Amigos Mortaguenses, está chegada
a hora das grandes decisões. Tal como há quatro anos atrás, esperei pelo
momento certo para me dirigir a todos vós, consumada que está uma campanha que,
embora musculada, decorreu com mais elevação do que a anterior. Digeridos os
programas eleitorais e apreciados todos os momentos das principais
candidaturas, encontro-me agora devidamente munido dos elementos que me
permitem redigir esta carta que vos endereço, onde dou conta do que penso da
forma habitual: independente e com toda a verticalidade, insubmissa e com um
aguçado sentido de auto propriedade intelectual. Quanto a isto, não há volta a
dar.
Mais uma vez, sou obrigado a
deixar uma palavra de enaltecimento a todos os candidatos pela coragem de dar a
cara, num momento que é sempre de grande tensão pessoal e até familiar, por
vezes. Franjas assinaláveis da comunidade local envolvem-se numa ou na outra
candidatura e posteriormente torna-se complicado evitar alguns conflitos
escusados e absolutamente pueris. Faz parte. Só uma das equipas poderá
sagrar-se vencedora e ninguém poderá escapar-se dessa incontornável certeza. No
entanto, a vida continua, pelo que a perda de amizades por disputas meramente
políticas é e será sempre de lamentar. A necessidade de todos aceitarem
democraticamente os resultados é de uma importância extrema, tanto da parte dos
candidatos como de todos os apoiantes. Saber perder com grandeza e dignidade é
de uma excelência absoluta no carácter de um homem. Não há enormes vencedores
que não tenham conhecido o travo amargo do fracasso, ao longo do tempo. As
vitórias saborosas e as derrotas excruciantes fazem parte da Política, tal como
da Vida. Saber conviver com ambas também ajuda a definir a personalidade do
indivíduo. Recordo, por exemplo, o azedume e o mau fígado bem patentes na
tomada de posse de há quatro anos atrás. Rostos fechados, olhares
desconfortáveis, palmas por bater. Alguns desses elementos continuam figuras
proeminentes nas listas deste ano.
O que os Mortaguenses decidirem
para Mortágua, estará bem para mim. A prioridade é sem dúvida alguma o futuro
de todos, entretanto conduzido por seja que protagonista for. O mais importante
é o cenário que vamos encontrar em Mortágua no ano de 2021, e é precisamente
com esse objectivo que no domingo somos chamados a decidir. Neste momento, a
hora é de olhar para as opções que temos. É precisamente isso que me apresto a
fazer. A verdade é que vos confesso não encontrar diferenças de fundo substanciais
nos principais projectos que foram apresentados. Ambos procuram ser socialmente
solidários, com maior ou menor arrojo e intensidade. A rigorosa gestão
financeira da Autarquia é um aspecto que me parece central no debate que se tem
verificado, sendo certo que foi alcançada com sucesso neste mandato que agora
termina, e à imagem dos anteriores, como por todos é sabido. Acredito que seja
uma marca que quem vencer quererá por certo manter mas, com a maior das
honestidades, o programa PS parece-me demasiado despesista na sua ambição de a
todos querer compulsivamente chegar. Sendo aplicadas todas as medidas, e a
fazer fé na palavra do candidato Ricardo Pardal, não consigo perceber como será
possível manter o tradicional bom rigor das contas. O que poderá até parecer
estranho, dado que as duas principais figuras desta candidatura à Câmara são
supostos especialistas na área. Ficou, no meu entendimento, por explicar como
se irá conseguir implementar tantas e tão ambiciosas iniciativas sem que estas
produzam um forte impacto na tesouraria do Município, pelo que me parece que
estas deviam ser acompanhadas de uma projecção orçamental que até à data não
chegou a aparecer. No geral, mantenho uma crítica generalizada em relação a
ambas as candidaturas, pois não me parece que tenham sido suficientemente
esclarecedoras, além de não terem abordado a comunidade no espaço e com o tempo
que se exigiria. Se repararem com atenção, só de há duas ou três semanas a esta
parte é que há actividade, tanto de um lado como do outro, o que me parece uma evidente
falta de consideração pelo eleitorado em geral. Uma candidatura presidencial
exige um amadurecimento natural que, a meu ver, é a todos os títulos desejável.
Essa foi apenas uma das observações que produzi relativamente ao processo de
selecção do candidato do meu partido, pois não me parece que seja com dois ou
três meses que se realiza com sucesso um trabalho de campo que devia ter pelo
menos dois ou três anos. Na minha opinião, um candidato tem que ser trabalhado
a diversos níveis e de forma antecipada, especialmente quando se inicia uma
corrida com algumas voltas de atraso para o principal concorrente. Isso pura e
simplesmente não aconteceu, apesar dos meus insistentes avisos. Mas não foram,
no entanto, apenas estes os erros cometidos.
Não tinha qualquer tipo de
vontade em falar novamente de Abrantes e do Abrantismo, mas não tenho outra
solução. Depois do número na sessão de apresentação e de uma autêntica carta de
amor por si escrita e assinada nas redes sociais que antigamente desdenhava e
agora consome com voracidade, o maioral continua de braços dados com o Ricardo
por todo o lado e de todas as formas. Este é um erro crasso. O candidato não
teve a arte nem o engenho de cativar e gerar uma onda com uma grande
abrangência militante e civil em torno da sua figura, preferindo rodear-se de
perto apenas pelas figuras de sempre no partido e por cerca de uma dúzia e meia
de amigos pessoais, mais coisa menos coisa. Ainda relativamente novo e dotado
de uma gigantesca ambição que o próprio não esconde nem consegue esconder, o
Ricardo tinha tudo, mas mesmo tudo para se ter afirmado por si só de forma
planeada e com tempo. Não o fez. Deixou tudo para a última hora e não resistiu
a seguir religiosamente a cartilha do patrono, não saindo nunca da sua sombra. Não
tenho dúvida alguma que é Abrantes a dirigir a estratégia da candidatura de um
filho do Abrantismo que acabou enjeitado na corrida de há quatro anos atrás. Já
escrevi sobre este episódio várias vezes e lembro-me como se fosse hoje. O
antigo presidente, na sua poltrona, a dizer-me que ia preparar o Ricardo
durante o seu último mandato porque achava que ele tinha tudo o que era preciso
para ser o seu sucessor. Na hora da verdade, deu-lhe um pontapé no traseiro.
Não servia. O João Pedro Fonseca é que era um bom candidato. Quatro anos
depois, já volta a referir-se a ele com inusitada paixão. O meio político é
assim... volátil. O que hoje é mentira amanhã é verdade, e vice-versa. Se hoje
somos amigos porque dá jeito, amanhã vamos deixar de o ser porque já não
interessa. O meio político é assim... ingrato. Há pouco amor próprio e muita
falta de vergonha. Abrantes é o mestre dos mestres de toda esta forma de estar.
Senti-o na pele com ele. Como o senti (... e de que maneira!) com o Ricardo. A história
de todo o percurso da minha intervenção política de há quase uma década a esta
parte está imensamente relacionado com estas duas figuras. Com eles aprendi
imenso. Mesmo. Como se deve fazer e como não se deve fazer. Como se deve ser e
como não se deve ser. Na minha opinião, e conhecendo de ginjeira tanto um como
o outro, a sombra de Abrantes é um verdadeiro presente envenenado para o
Ricardo. Por tudo. Pela herança pesada, pela obscuridade dos tempos mais
recentes, pelo próprio estilo. O Ricardo tinha todas as características para se
afirmar por ele próprio e florescer naturalmente com todo o carisma e
entusiasmo, mas a sombra da presença próxima de Abrantes hoje em dia ainda seca
mais qualquer um do que sempre secou. Não ter percebido isso foi um erro
crasso. A minha opinião é esta.
A História mostra-nos que as
reeleições são por norma mais fáceis de se consumar porque é evidente que o
exercício do Poder acaba por facilitar o processo, de uma forma ou de outra.
Até aqui, também não há grandes novidades. Tenho, por isso, a convicção de que
o candidato Zé Júlio está mais próximo de vencer a eleição de domingo, apesar
de em Democracia todos os desfechos serem possíveis. Posso perfeitamente estar
enganado. O Zé Júlio é meu amigo e meu vizinho, o que gerou sempre um
burburinho muito especial nas entranhas do meu PS. Sinais de alguma falta de
maturidade democrática que levaram a que o resultado que se verificou há quatro
anos ainda hoje não tenha sido digerido, o que também contribuiu e de que
maneira para cristalizar os velhos hábitos do funcionamento interno do partido,
emperrando ainda mais um processo natural de renovação que continua na gaveta.
Os cacos da saída do Zé Júlio do PS ainda hoje estão por colar, o que também
ajuda a explicar a praticamente total inactividade e falta de presença do
partido junto à sua comunidade, até há três meses atrás. O Zé Júlio é meu amigo
e meu vizinho, o que ainda hoje serve como argumento da repulsa que alguma da
velha guarda sente em relação ao Mauro José Tomaz. Nas suas formas de ver, não
é possível cultivar amizades no seio do inimigo… e eu tenho excelentes amigos
nas listas de todos os partidos que concorrem aos órgãos locais. Se com o Zé
Júlio a relação pessoal é intocável, até porque ambos a soubemos gerir com muito
cuidado ao longo do tempo, separando devidamente todas as águas e tratando com
pinças alguns dossiers mais sensíveis, esta nunca foi de forma alguma e fosse
em que momento fosse inibidora da evidente autonomia que está sempre presente na
minha intervenção política. É fácil explicar porquê, até porque desta realidade
ninguém pode fugir: produzi ao longo de
todo este mandato mais oposição a este Executivo na esfera pública do que todo
o PS-Mortágua em conjunto. Apoiei quando considerei que devia apoiar e critiquei
sempre que tal se impôs, muitas vezes com ataques duros à cabeça, não me
coibindo de tecer as mais incisivas considerações políticas tanto a Presidente
como a Vice-Presidente de Câmara. Alimento dois blogs há cerca de dez anos e
todo o reportório está registado e devidamente disponível on-line, pelo que
esta é uma verdade irrefutável que facilmente se pode comprovar. Não foi, no
entanto, essa soberania de posicionamento e essa independência de acção que nos
levou a incompatibilizar-nos. Pelo contrário. Discordámos recorrentemente, mas
sempre soubemos separar o trigo do joio, apesar de uma ou outra discussão. Uma
coisa era a perspectiva política, outra era a consideração pessoal, sendo ambas
absolutamente distintas. Isto chama-se maturidade democrática. Como me orgulho
dela…
Prevejo para estas Autárquicas
uma vitória estrondosa do PS no País inteiro, acredito inclusivamente que seja
a maior de sempre. No reverso da medalha, parece-me que o PSD chorará uma
derrota clamorosa, talvez a mais acentuada de sempre também. Em Mortágua? Vai
ser bastante renhido, taco a taco, mas admito que um cenário de continuidade
seja o mais provável. Ambos cometeram erros, e a meu ver importantes, mas o Zé
Júlio parece-me ser o candidato que está melhor colocado para vencer. A
História da Democracia é, no entanto, bastante fértil em surpresas. Tudo pode
acontecer. Mesmo! Como escrevi atrás, a necessidade de todos aceitarem
democraticamente os resultados é de uma importância extrema, tanto da parte dos
candidatos como de todos os apoiantes. Saber perder com grandeza e dignidade é
de uma excelência absoluta no carácter de um homem. Tão ou mais importante do
que saber ganhar, que também exige postura à altura.
Não partilhando a minha
orientação de voto, como é natural, deixo-vos, no entanto, esta reflexão sobre
a minha análise do fenómeno político local neste momento tão decisivo. Amanhã é
dia de reflectir para depois no domingo decidir. Façam-no em absoluta liberdade
e consciência. Por Mortágua… sempre por Mortágua. Acima de todos e acima de
tudo o resto.
Sou Socialista, mas antes disso
sou Mortaguense. Não tenho dúvida alguma. Aconteça o que acontecer.
Por Mortágua… sempre por
Mortágua. Acima de todos e acima de tudo o resto.
Aconteça o que acontecer… o primeiro
partido que tomo é por Mortágua!
Sempre!
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