sábado, 1 de fevereiro de 2020

Contributo Militante - Outubro 2019


O momento do PS-Mortágua impõe para já uma reflexão muito séria a que eu me proponho dar o início. Alguém tem de levantar a discussão sobre um assunto determinante para o futuro próximo do partido e da respectiva comunidade, e apesar de haver largas franjas de descontentamento interno, já se sabe o temor habitual no gesto de cultivar posições opostas à da actual liderança, o que diz muito desta e de toda a militância que está no activo. Ora, esse é um problema do qual não padeço, e do qual felizmente nunca padeci, pelo que me presto a expor neste exercício o como e o porquê de considerar que se aproxima muito rapidamente um momento de grande importância para o PS, e consequentemente para Mortágua e para todos os Mortaguenses. 

O paradigma do funcionamento interno do PS-Mortágua tem de ser revertido urgente e radicalmente. Repito, para sublinhar a importância das palavras, conscientemente selecionadas: o paradigma do funcionamento interno do PS-Mortágua tem de ser revertido urgente e radicalmente. A explicação é muito simples. Os pergaminhos de um grande partido como o PS, assentes numa matriz ideológica de base pluralista e profundamente democrática, não se coadunam nem poderão nunca coadunar com lideranças de crónico e sistemático autismo, onde não é procurada nem dada a palavra a ninguém, onde não é de forma recorrente prestado nem dado esclarecimento algum a quem se representa. Uma secção concelhia de um grande partido onde se bloqueia a participação dos militantes e dos simpatizantes e se recusam opiniões potencialmente diferentes, é apenas um corpo estranho a usar e a abusar ilegitimamente do símbolo e do bom nome do PS, exibindo uma postura radicalmente distinta dos preceitos democráticos e pluralistas que sempre caracterizaram o partido, desde a sua fundação. O que em Mortágua se assiste é à tentativa desesperada de um novo protagonista em querer seguir de forma obstinada os passos do seu mentor, haja o que houver e custe o que custar, indo inclusivamente muito mais longe no autocentrismo absolutista, caminhando para os seus objectivos pessoais, para o seu “sonho” como não se inibe de afirmar, mesmo que isso implique que tenha de passar por cima de todos os restantes, sem olhar a meios para atingir um muito específico fim. Se o anterior “grande líder” tinha claramente tiques de ditador, que não se coibia de revelar com inaudita assiduidade, o que dizer do Ricardo Pardal? 

O PS-Mortágua pura e simplesmente não reúne para além da pequena cúpula da Mesa e da Comissão Política. Quando isso aconteceu a última vez, há cerca de um ano e meio (!), tive a oportunidade de participar livremente com um discurso compreensivo, onde expus factos consumados e potencialmente incómodos, que culminou com um acesso de fúria do anterior Presidente da Câmara (cheio de “razão”, diga-se!), onde pontuaram insultos de fazer corar qualquer adulto, ameaças e tentativas de agressão. Sim, isto é verdade. Grave e profundamente elucidativo, mas real. O Ricardo, na altura, presente e também visado nas minhas observações, tentou fazer o que tem vindo a fazer desde então, que é passar pelos pingos da chuva, querendo fazer dos outros tolos perante evidências tamanhas. O Ricardo queixa-se a altos responsáveis distritais de que eu não ajudo a Concelhia, mas depois ignora olimpicamente todas as minhas tentativas de contacto militante, não cumprindo desde logo com uma das suas obrigações de representação universal de todos os socialistas de Mortágua, independentemente de relações pessoais. Faz mesmo lembrar a birra de um menino choroso que se queixa aos adultos de que “aquele não brinca comigo”, mas que depois facilmente se percebe que é o próprio a ostracizar e a marginalizar. Como não tenho qualquer tipo de reservas ou de problemas em me movimentar no espaço público, ao contrário do Ricardo Pardal, a quem se conhecem poucas ou nenhumas posições pessoais e políticas sobre qualquer que seja o assunto, de incidência local, regional ou nacional, dado que não as manifesta, dirijo a todos vós as minhas inquietações militantes, remetendo-lhe por esta via uma série de questões.

- Creio que uma Concelhia democraticamente validada, como se espera, deverá reunir todos os militantes com assiduidade, pelo que te pergunto: porque nunca o fazes, como é a tua obrigação? O que temes? Tens alguma coisa a esconder? Porque não prestas todos os esclarecimentos que te são naturalmente exigíveis?

- É verdade que fizeste negócios entre a Autarquia de Mortágua e a empresa Previum, enquanto eras simultaneamente vereador do Executivo da primeira e um dos sócios-gerentes da segunda? Isto não te parece profundamente condenável, à luz da transparência que se exige no exercício de cargos públicos? O que te parece que isto deixa antever caso conseguisses concretizar o teu sonho pessoal de vires a ser o próximo Presidente?

- Autointitulaste-te de “muito bom nas contas”, no debate preparatório da campanha de 2017. Como podes não ter visto tudo o que de estranho se passava na sociedade de capitais maioritariamente públicos Ecobeirão, a partir da qual seis antigos Presidentes de Câmara foram acusados pelo Ministério Público de se apropriarem indevidamente de mais de meio milhão de euros, entre os quais o teu mentor? Tinhas essa responsabilidade enquanto Vice-Presidente do respectivo Conselho Fiscal, que como o nome indica serve para fiscalizar toda a actividade corrente e as contas da administração. Achas que estiveste à altura da responsabilidade que assumiste?

- Autointitulaste-te de “muito bom nas contas”, no debate preparatório da campanha de 2017. Em relação aos exercícios dos últimos anos da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Mortágua, como podes não ter reparado em desvios ou ilicitudes algumas de natureza sistemática e a ultrapassar a centena de milhar de euros? Tinhas essa responsabilidade enquanto Presidente do respectivo Conselho Fiscal, que como o nome indica serve para fiscalizar toda a actividade corrente e as contas da administração. Achas que estiveste à altura da responsabilidade que assumiste?

- Não que seja particularmente relevante, mas trata-se de uma atitude com uma conotação simbólica de extraordinário relevo: no último Dia do Município, data importantíssima para Mortágua e para todos os Mortaguenses, que celebram anualmente a sua identidade num momento solene, primaste pela ausência na referida cerimónia, muito embora te tenhas, entretanto, deixado fotografar entre a “fauna” do Rally de Portugal, com um copo de vinho na mão, foto essa que foi difundida nas redes sociais. De entre todas as prestigiadas visitas que tivemos, uma delas foi de um ministro socialista, que não foi recebido institucionalmente como deveria ter sido, da parte do líder da nossa Concelhia, que preferiu dar prioridade ao seu lazer e à sua agenda pessoal. Achas que estiveste à altura da responsabilidade que assumiste?

- O PS-Mortágua não promoveu praticamente qualquer tipo de acção de campanha nas eleições Europeias e nas Legislativas, como é sabido, ao contrário do que seria a sua obrigação e ao contrário do que um simples exercício de memória nos mostra que sempre aconteceu. No entanto, perante a visita de António Costa à Barragem de Aguieira e de João Azevedo às nossas Tasquinhas, porque resolveste “não dar cavaco” a nenhum militante que vá além do teu pequeníssimo núcleo dos “três, quatro ou cinco no máximo”? Preocupações estéticas com as fotos que adviriam publicamente desses encontros? Achas que essa postura é a de um líder agregador, com espírito de grupo e com preocupações inclusivas, a postura de um líder que estima e valoriza a militância do partido que representa?

- À luz destas evidências acima descritas, de entre muitas outras que não relevo para não tornar este texto demasiado exaustivo, achas (mesmo) que tens percurso e perfil para te afirmares como um candidato sério e de idoneidade à prova de bala para concorreres (uma vez mais) ao cargo de Presidente de todos os Mortaguenses? Achas (mesmo) que a maioria das pessoas ignora ou desvaloriza todos estes tão óbvios sinais?

Aproximam-se as eleições internas do PS, que irão como é natural determinar quem é que se perfilará para a corrida de 2021, que está aí à porta mais cedo do que possa parecer. Candidatos cegamente obstinados para levar a cabo esse desafio? Não, obrigado. Um potencial bom líder deve surgir naturalmente e consagrado para esse efeito por um conjunto alargado de militantes e de apoiantes. O Ricardo não tem essa base de apoio, basta ver a sua atitude segregacionista perante a militância do partido, e está muito longe de corresponder a esse perfil, bastando para isso lançar um olhar a todas as evidências que a sua história e os respectivos e indesmentíveis factos nos demonstram. O Ricardo já concorreu à Câmara em 2017, com uma estratégia 100% gizada por ele próprio e uma campanha totalmente (mesmo... até na cor!) feita à sua imagem, sendo que perdeu e obteve um resultado pior do que o do João Fonseca, em 2013. O João Fonseca soube sair, mas o Ricardo teima em querer ficar para tentar desesperadamente realizar o seu “sonho” pessoal. Analisando um e o outro de um ponto de vista humano, político e democrático, o João Fonseca dá no mínimo 10 a 0 ao Ricardo... e eu posso falar com propriedade, que conheço ambos bastante bem. O que terá o Ricardo Pardal de tão especial para se querer lançar novamente a uma corrida que já perdeu, partindo de premissas idênticas? O que terá o Ricardo Pardal de tão único para pelos vistos ser a única e a derradeira esperança de um partido onde pontificam tantos e tão bons quadros, apesar de manietados pelo autismo e autocentrismo óbvio das últimas lideranças que teve?

No meu entendimento, há um caminho a seguir que me parece bastante lógico. Remeter com toda a urgência o Ricardo Pardal para a condição de militante de base, passando a contribuir nessa qualidade com todos os seus conhecimentos profundos em matéria de contas, finanças e afins. Activar com toda a rapidez mecanismos que permitam identificar um líder natural, de entre todo o universo socialista local, que tenha a prioridade de agregar todos em torno de um projecto comum, de uma forma atempada e conciliadora. Adoptar com toda a emergência e necessidade um método interno de funcionamento absolutamente distinto do que hoje se conhece... pelo que deixo muito rapidamente alguns contributos básicos para que isso possa acontecer: começar por querer aumentar a base de militância e não mantê-la escassa e convenientemente controlada; estabelecer a obrigatoriedade de pelo menos uma reunião de Comissão Política por mês e de pelo menos um plenário de militantes e simpatizantes de dois em dois meses; priorizar a criação de uma plataforma digital interna (obviamente fechada) onde os militantes possam ser sistematicamente informados da actividade corrente da Concelhia do partido, podendo intervir nessa mesma plataforma, participando de forma interactiva e organizada com os representantes do partido, que estarão pelo menos moralmente sujeitos a aceitar ouvir todas as tentativas de participação e a prestar todos os esclarecimentos necessários que se imponham, e mais alguns.

O Ricardo Pardal enquanto putativo candidato à Autarquia de Mortágua pelo PS vai ter de cair pelas evidências e eu não vou descansar enquanto isso não acontecer. Era o que faltava se isso acontecesse, à luz de tudo o que se conhece! O Ricardo Pardal tem de se convencer que tem a superior obrigação moral de abandonar o seu “sonho”, o seu próprio projecto pessoal. O PS faz-se de projectos políticos colectivos e não de ambições pessoais. O PS é um partido histórico e prestigiado, democraticamente abrangente e inclusivo, não é a casa dos amigos de um homem só, onde se deixam todos os restantes à porta.

Faço ainda uma declaração prévia de interesses, para não desapontar ninguém: este discurso não faz de mim candidato ao que quer que seja que vá além de uma activa e proactiva participação de militância de base. Quem me conhece sabe perfeitamente que estou interessado em tudo menos em candidatar-me à liderança da Concelhia (um dia talvez gostasse de a coordenar politicamente... talvez um dia, distante do momento actual, com toda a certeza) ou mesmo à presidência da Autarquia (longe!.. gosto demasiado da vida que tenho, da minha família e dos meus amigos para me submeter a um desafio desse género, com tudo o que isso implica). O PS tem pelo menos duas alternativas muito válidas para assumirem a liderança do projecto de reconquistar a Câmara em 2021, e eu vejo-me facilmente a apoiar tanto um como o outro, a partir de um PS-Mortágua democraticamente abrangente e de feição inclusiva. Radicalmente diferente do que hoje conhecemos.

Tem de ser esse o caminho. Juntemo-nos todos, sem excepção, na mesma sala, e deixemos a democracia funcionar. Tem de ser esse o caminho.

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