Custou-me muito, confesso que foi com uma enorme mágoa e um profundo desgosto que assinei a respectiva carta, mas recentemente levei a cabo o que a consciência já vinha crescentemente a impor-me há bastante tempo: desfiliei-me do PS. A motivação que alimentava a resiliência que ainda me restava para continuar a lutar pelo meu partido de sempre, esmoreceu de vez, depois de anos e anos de intenso combate a uma democracia interna simulada que se vive cronicamente no concelho de Mortágua. Tudo tem um limite.
Os pergaminhos de um grande partido como o PS, assentes numa matriz ideológica de base pluralista e profundamente democrática, não se coadunam nem poderão nunca coadunar com lideranças de permanente e sistemático autismo, onde não é procurada nem dada a palavra a ninguém, onde não é de forma recorrente prestado nem dado esclarecimento algum a quem se representa. Uma secção concelhia de um grande partido onde se bloqueia a participação dos militantes e dos simpatizantes e se recusam opiniões potencialmente diferentes, é apenas um corpo estranho a usar e a abusar ilegitimamente do símbolo e do tradicional bom nome do PS, exibindo uma postura radicalmente distinta dos preceitos democráticos que sempre caracterizaram o partido, desde a sua fundação. O PS-Mortágua pura e simplesmente não reúne para além da pequena cúpula da Mesa e da Comissão Política, há anos e anos que a realidade é esta, tamanha é a repulsa pela discussão interna e participação do universo militante em geral.
No PS-Mortágua não há um projecto político, mas um projecto pessoal herdado, consolidado e mantido com o apoio obstinadamente fiel e interdependente de três ou quatro famílias, onde se atropelam constantemente as mais elementares regras de funcionamento de secção e de saudável convivência democrática, em detrimento da vantagem do interesse e do benefício próprio. Procurei de forma recorrente que se adoptasse com toda a emergência e necessidade um método interno de funcionamento absolutamente distinto do que há anos ali se conhece, com alguns contributos concretos que o pudessem permitir: começar por querer aumentar a base de militância e não mantê-la escassa e convenientemente controlada; estabelecer a obrigatoriedade de haver pelo menos uma reunião de comissão política por mês e um plenário de militantes e simpatizantes de dois em dois meses; priorizar a criação de uma plataforma digital interna (obviamente fechada) onde os militantes pudessem ser sistematicamente informados da actividade corrente da concelhia do partido, podendo intervir nessa mesma plataforma, participando de forma interactiva e organizada com os representantes do partido, que estariam pelo menos moralmente sujeitos a aceitar ouvir todas as tentativas de participação e a prestar todos os esclarecimentos necessários que se imporiam. Foram anos e anos de tentativas infrutíferas para restaurar um mínimo dos mínimos de democracia à representação local do meu partido, que nunca conseguiu esconder a sua aversão ao escrutínio, à opinião contrária e ao contributo dissonante. A verdade é que tudo tem um limite.
O PS-Mortágua devia fazer-se de projectos políticos colectivos dinâmicos e não de coutadas e empreitadas pessoais convenientemente contidas. O PS é um partido histórico e prestigiado, democraticamente abrangente e inclusivo, não é a casa dos amigos de um homem só, onde se deixam todos os restantes à porta. O meu passado é e será sempre por mim honrado, nem eu sou homem de o querer apagar. Apoiei afincadamente António Costa e se o tempo regressasse atrás voltaria a fazê-lo, sem arrependimentos, porque era essa a plena convicção do momento, apesar da imensa desilusão que, entretanto, têm gerado todos os casos, casinhos e casões, tanto a mim como à maioria dos Portugueses que o elegeram. Apoiei lado a lado e com grande orgulho a caminhada dos meus amigos João Azevedo e João Paulo Rebelo que, entre muitos outros, representam com grande dignidade o socialismo da minha região. Fiz sempre questão de respeitar o partido sem nunca abdicar do espírito interventivo que o deverá alimentar, não deixando nunca de enfatizar o que me parecia estar mal, sem a cegueira seguidista e interessada dos fiéis agitadores de bandeiras, que apoiam sempre tudo e todos, premiados pelo silêncio cúmplice e conivente, haja o que houver e custe o que custar. Essa massa fanática e profundamente acrítica que endeusa ídolos com pés de barro é a principal causa do desgaste e do crescente descrédito que presentemente é conferido a uma partidocracia em que ainda acredito, e em que quero continuar a acreditar, como pilar fundamental da democracia tal como a conhecemos hoje, e que continua a ser melhor do que outro sistema qualquer que insistam em nos querer propor.
O momento, este, é o de seguir em frente. Gostava muito do PS, mas o meu amor por Mortágua é incomensuravelmente maior. Ali, manietado, amarrado e amordaçado, já não estava a ser útil, e a verdade é que a minha terra precisa como nunca do meu contributo, por uma miríade de razões. Basta olhar para a nossa volta com olhos de querer ver. Como já confidenciei aos meus conterrâneos Mortaguenses e agora reitero, estou pessoalmente empenhado em garantir que haja uma alternativa séria, credível e de facto a tudo o que temos assistido no nosso Concelho. De ora em diante, estou e estarei concentrado no processo autárquico, o foco é só esse.
Para a frente é que é caminho!
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