sexta-feira, 3 de outubro de 2025

O Ricardo Pardal e o PS

 

Em vésperas da eleição para os órgãos locais, que são tão importantes para o futuro do nosso concelho, resolvi escrever este texto em linguagem solta, direta e objetiva, partilhando livremente a minha opinião com toda a comunidade, para quem tiver o interesse de a conhecer. Este ensaio é naturalmente dedicado ao Ricardo, que é o incumbente, o Presidente em exercício, mas também ainda conto pronunciar-me em tempo útil sobre o vereador André e a candidata Emília, com outra profundidade, logicamente, dado que no fundo isto é uma espécie de ensaio analítico sobre o mandato que agora acaba e a campanha que está em curso. Refiro-me a cada um pelo nome próprio precisamente por uma questão de estilo e de tipo de discurso, não por qualquer espécie de falta de respeito ou consideração, como é evidente, até porque essa separação bem clivada entre o que é a vertente mais pessoal e a análise mais substantiva de conteúdo político é uma preocupação muito grande que estou a procurar ter na redação do texto. O assunto é sério e por isso exige seriedade máxima no comentário, até porque o que me move é precisamente gerar um contributo que enalteça o debate, que ajude a enriquecer o conhecimento dos nossos concidadãos Mortaguenses sobre os candidatos a representar-nos e, no fundo, os auxilie a tomar essa decisão com a mais apurada e clarividente consciência possível, tendo em consideração que é o futuro de todos nós que está em causa. Adiante teremos matéria de opinião que é sustentada em abundante matéria de facto. Gostaria que isso ficasse desde logo bem claro.

Um olhar rápido para as listas do PS mostra-nos que, na globalidade, a novidade é pouca. Não se vislumbram grandes alterações de fundo, a não ser as que foram impostas por limitação de mandatos. Estive na apresentação e a máquina do aparelho continua a carburar como poucas, pois, com todo o fervor e grande aparato audiovisual. Do que vi, e de acordo com a convicção que já tinha há muito, destaco a figura do médico Acácio Fernandes como a mais relevante e influente de todo o universo socialista local… e de muito longe. Há muito tempo que assim é, já desde as campanhas que também fiz para o Presidente de então era o Acácio que reinava a nível de popularidade, especialmente nas aldeias, apesar de também ter os seus anticorpos, pois… porque isto de perfeição nas pessoas é atributo que rareia e de que maneira, tanto que não se vê em lado nenhum. Sem qualquer espécie de preparação, o Acácio arrebatou por completo a plateia na apresentação com o seu discurso mais pessoal e emotivo, centrado no seu notável percurso de vida e na relação que foi mantendo com a sua terra e com os cargos que foi ocupando ao longo do tempo. O Acácio é um homem que respeito imenso, por uma miríade de razões. Apesar de já ter dito imensas vezes que não voltava, na hora h acaba sempre por voltar atrás e dar o corpo às balas pelo partido. Esse é o seu maior handicap, assumido desde logo pelo próprio, já por variadas vezes. É sem dúvida alguma uma vantagem para o PS e uma espécie de abono de família do Ricardo, a juntar ao seu número 2, de que falarei mais à frente. No seu alinhamento de astros versão 2.0 deste ano (depois de concorrer contra apenas uma lista independente em 2021, vencendo mas obtendo um resultado que de certa forma até foi modesto, este ano esfrega novamente as mãos convencido que o facto de haver três candidaturas mais relevantes o beneficiará, como já demonstrou em reuniões de câmara e sessões de assembleia… com “aquele” sorriso a dar as boas-vindas do candidato André), o Ricardo conta novamente com alguns apoios de peso, muito embora haja quem invariavelmente, só esteja a fazer número e outros então que já deviam ter saído há imenso tempo, tanto pelo parco contributo como pela persistência em não dar o lugar aos mais novos. Apesar de reciprocamente darem sempre um “jeitaço”, claro. Tanto os que lá estão como os de fora sabem perfeitamente de quem se trata. A falta de novidades nas listas pode por um lado ser interpretada como sinal de redobrada confiança mútua, mas por outro lado também demonstra falta de capacidade em recrutar novos e valiosos elementos da sociedade civil, já para não falar da nomeação dentro da militância, que é pobre. Sobre essa realidade do partido, então, lamento a recorrente realidade dos mais novos, que de certa forma serve de aviso à Eva Almeida, que proferiu um belo discurso na apresentação que muito me orgulhou, como seu antigo professor. Olhando-se ao historial dos percursos dos anteriores mandatários da juventude do PS, desde o início do século, lista onde estou incluído, facilmente percebemos que a tendência é muito óbvia, sendo a conivência premiada e a irreverência punida. O que nos diz muito sobre a salubridade democrática interna do partido de há anos e anos... mas adiante. Pusessem os mais novos a gerir e a dinamizar todo o processo autárquico e depois veriam as diferenças avassaladoras, basta olhar para as dinâmicas de uns e de outros… mas oh-oh, que o poder é demasiado precioso para ser partilhado com quem não se domina.

Na lista para a Junta da União de Freguesias temos um “puppet" que na minha opinião é evidente. O Miguel Dias, braço armado do Presidente na AM, onde é reconhecido caceteiro (sim… “olha quem fala, Mauro”), bate com força e peito feito, mostrando sinais de grande personalidade que depois acaba traída por análises mais atentas, como por exemplo em relação a matérias como o dossier das águas e do respetivo eleitoralismo de medidas, onde revelou aquela falta de coerência gritante que é imperdoável num protagonista político. Não, não podemos ter dois pesos e duas medidas diametralmente opostas consoante a natureza da circunstância, e sobretudo das nossas necessidades naqueles momentos, quando se está na oposição e depois no poder, até porque também aí se vê a grandeza de quem intervém (ou a falta dela), apesar de todas as exterioridades de uma magnificência que eu muito honestamente não vislumbro. Na minha opinião, a sua escolha para a freguesia parece-me uma fraca aposta, a começar pela popularidade do candidato, que não me parece ter grande rua, muito pelo contrário. Como eleitor direto da referida autarquia, a maior de todas do concelho, peço desde já por esta via as minhas desculpas ao Zé Oliveira, que muito estimo, e especialmente ao meu querido amigo Pina, por todas as razões que nos unem e que vão muito além da mera consideração, mas desta vez não terão o meu voto.  Não me parece minimamente sensato que toda a equipa se tenha mantido, alterando apenas o cabeça de lista. Dá a ideia de que alguém quer acabar por conseguir ser presidente de qualquer coisa, seja de que maneira for… e mais como eu pensarão deste modo, com toda a certeza. É que é toda uma óbvia extensão “puppet”, como aliás já havido acontecido na própria concelhia do partido, que é muito própria de democracias pobres. Nas restantes freguesias, sobre as quais não me vou estender tanto por razões de espaço e por não ser eleitor, parece-me que há escolhas boas, de prestígio inatacável, e outras que nem por isso, prevendo-se, no entanto, algumas disputas interessantes. Há candidatos que têm a vitória garantida e outros que não serão mais do que carne para canhão, como é do conhecimento geral, a começar pelos próprios… mas claro que todas as corridas vão ser interessantes de acompanhar. Prossigamos.

 O Ricardo Pardal passou cinco anos a vociferar uma imensidão de acusações contra a administração anterior, destacando simultaneamente a mais valia que seria para o concelho se lhe fosse dado um voto de confiança para Presidente da Câmara, o que aconteceu em 2021. A falta de novidade nas listas vale o que vale, mas a falta de novidade de todo um mandato quadrienal é absolutamente assustadora. A obra significativa é praticamente nula e isso é facilmente percetível a partir dos discursos dos próprios protagonistas, que são os primeiros a referir que os investimentos foram feitos, sim, “apesar de não se verem”, realidade com que todos somos obrigados a concordar, mas também quando cerram o punho na mesa a enumerar obras como a cobertura da entrada do centro educativo e a finalização do campo de jogos adjacente ao mesmo como se fossem obras vitais, magnânimes e estruturantes. Trata-se de edificações com relevância, como é evidente, mas a forma como são destacadas fala por si. Ninguém vislumbra obra visível e inovadora com dimensão própria de uma autarquia como a nossa, numa análise a quatro anos. Muito pelo contrário, a pobreza foi evidente… e os próprios membros do Executivo têm essa plena noção, até porque não a assumindo de facto, transparecem-na em absoluto. A escandalosa falha no cumprimento do programa que foi sufragado em 2021 é prova disso mesmo. Temos, no entanto, a propaganda que nos é vendida sempre que se proporcionava, sempre que era possível, e que é precisamente a mesma que agora nos estão a oferecer porta a porta. Torna-se descomplicadamente aceitável que os candidatos propagandeiem o que bem entenderem, desde que haja o mínimo de verdade, de rigor, de coerência e de seriedade, claro está, porque o problema da propaganda surge precisamente no momento em que esta não é mais do que um engano premeditado, uma intrujice ou um malabarismo, ou neste caso em concreto algo que eu definiria até como um logro deliberado… e isso, meus amigos, é que já não é natural, não, nem nada que se pareça. Além de democraticamente inadmissível. Antes de continuar, reconheço que tenho um discurso forte e incisivo, mas também não é mentira que sempre foi assim, sendo defeito ou feitio, dependendo do analista... como preferirem. Sublinho, no entanto, a cuidada preocupação que tenho em apresentar meticulosamente o argumento antes de visar a pessoa, precisamente para evitar a sugestão ou julgamento do ataque ad hominem, que muitas vezes aparece como manobra última de desespero para desviar atenção, provocar pena pela vitimização ou até para a famosa estratégia do gato morto, que é uma eficientíssima ferramenta de comunicação política em que o Ricardo Pardal entretanto se profissionalizou, eu diria com um doutoramento honoris causa, tamanha era e é a necessidade de desviar a atenção do que é uma realidade tão facilmente visível e palpável. Adiante. Factos são factos. Tal como o que é preto é preto e o que é branco é branco. Não há como fugir disto.

Como esquecer a entrevista dada em junho deste ano? Perante o vazio da obra apresentada ao longo destes últimos quatro anos e em contraponto com o megalómano e pretensiosíssimo programa eleitoral que apresentou nas eleições passadas, o Presidente que agora é candidato referiu sem duvidar sequer de si próprio que este “não era para quatro anos, nem isso lá está dito em lado nenhum”, quando na página do seu movimento político ainda se podia descarregar o ficheiro pdf com o documento “PS-MelhorMortágua-2021-2025” (assim denominado, sem mudar um carater que seja), em que o Ricardo Pardal aparece sorridente na capa e ladeado pela sua equipa à Câmara, por debaixo de um proeminente título “Programa de Governação 2021-2025”. Mais palavras para quê? Não há nem nunca houve registo algum de que o conjunto de promessas e de compromissos estabelecidos não eram para o ciclo político a que se propunham, nem isso de resto faria qualquer tipo de sentido. Como pouco ou nada fez do muito muito que disse que ia fazer, o Ricardo Pardal 2025 entretanto passou a alegar que não, que não estava em “lado nenhum” aquilo que tão facilmente se podia ver, ler e até ouvir do Ricardo Pardal 2021. Se isto não é um logro deliberado, o que será? Cada Mortaguense tirará, com toda a certeza, as suas devidas ilações, pois. Recordar é viver e também na política devemos lembrar o que se diz, o que se faz e o que se diz que se faz, para podermos avaliar a credibilidade das candidaturas e a seriedade dos candidatos. “Informar, mostrar o que vai ser feito, tem que prevalecer sobre o aparato, a generalização, os chavões cheios de nada. (…) Medidas em que a preparação está feita e com conhecimento real. Não temos medo de dizer que vamos fazer porque não temos medo de ser apanhados em falso e depois ter que inverter a marcha. (…) Os diagnósticos estão feitos há muito. Foram feitos com tempo e com método, não foram o resultado de "conversas". Logo, a partir do primeiro minuto, vai haver só trabalho produtivo. (…) Medidas, enfim, para cumprir aquilo por que vimos lutando na defesa de Mortágua, num novo recomeço com quem sabe e com quem está de facto, e para lá da propaganda bonita, REALMENTE PREPARADO.” Assim ficou escrito de há quatro anos para a eternidade, num manifesto assinado com o nome e a fotografia do Ricardo… transcrevi as maiúsculas e tudo. Pelo que pergunto: como voltar a acreditar na sua palavra? Como continuar a confiar na sua pessoa? Que fundamento é que poderemos ter para dar crédito ao seu manifesto de agora depois de o de há quatro anos atrás se ter revelado um logro absoluto?

O conteúdo é o que é e não há análise factual alguma que constitua uma defesa séria e racional ao seu legado… mas vamos à forma, que também é muito importante quando se analisa o perfil de um representante máximo da comunidade, especialmente quando este se candidata a novo mandato, como é o caso do Ricardo Pardal. Não posso deixar de sublinhar o autoritarismo crasso e evidente de quem se diz democrata e canta a liberdade com o peito feito, quanto mais não seja ao longo do mês de abril, para depois se esquecer disso o resto do ano todo. Sendo assim, e uma vez que anda tudo pelas ruas em campanha, vou partilhar umas histórias. Assim de cabeça, recordo-me que mal entrou, não sei se na segunda ou na terceira semana do mandato, quis de imediato alterar o horário de treino da equipa sénior de uma associação do concelho da qual ainda faço parte dos órgãos sociais, horário esse que estava já protocolado com o anterior Executivo para a época inteira, com o objetivo único de pôr um grupo de amigos seu a jogar à hora que queriam. Mal foi confrontado com as evidências, não se coibiu de vociferar furiosamente um icónico “é como eu digo e acabou!”, assim mesmo, recém-empossado e com estas precisas palavras, depois de ouvir os argumentos de um dirigente da referida associação, para depois das ondas de choque que tal atitude provocou perceber que tinha enfiado o pé na argola, tendo, entretanto, pedido desculpa à associação, revertendo a decisão como se impunha pela lógica. Um primeiro sinal muito revelador. Tenho também que contar um episódio que aconteceu comigo numa reunião de trabalho que convocou no primeiro ano de mandato, e que também é bem ilustrativa da robusta dimensão democrática que o atual Presidente tem. Sedento de vingança por ler o que não lhe agradava, começou por extinguir a disciplina de ICP (Investigação: Cidadania e Património) que eu orientava desde a fundação da maravilhosa Academia Saber+, e que era muito querida mesmo pela esmagadora maioria dos respetivos academistas que a frequentava, tendo ali até se produzido coletivamente documentos que ainda hoje têm enorme valor, tanto pela historicidade dos seus testemunhos como pela riqueza dos seus contributos. Era um espaço onde se respirava verdadeiramente democracia e liberdade de opinião, onde as pessoas se sentiam efetivamente à vontade para dar a sua opinião, como todos os intervenientes podem atestar. Comentava-se tudo e mais alguma coisa, no plano global, nacional… e local, claro, sem pudores de espécie nenhuma. Como aliás deve ser. Com o anterior Presidente Zé Júlio Norte, nunca houve tentativas de silenciamento e tenho a perfeita noção de que muitas vezes havia desconforto com algumas das discussões que ali eram mantidas… mas na altura ainda havia a mínima noção de decência democrática, e do que é a liberdade. À primeira oportunidade, na preparação de um novo ano da Academia, esse já totalmente à responsabilidade deste novo Executivo, o Ricardo Pardal convocou a tal reunião para dar conta das alterações que ia efetuar na estrutura e no funcionamento da instituição… acabando com a referida disciplina sem apresentar qualquer tipo de fundamento e notificando-me de seguida com toda a pujança e altivez que não me ia renovar o contrato com a autarquia, depois de dezasseis anos de ligação, porque eu “falava mal da Câmara”. Sim, as palavras foram precisamente estas, por incrível que possa parecer. Não só silenciava uma disciplina onde se vivia democracia como ao fim de tantos anos mandava embora o respetivo professor, por não lhe agradar o que este escrevia. A justificação para a cessação do contrato foi essa. Estavam presentes os três socialistas do Executivo e as minhas antigas colegas da Academia, ninguém pode alegar que estou a faltar à verdade porque todos assistiram ao que se passou. Como devem imaginar, pelo menos quem me conhece, não me deixei ficar perante o que ouvia, nem nada que se pareça… muito pelo contrário. Acossado, encarei-o e confrontei-o com todos os argumentos e mais alguns que a razão tão nítida claramente sustentava, mostrando-lhe com as palavras todas o ridículo do tão pequenino papelito de ditador que ali estava a fazer, com toda a desfaçatez. Mas fiz mais. Quis olhar nos olhos dos restantes corresponsáveis por tão drástica decisão, questionando ambos se a validavam. A Ilda Matos, com uma frontalidade sinistra e um encarnado esgar de retaliação revanchista, disse de imediato e com toda a convicção que sim, que estava de acordo com aquilo, como “yes” que sempre foi, vá, sendo sem dúvida apenas e só por ser “yes” que lá está. O Luís Filipe, de seguida, baixou de imediato a cabeça mal o fitei, muito contido, dizendo simplesmente que não tinha nada a dizer, sem ser capaz de acrescentar mais nada. Vi perfeitamente que não se revia nem na postura nem na decisão, de tão absurda, como é natural de uma pessoa decente. A troca de argumentos continuou e o encontro, entretanto, terminou com o Ricardo uma vez mais a voltar atrás com o que tinha decidido, num assomo de consciência a que não resistiu quando confrontado perante tão sólidas evidências da patetice que estava a fazer. Uma monumental asneira. Todos os que lá estavam sabem que esta é a mais cristalina das verdades. Conto o episódio porque é relevante à análise de forma e porque ainda hoje sorrio com vontade genuína quando leio o que quer que seja que o Ricardo diga, escreva ou mande escrever sobre liberdade e democracia, seja em abril ou noutro mês qualquer. O mal-estar criado pelo Presidente junto dos professores de que não gostava foi se tornando cada vez mais claro, sendo que todos saímos da Câmara pelo próprio pé e hoje tenho a convicção que todos estamos profissionalmente bastante melhor, apesar da mágoa de um epílogo tão triste e degradante, depois de laços estabelecidos que eram tão fortes e duradouros, tanto na Escola como na Academia. A essência desta última, então, nunca mais recuperou desde essa altura, como sabe perfeitamente quem fazia e faz parte, no antes e depois, sendo esse um dos maiores “crimes” que este mandato nos legou, e que teve a assinatura anuente da vereadora Ilda Matos, cumprindo as ordens do mandante, o responsável máximo. É o que é, caros amigos. Claro que a vida continua. Adiante, que mais há para partilhar.

Uma análise franca e despida da realidade mostra-nos que o concelho não está, nem de perto nem de longe, melhor do que estava há quatro anos atrás, nem nada que se pareça. Pelo contrário. Mortágua está a definhar e essa apatia e melancolia são sentidas por todos nós, sem excepção, até pelos que agora calcorreiam as nossas terras vestidos de negro, em campanha por uma nova Melhor Mortágua versão 2025/2029 quando ainda ninguém pôde sequer constatar ou verificar os upgrades ou as virtudes da versão anterior. A tal que nos foi enganosamente prometida a todos. Com a maior das honestidades, quero aqui sublinhar junto de todos vós que acredito piamente que o Ricardo não tenha feito tudo o que disse que ia fazer por mal, mas sim por incapacidade. Pura e simplesmente não se revelou capaz, a verdade é esta. Enquanto teclo lembro-me, por exemplo, da faustosa promessa de cobertura da piscina municipal, para passado uns meses chegar à conclusão que a sua própria proposta era totalmente irrealista. Istro mostra várias coisas, que vão além da ingenuidade e da impreparação. Mostra também o atrevimento ignorante e mau, que é aquele que não se fundamenta na possibilidade, mas sim no aliciamento. Sim, também há o atrevimento bom, mas aqui não é o caso. De todo. Nesse aspeto, hoje percebemos que praticamente que se arriscou pouco ou nada. Não houve inovação. Não houve arrojo. Não houve criatividade nem arte de querer fazer diferente, para além de alterar os nomes que se davam às coisas boas que havia, e para isso tentar dar-lhes um cunho próprio que nunca ninguém entendeu qual era. O Ricardo foi incapaz de fazer o que se propôs fazer ao longo destes quatro anos que agora terminam… e essa avaliação é obrigatória para qualquer munícipe que esteja minimamente atento. Não há volta a dar. Aliás, a rua que tem é tão negativa que não há melhor prova dessa incapacidade do que o enorme descontentamento que grassa nas pessoas, um pouco por toda a parte, a começar pelos que têm conhecimento de todo o processo. Não foi capaz de fazer o que disse que ia fazer, mas isso não o impediu de levar a cabo o que não disse a ninguém que ia fazer… e que hoje se torna muito importante de lembrar, para não deixar ninguém esquecer. O escândalo do 4K. Mas já lá vamos, porque primeiro queria fazer um parênteses sobre o Luís Filipe, que é o segundo maior responsável por tudo o que se passou neste concelho ao longo destes anos. Escrevia eu em 2021 que “as rosas têm espinhos, mas também têm pétalas… e na minha opinião o grande trunfo desta candidatura é o número 2 da lista à Câmara, o Luís Filipe Rodrigues. Gosto imenso dele. O Luís Filipe é um homem sério, decente, íntegro e com grande carácter. Tem provas dadas na gestão de situações muito complicadas do ponto de vista social e sobretudo humano. É humilde, genuíno e empático. Tem personalidade e um coração bom. Se for eleito, será uma grande mais-valia e trará com toda a certeza moderação e bom senso ao Executivo. A sua escolha deixa-me satisfeito e muito mais descansado em relação ao futuro dos Mortaguenses, caso efectivamente venha a governar. O Luís Filipe é um amigo, sim… mas acima de tudo é um grande homem, que é o que aqui nos interessa. Não nasceu na política, no conluio e no interesse. A sua credibilidade é à prova de bala.” Ao dia de hoje mantenho quase tudo o que escrevi na altura, principalmente a nível pessoal, porque lhe reconheço as virtudes que assinalei, até a da humildade… que, entretanto, também foi trabalhada, claro. Acontece que o Luís Filipe não nasceu efetivamente na política, como escrevi, mas ao longo destes anos cresceu nela. Acredito piamente que isso possa não ter mudado a pessoa, mas não tenho dúvida que mudou o protagonista. Hoje, o Luís Filipe sabe perfeitamente o caminho que tem a trilhar e, como quem não quer a coisa, lá vai fazendo o seu percurso. Torna a genuína humildade pessoal que tem numa catapulta de imagem política muito funcional, servindo acima de tudo o resto, com grande reverência às figuras que gravitam à sua volta, numa espécie de subordinação que eu diria ser impactante para o próprio, para fora, uma vez que não o engrandece nem nada que se pareça, apesar de para dentro isso fazer com que a brasa se aproxime da sua sardinha. Há aquela linguagem corporal que não engana ninguém, e que é da psicologia até, um automatismo natural e que, por isso, não se controla… e é aí, a partir dela, que eu vou buscar o único dedo que lhe tenho a apontar, e que está muito longe de ser um pormenor. O Luís Filipe deixou sempre o Ricardo fazer tudo e mais alguma coisa, e se nos primeiros tempos foi discreto, apesar da tal linguagem corporal de total concordância sempre bem evidente, entretanto foi-se sentindo mais à vontade e começou mesmo a dizer umas palavras, nas reuniões de câmara e sessões de assembleia, como aliás se impunha a um vice-presidente, claro, o que é naturalíssimo… e é aí que a tal humildade pessoal se dilui em falta de presença política que era necessária para chamar o superior à razão. O que devia ter acontecido por inúmeras vezes… mas não. Não foi isso que ninguém testemunhou, nem nada que se pareça. Muito pelo contrário. Ainda há uns meses, confirmada que estava a recandidatura como número dois, se desdobrou nas redes em elogios ao líder, dizendo que era uma honra caminhar ao lado de um “grande Homem com H”. Está no pleno direito de afirmar o que bem entender sobre quem quer que seja, como é óbvio, mas como protagonista político que é tem de perceber que não há bela sem senão, porque o julgamento do escrutínio público é constante. O elogio é uma estratégia muito antiga no meio e que é profundamente demarcante. Ainda agora por estes dias que escrevo o vi também a enaltecer publicamente o Acácio, como é natural. Acredito que esteja a ser genuíno em todos os louvores, mas que também ninguém duvide que isso lhe dá jeito. O Luís Filipe é humilde sim senhor, mas isso não quer dizer que seja inocente. Sabe perfeitamente o caminho que está a trilhar e é precisamente essa a questão que eu aqui estou a tentar salientar… e esse tem sido o caminho da conivência e da aceitação incondicional de toda a ação e toda a conduta do seu Presidente, fosse lá o que fosse, e isso é que é manifestamente censurável. Na minha opinião, claro… porque para alguns concidadãos, já se sabe que está tudo muito bem. O gato morto e a propaganda lançada sobre a escandalosa falha no cumprimento eleitoral é uma das maiores nódoas que lhe aponto, mas o dossier 4K é tão aviltante que não há mesmo desculpa possível para tamanha passividade. Não nos podemos esquecer que um Executivo não é composto por uma pessoa apenas, nem nada que se pareça.

Uma vergonha absoluta, o que se passou logo uns meses depois da tomada de posse. Não há, pura e simplesmente, outra forma de olhar para a questão quando nos deparamos com a escandalosa avença na prestação de apoio técnico na área da “qualidade, estratégia de gestão, organização de serviços, marketing e comunicação”, no valor mensal de 3900€, acrescidos de IVA no montante de 897€. Por incrível que pareça, tivemos na Câmara Municipal de Mortágua, portanto, um prestador de serviços que custa a módica quantia de 4797€ por mês a todos os Mortaguenses. 4797€. Repito, e agora por extenso para não deixar quaisquer dúvidas: quatro mil, setecentos e noventa e sete euros por mês. Dinheiros públicos, neste caso dos cidadãos de Mortágua. Um valor que já seria ultrajante num gabinete de um ministério, de uma secretaria de estado ou de um município dos grandes... que fará de um dos pequenos!  Aliás, o facto do vencimento ser superior ao do próprio Presidente já era imoral e levantava uma série de questões várias. Aos ferozes e mais radicais defensores do indefensável, que os temos, também por incrível que pareça, recordo antecipadamente que os contratos públicos são efectivamente públicos (obrigatoriamente e como deve ser, pois está claro), pelo que isto foi matéria de facto e não uma invenção de alguém para “criticar” ou para “falar mal”. Logicamente que se ninguém falasse sobre o assunto, era uma maravilha… mas isso era se andássemos todos a dormir, o que não é o caso. Depois de ter andado anos a apontar ferozmente o dedo ao antecessor por não ser transparente, não partilhar documentos e não publicar as atas… o Ricardo Pardal foi empossado Presidente e esteve anos a não ser transparente, a não partilhar documentos e a não publicar as atas. Entretanto com o tempo lá foi permitido ao Mortaguense comum esse tão divino e singular privilégio de poder passar os olhos pelas referidas atas, e lá está, houve situações giras para mais tarde recordar, como a da sessão de assembleia do dia 30 de setembro de 2022, em que o Ricardo, questionado pelos honorários e pelo respetivo serviço do famoso “Sr. 4K”, que auferia a tal pornográfica avença de 4797€ por mês, alegou despudorada e desassombradamente que se tratou de uma “escolha pessoal” para seu “assessor”, valendo “todos os cêntimos que [os Mortaguenses] lhe paga[va]m”. A ingenuidade e o amadorismo são de tal ordem que esta posição é assumida preto no branco numa ata que é pública e assinada página a página pelo próprio, quando se tratou de uma contratação em regime de prestação de serviços, suposta e devidamente escrutinada através de um concurso público sujeito a regras de transparência muito específicas… mais palavras para quê? Foram pelo menos três longos e dispendiosos anos de opulenta e abastada remuneração mensal do “avençado Armani”, até surgir a necessidade de abrir mais um concurso público para a contratação de um técnico superior de marketing, com critérios minuciosamente redigidos ao milímetro para fazer o fato à medida do que era necessário: integrar o referido avençado nos quadros. A única nuvem de incerteza que pairava sobre o concurso lançado era precisamente o da remuneração a auferir… e por mais que o vereador da oposição tentasse saber qual seria, mas oh-oh, que isso era informação ultra confidencial… a verdade é que toda esta historieta terminou de forma muito inesperada, e pelos vistos tem contornos que (ainda) não são do conhecimento público, dado que o antecipado e naturalérrimo vencedor do concurso acabou por não assumir o cargo, vá lá saber-se porquê. É um segredo muito bem guardado que ainda persiste, apesar de haver quem jure a pés juntos que os compadres se zangaram, a verdade é que ninguém tem certezas, a não ser os próprios. Torna-se ainda legítimo questionar o porquê de o lugar em causa não ter sido ocupado pelo candidato que ficou em segundo lugar, já que supostamente se devia tratar de um cargo essencial para o bom funcionamento da autarquia... ou foi mesmo apenas para desenrascar o amigo? Lá está. Isto seria tudo muito bonito se fosse uma situação de exclusividade, de natureza pessoal… mas não é, é uma questão pública e que diz respeito a todos nós. Até porque aquele dinheiro todo saiu do nosso bolso, que ninguém se esqueça. Ora, tudo isto junto ao pacote não do conteúdo, mas da tal forma presidencial toda que eu ali atrás referi, faria corar de embaraço até alguns regimes totalitários sul-americanos… mas não, claro que o problema está em mim, Mauro José, que só sei dizer mal. A este propósito, confesso-vos que hoje até eu me confesso espantado, apesar de ter antecipado uma boa parte de tudo o que nos aconteceu, como está bem plasmado no blog que assino, como uma rápida visita e pesquisa assim conferem. Conheço-o muito bem, é certo, mas até a mim o Ricardo conseguiu surpreender. Que cada um tire as suas conclusões.

A mim custa-me imenso. Passada praticamente década e meia, é de certa forma verdade que ainda me dói no coração a quebra da grande amizade que tinha com o Ricardo. As memórias entre nós, muitas e boas, preservo-as como um lugar bonito a que volto de vez em quando, apesar de as ter bastante bem arrumadas num cantinho onde são para ficar. Diz-se que a amizade verdadeira nunca morre e eu concordo, por isso a vida nos traz tão poucos amigos, dos que são especiais mesmo. O Ricardo era um deles. Pensava eu, claro... porque quando se coloca a política e os respetivos interesses num plano superior ao de fortes laços pessoais já há muito estabelecidos, está tudo dito. Uma traição mostra-nos sempre muito mais sobre quem trai do que propriamente sobre quem é traído, sendo o meio político terreno muito fértil para isso acontecer. Foi uma das maiores lições que aprendi desde que me lembro de ser gente, mas o que lá vai, lá vai, e em relação a esse assunto fico por aqui. Até porque de tudo o que escrevi até agora, isso é o menos importante. Talvez um dia também conte essa história. O ensaio já vai muito longo, apesar de só chegar à leitura destas linhas quem assim o desejar. Quero, por isso, partilhar convosco que parece-me que o resultado final destas eleições autárquicas é francamente imprevisível, por uma série de razões que abarca também as outras candidaturas e os outros candidatos, sobre os quais também hei-de manifestar-me, apesar de não ter nem de perto nem de longe a substância que foi necessária à redação de todas estas páginas. Lógico que a análise do incumbente acaba por ser sempre diferente, em especial quando havia tanto, mas tanto mesmo para dizer. Se os Mortaguenses decidirem que o Ricardo Pardal será novamente o Presidente de nós todos, sou da opinião que mesmo apesar de todos os preceitos democráticos, essa não é nem seria nunca uma reeleição merecida, porque pura e simplesmente não há qualquer fundamento racional que a possa sustentar. Tivemos a experiência, vimos que correu mal. Confiámos numa receita, constatámos claramente que fomos ao engano. Quem tiver um mínimo de conhecimento e de consciência em torno do serviço público que foi prestado, só torna a votar no PS do Ricardo por uma questão afetiva, de natureza emocional, dado que há tantas evidências de abuso no poder, de opacidade na transparência e, no fundo, de tão pouca competência na gestão da Câmara (até no aspeto financeiro, e nas contas” que tão bem dizia dominar), que o descalabro é imperdoável. Votar novamente no Ricardo será, por isso, talvez um ato de fé para alguns, ou de mera simpatia pessoal para outros. Não tenho dúvidas que ainda serão alguns, atenção. O peso do partido é imenso, como mostra a cega e acérrima defesa corporativista que muitos militantes e simpatizantes fazem publicamente ao seu líder, apesar de depois por trás o ridicularizarem, nos bastidores, sabendo perfeitamente a valia política que ali têm. Mesmo que até desejem que as coisas lhe corram mal, pela frente não irão NUNCA assumir essa posição, por razões que não é preciso ser particularmente brilhante para as conseguir perceber. Haja o que houver, aconteça o que acontecer, por mais revoltante e escandaloso que seja. O dogmatismo partidário ainda se mostra muito vincado e a militância acrítica continua a compensar. Lá está, é o que é. Sem esquecer as camadas mais superficiais, mas ultra facciosas, que cospem e vomitam os mais violentos impropérios sem qualquer tipo de conhecimento de causa, apenas e só porque sim… gostam da cor da bandeira, gritam vivas e carregariam sempre com o seu líder às costas, nem que esse fosse o maior criminoso de que houvesse memória, como se vê um pouco por todo o mundo. O meio é assim mesmo. A política é nobre, mas também é porca. Para se conseguir chegar longe, é preciso ter a arte de saber chafurdar na lama sem se sujar muito... e para isso convém parecer minimamente sério, como já diziam à mulher de César. Sério e honesto.

Caros Mortaguenses, cada cabeça, a sua sentença. Nestes assuntos, faço por ser o mais pragmático possível, por isso nunca seria capaz de votar numa solução de futuro na qual não acredito minimamente. São quatro anos de evidências claras e absolutas, meus amigos. Não há muito que pensar, as coisas são o que são. Dado o envelhecimento, a apatia e todos os problemas associados que nos têm apertado, preocupo-me verdadeiramente com o que vem aí, em relação a Mortágua, muito mesmo… principalmente por causa das gerações mais novas. Estou muito preocupado com o futuro da terra que me viu nascer e que orgulhosamente escolhi para viver com a minha família. Já se sabe que a esperança é a última a morrer. Dia 12.

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