quarta-feira, 19 de julho de 2017

O Dever de Ser Simpático



Mantendo o mesmo princípio de abertura, não podia deixar de partilhar convosco algumas impressões sobre a reunião de ontem, que publicitei aqui neste espaço, como é sabido. A este propósito, gostava de sublinhar novamente o seguinte: há muitas pessoas que se queixam e apontam o dedo a este canal de comunicação "a céu aberto", mas este continua a ser indiscutivelmente o mais eficaz e privilegiado para fazer circular a informação o mais rapidamente possível, abrangendo um maior número de pessoas. Não tenho qualquer dúvida sobre este poder imenso que mais nenhuma ferramenta digital tem, e creio que convém lembrá-lo mais uma vez a quem acha que o FB só serve para desdenhar e lavar roupa suja. Os primeiros a poluir as discussões são quase sempre os mesmos que depois apontam a poluição que as redes provocam como uma patologia crónica e incurável. A meu ver, e como tudo na vida, há participações boas e outras que nem por isso. Quando estas são devidamente assinadas, a responsabilidade residirá sempre na consciência de quem intervir, sendo que há limites óbvios de ofensa pessoal que não podem ser ultrapassados, independentemente da genuína opinião de cada um. Esse limite não pode nem deve interferir com a liberdade do outro, principalmente a pessoal, pois as considerações políticas já são um outro assunto, perfeitamente passíveis de serem escrutinadas. Como é evidente e desejável. Por isso é que por exemplo a presença de participantes anónimos em algumas discussões é condenável, um asco, uma aberração autêntica que permite as mais variadas promiscuidades, e que revela claramente a podridão humana que caracteriza os seus autores... sendo alguns deles tão habilidosos ou tão pouco, que se percebem logo no imediato quem são.

Posto isto, voltemos à reunião de ontem. Tenho a confessar-vos que, apesar de todos os encontros e desencontros que se têm verificado nos últimos tempos, fiquei agradavelmente surpreendido com o ambiente civilizado e com a postura dos diversos intervenientes neste encontro. A Presidente da CPC começou por esclarecer algumas ocorrências que caracterizaram a vida do partido nestes últimos anos, e de seguida o Ricardo Pardal deu-se a conhecer aos seus camaradas como candidato à Câmara. Tudo bem. Se em abono da verdade eu procuraria fazer praticamente tudo ao contrário do que foi feito nos últimos tempos, em matéria de funcionamento interno do partido, saí no entanto da reunião com a convicção que este pode efectivamente vir a melhorar no futuro, o que desde logo saúdo. Ouvi falar muito de unidade, de participação, de abertura e de inclusão. Muito, mesmo. O que só me pode agradar, assim se levem as palavras proferidas à prática propriamente dita. Como acredito que em política devemos ser optimistas, apesar dos pés bem assentes na terra, vou ter fé que essa mudança interna venha mesmo a acontecer. Até porque me apercebi de sinais concretos nesse sentido, nomeadamente ao nível da metodologia adoptada em torno do programa eleitoral, que o candidato oportunamente dará a conhecer.

De seguida, falou o Ricardo. Fiquei convencido com a sua confiança, a sua convicção e o seu discurso, de uma forma geral. Com a maior das honestidades. A posição demonstrada foi elevada, nobre e conciliadora, própria de um candidato. Se é verdade que faria tudo ao contrário do que tem sido feito pelo órgão estratégico do partido nestes últimos tempos, devo partilhar convosco que se estivesse na pele do Ricardo adoptaria precisamente a mesma postura perante os meus pares. Passou uma mensagem muito clara de força, de empenho e de determinação, e acima de tudo mostrou um sentido muito apurado de integração, de espírito colectivo. Como seria expectável e natural, claro. Assumiu a sua ambição de forma firme e corajosa, e eu só tenho que a respeitar porque senti que esta era efectivamente real. Como seria natural e expectável, claro. Mas conseguiu convencer-me disso, coisa que eu muito honestamente não esperava. Verdade seja dita.

Talvez pela carta aberta que escrevi na semana passada, muito provavelmente, claro, a realidade é que as intervenções iniciais deixaram-me com reduzidíssima margem de manobra para colocar as questões que levava preparadas. Nenhum problema com isso, como é evidente. Pelo contrário, é sinal que estas foram tidas em consideração. O mais importante é que todas as dúvidas fossem dissipadas, e isso aconteceu. Não podia, no entanto, deixar de intervir, até pelo mais elementar princípio de coerência em relação à crítica que tenho corporizado, como é sabido. Falando do partido em si, não deixei de sublinhar que tenho uma filosofia e uma perspectiva diferente sobre o modo como as coisas deverão funcionar mas, tal como já vos adiantei, fiquei crente numa mudança futura. Como fiquei satisfeito com o mea culpa assumido pela principal responsável pela Concelhia, o que revela a consciência de que se podia ter feito mais e melhor. Muito mais e muito melhor. Faça-se-lhe no entanto a devida justiça também, porque se não fosse o seu empenho e a sua dedicação pessoal poderíamos neste momento estar a discutir uma situação muitíssimo mais sofrível por parte do PS-Mortágua, o que convém não esquecer. Não esquecer e valorizar. Coloquei ainda duas ou três questões ao Ricardo, às quais respondeu de forma espontânea e com naturalidade, o que mais uma vez me surpreendeu positivamente, tendo também aceite os argumentos por ele apresentados. Sem qualquer tipo de hipocrisia, reforço mais uma vez a minha surpresa pelo tom, pelo clima, pelo sentido de esclarecimento e pela clara elevação do debate que ali se manteve. Costuma dizer-se que no futebol, o que hoje é verdade, amanhã é mentira. Não tenho qualquer tipo de dúvida que a expressão também assenta como uma luva no meandro político, talvez mais ainda, por tudo e mais alguma coisa que eu já vi e já aprendi até hoje.

Este texto aparenta estar todo muito bonito, e o objectivo também não deixa de ser esse, manifestando a minha simpatia, mas há certos e determinados recados que não posso deixar de dar. A reunião até foi bastante participada, não tanto como desejaria e acho indicado, mas estavam lá muitas pessoas, sem dúvida alguma. A esmagadora maioria eram caras habituais, mas também havia sangue novo, o que é um bom sinal, apesar de ser preciso trabalhar e muito nesse aspecto. Parece-me, no entanto, que essa pasta será muito bem entregue. Muito bem entregue, mesmo. Assim o deixem trabalhar à vontade e como deve ser. De resto, apenas me inscrevi eu e o senhor Afonso para intervir formalmente, apesar de terem entretanto surgido mais participações curtas e espontâneas, como é natural. O senhor Afonso falou muito, tendo na minha opinião dito alguns disparates com os quais não concordo nada e que simbolizam precisamente a diferente forma da minha de estar em política, “já falaste demais” (para o Ricardo), e tal... no fundo, um modo mais ocluso e exclusivo de estar. O meu pensamento é diametralmente oposto, como já revelei em variados momentos. O PS precisa é de falar mais e com cada vez mais pessoas. O senhor Afonso falou muito, mas também falou bem, como aliás não seria de espantar ninguém, dada a imensidão da sua experiência governativa de uma vida quase dedicada por inteiro à actividade política. Deverá, no entanto, ser um pouco mais comedido e menos presente. Pode e deve ajudar o candidato, algo que fará com toda a certeza e que eu não censuro minimamente, preenchendo o tal lugar de senador que eu sempre tenho vindo a afirmar. Mas um senador recatado, sem visibilidades. O ensinamento deverá ser transmitido discretamente e sem quaisquer holofotes. Na minha mais honesta opinião, a imagem de Abrantes penaliza e de que maneira o candidato, caso este se queira dele fazer acompanhar em permanência. Ajudar, sim… mas no prudente aconchego do gabinete ou do escritório. Na rua penso que ajudará muito pouco, pelo contrário. A imagem dele está mais do que gasta, a sua presença satura uma grande parte do nosso povo. Será bom para o candidato e ainda melhor para o partido, que precisa desesperadamente de respirar o ar fresco do pós-Afonso Abrantes, coisa que não é possível se a sua omnipresença se continuar a verificar, como aliás é natural. Pode e deve ajudar, mas nunca na vida deve falar tanto ou mais do que o próprio candidato numa reunião de apresentação deste aos restantes militantes. Não tenho dúvidas disso. Trata-se da minha opinião, mas essas decisões cabem aos próprios, como é óbvio. Uma outra sugestão que faço ao Ricardo e à Alcina é que revejam imediatamente a presença do PS-Mortágua no FB. A página tem sido pessimamente mal administrada e conta com uma escassa projecção, que não chega aos 300 seguidores. Se quiserem ajuda, manifesto-me desde já aqui publicamente disponível para dar umas dicas nesse sentido, até porque extraordinariamente difícil é não fazer melhor do que tem sido feito. Há que aumentar significativamente a actividade da página e começar desde logo por limpá-la das covardes e nojentas participações dos famosos anónimos, que não fazem outra coisa a não ser conspurcar o debate, tornando-o parcial e injusto, dado que serão sempre inatingíveis, o que lhes permite ainda desferir os ataques pessoais mais repugnantes e incríveis, salvaguardados sempre pela falta de uma assinatura real que não os responsabiliza. Um berço de imundice onde alguns adoram chafurdar, mas o partido não se poderá nunca meter nisso, pelo contrário até, porque tem a obrigação de zelar pelo asseio da discussão de ideias que ali se deverá privilegiar. Outra conclusão óbvia a retirar terá que ser a forma das posições que ali serão assumidas, naturalmente colectivas. Considero uma anormalidade autêntica que uma só pessoa assuma posições individuais e manifeste apoios vários, sendo alguns até de natureza sensível, em nome de todo um universo local de militantes que está ali representado no nome “PS-Mortágua”. Mais, teve já inclusivamente o indecoro e a insolência de querer assinar pessoalmente comentários efectuados pelo próprio partido (!). Uma tentativa desesperada de afirmação? Será que não se dá conta do patético dessa atitude? Acredito, ou melhor, quero acreditar que isto seja apenas viável e possível na cabeça do próprio, pelo que lanço mais uma vez o desafio ao Ricardo e à Alcina para que afastem de vez a personagem da gestão da página, até porque já criou danos mais do que suficientes. Trata-se de uma situação inenarrável mesmo, de bradar aos céus.

Já vos transmiti a minha impressão sobre ontem e também já apresentei algumas sugestões, relembrando-vos ainda que, na realidade, fiquei mesmo agradavelmente surpreendido com o que vi e com o que ouvi. Uma das noções que fiz questão de lá sublinhar é que não confundo a obrigação com o dever militante. Obrigação militante para mim é algo que não existe. Dever, sim. E eu assumo desde já aqui perante vós o dever que sinto de ser simpático para esta candidatura. Sinto o dever militante de ser simpático com esta candidatura porque, tendo as coisas acontecido como aconteceram, não deixa de ser a escolha do meu partido, e eu tenho o dever de a aceitar e respeitar, concorde ou não com ela. É precisamente este o sentimento que me percorre neste momento e que vos confesso sem hipocrisia alguma: tenho o dever de ser simpático. O dever militante de ser simpático.

Houve muitas coisas que me surpreenderam na noite de ontem, mas a principal estava reservada para o fim. Quando todos se levantaram das suas cadeiras e já iam saindo, concluída que estava a reunião, o Ricardo chamou-me: “Mauro!”, ao que eu parei, virei-me e olhei. “Vamos enterrar de vez o machado de guerra e vamos trabalhar!”, estendendo-me a mão de seguida, olhando-me nos olhos com sinceridade e convicção. Estupefacto, fiquei sem reacção, não pronunciei uma palavra que fosse e apertei-lhe a mão. Também não era preciso dizer nada. Sete anos depois. Por mais conveniente que seja a atitude, e inteligente também, não esquecer, confesso que fiquei agradado com o gesto humilde. Sete anos depois. Muito surpreendido, mas bastante agradado também. Está enterrado o machado.

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