segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Saramago e a Liberdade de Expressão

Foi no passado dia 18 de Outubro que ocorreu a apresentação mundial do último livro publicado pelo Nobel da Literatura José Saramago, no Museu Municipal de Penafiel, perante uma assistência de cerca de 800 pessoas. No decorrer da cerimónia do lançamento de Caim, Saramago afirmou que a escrita do livro constituiu, para si, “um exercício de liberdade”. O impacto que a obra e as declarações do seu autor geraram na sociedade, com a agitação e indignação do episcopado e da comunidade cristã em geral, levaram-me a dissertar, despretensiosamente, acerca da religião e do ateísmo, procurando correlacioná-los com os conceitos de pluralismo ideológico e liberdade de expressão.

Saramago terá sido, de facto, polémico, verdadeiramente polémico ao expressar, sem quaisquer tipo de reservas ou subterfúgios, o que de facto lhe ia na alma e no pensamento. Elogio-lhe a coragem por ousar questionar a divindade e todos os seus preceitos estabelecidos pelos homens, sempre intocáveis em todas as culturas e civilizações durante inúmeras gerações. No meu entender, Saramago não atacou os católicos, mas sim a bíblia, uma obra literária redigida por dezenas de gerações durante muitos anos, de feição moralista e manipuladora. Afirma o Nobel que “a bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana”, diz até que “… sobre o livro sagrado eu costumo dizer: lê a bíblia e perde a fé!”. São, de facto, fortes e contundentes as declarações de Saramago, caracterizadas pelo episcopado como uma “operação publicitária”, com o intuito de atrair a atenção para o lançamento do seu livro e, dessa forma, promovê-lo. Não digo que o autor não tenha previsto esta agitação e consequente repúdio, por parte de um estrato da sociedade, podendo hipoteticamente beneficiar (ou não!) com o devido mediatismo que o assunto sempre geraria, mas parece-me indevido que o crucifiquem por dizer o que pensa, apenas isso. Saramago procura acreditar no que vê e sente, não pretende ser enganado por um qualquer manifesto escrito por pessoas, pretensiosamente de inspiração divina. Não me parece de todo censurável essa posição. Partilho-a, até.

Perdoem-me que cite novamente Saramago, mas considero esta observação a propósito de uma passagem da bíblia absolutamente deliciosa: “… depois, decidiu criar o Universo, não se sabe porquê, nem para quê. Fê-lo em seis dias, apenas seis dias, e descansou ao sétimo. Até hoje! Nunca mais fez nada! Isto tem algum sentido?” Pois é caro Saramago, não faz, de facto, sentido algum. Torna-se irónico, e até revoltante por vezes, assistir ao desmesurado e irracional culto das massas a um Deus, quase como se de uma necessidade se tratasse, a necessidade de ter fé em algo, ou alguém, que se acredita purificador, divino e superior. Algo ou alguém cujo mandamento divino é ecoado pelas igrejas, e pelas suas estratégias evangelizadoras, incentivando os seus fiéis a anunciarem o seu credo a todas as massas, numa espécie de imperialismo ideológico de feição religiosa.

Vejamos a posição defendida por Mário David, um eurodeputado social-democrata, cujas palavras revelam uma intolerância atroz e despudorada, qualificando as declarações de Saramago como “imbecilidades e impropérios”. David entende que o escritor possa estar de certa forma deslumbrado com o Nobel que lhe foi outorgado, não lhe conferindo nem estatuto nem autoridade para poder dizer o que pensa sobre o livro sagrado, suposto veículo de valores que Saramago desconhecerá mas que “definem as pessoas de bom carácter”. Sr. Mário David, com a mesma intolerância com que atacou as palavras do Nobel da Literatura, respondo eu ao seu apelo para que o escritor renuncie à cidadania portuguesa, inspirando-me até na sua própria expressão, proveniente de um ilustre e idóneo membro do Parlamento Europeu, supostamente em defesa e ao serviço de todos os portugueses: tenho vergonha de o ter como compatriota!

Importa acima de tudo sublinhar o valor da liberdade de expressão, sendo que todos têm o direito de exprimir e divulgar a sua posição sobre o que quer que seja, um direito conferido pela República Portuguesa, um Estado de direito democrático, direito esse claramente expresso na Constituição. O direito de manifestar livremente opiniões, ideias e pensamentos, um conceito basilar nas democracias modernas, pretensa e supostamente despojadas de qualquer tipo de actividade censória. E é exactamente o que o meu presente manifesto procura defender: essa mesma liberdade!

Pergunta Saramago: “Deus só poderá existir na cabeça das pessoas, já alguém o viu de facto?” Facilmente esboço uma resposta: Eu não! Respeito e valorizo alguns ideais dos católicos, de paz e solidariedade entre as pessoas, mas sempre de um ponto de vista humano e real, nunca através do sagrado, do metafísico. Independentemente dessa mesma consideração que possa ter pela crença e pelos crentes, nunca deixo de me interrogar sempre que assisto a enormes desastres e tragédias humanas, como, e apenas a título de exemplo, as 300mil pessoas desaparecidas no tsunami asiático, homens, mulheres e crianças. Onde estava Deus?

Ateísmo é a posição filosófica que compreende que não existem deuses. Partilho-a. Acredito nas pessoas, no real, no meio que me rodeia. Toda a minha vivência e permanente reflexão me direccionam para a negação do metafísico, e do culto da crença no divino. São inúmeros e recorrentes os episódios que alimentam esta minha conduta, e forma de estar na vida, mas não a considero como uma verdade absoluta, impassível de ser posta em causa, ou mesmo revista. Até porque respeito imenso quem pensa de outra forma, quem se sustenta na sua fé para procurar e conseguir alcançar a felicidade e a realização nas suas próprias existências. Porque para mim o verdadeiramente importante será isso mesmo, essa felicidade, em consciência com a fragilidade, fugacidade e transitoriedade das nossas existências, feições que poderão facilmente desencantar o mais crente, como o mais céptico. Cada um de nós constrói a sua passagem por este mundo, à sua maneira, em consciência consigo mesmo. A unicidade do ser humano leva-me a seguir, a enaltecer e a elevar o mais nobre dos valores em relação a esta matéria, independentemente da minha posição perante ela, que vale o que vale. O Respeito.

Sem comentários:

Enviar um comentário