Está um calor abrasador. Suo muito enquanto escrevo, quase sem roupa mas longe de me sentir fresco, pois está realmente quente. Quem me estiver a ler deverá estar a pensar o porquê do título do artigo, e da associação dos respectivos conceitos, mas há uma razão muito simples que o fundamenta: o calor aumenta o risco de morte. Além desta verdade científica, eu próprio deambulo permanentemente entre pensamentos existencialistas diversos, e parece-me que o calor os tem estimulado, fazendo com que a vontade que tenho de escrever sobre assuntos harmoniosos e mais positivos não se sobreponha ao que escreverei, e que sinto que devo escrever. Começo pelo calor..
Os dados que circulam deixam poucas dúvidas aos cientistas, 2010 deverá bater novos recordes em relação ao degelo, e à temperatura no planeta. De acordo com as previsões de início do ano da Organização Meteorológica Mundial, a última década foi "a mais quente da História, com temperaturas superiores à média das do século XX", mas pelos vistos o pior ainda estará para vir, dado que o ano de 2010 poderá ficar na história como o mais quente de sempre, segundo dados relativos aos primeiros meses do corrente. Com o tempo quente a manter-se durante dias consecutivos, os problemas de saúde vão inevitavelmente aparecendo, especialmente em relação aos mais vulneráveis, a população idosa e as crianças, sendo que a afluência aos hospitais também tem aumentado substancialmente, uma subida sazonal e de natural explicação. A este propósito, refira-se que a Direcção-Geral de Saúde colocou sete distritos em alerta vermelho, o mais alto de três níveis, devido à persistência das temperaturas altas que continuam a afectar o país, informando que estas poderão provocar "graves problemas" para a saúde, pelo que os cuidados deverão "ser redobrados". Desde 2004 que a DGS tem vindo a apresentar anualmente um Plano de Contingência para as Ondas de Calor, que tem como objectivo geral minimizar os efeitos negativos do calor intenso na saúde das populações, através da disponibilização de toda a informação pertinente. Surgiu como uma resposta à letal vaga de calor de 2003, que se prolongou em algumas zonas do país por mais de duas semanas, tendo ficado associada a um excesso de mortalidade de 1.953 óbitos, com particular incidência em indivíduos com idades iguais ou superiores a 75 anos de idade. Os números estão aí e não deixam espaço para dúvidas, sendo por norma um excelente indicador para a aferição de determinadas realidades, pelo que resta alertar a população para tomar todas as precauções necessárias, porque o alarme associado não é hipotético ou casual, mas sim realista e factual.
Este ano, no nosso país, terá havido um excesso de 1.081 mortes por problemas associados ao calor, segundo estimativas calculadas pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. Serão estimativas apenas, que se baseiam em comparações feitas com a mortalidade ocorrida em períodos idênticos em que não houve temperaturas elevadas para a época. Entretanto, não é só por cá que o calor se sente, por toda a Europa tem havido uma vaga intensa que tem afectado a vida das populações, provocando dificuldades várias e um aumento da sinistralidade. Por tudo isto terá que haver uma atitude generalizada, à escala global, no sentido de combater a tendência, já mais do que provada pela comunidade científica. As alterações climáticas e a insustentabilidade do ambiente, causando ondas de calor cada vez mais frequentes e mais intensas, também afectam a saúde humana, e de que maneira! Agimos ou resignamo-nos?
Além do calor que me tem perturbado, também há a tragédia. Talvez decorra disso mesmo a natureza da dissertação entre estes dois conceitos que correlaciono. Além de um temor pessoal que tenho alimentado de há uns tempos a esta parte, natural e justificado, parece que o tempo quente o denota ainda mais, deixando-me envolvido em desagradáveis e resignadas sensações relacionadas com o sentido da vida, mais propriamente com o fim desta. Temos o natural e justificado, e temos também o abrupto e inexplicável, será que a nossa estrutura e construção enquanto pessoas deverá ser capaz de suportar e aceitar os tristes episódios com os quais temos forçosamente que lidar durante a vida? Há acontecimentos muito delicados, e situações muito específicas, e continua a ser bastante diferente o “sentir” do desaparecimento de alguém que nos é próximo, ou que estejamos habituados a ver, do que outro mais distante, e que acaba por se nos revelar indiferente, de certa forma. O que poderá passar na cabeça de algumas pessoas que as tornem capazes dos actos mais horrendos e impensáveis? O povo mortaguense foi abalado recentemente por mais uma tragédia, daquelas difíceis de explicar e, por conseguinte, de digerir. O brutal desaparecimento de uma senhora ilustre da terra, que já não residia por cá, fruto das vicissitudes da vida, mas que era parte do povo, pelos laços pessoais criados e pela sua longa ligação como professora, tal como pela associação a diversas iniciativas e movimentos culturais. Inexplicavelmente, porque nunca ciúmes ou esgotamentos nervosos serão explicação para um crime tão violento, pereceu o ser humano, mas a sua memória por certo que perdurará. É em situações como esta que o que faz sentido deixa de o fazer, e que a Razão de as coisas serem tal como são, como princípio ou fundamento, perde todo o seu significado, alimentando todos e quaisquer sentimentos de reacção negativa mais primários, como a revolta e a indignação pelo que se perdeu, mas que não se devia ter perdido. A vida é mesmo muito curta, e as despedidas são e serão sempre realmente dolorosas, sejam elas súbitas ou preparadas, se é que isso existe.
Terminando, cito uma mensagem deixada por outro recente desaparecido, o actor e encenador António Feio, já em consciência com a sua mórbida condição. Tão verdadeira, tão sentida, tão profunda. E que tantas vezes ignoramos.
“Se há coisa que eu costumo dizer, é: aproveitem a vida, e ajudem-se uns aos outros, apreciem cada momento, agradeçam, e não deixem nada por dizer, nada por fazer.”
Os dados que circulam deixam poucas dúvidas aos cientistas, 2010 deverá bater novos recordes em relação ao degelo, e à temperatura no planeta. De acordo com as previsões de início do ano da Organização Meteorológica Mundial, a última década foi "a mais quente da História, com temperaturas superiores à média das do século XX", mas pelos vistos o pior ainda estará para vir, dado que o ano de 2010 poderá ficar na história como o mais quente de sempre, segundo dados relativos aos primeiros meses do corrente. Com o tempo quente a manter-se durante dias consecutivos, os problemas de saúde vão inevitavelmente aparecendo, especialmente em relação aos mais vulneráveis, a população idosa e as crianças, sendo que a afluência aos hospitais também tem aumentado substancialmente, uma subida sazonal e de natural explicação. A este propósito, refira-se que a Direcção-Geral de Saúde colocou sete distritos em alerta vermelho, o mais alto de três níveis, devido à persistência das temperaturas altas que continuam a afectar o país, informando que estas poderão provocar "graves problemas" para a saúde, pelo que os cuidados deverão "ser redobrados". Desde 2004 que a DGS tem vindo a apresentar anualmente um Plano de Contingência para as Ondas de Calor, que tem como objectivo geral minimizar os efeitos negativos do calor intenso na saúde das populações, através da disponibilização de toda a informação pertinente. Surgiu como uma resposta à letal vaga de calor de 2003, que se prolongou em algumas zonas do país por mais de duas semanas, tendo ficado associada a um excesso de mortalidade de 1.953 óbitos, com particular incidência em indivíduos com idades iguais ou superiores a 75 anos de idade. Os números estão aí e não deixam espaço para dúvidas, sendo por norma um excelente indicador para a aferição de determinadas realidades, pelo que resta alertar a população para tomar todas as precauções necessárias, porque o alarme associado não é hipotético ou casual, mas sim realista e factual.
Este ano, no nosso país, terá havido um excesso de 1.081 mortes por problemas associados ao calor, segundo estimativas calculadas pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. Serão estimativas apenas, que se baseiam em comparações feitas com a mortalidade ocorrida em períodos idênticos em que não houve temperaturas elevadas para a época. Entretanto, não é só por cá que o calor se sente, por toda a Europa tem havido uma vaga intensa que tem afectado a vida das populações, provocando dificuldades várias e um aumento da sinistralidade. Por tudo isto terá que haver uma atitude generalizada, à escala global, no sentido de combater a tendência, já mais do que provada pela comunidade científica. As alterações climáticas e a insustentabilidade do ambiente, causando ondas de calor cada vez mais frequentes e mais intensas, também afectam a saúde humana, e de que maneira! Agimos ou resignamo-nos?
Além do calor que me tem perturbado, também há a tragédia. Talvez decorra disso mesmo a natureza da dissertação entre estes dois conceitos que correlaciono. Além de um temor pessoal que tenho alimentado de há uns tempos a esta parte, natural e justificado, parece que o tempo quente o denota ainda mais, deixando-me envolvido em desagradáveis e resignadas sensações relacionadas com o sentido da vida, mais propriamente com o fim desta. Temos o natural e justificado, e temos também o abrupto e inexplicável, será que a nossa estrutura e construção enquanto pessoas deverá ser capaz de suportar e aceitar os tristes episódios com os quais temos forçosamente que lidar durante a vida? Há acontecimentos muito delicados, e situações muito específicas, e continua a ser bastante diferente o “sentir” do desaparecimento de alguém que nos é próximo, ou que estejamos habituados a ver, do que outro mais distante, e que acaba por se nos revelar indiferente, de certa forma. O que poderá passar na cabeça de algumas pessoas que as tornem capazes dos actos mais horrendos e impensáveis? O povo mortaguense foi abalado recentemente por mais uma tragédia, daquelas difíceis de explicar e, por conseguinte, de digerir. O brutal desaparecimento de uma senhora ilustre da terra, que já não residia por cá, fruto das vicissitudes da vida, mas que era parte do povo, pelos laços pessoais criados e pela sua longa ligação como professora, tal como pela associação a diversas iniciativas e movimentos culturais. Inexplicavelmente, porque nunca ciúmes ou esgotamentos nervosos serão explicação para um crime tão violento, pereceu o ser humano, mas a sua memória por certo que perdurará. É em situações como esta que o que faz sentido deixa de o fazer, e que a Razão de as coisas serem tal como são, como princípio ou fundamento, perde todo o seu significado, alimentando todos e quaisquer sentimentos de reacção negativa mais primários, como a revolta e a indignação pelo que se perdeu, mas que não se devia ter perdido. A vida é mesmo muito curta, e as despedidas são e serão sempre realmente dolorosas, sejam elas súbitas ou preparadas, se é que isso existe.
Terminando, cito uma mensagem deixada por outro recente desaparecido, o actor e encenador António Feio, já em consciência com a sua mórbida condição. Tão verdadeira, tão sentida, tão profunda. E que tantas vezes ignoramos.
“Se há coisa que eu costumo dizer, é: aproveitem a vida, e ajudem-se uns aos outros, apreciem cada momento, agradeçam, e não deixem nada por dizer, nada por fazer.”
Sem comentários:
Enviar um comentário