A precisamente um mês e uma
semana das tão importantes eleições autárquicas, não há um único partido
político no meu Concelho que tenha apresentado à comunidade que ambiciona
representar uma única proposta concreta que seja. As leituras que se podem
fazer são diversas. Será mera estratégia ou a ausência de um projecto eleitoral
consistente? Parece-me que acontece tanto uma coisa como outra, de certa forma.
Estou saturado de tacticismo político
inconsequente e de práticas democráticas que são profundamente oclusas, apesar
da insistência estética em mascará-las de inclusivas. Não, não é de todo uma
questão de ansiedade, ou de querer acelerar um processo que deve obedecer a
certas e determinadas temporizações... será que o timing ideal para que as
ideias propriamente ditas sejam apresentadas é o de duas, três ou mesmo quatro
semanas apenas antes das eleições? Será que esta postura revela algum tipo de
interesse em que haja discussão pública das sugestões que são apresentadas? Se
fosse assim no país inteiro, talvez a minha crescente descrença partidocrática
já me tivesse consumido por completo, mas não, felizmente que não é isso que
acontece. O que me move é o mais elementar desejo e dever até de ser informado
e de poder discutir com os meus conterrâneos quais serão os melhores programas
e as mais convincentes orientações para o futuro de Mortágua, postura essa que
deveria ser um obrigação cívica de todos os que defendem procedimentos
democráticos modernos e abrangentes. Cada candidato terá os seus trunfos,
correcto, mas em política esta não é uma forma de estar transparente, próxima,
ou o que quer que seja do que normalmente se apregoa. Da parte de candidato
nenhum. Sinto-me orgulhoso por poder falar com toda a naturalidade e distanciamento
sobre todas as candidaturas, até porque não tenho amarras que me levem a dizer
ou escrever o que soa bonito em detrimento do que se revela genuíno. Conto
pelos dedos os que também assim são. Mais, tendo em conta o valor da
reciprocidade do respeito e da consideração, não posso nem devo obrigar-me a
ser tolerante com quem não o demonstra ser, nem tão pouco simpático com quem
manifestamente não o é. Artificialismos instrumentais? Não, obrigado. Nesta
campanha, e a precisamente um mês e uma semana das eleições, repito, o que parece contar são os
indivíduos e não os seus específicos propósitos. Está mal. Quem vencer a
corrida vai representar toda a nossa comunidade durante os próximos quatro
anos.. e de que medidas em concreto é que temos conhecimento neste momento, a
pouco mais de um mês de tomar a decisão em quem votar? Nenhumas. 0. Seja da
parte de quem for. Na minha opinião, isto nem é intelectualmente sério nem
politicamente aceitável. Mas pronto... "está tudo bem", porreiro. Não
venham é depois alegar que estamos "juntos", ou que vamos ser um
modelo de "transparência e proximidade". Mais importante do que as
palavras, são os exemplos.
A
cantora Ágata, por exemplo, também é candidata por um partido a vice-presidente
da Câmara Municipal de Castanheira de Pêra, apresentando desde logo um slogan
racionalmente invejável: “a minha preocupação são as prioridades”. Palavras
supostamente intensas que com certeza provocam um fascínio arrebatador em
muitos dos que as lêem ou ouvem. A arte de fazer política sem nada dizer está a
tornar-se numa verdadeira especialidade. Não, não são todos assim como é
evidente, mas a presença contrária está lamentavelmente a tornar-se numa
minoria. “O que importa são as pessoas” é outro dos chavões que está na moda.
Afinal de contas, quem é que deveria importar? Não é óbvio que terão
obrigatoriamente que ser as pessoas? O que me incomoda nem é a simples
afirmação deste fundamento evidente, que começa e acaba nele próprio, mas sim a
declarada ausência de uma predisposição firme
de informar devidamente e com tempo as pessoas que se ambiciona
representar. Parece que a estratégia adoptada por uns e pelos outros é a de
trabalhar mais no erro do adversário e menos na afirmação pessoal dos seus
próprios projectos, como devia ser. Um dos
maiores desígnios cívicos e militantes que me leva cada vez mais a querer
participar e a procurar fomentar a participação de todos é precisamente o
desejo de inverter esta triste tendência que existe na nossa terra, que é a de
nada discutir. Nem há interesse em debater da parte da maioria da população
como, pior ainda, não parece haver a mínima vontade do lado dos candidatos a
nossos representantes em promover essa mesma discussão. O que ainda é mais
preocupante. Apostar na ignorância das
pessoas e não na sua superior informação é um tacticismo político barato e
inconsequente que abomino em absoluto. Lamentavelmente, parece que é o caminho
que todos escolhem. Esta é a minha opinião, provavelmente pouco popular e que
vale somente um voto. Mas é a minha opinião. Pensar e querer fazer pensar
parece que conta muito pouco. Não interessa. Não é eleitoralmente fértil e
produtivo. Como desanimadamente me dizia um antigo candidato, “a malta acredita, ou não, naquilo que se disser mal do
adversário e na promessa de emprego para si ou para os seus.” Ou na elegância
sedutora dos sorrisos dos cartazes. Ou na eloquência convincente dos slogans. O
resto? O resto não interessa. O resto é conversa. Informar? Para quê? O panorama geral que está instalado apenas me dá vontade de
querer fazer tudo de forma diferente. Vamos ver se isso será possível. Se não
for, paciência, não morre ninguém. Há imensas formas de se ser útil à
comunidade. Cada vez me deixo cativar mais pelos diversos apelos que vários
amigos me vão lançando, relativamente a movimentos cívicos e independentes,
apesar de também simpatizar e acima de tudo ainda acreditar em funcionamentos
democráticos válidos por parte de uma partidocracia que não está morta, apesar
de manifestamente moribunda. Como escrevi já há uns largos meses, merecemos
mais do que isto. Mais e melhor. Muito mais e muito melhor.
O
fascínio arrebatador de nada dizer que tenho observado por aí leva-me à
irresistível tentação de nada querer deixar por dizer. De silêncios coniventes
e convenientes está Mortágua saturada.. e não me parece que seja isso que os
Mortaguenses precisam.
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