Foi com grande satisfação, partilhada inclusivamente com alguns amigos de semelhante pensamento, que recebi a notícia da proibição das touradas na Catalunha. A iniciativa partiu de uma petição assinada por 180.000 pessoas, tendo sido a proposta legislativa popular aprovada no parlamento catalão com 68 votos a favor, 55 contra e nove abstenções, no passado dia 28 de Julho. O equilíbrio do resultado do sufrágio é evidente, embora nunca devamos esquecer que a Espanha será provavelmente o país com mais tradição tauromáquica, a par do México e de uns tantos outros, pelo que a aprovação da referida proposta ganha outro relevo, e torna-se até algo surpreendente. Estaremos nos tempos que correm a alimentar uma tendência de inversão de costumes? A discussão (re)acende-se no momento, e creio ser essa a necessidade premente em relação a este assunto: promover o debate.
Acaba aparentemente por ser uma questão de sensibilidade. Uns têm-na, já outros nem por isso. Temos o grupo de indivíduos que se sentem realmente indignados e revoltados com a crueldade que é exercida sobre os animais, sejam eles quais forem, como também temos o grupo de indivíduos que, à luz da “tradição” e dos “costumes”, encaram o espectáculo violento e sanguinário das arenas como uma forma de lazer, entretenimento, ou até desporto! Incluo-me claramente no primeiro, mas faço um esforço para respeitar e tentar compreender a argumentação dos defensores da tauromaquia, embora admita que se trata efectivamente de um grande esforço. Inútil até, confesso. Talvez por não ter nada a ver com essa forma de estar. Lá está, não sou assim. Gosto dos animais, da sua natureza, e tento respeitá-los, os animais e a sua natureza. Sem ofensa barata, confesso que será também por aí que me move a consideração pelos diversos agentes tauromáquicos. São animais como todos os outros, eu inclusive, e a verdade é que cada um é como é. As touradas quase que fazem lembrar outros tempos, em que se fazia um pouco ao contrário, substituindo toureiros por esfomeados leões, e touros por homens indefesos, no ancestral anfiteatro romano do Coliseu, à mercê da vontade do vil imperador Nero. Também aí as pessoas aplaudiam o sacrifício, a violência crua, a “classe” da execução. Quando será que o respeito pelos animais e pela sua dignidade serão valores mais tidos em consideração? Tenho fé que seja algures ainda por este século, embora lá no fundo tenha uma suave e desagradável convicção que tal assim não acontecerá.
As pessoas dão muito valor ao que é considerado “tradicional”, por isso é que a cultura de um povo precisa de largos anos para ir sendo substancialmente alterada na sua morfologia. Sucedem-se as manifestações de revolta contra os “anti”, multiplicam-se os insultos e a ira contra os que apregoam uma “mudança de mentalidades”. A tourada é de um sadismo absoluto, e creio que a discussão deva começar por aí: será sensata, ou racional até, a prática de espectáculos que promovam a violência no seu sentido mais básico, à luz da sociedade contemporânea, sejam elas perpetradas contra homens ou animais? Indigna-me profundamente este tipo de “tradições”, fazem-me quase lembrar as ainda actuais execuções islâmicas por apedrejamento, salvo o óbvio distanciamento, também são “tradição”. Ainda há relativamente pouco tempo fiquei completamente estupefacto com a notícia da execução de um jovem casal no norte do Afeganistão, nestes moldes, por suposto adultério. Em 2010. Com uma assistência de 150 pessoas, plateia e tudo! Sejam muçulmanos, cristãos, talibãs, ou o raio que os parta, quem lhes dá o direito de enterrar uma pessoa até à cintura e apedrejá-la até à morte? As pedras não podem ser suficientemente grandes para causar uma morte imediata, nem tão pouco suficientemente pequenas para que não causem quaisquer danos físicos. Geralmente, os homens são enterrados pela cintura, e as mulheres até ao pescoço. Louve-se alguma clemência para com o sexo feminino, com certeza que a morte será mais rápida e menos dolorosa.. mas o que é isto? O acto é de uma crueldade e barbaridade tal, que me custa imenso a aceitar que as autoridades internacionais não se imponham e intervenham, nos dias que correm. Onde está o respeito pela dignidade do ser humano, uma das prerrogativas base de organizações como a ONU, que supostamente deveriam zelar por, e agir congruente e coerentemente sobre? Parece haver uma espécie de conformismo letárgico e resignado em relação à matéria, um conformismo que me irrita. Evoluímos num sem número de aspectos como sociedade global, sem dúvida, já em outros de tão crassa elementaridade parecemos uns verdadeiros primitivos, animais desprovidos de qualquer racionalidade.
O que me move a adoptar esta postura não será o simples desprezo pela crueldade gratuita que por aí vá sendo infligida, nas mais variadas formas, nas mais diversas acepções. Importa-me agir, nem que seja unicamente na esfera da dimensão pessoal e individual, conivente com as ideias que defendi. Abordando o tema, promovo a reflexão, exorto a uma tomada de posição mais digna, mais humanista. Afinal o que vale a “tradição”? Não será apenas uma transmissão de práticas e de valores de geração em geração? Gostava que esta dita “transmissão” passasse por um rigoroso processo de harmonização e purificação, e fomento do respeito pela valorização da vida, seja ela humana ou animal. Um dia orgulhar-nos-emos de ter posto fim a práticas promotoras de crueldade gratuita, e aí sim, seremos pessoas melhores, e geraremos filhos melhores, estou certo. A Paz no mundo, por mais utópica que seja e longínqua que pareça, poderá sempre ser intentada quando assumirmos pequenos passos nesse sentido, como este, de abolição da atrocidade, da perversidade, da maldade no seu estado puro.
A Catalunha é apenas uma província espanhola, mas esta proibição abre um precedente, que precisa de ter continuidade. Haja coragem para o efeito, para melhor muda-se sempre, é uma importante forma de estar.
O respeito básico pelos animais é fértil, e bom conselheiro para o respeito básico pelo ser humano.
Acaba aparentemente por ser uma questão de sensibilidade. Uns têm-na, já outros nem por isso. Temos o grupo de indivíduos que se sentem realmente indignados e revoltados com a crueldade que é exercida sobre os animais, sejam eles quais forem, como também temos o grupo de indivíduos que, à luz da “tradição” e dos “costumes”, encaram o espectáculo violento e sanguinário das arenas como uma forma de lazer, entretenimento, ou até desporto! Incluo-me claramente no primeiro, mas faço um esforço para respeitar e tentar compreender a argumentação dos defensores da tauromaquia, embora admita que se trata efectivamente de um grande esforço. Inútil até, confesso. Talvez por não ter nada a ver com essa forma de estar. Lá está, não sou assim. Gosto dos animais, da sua natureza, e tento respeitá-los, os animais e a sua natureza. Sem ofensa barata, confesso que será também por aí que me move a consideração pelos diversos agentes tauromáquicos. São animais como todos os outros, eu inclusive, e a verdade é que cada um é como é. As touradas quase que fazem lembrar outros tempos, em que se fazia um pouco ao contrário, substituindo toureiros por esfomeados leões, e touros por homens indefesos, no ancestral anfiteatro romano do Coliseu, à mercê da vontade do vil imperador Nero. Também aí as pessoas aplaudiam o sacrifício, a violência crua, a “classe” da execução. Quando será que o respeito pelos animais e pela sua dignidade serão valores mais tidos em consideração? Tenho fé que seja algures ainda por este século, embora lá no fundo tenha uma suave e desagradável convicção que tal assim não acontecerá.
As pessoas dão muito valor ao que é considerado “tradicional”, por isso é que a cultura de um povo precisa de largos anos para ir sendo substancialmente alterada na sua morfologia. Sucedem-se as manifestações de revolta contra os “anti”, multiplicam-se os insultos e a ira contra os que apregoam uma “mudança de mentalidades”. A tourada é de um sadismo absoluto, e creio que a discussão deva começar por aí: será sensata, ou racional até, a prática de espectáculos que promovam a violência no seu sentido mais básico, à luz da sociedade contemporânea, sejam elas perpetradas contra homens ou animais? Indigna-me profundamente este tipo de “tradições”, fazem-me quase lembrar as ainda actuais execuções islâmicas por apedrejamento, salvo o óbvio distanciamento, também são “tradição”. Ainda há relativamente pouco tempo fiquei completamente estupefacto com a notícia da execução de um jovem casal no norte do Afeganistão, nestes moldes, por suposto adultério. Em 2010. Com uma assistência de 150 pessoas, plateia e tudo! Sejam muçulmanos, cristãos, talibãs, ou o raio que os parta, quem lhes dá o direito de enterrar uma pessoa até à cintura e apedrejá-la até à morte? As pedras não podem ser suficientemente grandes para causar uma morte imediata, nem tão pouco suficientemente pequenas para que não causem quaisquer danos físicos. Geralmente, os homens são enterrados pela cintura, e as mulheres até ao pescoço. Louve-se alguma clemência para com o sexo feminino, com certeza que a morte será mais rápida e menos dolorosa.. mas o que é isto? O acto é de uma crueldade e barbaridade tal, que me custa imenso a aceitar que as autoridades internacionais não se imponham e intervenham, nos dias que correm. Onde está o respeito pela dignidade do ser humano, uma das prerrogativas base de organizações como a ONU, que supostamente deveriam zelar por, e agir congruente e coerentemente sobre? Parece haver uma espécie de conformismo letárgico e resignado em relação à matéria, um conformismo que me irrita. Evoluímos num sem número de aspectos como sociedade global, sem dúvida, já em outros de tão crassa elementaridade parecemos uns verdadeiros primitivos, animais desprovidos de qualquer racionalidade.
O que me move a adoptar esta postura não será o simples desprezo pela crueldade gratuita que por aí vá sendo infligida, nas mais variadas formas, nas mais diversas acepções. Importa-me agir, nem que seja unicamente na esfera da dimensão pessoal e individual, conivente com as ideias que defendi. Abordando o tema, promovo a reflexão, exorto a uma tomada de posição mais digna, mais humanista. Afinal o que vale a “tradição”? Não será apenas uma transmissão de práticas e de valores de geração em geração? Gostava que esta dita “transmissão” passasse por um rigoroso processo de harmonização e purificação, e fomento do respeito pela valorização da vida, seja ela humana ou animal. Um dia orgulhar-nos-emos de ter posto fim a práticas promotoras de crueldade gratuita, e aí sim, seremos pessoas melhores, e geraremos filhos melhores, estou certo. A Paz no mundo, por mais utópica que seja e longínqua que pareça, poderá sempre ser intentada quando assumirmos pequenos passos nesse sentido, como este, de abolição da atrocidade, da perversidade, da maldade no seu estado puro.
A Catalunha é apenas uma província espanhola, mas esta proibição abre um precedente, que precisa de ter continuidade. Haja coragem para o efeito, para melhor muda-se sempre, é uma importante forma de estar.
O respeito básico pelos animais é fértil, e bom conselheiro para o respeito básico pelo ser humano.
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