quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Carta Aberta aos Mortaguenses - Setembro 2021

Caros Mortaguenses, dirijo-me a todos precisamente na qualidade de um de vós também, em pleno exercício de cidadania activa e num plano claramente suprapartidário, apesar de não renegar a minha militância. É que uma coisa, para mim, sempre esteve e irá continuar a estar acima da outra, independentemente do que houve, do que há agora e do que ainda haverá pela frente. Remeto-me a vós neste preciso momento que antecede as eleições autárquicas, à semelhança dos últimos três exercícios eleitorais e aliás tal como tenho vindo a fazer nos últimos 12 anos, ao longo dos quais me tenho movimentado com frequência no espaço público que partilhamos, e que diz respeito à nossa vida em comunidade. Esse é um hábito que vou com toda a certeza manter, por um imperativo pessoal de pertença e de participação que sinto inclusivamente transcender, por paixão genuína e não apregoada pela terra, o mais elementar dever cívico que é por definição comum a todos nós, cidadãos.

Começo por me debruçar sobre o que tenho recorrentemente podido ouvir e ler em relação ao trabalho autárquico que foi efectuado nos últimos dois mandatos... e “nem tanto ao mar nem tanto à terra”, como se costuma dizer. Falar em loop do soundbyte já clássico e gasto das “festas”, como se nada mais tivesse sido feito, é de uma enorme falta com a verdade, já para não referir a infesta ingratidão de vetar ao esquecimento a gestão humana e social de dois acontecimentos históricos e excepcionalíssimos, de enorme gravidade, como foi o caso dos incêndios de 2017 e da (ainda presente) pandemia. Outros acréscimos evidentes que o progresso nos trouxe ao Concelho, sendo alguns inéditos até, como a criação da ExpoMortágua e da Academia Saber+, também continuam censuravelmente ignorados. O crescente e muito bem-sucedido processo de industrialização que continua em curso, a considerável rede de percursos pedestres entretanto criada… a própria actividade cultural e desportiva (estou curiosíssimo para perceber as dinâmicas futuras que se anteveem implementadas, depois de tantas críticas)… adiante. Todos estes foram projectos que nos tornaram melhores. O discurso catastrofista que insinua que se perderam 8 anos, que ficou tudo estagnado, que a gestão camarária está numa profunda desorganização… tudo isto é demagogia pura e dura que visa sobretudo o favorecimento da aparição de um qualquer messias que irá resolver todos os problemas com um toque de midas, de natureza sebastiânica ou divina. Nada mais errado. Pobre de quem se julga capaz de, através da “excelência”, tudo resolver e a todos chegar, como se a competência para o exercício fosse um privilégio ao alcance de apenas um ou outro iluminado... creio até que isso é uma demonstração básica de falta de noção do que aqui está verdadeiramente em causa, numa primeira instância, (ou de insinceridade propositada, caso haja essa mesma noção) e também de falta de entendimento ou de preparação para o cargo, numa segunda, dado que no fundo não há desempenhos perfeitos. Não há presidentes de câmara perfeitos... há uns que desenvolvem um trabalho melhor do que outros, mais eficiente, mais capaz nesta ou naquela área em específico; como há outros que têm mais aptidão para o enorme sacrifício pessoal e a profunda dedicação que lhes é exigida; outros com maior facilidade de gerar uma relação empática com os munícipes... mas lá está, Mortaguenses, não “papem” o discurso de que agora está tudo mal e de que a partir de dia 26 vai ficar tudo bem, porque isso não existe. Há um fio de ligação e uma óbvia corrente constante na actividade autárquica, numa linha de continuidade de ação assente nos pilares do trabalho que já está feito. Sempre foi assim e continuará a ser. O resto é pura demagogia… fruto de uma ingenuidade intrínseca e incipiente ou, ainda pior, de uma intencionada desonestidade intelectual, própria de marketing político barato. Inclino-me mais para esta segunda. 

A pobreza generalizada do discurso das campanhas eleitorais autárquicas não é um fenómeno particularmente local e no fundo é bem reveladora disso mesmo... é o “pelas pessoas”, é o “mais” e é o “melhor”.  É uma mão cheia de nada que visa apenas e só cativar emocionalmente uma franja considerável das massas que sim, muitas vezes é manifestamente permeável e superficial para a absorver, o que no fundo depois permite fazer surtir o efeito desejado. É uma espécie de logro propagandístico que até resulta (ou pode resultar, vá), mas que não deixa de se tratar de uma patranha, de uma falcatrua ardilosa e vulgar. Enfim. A verdade é que as “bandeiras” euforicamente agitadas pelos “adeptos” dos partidos, como se isto fosse uma equipa de futebol (creio que até há mais racionalidade no fervor clubístico, mesmo sendo aquilo que se sabe), cada vez me causa mais fastio... o que está em causa é o chavão e não a ideia. A cor e não a mensagem. A camisola e não o conteúdo. Por exemplo, há apoios que são dados com uma efervescência tal que, recordando as posições dessas mesmas pessoas há quatro anos, radicalmente antagónica, são de uma hipocrisia a todos os títulos inimaginável... sem qualquer tipo de coerência ou consistência. De bradar aos céus, mesmo. Há demónios que passam a deuses no mesmo espaço e num curto período de tempo apenas e só porque o vento contra passa a soprar de feição, ao sabor das circunstâncias e à medida das conveniências. Cada vez vou vendo e ouvindo mais e ao mesmo tempo cada vez sinto mais repulsa. Sobre a legitimidade das candidaturas independentes, e sendo esta a primeira a surgir no Concelho de Mortágua, numa tendência que vai nascendo precisamente da insatisfação generalizada da população em relação aos partidos, parece-me que o seu propósito e natureza são de enaltecer e não de atacar por atacar, muitas vezes da forma mais primária e superficial. Aliás, olhando para os cada vez menos acérrimos defensores da partidocracia vigente e absoluta, percebemos que essa pequena minoria é composta pelos apparatchiks, pelos defendidos do sistema, por jotas temporariamente deslumbrados e pelos velhos dinossauros que, com maior ou menos grau de licitude, foram uma vida inteira beneficiários dos aparelhos pelos quais deram a cara. Juntemos a todos estes os respectivos familiares. De resto, mais ninguém. Hoje em dia basta olhar à nossa volta para perceber que a esmagadora maioria dos cidadãos está desgostosa e revoltada até com a realidade das grandes máquinas partidárias... e com toda a razão, diga-se. A única defesa lógica possível é a corporativa, é a interessada. As evidências falam por si próprias e são tão claras que eu nem vou desenvolver mais o assunto em particular, para não me tornar demasiado exaustivo, até porque há mais que vos quero transmitir. Mas sim, posso adiantar a eventuais interessados que me encontro em reflexão permanente, saturado que estou de massas seguidistas e profundamente acríticas.

As eleições do próximo domingo culminam efectivamente o fecho de um longo ciclo. São 32 anos consecutivos de Vice-Presidência e de posterior Presidência acumuladas pelo Zé Júlio Norte, sempre no activo, que agora terminam… e bem. Sou um acérrimo defensor da limitação de mandatos, e mesmo os três que a actual lei prevê parecem-me exagerados. Oito anos chegam perfeitamente para iniciar e concluir um projecto que não seja pessoal na sua base. A transitoriedade no desempenho dos cargos públicos é fértil, é saudável e contribui para a sua boa credibilidade. Quando o “mais do mesmo” se torna uma realidade contínua e persistente, com múltiplas formas de contornar e de controlar o próprio sistema, está tudo dito sobre a fiabilidade da representação e a consequente crise de confiança que naturalmente depois se manifesta instalada no eleitorado, como hoje podemos assistir. De seguida, teremos novos protagonistas a representar a população no Executivo camarário, sendo esta uma noção muito importante de reter, dado que há muito boa gente que se esquece que é precisamente isso que ali se vai fazer: representar a população. Servir os munícipes. O próximo Presidente da Câmara será o André Faustino ou o Ricardo Pardal. Assim por esta ordem, com ordenação alfabética e esquecimento propositado da candidata do CDU, que está nestas eleições para cumprir calendário, ou melhor, para no fundo assegurar a presença do histórico partido nos boletins de voto, nada mais. Nesta missiva abordo sobretudo as candidaturas à Câmara, mas não queria deixar de rapidamente referir que o Bloco de Esquerda também concorre à Assembleia Municipal, com ideias refrescantes e uma equipa verdadeiramente jovem, além de estarem a protagonizar uma campanha directa e muito substantiva, com depoimentos directos dos Mortaguenses e sem maquilhagens postiças com vista ao que quer que seja. Têm todo o meu respeito e admiração. Estou, aliás, plenamente convicto de que vão eleger pelo menos um membro.

Mortaguenses, não restam qualquer tipo de dúvidas de que o próximo Presidente da Câmara será o André ou o Ricardo. Na minha muito pessoal impressão, que convosco partilho, parece-me que o Ricardo leva uma certa vantagem nas preferências, à data que escrevo. Sobre esta minha impressão, sou obrigado, no entanto, a fazer algumas ressalvas: a referida vantagem parece-me pequena, muito mais pequena do que uma série de pessoas julga e, mais assinalável ainda, creio que a tendência de dia para dia tem sido precisamente o encurtar dessa mesma distância. Posso perfeitamente estar enganado, como é óbvio, mas até à data o meu instinto não me tem falhado assim tanto, embora o dia das eleições seja soberano. Se estas acontecessem hoje, acho que o Ricardo ganhava por uma percentagem próxima dos 5%. Arrisco assim antecipadamente e desde já uma projecção pessoal quantificada, sem receios (porque os haveria de ter?), não esquecendo que ainda falta algum tempo para o sufrágio e os últimos dias costumam ser pródigos em alterações de posicionamento, por parte do eleitorado. Aliás, sinto ainda imensas pessoas indecisas, pelo que vou vendo e ouvindo, e quem anda na rua em campanha deve perceber isso melhor do que eu. Há uma vitória certa do André, que é a da coragem por se ter candidatado à Câmara de Mortágua apoiado numa estrutura 100% independente, sem o apoio de qualquer partido. O que ele até agora conseguiu não é fácil de alcançar, nada fácil mesmo. Está vivo e bem vivo na disputa, de forma legítima, honesta e por realização própria. Começou muito de trás e tem vindo a ganhar terreno de forma gradual e consistente, com um respeito crescente e notório das pessoas em relação à sua candidatura. O Ricardo leva quase oito anos de avanço nesta sua incessante demanda pessoal por chegar à cadeira que tanto ambiciona, e a verdade é que me parece que o tempo está a correr contra ele, apesar de já não faltar muito até ao momento da verdade. Uma vitória é sempre uma vitória, mas uma “vitoriazinha”, a acontecer, deverá fazê-lo reflectir sobre muitos e muitos aspectos… a vantagem que levava desde início sobre o André era brutal, a máquina partidária que o leva ao colo facilita-lhe a vida em tudo e mais alguma coisa, e a mim parece-me que as pessoas no geral também olham para isso do mérito e do empreendimento pessoal de cada um na respectiva candidatura. O Ricardo tem falado muito sobre mérito, e sobre exigência também, nomeadamente em relação aos trabalhadores da Câmara. Acho muito bem que assim seja. Na verdade, também ele será submetido a uma pressão enorme, caso acabe por conseguir vencer. O cargo de Presidente é sistematicamente objecto da avaliação contínua e omnipresente por parte de todos os Mortaguenses, o que significa uma pressão brutal. Além da pressão, temos também o natural escrutínio, corrente e absoluto… como aliás o próprio sabe, pela experiência acumulada nos últimos tempos de oposição. Ora, a aversão do Ricardo a esse papel de escrutinado é sobejamente conhecida, como sempre revelou até hoje no exercício das suas responsabilidades partidárias, pelo que apesar de continuar a apregoar garantias de proximidade e de transparência, a relação entre o que é dito e depois feito será uma realidade particularmente interessante de acompanhar, caso acabe por conseguir vencer. Repito a expressão propositadamente, para que possamos todos ter bem presente o grau de eventualidade com que estou a analisar o momento presente. Todos os cenários são possíveis.

Se no próximo domingo o André ganhar as eleições, tratar-se-á de uma vitória absolutamente inédita na história do nosso Concelho, dado que seria a primeira vez que alguém o conseguiria fazer apoiado numa estrutura 100% independente. Na minha opinião, começou um pouco tarde para quem se apresenta ao eleitorado nestas circunstâncias, teve fases de menor fulgor, com algum amadorismo à mistura (que me parece absolutamente natural, para quem não tem assim tanta experiência em campanhas) e no único debate que realizou com o seu oponente, não conseguiu fugir à mediania que caracterizou ambas as prestações. Ressalve-se, no entanto, a sua boa vontade em continuar a debater, ao contrário do Ricardo, que se recusou a sentar-se novamente à mesa com o seu adversário para discutir democraticamente o futuro de Mortágua. O programa com que se apresenta a esta corrida não é perfeito, como aliás nenhum é, mas tem um foco muito colocado nas questões verdes relacionadas com o ambiente, e esse é um assunto que me é caro, uma primazia que muito estimo. O André insiste na palavra “Renovar”, que aliás é o mote da sua candidatura, e creio que será essa a principal marca distintiva entre os dois aspirantes a Presidente da Câmara. Se me perguntarem o que os diferencia, tendo em conta os seus eventuais desempenhos futuros ao leme da Autarquia, eu diria que o Ricardo é mais um garante de continuidade em relação ao que está a ser feito, enquanto que o André será com toda a certeza mais disruptivo nas políticas adoptadas, mais progressista. Parece-me que quem desejar mais do mesmo, ainda que com umas diferenças aqui e outras acolá, votará Pardal. Tal como creio que quem considera que este é o momento ideal para mudar de rumo, apontando a novas virtudes e prioridades, votará Faustino. Ambas as equipas têm elementos que considero bons, muito válidos, e outros que nem por isso… trata-se de uma opinião pessoal, claro, a que todos os munícipes, sem excepção, terão igual direito. É da democracia. Na principal equipa do Ricardo, gosto imenso do Luís Filipe, do Joca e do Valente; na do André, para além do próprio, gosto imenso do Steve, da Liliana e do Jorge Novo. De uma coisa não tenho dúvidas rigorosamente nenhumas: quem for eleito irá dar o seu melhor por esta terra que a todos nos é muito querida. Aos vencedores, e na qualidade de Mortaguenses por eles representados, devemos exigir sentido de cumprimento do dever, decência e dignidade, além da elevação inerente à colossal responsabilidade pelo cargo que ocupam, de representação directa de uma comunidade e de uma inteira população, sem exclusões de qualquer espécie, porque numa Câmara não há nem poderá haver nunca lideranças de facção. Sublinho desde já que esta é uma obrigação que deverá ser espelhada pelo munícipe comum em relação aos seus representantes, nomeadamente a da elevação, da responsabilidade e do respeito. Qualquer um dos dois merecerá a minha incondicional deferência e consideração, a partir do momento que seja empossado. Para além de um próximo e rigoroso escrutínio, claro está. Esse é um direito, mas também é um dever de todos nós, cidadãos deste município maravilhoso.

Mortaguenses, a hora é mesmo a de Renovar por uma Melhor Mortágua, passe o trocadilho com os slogans das duas campanhas. Candidaturas à parte, e olhando um pouco para aquelas que considero serem as nossas principais prioridades de futuro, no contributo aberto para os programas eleitorais que redigi, assinei e enviei a todos os candidatos (além de ter imediatamente disponibilizado o referido documento a todos vós), reitero a necessidade urgente da inversão da decadência demográfica em que estamos mergulhados, à semelhança da esmagadora maioria dos Municípios do Interior, cada vez mais envelhecidos e desertificados. Os recentes resultados dos Censos deste ano mostram-nos uma realidade cada vez mais problemática e difícil, que apresenta uma dinâmica crescente que é preciso contrariar e combater no imediato, com criatividade e um conjunto de medidas arrojadas, incisivas e concretas. Na minha opinião, só uma resposta integrada a este dilema poderá ter possibilidades de sucesso, e esta deverá incidir no reforço das políticas dirigidas à fixação de trabalhadores, num forte e inédito estímulo à imigração e também numa firme aposta na sustentabilidade ecológica, ambiental e no turismo de natureza como um dos vectores fundamentais do nosso desenvolvimento económico, através da animação dos respectivos sectores que a este estão associados. O futuro de Mortágua que ambiciono é claramente “green friendly”, profundamente inclusivo e manifestamente multiétnico, sem qualquer espécie de preconceito em relação às dinâmicas demográficas que o processo de globalização em curso vai proporcionando, nomeadamente em relação ao fenómeno do êxodo urbano, cada vez mais em voga um pouco por toda a Europa (… e não só), onde a migração interna dos seus cidadãos tem aumentado exponencialmente, de ano para ano. São estas tendências emergentes que devemos ser capazes de capitalizar para ultrapassar esta adversidade gigantesca.

Este é o desafio dos desafios para os próximos tempos, que não se resolve com os chavões do costume, como o “pelas pessoas”, o “mais” e o “melhor”, mas sim com ideias concretas, audácia, capacidade de inovação e de aproveitamento desta oportunidade única com que estamos presentemente confrontados. Mortágua e os Mortaguenses têm tudo, mas tudo mesmo para enfrentar o futuro com esperança e com optimismo. Com confiança e com um sorriso na cara. Basta aproveitarmos tudo aquilo em que somos efectivamente bons. O ponto de partida é promissor. Espero que a chegada seja reconfortante.

Amigos!

No próximo domingo escolham em consciência e votem com o coração. Votem no candidato que considerarem mais válido e nas equipas que vos deixem mais confortáveis… mas não deixem de ir votar. Peço-vos. Esta é uma decisão demasiado importante para deixarmos nas mãos de outras pessoas. Finalizo a presente mensagem que já vai longa com um forte apelo à mobilização em torno do voto, contrariando desse modo a abstenção significativa que se tem verificado nos últimos exercícios eleitorais autárquicos, em Mortágua.

O Mortaguense dedicado, atento e empenhado no progresso do seu Concelho... é o Mortaguense que vota!

Da minha parte, e estando em permanente reflexão, como aqui vos confidenciei, continuarei de certeza absoluta a estar permanentemente atento ao que se passa, de uma forma ou de outra, procurando ser o mais útil possível para a nossa comunidade, lutando sempre pelo melhor futuro para a terra onde nasci e onde vivo… a terra que tanto amo.

Mortágua e os Mortaguenses à frente de tudo o resto!

Sempre!

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