sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Abrantes - Ponto Final

Dando todo o crédito ao valor da sua palavra, hoje encerrou-se definitivamente a carreira de Afonso Abrantes, em Mortágua. Ponto final. Um marco muito importante para o presente e para o futuro político da nossa comunidade.

Aos que me acusam de viver obcecado com a figura, espero que um dia compreendam a necessidade que houve em alguém ter mantido e alimentado esse combate.. não por si só, ou por qualquer tipo de interesse pessoal, mas sim pela urgência de renovação no exercício de cargos públicos a nível local, que Mortágua há muito chora de forma abafada, sem que ninguém a consiga ouvir. Para lá de um genuíno e indesmentível bloqueio partidário interno, onde sempre pôs e dispôs de tudo e de todos a seu bel prazer, é a própria dinâmica política local que respira finalmente de alívio, após tanto tempo de asfixia democrática quase absoluta. A omnipotência de Abrantes teve hoje finalmente o seu derradeiro epílogo. A juntar a um quarto de século de presidência da Autarquia, uma aberração autêntica que hoje as democracias modernas  finalmente consagraram abolir, temos também quatro anos de exercício público como Presidente da Assembleia, durante os quais dominou cerca de 90% de todo o discurso oral produzido em todas as suas sessões, sem uma ponta de exagero que seja, o que por si só é profundamente revelador da secura que a sua figura provoca a tudo e a todos os que o rodeiam, bem típica do eucalipto que predomina na região. Lideranças contemporâneas exigem precisamente o contrário.. é a tal história da diferença entre o chefe e o líder, entre o eu e o nós, entre a partilha genuína e o absolutismo autocentrado. Acabou finalmente um culto do chefe em Mortágua que nunca devia ter começado, pelo que me sinto na obrigação de celebrar o momento, como Socialista mas acima de tudo como Mortaguense. Estou certo de que o pós-Abrantes será com toda a certeza de uma fertilidade democrática imensa, um cenário há  muito desejado por quem ambiciona respirar ar fresco.. ar puro e renovado. Por quem deseja dar oportunidade a novas gerações, não emperrando mais um processo que deveria ser natural. Por quem exige a cultura da rotatividade no exercício dos nossos cargos públicos, cansados que estamos de ver sempre as mesmas pessoas a tudo decidir e impor.

É verdade que Abrantes fez muito por Mortágua, mas Mortágua também fez muito por Abrantes. Se o primeiro apenas cumpriu com a sua obrigação no dever de um serviço que é público, e por isso de natureza supostamente generosa e altruísta, em que se faz e dá com o pensamento focado no bem comum, o fluxo oposto de valor acrescentado não lhe foi em nada inferior. Basta atentar a vários pormenores que são do conhecimento de toda a comunidade, e que não interessa materializar por razões óbvias.. dou a título de exemplo o epíteto que também o revela: um professor que passou a doutor por decreto próprio. Um migrante raiano que um dia se lembrou, com declarado sucesso, de passar a reinar numa terra de gente humilde, julgando esta uma espécie de sua pertence, tamanha é a longevidade da sua omnipresença, entretanto verificada.

Tal como escrevi, a noite de ontem não foi perfeita. Além da sombra permanente e do discurso improvisado no final da sessão, totalmente não programado, deslocado e desnecessário em absoluto, como percebi por várias reacções de incredulidade, houve também lugar a uma ou duas pequenas homenagens ao seu legado, brindado por perto de cento e onze mil palmas, mais coisa menos coisa, uma sinfonia de aplausos evidentes num oceano de evidências. Um autêntico presente envenenado para o candidato ontem lançado pelo meu partido, não tenho dúvida. Há muito que o venho a dizer. Só desprendendo-se destas autênticas amarras poderá afirmar em toda a sua plenitude a personalidade política de que dispõe. Só libertando-se de uma vez por todas desta sombra permanente é que poderá aspirar a um triunfo inequivocamente validado pelo seu próprio mérito e valor.

Hoje encerrou-se definitivamente a carreira de Afonso Abrantes, em Mortágua. Um marco muito importante para o presente e para o futuro político da nossa comunidade.

Estou certo que a democracia local passará a respirar melhor a partir de agora. Estou convicto que a secção concelhia do Partido Socialista se poderá finalmente emancipar, libertando-se de vez de uma realidade acorrentada. Espero encerrar hoje a minha intervenção pública sobre esta figura, também ela pública, por isso sujeita a um escrutínio necessário e que se impõe.. seria um excelente sinal. Estou confiante de que assim acontecerá. Oxalá que isso se venha a confirmar.

Dando todo o crédito ao valor da sua palavra, hoje encerrou-se definitivamente a carreira de Afonso Abrantes, perto de trinta anos de exercício de cargos públicos locais depois, de uma proeminência absoluta. Como Socialista, assinalo esta data de 8 de setembro de 2017 com enorme regozijo e prazer. Como Mortaguense, espero que seja uma página definitivamente virada na História da vida pública do Concelho.

Abrantes finalmente retira-se. Ponto final. Que não seja uma vírgula, mas sim um ponto final. Mortágua agradece.

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