador é amar e ser amado.

Será o Amor um “mar de rosas”? Não. Não mesmo. Apesar de existirem inúmeros casos de paixões que resultam em relacionamentos para a vida toda, a crua realidade é que isto cada vez mais acontece como excepção do que como regra, na sociedade contemporânea. Por motivos vários, as pessoas também se afastam. A verdade é que o tempo passa e vai passando, e as pessoas mudam, como aliás tudo muda na vida. Hoje em dia todos nos consideramos demasiado “especiais”, e por conseguinte damos prioridade à carreira profissional, à tentação, à busca de sonhos antigos ou simplesmente cedemos à nossa visão sempre muito única e pessoal do que queremos para as nossas vidas, abdicando muitas vezes de as viver de uma forma partilhada, uma evidência decorrente de estudos sociológicos que analisam o comportamento humano através da evolução das sociedades. Basta atentar ao crescimento do número de divórcios de ano para ano, associado ao decrescimento do número de matrimónios. Além desta progressiva “despersonalização” do Amor, que sublinho não ser regra, outra verdade é que cada vez há menos tempo para namorar, com a vida difícil que a maior parte das pessoas tem. A somar a problemas e privações da mais variada espécie, o mundo real de cada um de nós por vezes não é muito propício ao Amor, podendo mesmo acabar com ele. A certa altura, este nosso “mundo interior” poderá sobrepor-se à paixão, à ideia de que o outro “é perfeito”, o “tal”, aquele “com quem posso contar”, “com quem me divirto mais”, “a pessoa que me conhece melhor”. No “mundo interior” de cada um existe também amigos, familiares, trabalho, hobbies, contas para pagar, períodos de mau humor, discussões e os mais variados constrangimentos. Não é fácil.

A propósito de relações desgastadas e casamentos falhados, fruto de problemáticas várias, aproveito também para alertar para uma chocante realidade subsequente ao tema, que tem vindo a aumentar e redunda já num autêntico problema social: morreram 43 mulheres em Portugal por violência doméstica no ano de 2010, uma notícia que fez manchetes esta semana. Apesar de não ser a vítima exclusiva por excelência, uma vez que também há homens violentados, a dura estatística dá que pensar. A que ponto conseguem chegar as coisas para tudo desabar na morte de um dos cônjuges? A deterioração dos relacionamentos, associada aos mais diversos problemas que poderemos ter na vida podem fazer mergulhar o mais belo conto de fadas num autêntico pesadelo. Lamento profundamente estes números, e esta triste realidade dos dias que correm.

No próximo dia 14, celebra-se mais um tradicional Dia dos Namorados, em honra de São Valentim. Uma data por muitos ansiada, onde se celebra o genuíno sentimento que une intensamente duas pessoas, como poderá também ser um dia penoso para outros tantos, pela negação dessas mesmas razões. Nesta tão especial data, gostaria de desejar a mais profunda alegria a todos aqueles que têm uma “alma gémea”, aproveitando ainda para lhes recomendar que a respeitem e valorizem não só nesta data mas também em todos os restantes dias do ano. É muito importante que assim seja. Por outro lado, desejo tranquilidade e também alguma sorte a todos aqueles que (ainda) a não têm, mas que certamente um dia terão, até porque a vida faz muito mais sentido quando é partilhada.

Toda a gente tem o direito de ser feliz, e o Amor, mesmo que por vezes seja um pouco feio, lá no fundo é a coisa mais bonita que pode haver. Nunca deixem de acreditar que assim é.



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