O momento do PS-Mortágua impõe
para já uma reflexão muito séria a que eu me proponho dar o início. Alguém tem
de levantar a discussão sobre um assunto determinante para o futuro próximo do
partido e da respectiva comunidade, e apesar de haver largas franjas de
descontentamento interno, já se sabe o temor habitual no gesto de cultivar
posições opostas à da actual liderança, o que diz muito desta e de toda a
militância que está no activo. Ora, esse é um problema do qual não padeço, e do
qual felizmente nunca padeci, pelo que me presto a expor neste exercício o como
e o porquê de considerar que se aproxima muito rapidamente um momento de grande
importância para o PS, e consequentemente para Mortágua e para todos os
Mortaguenses.
O paradigma do funcionamento
interno do PS-Mortágua tem de ser revertido urgente e radicalmente. Repito,
para sublinhar a importância das palavras, conscientemente selecionadas: o
paradigma do funcionamento interno do PS-Mortágua tem de ser revertido urgente
e radicalmente. A explicação é muito simples. Os pergaminhos de um grande
partido como o PS, assentes numa matriz ideológica de base pluralista e
profundamente democrática, não se coadunam nem poderão nunca coadunar com
lideranças de crónico e sistemático autismo, onde não é procurada nem dada a palavra
a ninguém, onde não é de forma recorrente prestado nem dado esclarecimento
algum a quem se representa. Uma secção concelhia de um grande partido onde se
bloqueia a participação dos militantes e dos simpatizantes e se recusam
opiniões potencialmente diferentes, é apenas um corpo estranho a usar e a
abusar ilegitimamente do símbolo e do bom nome do PS, exibindo uma postura
radicalmente distinta dos preceitos democráticos e pluralistas que sempre
caracterizaram o partido, desde a sua fundação. O que em Mortágua se assiste é
à tentativa desesperada de um novo protagonista em querer seguir de forma
obstinada os passos do seu mentor, haja o que houver e custe o que custar, indo
inclusivamente muito mais longe no autocentrismo absolutista, caminhando para
os seus objectivos pessoais, para o seu “sonho” como não se inibe de afirmar,
mesmo que isso implique que tenha de passar por cima de todos os restantes, sem
olhar a meios para atingir um muito específico fim. Se o anterior “grande
líder” tinha claramente tiques de ditador, que não se coibia de revelar com
inaudita assiduidade, o que dizer do Ricardo Pardal?
O PS-Mortágua pura e simplesmente
não reúne para além da pequena cúpula da Mesa e da Comissão Política. Quando
isso aconteceu a última vez, há cerca de um ano e meio (!), tive a oportunidade
de participar livremente com um discurso compreensivo, onde expus factos
consumados e potencialmente incómodos, que culminou com um acesso de fúria do
anterior Presidente da Câmara (cheio de “razão”, diga-se!), onde pontuaram insultos
de fazer corar qualquer adulto, ameaças e tentativas de agressão. Sim, isto é
verdade. Grave e profundamente elucidativo, mas real. O Ricardo, na altura,
presente e também visado nas minhas observações, tentou fazer o que tem vindo a
fazer desde então, que é passar pelos pingos da chuva, querendo fazer dos
outros tolos perante evidências tamanhas. O Ricardo queixa-se a altos
responsáveis distritais de que eu não ajudo a Concelhia, mas depois ignora
olimpicamente todas as minhas tentativas de contacto militante, não cumprindo
desde logo com uma das suas obrigações de representação universal de todos os
socialistas de Mortágua, independentemente de relações pessoais. Faz mesmo
lembrar a birra de um menino choroso que se queixa aos adultos de que “aquele
não brinca comigo”, mas que depois facilmente se percebe que é o próprio a
ostracizar e a marginalizar. Como não tenho qualquer tipo de reservas ou de problemas
em me movimentar no espaço público, ao contrário do Ricardo Pardal, a quem se
conhecem poucas ou nenhumas posições pessoais e políticas sobre qualquer que
seja o assunto, de incidência local, regional ou nacional, dado que não as
manifesta, dirijo a todos vós as minhas inquietações militantes, remetendo-lhe
por esta via uma série de questões.
- Creio que uma Concelhia democraticamente validada, como se espera,
deverá reunir todos os militantes com assiduidade, pelo que te pergunto: porque
nunca o fazes, como é a tua obrigação? O que temes? Tens alguma coisa a
esconder? Porque não prestas todos os esclarecimentos que te são naturalmente
exigíveis?
- É verdade que fizeste negócios entre a Autarquia de Mortágua e a
empresa Previum, enquanto eras simultaneamente vereador do Executivo da primeira
e um dos sócios-gerentes da segunda? Isto não te parece profundamente
condenável, à luz da transparência que se exige no exercício de cargos
públicos? O que te parece que isto deixa antever caso conseguisses concretizar
o teu sonho pessoal de vires a ser o próximo Presidente?
- Autointitulaste-te de “muito bom nas contas”, no debate preparatório
da campanha de 2017. Como podes não ter visto tudo o que de estranho se passava
na sociedade de capitais maioritariamente públicos Ecobeirão, a partir da qual
seis antigos Presidentes de Câmara foram acusados pelo Ministério Público de se
apropriarem indevidamente de mais de meio milhão de euros, entre os quais o teu
mentor? Tinhas essa responsabilidade enquanto Vice-Presidente do respectivo
Conselho Fiscal, que como o nome indica serve para fiscalizar toda a actividade
corrente e as contas da administração. Achas que estiveste à altura da
responsabilidade que assumiste?
- Autointitulaste-te de “muito bom nas contas”, no debate preparatório
da campanha de 2017. Em relação aos exercícios dos últimos anos da Associação
Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Mortágua, como podes não ter reparado
em desvios ou ilicitudes algumas de natureza sistemática e a ultrapassar a
centena de milhar de euros? Tinhas essa responsabilidade enquanto Presidente do
respectivo Conselho Fiscal, que como o nome indica serve para fiscalizar toda a
actividade corrente e as contas da administração. Achas que estiveste à altura
da responsabilidade que assumiste?
- Não que seja particularmente relevante, mas trata-se de uma atitude
com uma conotação simbólica de extraordinário relevo: no último Dia do
Município, data importantíssima para Mortágua e para todos os Mortaguenses, que
celebram anualmente a sua identidade num momento solene, primaste pela ausência
na referida cerimónia, muito embora te tenhas, entretanto, deixado fotografar
entre a “fauna” do Rally de Portugal, com um copo de vinho na mão, foto essa
que foi difundida nas redes sociais. De entre todas as prestigiadas visitas que
tivemos, uma delas foi de um ministro socialista, que não foi recebido
institucionalmente como deveria ter sido, da parte do líder da nossa Concelhia,
que preferiu dar prioridade ao seu lazer e à sua agenda pessoal. Achas que
estiveste à altura da responsabilidade que assumiste?
- O PS-Mortágua não promoveu praticamente qualquer tipo de acção de
campanha nas eleições Europeias e nas Legislativas, como é sabido, ao contrário
do que seria a sua obrigação e ao contrário do que um simples exercício de
memória nos mostra que sempre aconteceu. No entanto, perante a visita de
António Costa à Barragem de Aguieira e de João Azevedo às nossas Tasquinhas,
porque resolveste “não dar cavaco” a nenhum militante que vá além do teu
pequeníssimo núcleo dos “três, quatro ou cinco no máximo”? Preocupações
estéticas com as fotos que adviriam publicamente desses encontros? Achas que
essa postura é a de um líder agregador, com espírito de grupo e com
preocupações inclusivas, a postura de um líder que estima e valoriza a militância
do partido que representa?
- À luz destas evidências acima descritas, de entre muitas outras que
não relevo para não tornar este texto demasiado exaustivo, achas (mesmo) que
tens percurso e perfil para te afirmares como um candidato sério e de idoneidade
à prova de bala para concorreres (uma vez mais) ao cargo de Presidente de todos
os Mortaguenses? Achas (mesmo) que a maioria das pessoas ignora ou desvaloriza
todos estes tão óbvios sinais?
Aproximam-se as eleições internas
do PS, que irão como é natural determinar quem é que se perfilará para a
corrida de 2021, que está aí à porta mais cedo do que possa parecer. Candidatos
cegamente obstinados para levar a cabo esse desafio? Não, obrigado. Um
potencial bom líder deve surgir naturalmente e consagrado para esse efeito por
um conjunto alargado de militantes e de apoiantes. O Ricardo não tem essa base
de apoio, basta ver a sua atitude segregacionista perante a militância do
partido, e está muito longe de corresponder a esse perfil, bastando para isso
lançar um olhar a todas as evidências que a sua história e os respectivos e
indesmentíveis factos nos demonstram. O Ricardo já concorreu à Câmara em
2017, com uma estratégia 100% gizada por ele próprio e uma campanha totalmente
(mesmo... até na cor!) feita à sua imagem, sendo que perdeu e obteve um
resultado pior do que o do João Fonseca, em 2013. O João Fonseca soube sair,
mas o Ricardo teima em querer ficar para tentar desesperadamente realizar o seu
“sonho” pessoal. Analisando um e o outro de um ponto de vista humano, político
e democrático, o João Fonseca dá no mínimo 10 a 0 ao Ricardo... e eu posso
falar com propriedade, que conheço ambos bastante bem. O que terá o Ricardo
Pardal de tão especial para se querer lançar novamente a uma corrida que já
perdeu, partindo de premissas idênticas? O que terá o Ricardo Pardal de tão
único para pelos vistos ser a única e a derradeira esperança de um partido onde
pontificam tantos e tão bons quadros, apesar de manietados pelo autismo e
autocentrismo óbvio das últimas lideranças que teve?
No meu entendimento, há um caminho
a seguir que me parece bastante lógico. Remeter com toda a urgência o Ricardo
Pardal para a condição de militante de base, passando a contribuir nessa
qualidade com todos os seus conhecimentos profundos em matéria de contas,
finanças e afins. Activar com toda a rapidez mecanismos que permitam
identificar um líder natural, de entre todo o universo socialista local, que
tenha a prioridade de agregar todos em torno de um projecto comum, de uma forma
atempada e conciliadora. Adoptar com toda a emergência e necessidade um método
interno de funcionamento absolutamente distinto do que hoje se conhece... pelo
que deixo muito rapidamente alguns contributos básicos para que isso possa
acontecer: começar por querer aumentar a base de militância e não mantê-la
escassa e convenientemente controlada; estabelecer a obrigatoriedade de pelo
menos uma reunião de Comissão Política por mês e de pelo menos um plenário de
militantes e simpatizantes de dois em dois meses; priorizar a criação de uma
plataforma digital interna (obviamente fechada) onde os militantes possam ser
sistematicamente informados da actividade corrente da Concelhia do partido,
podendo intervir nessa mesma plataforma, participando de forma interactiva e organizada
com os representantes do partido, que estarão pelo menos moralmente sujeitos a
aceitar ouvir todas as tentativas de participação e a prestar todos os
esclarecimentos necessários que se imponham, e mais alguns.
O Ricardo Pardal enquanto
putativo candidato à Autarquia de Mortágua pelo PS vai ter de cair pelas
evidências e eu não vou descansar enquanto isso não acontecer. Era o que
faltava se isso acontecesse, à luz de tudo o que se conhece! O Ricardo Pardal
tem de se convencer que tem a superior obrigação moral de abandonar o seu
“sonho”, o seu próprio projecto pessoal. O PS faz-se de projectos políticos
colectivos e não de ambições pessoais. O PS é um partido histórico e
prestigiado, democraticamente abrangente e inclusivo, não é a casa dos amigos
de um homem só, onde se deixam todos os restantes à porta.
Faço ainda uma declaração prévia
de interesses, para não desapontar ninguém: este discurso não faz de mim
candidato ao que quer que seja que vá além de uma activa e proactiva participação
de militância de base. Quem me conhece sabe perfeitamente que estou interessado
em tudo menos em candidatar-me à liderança da Concelhia (um dia talvez gostasse
de a coordenar politicamente... talvez um dia, distante do momento actual, com
toda a certeza) ou mesmo à presidência da Autarquia (longe!.. gosto demasiado
da vida que tenho, da minha família e dos meus amigos para me submeter a um desafio
desse género, com tudo o que isso implica). O PS tem pelo menos duas
alternativas muito válidas para assumirem a liderança do projecto de
reconquistar a Câmara em 2021, e eu vejo-me facilmente a apoiar tanto um como o
outro, a partir de um PS-Mortágua democraticamente abrangente e de feição
inclusiva. Radicalmente diferente do que hoje conhecemos.
Tem de ser esse o caminho.
Juntemo-nos todos, sem excepção, na mesma sala, e deixemos a democracia
funcionar. Tem de ser esse o caminho.
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