No passado dia 17 de Maio o nosso estimado Presidente da República Cavaco Silva entendeu por bem convocar a comunicação social para uma conferência a realizar-se no Palácio de Belém, com o objectivo de se dirigir ao país e revelar a sua decisão pessoal em torno da lei do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Surpreendentemente ou não, Cavaco acabou por se decidir pela promulgação da referida lei, quando muitos esperavam que a vetasse, eu incluído. Afinal de contas, teria sido coerente consigo próprio, pública que é a sua posição discordante em relação ao assunto, o que bem ilustra a acentuada feição conservadora que a sua personalidade encerra, pouco coadunável com o desejado espírito de abertura que deverá caracterizar a mais alta figura do Estado, em consciência com a emergência de outros valores na sociedade contemporânea, diferentes dos verificados há 30, 40 anos atrás. A visão dogmática cavaquista relativamente à oficialização da união homossexual não o demoveu de aprovar a referida lei, para “não arrastar inutilmente o debate”, dado que face à grave crise que o país atravessa importa “promover a união dos portugueses e não dividi-los”. Fala o presidente em “postura de união e não de ruptura”, a mim parece-me mais eleitoralismo claro e posicionamento hipócrita. Não me revejo num presidente que opta por não ser verdadeiro consigo próprio, independentemente do pragmatismo operacional da sua decisão, dado que tudo indica que o diploma seria aprovado de qualquer forma pelo Parlamento, mesmo que Cavaco Silva o vetasse. Acredito nas pessoas de fortes convicções e que as levam em todas as circunstâncias avante sem nunca hesitar, com a maior das determinações, talvez seja por isso que não me reveja na respectiva tomada de posição. O presidente atacou ainda duramente a classe política em geral, por não ter conseguido reunir consenso de modo a alcançar o acordo, dado que não terá “feito um esforço sério nesse sentido”, como que se afastasse por instantes da famosa “cooperação estratégica” que sempre pautou o seu mandato até agora, anunciado em primeira mão pelo próprio, será que esta entretanto fracassou? A denominação sempre me deu a ideia da partilha da governação, quando o desejável seria uma cooperação institucional, articulada mas independente. Estaria o presidente demasiado ocupado com o acompanhamento a “full time” da visita do Papa para não ter “cooperado estrategicamente” na resolução da questão? No decorrer da campanha presidencial de 2006, vastas vezes me lembro de ouvir que era fundamental termos um presidente entendido em matérias económicas, no sentido de combater as dificuldades que se verificavam na altura e que entretanto se avolumaram de uma forma substancial. Torna-se pertinente perguntar: será que valeu a pena? Terá sido a “cooperação estratégica” um fracasso ou será Cavaco Silva alheio ao rumo que a nossa governação tem seguido? Será a crise económica portuguesa da exclusiva responsabilidade de Sócrates e do governo socialista, ou será que a conjuntura internacional a que Portugal está organicamente ligado como membro da União Europeia teve influência determinante na evolução negativa do défice e no aumento galopante do desemprego? Perguntas engraçadas, que terão com certeza respostas distintas à esquerda e à direita. Parece-me evidente no entanto que se em 2006 o povo português elegeu convictamente Cavaco Silva como solução para a crise económica, estará agora com certeza frustrado com os resultados obtidos, quatro anos depois. Apesar de não ter nele votado, eu estou.
Não pretendo fazer um exercício de análise ao desempenho do nosso presidente e às eleições presidenciais, debruçar-me-ei sobre o assunto num futuro próximo. Parece-me que ainda muita água irá passar por baixo da ponte, como se costuma dizer. No entanto, e sendo certo que teremos novamente eleições dentro de pouco tempo, penso que será fundamental que todos os agentes políticos sejam absolutamente transparentes e verdadeiros de uma forma coerente, pelo que apelo ao realismo. Não suporto constatar que o povo anda a ser enganado. Face à crise instaurada, de dimensões efectivamente preocupantes, reveste-se de particular urgência adoptar discursos e posturas francas e realistas, desde as instituições governamentais até ao singular “Zé Povinho”, pelo que apelo ao bom senso. É fundamental perceber que não se pode gastar mais do que se deve, ou melhor, do que se pode. Exactamente da mesma forma como cada um gere a sua própria habitação e respectivos encargos, quem ganha 100 não pode gastar 120! A actualidade e os dados que vão circulando dizem-nos o contrário, no entanto. Mesmo com os spreads nos bancos ao rubro, o recurso ao crédito à habitação tem registado um aumento preocupante. Tendo em conta que o crédito malparado não pára de crescer também, com os portugueses a não conseguirem cumprir com as suas obrigações, torna-se difícil efectuar uma leitura das estatísticas sem um pouco de ironia à mistura. Crise? Qual crise? Por outro lado, o Estado pede-nos grandes sacrifícios, no sentido de serem adoptadas medidas austeras de combate ao défice, no fundo para amortizarmos a dívida pública, pagarmos o que devemos. Isto ao mesmo tempo que adjudica grandes obras de custos avultadíssimos, no seu entender essenciais para a criação de emprego e revitalização económica. Concordo em absoluto com esta sobeja necessidade, mas creio que deverá ser realista e executada em conformidade com as nossas possibilidades, que no momento são escassas, o que deveria levar a uma reflexão profunda por parte dos agentes decisores, permitindo assim um mais sensato apurar de prioridades. Neste âmbito, parece-me determinante colocar as pessoas no centro dessa ponderação, as mesmas que são permanentemente sujeitas a pedidos de contenção e sacrifícios, e que muitas vezes não são particularmente privilegiadas pelas opções que vão sendo tomadas. Refiro-me, por exemplo, à reavaliação da Auto-Estradas do Centro, um investimento tão determinante e necessário para o desenvolvimento regional local, mas que o Executivo parece não colocar no primeiro plano de prioridades.
É de lamentar, pelo que apelo ao realismo e ao bom senso.
Não pretendo fazer um exercício de análise ao desempenho do nosso presidente e às eleições presidenciais, debruçar-me-ei sobre o assunto num futuro próximo. Parece-me que ainda muita água irá passar por baixo da ponte, como se costuma dizer. No entanto, e sendo certo que teremos novamente eleições dentro de pouco tempo, penso que será fundamental que todos os agentes políticos sejam absolutamente transparentes e verdadeiros de uma forma coerente, pelo que apelo ao realismo. Não suporto constatar que o povo anda a ser enganado. Face à crise instaurada, de dimensões efectivamente preocupantes, reveste-se de particular urgência adoptar discursos e posturas francas e realistas, desde as instituições governamentais até ao singular “Zé Povinho”, pelo que apelo ao bom senso. É fundamental perceber que não se pode gastar mais do que se deve, ou melhor, do que se pode. Exactamente da mesma forma como cada um gere a sua própria habitação e respectivos encargos, quem ganha 100 não pode gastar 120! A actualidade e os dados que vão circulando dizem-nos o contrário, no entanto. Mesmo com os spreads nos bancos ao rubro, o recurso ao crédito à habitação tem registado um aumento preocupante. Tendo em conta que o crédito malparado não pára de crescer também, com os portugueses a não conseguirem cumprir com as suas obrigações, torna-se difícil efectuar uma leitura das estatísticas sem um pouco de ironia à mistura. Crise? Qual crise? Por outro lado, o Estado pede-nos grandes sacrifícios, no sentido de serem adoptadas medidas austeras de combate ao défice, no fundo para amortizarmos a dívida pública, pagarmos o que devemos. Isto ao mesmo tempo que adjudica grandes obras de custos avultadíssimos, no seu entender essenciais para a criação de emprego e revitalização económica. Concordo em absoluto com esta sobeja necessidade, mas creio que deverá ser realista e executada em conformidade com as nossas possibilidades, que no momento são escassas, o que deveria levar a uma reflexão profunda por parte dos agentes decisores, permitindo assim um mais sensato apurar de prioridades. Neste âmbito, parece-me determinante colocar as pessoas no centro dessa ponderação, as mesmas que são permanentemente sujeitas a pedidos de contenção e sacrifícios, e que muitas vezes não são particularmente privilegiadas pelas opções que vão sendo tomadas. Refiro-me, por exemplo, à reavaliação da Auto-Estradas do Centro, um investimento tão determinante e necessário para o desenvolvimento regional local, mas que o Executivo parece não colocar no primeiro plano de prioridades.
É de lamentar, pelo que apelo ao realismo e ao bom senso.
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