quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O Fascínio Arrebatador de Nada Dizer


A precisamente um mês e uma semana das tão importantes eleições autárquicas, não há um único partido político no meu Concelho que tenha apresentado à comunidade que ambiciona representar uma única proposta concreta que seja. As leituras que se podem fazer são diversas. Será mera estratégia ou a ausência de um projecto eleitoral consistente? Parece-me que acontece tanto uma coisa como outra, de certa forma. Estou saturado de tacticismo político inconsequente e de práticas democráticas que são profundamente oclusas, apesar da insistência estética em mascará-las de inclusivas. Não, não é de todo uma questão de ansiedade, ou de querer acelerar um processo que deve obedecer a certas e determinadas temporizações... será que o timing ideal para que as ideias propriamente ditas sejam apresentadas é o de duas, três ou mesmo quatro semanas apenas antes das eleições? Será que esta postura revela algum tipo de interesse em que haja discussão pública das sugestões que são apresentadas? Se fosse assim no país inteiro, talvez a minha crescente descrença partidocrática já me tivesse consumido por completo, mas não, felizmente que não é isso que acontece. O que me move é o mais elementar desejo e dever até de ser informado e de poder discutir com os meus conterrâneos quais serão os melhores programas e as mais convincentes orientações para o futuro de Mortágua, postura essa que deveria ser um obrigação cívica de todos os que defendem procedimentos democráticos modernos e abrangentes. Cada candidato terá os seus trunfos, correcto, mas em política esta não é uma forma de estar transparente, próxima, ou o que quer que seja do que normalmente se apregoa. Da parte de candidato nenhum. Sinto-me orgulhoso por poder falar com toda a naturalidade e distanciamento sobre todas as candidaturas, até porque não tenho amarras que me levem a dizer ou escrever o que soa bonito em detrimento do que se revela genuíno. Conto pelos dedos os que também assim são. Mais, tendo em conta o valor da reciprocidade do respeito e da consideração, não posso nem devo obrigar-me a ser tolerante com quem não o demonstra ser, nem tão pouco simpático com quem manifestamente não o é. Artificialismos instrumentais? Não, obrigado. Nesta campanha, e a precisamente um mês e uma semana das eleições, repito, o que parece contar são os indivíduos e não os seus específicos propósitos. Está mal. Quem vencer a corrida vai representar toda a nossa comunidade durante os próximos quatro anos.. e de que medidas em concreto é que temos conhecimento neste momento, a pouco mais de um mês de tomar a decisão em quem votar? Nenhumas. 0. Seja da parte de quem for. Na minha opinião, isto nem é intelectualmente sério nem politicamente aceitável. Mas pronto... "está tudo bem", porreiro. Não venham é depois alegar que estamos "juntos", ou que vamos ser um modelo de "transparência e proximidade". Mais importante do que as palavras, são os exemplos.

A cantora Ágata, por exemplo, também é candidata por um partido a vice-presidente da Câmara Municipal de Castanheira de Pêra, apresentando desde logo um slogan racionalmente invejável: “a minha preocupação são as prioridades”. Palavras supostamente intensas que com certeza provocam um fascínio arrebatador em muitos dos que as lêem ou ouvem. A arte de fazer política sem nada dizer está a tornar-se numa verdadeira especialidade. Não, não são todos assim como é evidente, mas a presença contrária está lamentavelmente a tornar-se numa minoria. “O que importa são as pessoas” é outro dos chavões que está na moda. Afinal de contas, quem é que deveria importar? Não é óbvio que terão obrigatoriamente que ser as pessoas? O que me incomoda nem é a simples afirmação deste fundamento evidente, que começa e acaba nele próprio, mas sim a declarada ausência de uma predisposição firme de informar devidamente e com tempo as pessoas que se ambiciona representar. Parece que a estratégia adoptada por uns e pelos outros é a de trabalhar mais no erro do adversário e menos na afirmação pessoal dos seus próprios projectos, como devia ser. Um dos maiores desígnios cívicos e militantes que me leva cada vez mais a querer participar e a procurar fomentar a participação de todos é precisamente o desejo de inverter esta triste tendência que existe na nossa terra, que é a de nada discutir. Nem há interesse em debater da parte da maioria da população como, pior ainda, não parece haver a mínima vontade do lado dos candidatos a nossos representantes em promover essa mesma discussão. O que ainda é mais preocupante. Apostar na ignorância das pessoas e não na sua superior informação é um tacticismo político barato e inconsequente que abomino em absoluto. Lamentavelmente, parece que é o caminho que todos escolhem. Esta é a minha opinião, provavelmente pouco popular e que vale somente um voto. Mas é a minha opinião. Pensar e querer fazer pensar parece que conta muito pouco. Não interessa. Não é eleitoralmente fértil e produtivo. Como desanimadamente me dizia um antigo candidato, “a malta acredita, ou não, naquilo que se disser mal do adversário e na promessa de emprego para si ou para os seus.” Ou na elegância sedutora dos sorrisos dos cartazes. Ou na eloquência convincente dos slogans. O resto? O resto não interessa. O resto é conversa. Informar? Para quê? O panorama geral que está instalado apenas me dá vontade de querer fazer tudo de forma diferente. Vamos ver se isso será possível. Se não for, paciência, não morre ninguém. Há imensas formas de se ser útil à comunidade. Cada vez me deixo cativar mais pelos diversos apelos que vários amigos me vão lançando, relativamente a movimentos cívicos e independentes, apesar de também simpatizar e acima de tudo ainda acreditar em funcionamentos democráticos válidos por parte de uma partidocracia que não está morta, apesar de manifestamente moribunda. Como escrevi já há uns largos meses, merecemos mais do que isto. Mais e melhor. Muito mais e muito melhor.

O fascínio arrebatador de nada dizer que tenho observado por aí leva-me à irresistível tentação de nada querer deixar por dizer. De silêncios coniventes e convenientes está Mortágua saturada.. e não me parece que seja isso que os Mortaguenses precisam. 

Vamos ver o que acontece.

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