Sem surpresas, Cavaco Silva venceu as eleições presidenciais do passado domingo, que culminaram uma campanha eleitoral desinteressantíssima, com pouca substância efectivamente política e sem a promoção de discussões centradas em assuntos realmente importantes para o futuro do país. A este propósito, gostaria de tecer algumas considerações que entendo serem relevantes.
1. O povo é soberano. Apesar de tudo o que acompanhou esta eleição, de positivo e negativo, do que entretanto emergiu e do que (ainda) permanece oculto, os resultados verificados têm que ser respeitados por todos, pelo que Cavaco é o vencedor com toda a legitimidade. No entanto, há alguns aspectos que importa salientar. As sondagens que antecederam o sufrágio auguravam uma vitória estrondosa de Cavaco (mais uma vez, à semelhança das presidenciais anteriores..). A verdade é que acabou por ter um resultado eleitoral ainda inferior ao de 2001, quando perdeu com Jorge Sampaio, teve menos meio milhão de votos do que em 2006 e, para quem pelas aparências ganha sempre “confortavelmente”, importa ainda referir que é o Presidente eleito e posteriormente reeleito com menores percentagens de votação desde Abril de 74. A juntar a esta realidade, recordo que dada a elevadíssima abstenção verificada, a “maioria inequívoca” de Cavaco resume-se a cerca de um quinto da população portuguesa, tornando-o no Presidente eleito com menor número de votos de sempre; Cavaco referiu que não colocaria um único “outdoor” durante a campanha, e que, dada a crise económica, esta veria os custos francamente reduzidos. A verdade é que bateu o recorde dos recordes de gastos na mesma, somando este “troféu” ao da sua primeira magistratura, em que também foi campeão da despesa. O generoso candidato que neccessita de sustentar a “pobre” mulher que usufrui de uma pensão de “apenas” 800€, mas que se manifesta sempre preocupadíssimo com a miséria que grassa pelo país. É caso para lembrar: “Ouve o que eu digo, ...”; Cavaco sempre pediu elevação e respeito na campanha. A verdade é que, a juntar a algumas humildes e brilhantes declarações do próprio nesse período, no momento do discurso da consagração, em vez de encarnar a figura de um respeitado Chefe de Estado unificador e conciliador, à imagem do que o cargo supostamente deverá representar, foi de colérico olhar que cantou vitória sobre a “infâmia”, a “mentira” e a “calúnia”. O triunfante de inquestionável idoneidade falou ainda do prevalecimento da “transparência” e da “dignidade”. Estou certo de que os importantes desafios que o momento que o país atravessa serão férteis, e determinantes provas de aferição destes valores por si entoados; O povo queixa-se permanentemente do estado do país, da grande pobreza e miséria, e daqueles que vão “enchendo o saco” com negociatas, favorecimentos e intercedências de natureza promíscua. A verdade é que, além de se ter alheado da votação como não há memória, elegeu novamente a cabeça do “polvo”, um dos grandes responsáveis e pioneiros do novo “riquismo”, das famílias poderosas e das ligações sujas a grandes grupos económicos e financeiros, uma alta figura da oligarquia do interesse. Teremos mais 5 anos do “mesmo”.
2. Um dos aspectos de análise aparentemente consensual é a falta de alternativas válidas e suficientemente fortes no leque de candidatos que se lançou para a corrida. Manuel Alegre, o principal derrotado, poderá queixar-se apenas de si próprio e da sua inabalável teimosia, tendo cometido erros estratégicos crassos que acabaram por lhe valer um resultado muito inferior ao de 2006. Alegre e o seu cultivado ego devem agora atravessar um período de profunda reflexão. Fernando Nobre, apesar de algumas inconsistências e da falta de uma “máquina” partidária no apoio à campanha, foi um dos vencedores da noite, senão mesmo o maior, como aliás o próprio se auto-proclamou. Uma importante conquista da cidadania e do apartidarismo, com uma percentagem de 14,1% que poderá propiciar diferentes leituras e originar futuras movimentações no panorama político nacional. Francisco Lopes conseguiu o objectivo mínimo de fixar os eleitores comunistas, que por norma são fervorosos fiéis que não faltam à chamada, garantindo assim uma fatia de 7,1% que representará com alguma verossimilidade o peso desta força política no nosso país. Lopes mostrou coração, humildade e uma ligação forte com os trabalhadores. Embora com algumas limitações evidentes, provou ter o trabalho de casa bem feito, com a “cassete” ideológica do partido bem sabida, e repetida vezes sem conta nas diversas intervenções. Defensor Moura, por seu lado, pelo menos conquistou o meu respeito, apesar da paupérrima votação obtida. Mostrou preparação, capacidade, apresentou propostas, revelou um percurso político que atesta a sua criatividade e intervencionismo, mas faltou-lhe o carisma natural que um grande líder terá obrigatoriamente que possuir. Sintomático da sua inamovível coerência, característica cada vez mais rara nos políticos de hoje, foi o facto de não ter felicitado Cavaco, após todas as incidências da campanha. Já surpreendente (ou nem tanto..), foi o sensacional registo de José Manuel Coelho, o candidato anti-sistema, que obteve 4,5% do total de votos, tendo ainda conseguido a proeza de vencer em três concelhos, tantos quanto Alegre. Duas depreensões imediatas: o resultado é significativo e revelador do descontentamento do povo, nitidamente em protesto e ansioso por ter protagonistas políticos que garantam os mínimos aceitáveis de credibilidade, sendo que a expressão desta votação denuncia o grande cepticismo em relação a todos os candidatos. Por outro lado, representa um cartão alaranjado do povo madeirense ao vil Jardim e ao quase totalitário regime jardinista, que já conta com 30 primaveras. Parece que a Madeira se apresta a dizer “basta!”.
3. Uma pequena nota, negativa, em relação ao Partido Socialista nestas presidenciais, pelo planeamento, preparação e acompanhamento da campanha. Onde está a unidade socialista? O evidente divisionismo no partido que preferiu ceder às pretensões do “teimoso” Alegre, que avançaria sempre nem que fosse sozinho, é a causa primeira. Apoiou-o em vez de escolher um bom candidato (mas um bom mesmo!), que conseguisse agregar os cada vez mais fragmentados militantes e mobilizar o aparelho socialista, que coeso e uno já provou por mais de uma vez a sua força imensa, analisando resultados eleitorais de um passado não muito distante. Estará na hora da renovação?
4. Analisando os discursos de Sócrates e Cavaco, proponho-me a questionar a suposta “estabilidade política” por ambos anunciada. Teremos lugar para uma crise política ainda em 2011? Fará o Presidente uso da “bomba atómica”, como carinhosamente o próprio apelidou o poder detido de dissolução do Governo? É imprevisível, realmente imprevisível. Institucionalista de gema, Cavaco só o fará se tiver forte contexto e motivação, e condições relevantes criadas que apontem nesse sentido, sem nunca permitir que de um acto pouco reflectido possa sofrer represálias pessoais de ordem política e reputacional. Quem o não desdenharia seria Passos Coelho, ávido pela primeira cadeira do Executivo, mas ciente da realidade e pleno conhecedor do perfil de Cavaco, com quem aliás pouco partilhará, pelo que não será certamente pelo seu desejo pessoal que este último agirá nesse sentido. A “estabilidade” prometida irá acima de tudo depender da qualidade da regulação das relações Belém / São Bento, que em tempos conturbados como este se adivinham tensas e frenéticas.. um potencial “rastilho”. Será a “estabilidade” possível com um Presidente mais “actuante”, como o próprio anuncia? Se durante os últimos 5 anos Cavaco pouco terá “actuado”, analisando à lupa a sua historicidade como agente político terei forçosamente que permanecer atento e expectante em relação à sua futura “actuação”. De uma coisa poderemos todos ter a certeza, apesar da legitimidade da eleição e do crédito (mínimo) que o Presidente (me) merecerá, (apesar de tudo..), é um facto que não elegemos um “santo” ou uma “virgem imaculada” para o mais alto cargo da Nação, como muitos fizeram, fazem, e estou certo de que continuarão a fazer crer – “os amigos”.
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