segunda-feira, 6 de outubro de 2025

O André Faustino e o Renovar

 

Depois de um longo e pouco animador ensaio sobre o trabalho do Ricardo Pardal ao longo do último mandato, vou agora debruçar-me sobre outro dos candidatos a Presidente da Câmara para os próximos quatro anos: o André Faustino, do movimento independente Renovar Mortágua. Começo desde logo por fazer uma simples e despretensiosa declaração de interesses para salientar e sublinhar da forma mais evidente possível a tal clivagem entre a perspetiva mais pessoal e a análise política substantiva: dos três que estão na corrida (sim, apesar de serem cinco candidatos, só vou manifestar-me sobre os três que têm possibilidades de eleição) o André é, de todos eles, o que neste momento me é mais próximo. Quero com isto afirmar que, se fosse apenas o critério emocional a decidir o meu sentido de voto, olhando somente para os cabeças de lista, para a minha afeição aos três e nada mais, seria precisamente nele que iria depositar a minha cruzinha no próximo domingo, dia 12… mas a verdade é que não, não é isso que vai acontecer.

Nunca poderia comentar a candidatura do André e do Renovar sem voltar a lamentar publicamente que não tivesse havido convergência com a candidatura da Emília e do PSD. Já escrevi sobre isso no espaço público e volto agora ao assunto, assumindo sem qualquer tipo de problema que sou da opinião que essa conjugação de esforços teria sido o melhor caminho para todos nós, Mortaguenses, sendo que me empenhei pessoalmente na tentativa de que tal fosse possível, por diversas vezes até, sem, no entanto, conseguir que isso tivesse acontecido. Circunscrevendo a corrida a dois, tenho como certo que isso significaria uma não reeleição do Ricardo e do PS, como creio que os resultados do próximo domingo provarão com clareza, e isso teria despoletado a afirmação de uma alternativa com muita, muita força e credibilidade, que na minha opinião seria a solução ideal para virar a página da apatia inerte em que estamos mergulhados enquanto comunidade. Tentei, não foi possível, bola para a frente. É assim a vida. As negociações com vista a uma coligação entre o PSD e o movimento Renovar Mortágua foram efémeras e malsucedidas, tendo com alguma naturalidade até atingido um ponto de ruptura que se tornou definitivo e irrevogável. No final do ano anterior previ que esse desfecho pudesse ter consequências potencialmente explosivas em relação ao número de candidaturas à Câmara, e pelos vistos não me enganei, sendo ainda lógico deduzir que este cenário de fragmentação era, sem dúvida, o mosaico político que naturalmente mais conviria ao Presidente incumbente, agora recandidato, que não se coibiu de dar as boas-vindas à novidade com “aquele sorriso” de satisfação, em mais um assinalável e único alinhamento de astros para benefício próprio, pese o propositado pleonasmo. É o que é. Na altura dessa definição, escrevia eu que sentia o André perseverante e irredutível na decisão de avançar, roçando até o obstinado. Concordando-se ou não, a sua legitimidade é absoluta, até por querer ser coerente e consequente em relação à trajetória que tem vindo a protagonizar. Atenção que isto é cristalino. Só que como também refleti nesse momento e hoje mantenho, essa firmeza e todo esse desígnio por vezes pode de certa forma turvar-lhe o discernimento, levando-o a crer com grande sentido de realidade em cenários que são pouco verosímeis, tendo em conta todas as circunstâncias todas desta eleição em concreto e também a natureza do eleitorado que a caracteriza. A impressão que mantenho, sendo assim, e apesar da grande imprevisibilidade que tenho vindo a antever sobre os resultados do fim-de-semana, é que terá poucas ou nenhumas possibilidades de sucesso, tendo em mente a vitória, pelo que acredito que a sua demanda política na terra que ama e o viu nascer terá um desfecho muito ingrato e que lamento profundamente, acima de tudo porque o valor do seu trabalho e a qualidade do seu contributo não mereciam, de todo, uma saída pela porta mais pequena, que estamos todos ainda obviamente por ver se se confirmará. Acredito que o André possa ambicionar, na melhor das hipóteses, a ser eleito vereador, o que poderia trazer uma inédita composição de 2+2+1 ao futuro Executivo, com todas as implicações e mais algumas que isso poderia trazer de bom e de mau para a nossa democracia. Claro que isto é só uma opinião e posso estar redondamente enganado. Dúvidas que no domingo todos dissiparemos.

O André tem sido muito injustiçado nos últimos tempos. Previ que se tornasse num alvo fácil e é precisamente isso que se tem vindo a verificar. Apontam-lhe o dedo por ter “nascido em berço de ouro”, como se ele tivesse culpa disso, desrespeitando-o não só a ele como a toda uma muito honorável família que batalhou bastante para manter o seu distinto legado, sendo Faustino uma “marca” de indiscutível prestígio social e benemerência humana, na história recente de Mortágua. Apontam-lhe o dedo por “nunca ter feito nada na vida”, o que é verdadeiramente notável se por exemplo olharmos para um percurso académico que é todo ele brilhante, e que encheria com toda a certeza o ego da maioria dos seus detratores, para não dizer a totalidade, se por acaso algum dia estes tivessem a capacidade para assim o almejar. Sendo que até se torna especialmente recreativo perceber que esses tais depois acabam a defender quem nada mais fez na vida a não ser trabalhar numa mesma autarquia para onde se entrou de empurrão, tirando apenas um pequeno intervalo sabático numa instituição pública de saúde de uma localidade próxima, que surgiu reconhecidamente em forma de tacho como recompensa política de um conhecido partido, depois de se terem perdido umas eleições. É por isto tudo e por muito mais que o respetivo meio é pantanoso, pérfido e repugnante até, espantando cada vez mais pessoas com imenso valor ao mesmo tempo que se atraem outras que têm pouco ou nenhum. O André não merecia nem merece tudo o que lhe têm feito, e eu disse-lho em tempo útil, quando previ o que ia acontecer e lhe pedi olhos nos olhos que não avançasse com a candidatura, tendo, no entanto, respeitado a sua decisão, como é por demais lógico. Isso é um ponto de honra.

Sou dos que consideram que o André fez um excelente trabalho na oposição e estou certo de que muitos mais partilham essa opinião. Acredito sinceramente que o seu empenho é maior e mais consistente do que muitas vezes transparece, talvez por não ter adotado uma postura mais combativa ou um estilo de liderança política mais combativo. Apesar de ultimamente ter vindo a ser menos “fofinho”, representou durante muito tempo uma oposição de certa forma suave, frente à qual o Ricardo se movimentava com evidente conforto, sendo que essa constatação não apaga o que para mim é essencial: o André é uma pessoa com um excelente coração, tem um carinho genuíno por Mortágua e são boas as intenções que o movem. Disso não tenho qualquer dúvida. Ao contrário de outros protagonistas desta praça, é possível ter uma relação pessoal com o André e comentá-lo politicamente, com crítica e elogio, sem que isso necessariamente interfira com tudo o resto que já existia e vinha de antes, o que desde logo é de valorizar como um incontestável indicador da sua maturidade democrática, traço infelizmente pouco visível e comum na nossa comunidade. O André é elegante no trato e é muito, muito inteligente, além de empenhado e estudioso. Nota-se que ama a sua terra e que nutre um especial sentimento de pertença que o leva a preocupar-se com o futuro desta, empreendendo esforços pessoais e conjuntos no sentido de mobilizar um desígnio coletivo que combata a desesperança e que traga alguma luz e ar fresco a uma casa que é de nós todos. O movimento Renovar foi uma pedrada no charco que trouxe novidade organizacional e personalidade independente, pautando pela diferença e pela vontade de acrescentar, com o objectivo de multiplicar para reinar e não fazer precisamente o oposto, que foi o modus operandi estratégico a que sempre estivemos habituados na Mortágua do ou estás connosco ou contra nós. O trabalho produzido foi de qualidade, apesar de algo inconsequente e manifestamente pouco acompanhado. O propósito fundamental, no entanto, falhou, na minha opinião, por a estrutura ter perdido o método e a mecânica adquirida, tornando-se com o tempo numa sociedade unipessoal carente de outras figuras com peso e visibilidade, perdendo com isso a heterogeneidade que se deseja num grupo como este, apesar de reconhecer que isso poderá de certa forma acabar por ser natural. Entretanto, e em parte, o Renovar também se renovou. Tornou-se mais incisivo na abordagem e viu-se reforçado com elementos que, de certa forma, poderão ser analisados como uma espécie de contradição relativamente ao slogan que têm incansavelmente repetido como manifesto, “menos partidos, mais Mortágua”, dado que a esmagadora maioria das recém-chegadas novidades são velhas guardas dessas mesmas agremiações partidárias que agora se recusam, surgindo uns por dissidência com os valores que antes defendiam e outros mesmo por extinção dos aparelhos que até então integravam. Sendo tudo isto absolutamente legítimo, atenção, devo sublinhar, aliás, que sou o primeiro a evidenciar e a personificar até o facto de que não só podemos como devemos mesmo mudar de opinião quando as circunstâncias assim o exigem. Principalmente quando é isso que nos apela à razão, porque é o que nos faz mais sentido. Há aqui mais uma constatação do que propriamente uma crítica, e apesar de não me parecer que alguns desses elementos sejam propriamente inspiradores, ou uma mais-valia por aí além, não tenho qualquer dúvida na aferição da credibilidade e da seriedade da maior parte. Lá está. Cada cabeça, a sua sentença, e também essa é uma das belezas da nossa democracia.

Ao dia de hoje, sinto o André muito confiante e focadíssimo, como aliás é precisamente esse o espírito de que qualquer candidato de valor não deverá abdicar. Enfrentou grandes dificuldades para compor listas, dada a feroz concorrência no recrutamento por parte dos partidos gigantes, mas levou o barco a bom porto, apesar de não ter conseguido ir à luta em mais do que duas freguesias. Acontece que a sua legitimidade e de quem o acompanha nesta nova candidatura à Câmara de Mortágua é absolutamente indiscutível, dando dessa forma consequência a todo um processo interno e a toda uma iniciativa pública. Em 2021 ocupou um espaço que não existia, o que só por si é merecedor de deferência e respeito. Foi pena que não tivesse sido possibilitada a construção de uma frente democrática comum, abrangente e inclusiva, pela qual também me bati, contra este lúrido e pouco profícuo establishment que se verificou ao longo deste último mandato, mas as coisas são o que são, pelo que não vale a pena chover mais no molhado. Em democracia não há vitórias antecipadas e as coisas por norma correm mal a quem assim julga e determina, por isso é óbvio que a relevância do independente André não é de todo para secundarizar, dado que ainda tem uma palavra a dizer. É intelectualmente dotado e segue o seu caminho resoluto e decidido, além de se encontrar rodeado por pessoas que têm o seu valor. É dono e senhor da sua vontade e de ideias muito própria, assumindo-se claramente como uma força de alternativa e não de alternância, ou de continuidade às políticas que têm vindo a ser implementadas, o que só posso saudar. A sua candidatura manifesta uma forte preocupação ambiental e é disruptiva, mostrando uma grande vontade de romper com hábitos estabelecidos há anos e anos, o que qualquer progressista tem a obrigação de aplaudir. Não é, com toda a certeza, por não reconhecer valor ao André e ao Renovar que não vou confiar-lhes o meu voto, e o motivo é muito simples: há uma outra candidatura que considero mais forte, com uma equipa mais preparada, mais experiente e mais habilitada para realizar o trabalho de fundo de mudança que tanto estamos a precisar. Esta posição que partilho convosco, e que como vos disse primeiro dei a conhecer ao André, por todos os motivos e mais alguns, é um imperativo de consciência que é maturado e que me move tanto na esfera da razão como na da emoção. Aconteça o que acontecer no domingo, não tenho qualquer dúvida que o André ficará sempre registado numa página bonita do livro que nos conta a história do nosso concelho. Isso ele merecido e ninguém lhe pode tirar.

 

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