Prometi ao Ricardo Pardal que ia
aguardar serenamente pela confirmação da sua recandidatura à liderança do PS-Mortágua,
antes de me pronunciar sobre o assunto no espaço público, e assim fiz. Há meses
e meses que fui tentando contactá-lo, sem sucesso, para que pudéssemos
conversar pessoalmente sobre o futuro do partido, olhos nos olhos, de forma
directa, clara e sem subterfúgios. Uma conversa a dois, numa primeira
instância, para que tivesse a oportunidade de me prestar todos os
esclarecimentos a que tenho pleno e legítimo direito militante, mas sempre com
vista à posterior marcação de uma reunião com todos, onde tudo pudesse ser
devidamente discutido em local próprio. Nunca aconteceu. O objectivo sempre foi
procurar dar-lhe a entender que não podia continuar a olhar para o PS-Mortágua
como um clube de amigos, sem qualquer tipo de respeito pelos seus estatutos nem
um pingo de consideração que fosse pela sua militância. Hoje, dia em que é
reeleito, chegou a hora de me manifestar publicamente, para de seguida
abandonar, por tempo indeterminado, o comentário sobre a vida interna do
partido, que sendo um assunto dos Socialistas, numa primeira instância, é
também, como é óbvio, matéria de interesse de Mortágua e de todos os
Mortaguenses, numa segunda.
Não me pretendo alongar demasiado,
mas confirmo que houve uma reunião plenária de militantes há menos de uma
semana, onde marquei presença com o claro objectivo de intervir, dando a minha
opinião sobre tudo o que se tem passado ao longo do mandato que agora termina.
Chegado o dia e a hora, rapidamente percebi, à medida que os participantes iam
entrando, que a discussão que ali se iria verificar seria em sentido único,
como aliás é tradição. Não pude, no entanto, deixar de ficar imensamente
surpreendido com o pontapé de saída dado pelo Presidente da Concelhia, onde
anunciou, antes de fazer a sua própria intervenção, que todas as participações
a registar teriam um tempo limite de 5 minutos, o que foi de imediato
corroborado pelo principal protagonista da tarde, o senhor Afonso Abrantes,
antigo Presidente da Câmara Municipal, mentor de carreira do Ricardo e
principal (se não único…) estratega do PS-Mortágua há muitos e muitos anos, que
afirmou logo que não estava ali “para ouvir sermões” (apesar de, entretanto,
ter falado a seu bel-prazer para cima de 30 minutos, para não variar, ao longo
de toda a reunião… mais do que todos os outros, o que por si só seria risível,
não fosse a situação séria). Instantaneamente percebi que a posição era
concertada, e que se justificava, com alta probabilidade, pelo facto de na
última reunião plenária, em junho de 2018, eu próprio ter falado durante perto
de 20 minutos, a partir de um discurso que preparei para o efeito, com todo o
cuidado, e que despoletou uma reacção verdadeiramente escandalosa por parte do
referido senhor. Ora, o primeiro objectivo para esta reunião, volvido mais de
um ano e meio, foi precisamente impedir que eu pudesse prestar-me novamente a
esse incómodo. Com sucesso, diga-se, porque, em protesto com a limitação de
tempo para intervir, num dos raríssimos momentos de discussão interna, como
referi, realizado mais de um ano e meio depois do último (!), recusei de
imediato usar da palavra, apesar de alguns camaradas ali presentes procurarem
interceder nesse sentido. A referida limitação não foi a única condicionante
que repeliu a minha vontade de intervir com toda a liberdade e frontalidade que
sempre me foram reconhecidas, pois apercebi-me em igual medida que o autor do
triste espectáculo de junho de 2018 estava ali com furor e toda a pujança para
repetir o número, por entre o que ia vociferando a partir dos tópicos que
levava preparados, recheados de mensagens indirectas onde imediatamente
rotulava os visados de “quem não vale nada”, entre outras pérolas veiculadas
por alguém que, se tivesse um pingo de vergonha na cara, não tirava o nariz de
casa depois de tudo o que fez e depois de tudo o que foi nos últimos anos.
Nesses instantes, reflecti muito rapidamente sobre o que deveria ali fazer,
ficando dividido entre o sangue jovem e irreverente que ainda me ferve, (e que
me dizia para explodir ali, dizendo as verdades todas a quem as merecia ouvir,
sem subterfúgios ou vassalagens de espécie alguma, até porque respeito e
considero apenas quem se dá a esse respeito e consideração), e a sensatez
ponderada da elevação moral, e da experiência de quem ainda se lembrava muito
bem do que ali tinha acontecido naquela sala, em junho de 2018, onde fui
violentamente insultado, da forma mais reles e baixa que se possa imaginar,
além de ter sido inclusivamente objecto de tentativa de agressão, por parte de
um descontroladamente furioso senhor que, com toda essa postura e atitude, não
mostrou mais do que estar “cheio de razão”. Hoje, fico imensamente orgulhoso de
mim próprio por ter seguido a segunda opção. A justificação é muito simples, e
pego até na sabedoria do povo para a demonstrar, de forma simples e directa. “Quem
é bom não vale nada na boca de quem não presta”, além de que nunca, mas mesmo nunca
devemos lutar contra um porco, como tão bem nos ensinou Bernard Shaw… primeiro,
porque se sai sempre sujo, e depois porque o porco gosta, pois é exímio na arte
de chafurdar na lama e no esterco como mais ninguém. Ali, dadas as circunstâncias,
seria precisamente o que iria acontecer, uma vez mais. Ao dia de hoje, fico satisfeito
por ter sido superior a tudo isso, e ainda por me ter afastado, em consequência
e por tempo indeterminado, de todas as querelas partidárias intestinas que têm
sido naturais num meio onde a democracia é manifestamente caricaturada, e onde
a conveniência e o interesse são premiados e se sobrepõem a tudo o resto.
A verdade é que estou mesmo
desiludido com a realidade da secção local do partido, e com o posicionamento
pouco consistente de alguns dos camaradas. Não podemos ser a favor da
transparência e, por princípio, dissuasores de comportamentos alegadamente
criminosos à segunda, quarta e sexta, para depois compactuar com tudo isto nos
restantes dias da semana. Não podemos querer ser defensores da democracia para
depois nos mostrarmos coniventes com quem a maltrata da forma mais clara e
evidente. Há muita falta de coerência e acima de tudo demasiado seguidismo na
Concelhia do meu partido, onde também não abunda o pensamento crítico e a
iniciativa própria, diga-se em abono da verdade. Diz-se que sim a tudo o que
vem do sítio do costume e pronto, o resto acaba por ser uma mera formalidade...
sinais evidentes dos hábitos que se criaram e enraizaram ao longo de muitos, e
muitos anos. Depois de reflectir sobre o assunto, serena e tranquilamente,
resolvi modificar a natureza da minha militância, para uma deriva mais aberta,
mais moderna, mais consonante com os novos desafios que vão surgindo nos mais
diversos planos, a começar pelo local. Cansei-me de travar um combate inglório
com base num idealismo que sinto ter poucas bases de sustentação, dado o
panorama actual... e isso aconteceu também em função de algumas mudanças de
posicionamento por parte de alguns militantes que seriam chave num novo
paradigma, mas que, entretanto, resolveram que iriam continuar a contribuir
para que tudo ficasse na mesma. Assim sendo, este é o momento de colocar um
ponto e vírgula na minha relação com a representação local do partido. Uma
suspensão por tempo indeterminado, passada em nome próprio. No futuro, veremos
o que irá acontecer. Não abdico nem conto abdicar tão cedo da militância que
exerço, até porque me identifico com a matriz identitária do PS e considero-me
um proactivo e orgulhoso militante socialista, mas este é o tempo de
privilegiar ainda mais o que para mim sempre esteve à frente de tudo o resto:
Mortágua e os Mortaguenses. Sou socialista, sim… com toda a noção da
responsabilidade militante, mas o meu primeiro partido é e continuará a ser
Mortágua, pelo que continuarei a intervir publicamente com toda a assiduidade e
frequência, como tenho vindo a fazer na última década, pelo menos, sendo certo
que continuarei atento a tudo o que se passa. Relativamente ao PS do Ricardo
Pardal e de Afonso Abrantes, sempre omnipresente e omnipotente, deixá-los-ei
fazer o que bem entenderem, debruçando-me sobre o respectivo conteúdo, ou o que
sai para fora, mas sem tecer grandes observações sobre a forma, sobre o que vai
lá dentro. Há causas que pura e simplesmente não valem a pena, até pelo
desgaste pessoal que acarretam. Neste momento, mudar o paradigma interno do
PS-Mortágua é, com toda a certeza, uma dessas causas. Daí o ponto e vírgula.
Como me parece que há razões de
sobra para considerarmos que se trata de matéria de interesse comum a todos os
Mortaguenses, e não só aos Socialistas do Concelho, uma vez que estamos perante
uma reeleição que significa directamente que há uma forte probabilidade de
recandidatura à Câmara, disponibilizo ainda no meu blog quatro documentos
essenciais para que se perceba o enquadramento interno que me levou a tomar
esta decisão: dois contributos que dirigi a toda a militância local, em janeiro
de 2018 e em outubro de 2019; a intervenção que produzi na triste e
revoltantemente célebre reunião de junho de 2018 e ainda a que tinha preparada
para expressar no encontro da semana passada, o que acabou por não se verificar
pelas razões supracitadas.
Estou muito orgulhoso do meu
percurso até agora, ciente que sempre pugnei pela afirmação dos mais nobres
valores que as democracias modernas consagram, sem quaisquer outros interesses
que não fossem esses. A consciência, essa, continua amiga, o que se reflecte
num sono tranquilo. A minha independência de carácter e de posicionamento não
tem preço.
Nunca teve… nem nunca terá.
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